Depois de três anos sendo o segredinho dele, finalmente tive o casamento de conto de fadas com que sempre sonhei.
Meu marido, Arthur Prado, estava finalmente livre do controle da família e tinha me escolhido.
Grávida de gêmeos, atravessei o país de avião para fazer uma surpresa em sua viagem de negócios, apenas para ouvi-lo conversando com o melhor amigo.
- Ela é boazinha demais - disse ele, com a voz casual. - Como um chiclete que já perdeu o gosto.
Aquelas palavras destruíram meu mundo.
O homem que se ajoelhou aos meus pés, com lágrimas nos olhos, prometendo-me a eternidade, me via apenas como uma conveniência sem graça.
A traição foi tão absoluta, tão cruel, que entrei em um hospital no dia seguinte e interrompi a gravidez.
Quando ele descobriu, seu amor se transformou em uma obsessão sombria.
Ele me trancou em nossa cobertura, uma prisioneira em uma gaiola dourada.
- Eu poderia te dar algo - sussurrou ele, com os olhos brilhando com uma luz aterrorizante. - Algo para fazer você esquecer. Para te fazer feliz de novo.
Ele planejava me drogar, apagar minhas memórias e minha dor, transformando-me em sua boneca perfeita e sorridente para sempre.
Mas ele me subestimou. Eu tinha meu próprio plano.
Capítulo 1
Ele se ajoelhou diante de mim, o diamante brilhando sob as luzes do restaurante, e eu quase acreditei.
Quase acreditei que três anos haviam mudado tudo, que suas lágrimas eram reais, que desta vez ele estava finalmente livre para me escolher.
Dois anos. Esse foi o tempo que fui o segredo de Arthur Prado.
Sua namorada escondida, mantida longe do mundo que sua família havia traçado para ele.
Eu era o sussurro suave ao fundo. A presença silenciosa nas sombras de sua enorme cobertura em São Paulo.
Era uma vida de momentos roubados. Olhares rápidos e telefonemas abafados.
Eu sabia o meu lugar. Eu entendia o acordo.
Então chegou o dia de seu noivado estratégico. Aquele que sua família havia arranjado.
Um pacote de rescisão generoso caiu na minha conta. Mais dinheiro do que eu jamais tinha visto.
Arrumei minha pequena mala. Sem alarde, sem drama. Apenas saí em silêncio.
Três anos se passaram, longos e silenciosos. Construí minha própria vida, pequena e estável.
Então, a notícia estourou. O pai dele morreu.
Arthur Prado herdou tudo. A empresa, o poder, o império.
Ele se divorciou de sua esposa de "arranjo comercial" rapidamente. Um rompimento limpo e público.
E então, ele me encontrou. Acho que ele sempre soube onde me encontrar.
Ele estava na minha porta, a chuva colando seu terno caro ao corpo. Seus olhos estavam vermelhos.
- Alice - ele engasgou, a voz embargada pelo choro. - Estou finalmente livre.
Ele caiu de joelhos. Ali mesmo, no capacho gasto do meu pequeno apartamento.
- Case-se comigo - implorou ele, o diamante capturando a luz fraca do corredor. - Por favor, case-se comigo.
Eu não sabia o que dizer. Meu coração batia em um ritmo frenético contra minhas costelas.
Ele me cobriu de afeto. Flores enchiam meu apartamento minúsculo. Jantares em lugares com os quais eu só podia sonhar.
Ele me trouxe para o mundo dele, aquele que eu só tinha vislumbrado de longe. Era deslumbrante.
O casamento foi espetacular. Um conto de fadas que nunca pensei que viveria.
Renda branca e lustres cintilantes. Todos lá, nos observando.
Olhei em seus olhos e, por um momento, acreditei verdadeiramente. Acreditei no "para sempre".
Eu disse sim, minha voz mal passando de um sussurro. Um novo capítulo, um novo começo.
Ele proclamou sua liberdade do passado. Disse que tudo era diferente agora.
Disse que eu era sua única escolha. Seu verdadeiro amor.
Eu tinha sido seu segredo. Uma parte silenciosa de sua vida, facilmente descartada.
A morte de seu pai havia destrancado sua gaiola dourada. Ele herdou todo o império tecnológico.
Seu casamento com Eduarda Rezende, uma aliança fria e calculada, havia acabado. Dissolvido com uma canetada.
Lembrei-me do envelope. Do cheque pesado.
Foi um adeus silencioso, naquela época. Sem gritos, sem acusações.
Eu me senti surpreendentemente calma. Uma paz estranha, sabendo que finalmente tinha acabado.
Mas agora, ele estava de volta. O rosto banhado em lágrimas, a voz crua de emoção.
- Eu cometi um erro - sussurrou ele, segurando minhas mãos com força. - Um erro terrível e imperdoável.
Ele prometeu um futuro construído na honestidade. Sem mais segredos, sem mais arranjos.
Senti-me querida. Celebrada. Como se finalmente fosse vista.
Nosso casamento foi mais do que apenas uma cerimônia. Foi uma declaração. Uma exibição pública do nosso amor.
Deveria ser nosso novo começo, uma promessa sussurrada sob um dossel de rosas brancas.
Ponto de Vista de Alice:
A vida parecia completa. Eu estava grávida. De gêmeos.
As palavras da médica ecoavam na sala silenciosa.
- Uma surpresa rara e linda, Alice.
Meu coração inchou com uma alegria que eu não sabia ser possível.
Eu mal podia esperar para contar a Arthur. Meu marido.
Ele estava em uma viagem de negócios, como sempre. Sempre ocupado, sempre voando.
Decidi fazer uma surpresa. Um voo espontâneo para o outro lado do país.
Imaginei o rosto dele. O sorriso largo, a maneira como seus olhos se enrugavam nos cantos.
Entrei furtivamente em sua suíte de hotel, minha mala rodando suavemente atrás de mim. A porta estava entreaberta.
A voz dele chegou até mim da sala de estar. Baixa e casual. Voz de homem.
Congelei. Minha mão ainda na maçaneta.
- Ela é boazinha demais - disse Arthur.
Suas palavras foram como um peteleco casual, mas me atingiram com força bruta.
- Como um chiclete que perdeu o gosto.
Minha respiração falhou. O ar de repente parecia rarefeito.
- Falta nela... aquele fogo - ele riu, um som que torceu algo dentro de mim.
Bruno, seu melhor amigo, riu de volta.
- É, sua ex-mulher tem fogo de sobra.
Meu estômago revirou. A alegria de momentos atrás azedou.
A voz de Bruno era provocativa.
- Ela te cansou nesses últimos dias, não foi?
Arthur Prado deu um sorriso presunçoso. Eu podia ouvir em seu tom, ouvir a arrogância.
- Ela? - ele zombou. - Ela só me usa como um vibrador de luxo.
Uma onda de náusea me atingiu. Mais forte do que qualquer enjoo matinal.
Meu corpo se rebelou. Minha cabeça girou.
O quarto de hotel, antes um símbolo de surpresa e amor, tornou-se uma jaula. As palavras ecoavam, me prendendo.
Meu amor. Meu lindo e frágil amor. Era uma mentira.
Uma performance cuidadosamente construída. Ele era um ator, e eu era sua plateia involuntária.
Ele não merecia meu amor. Ele não merecia a nós.
Os gêmeos se agitaram dentro de mim, um lembrete gentil de um futuro agora manchado.
A traição foi um golpe físico. Ela me esmagou.
Meu mundo perfeito se estilhaçou. Poeira dançava na fresta de luz da porta aberta.
Isso não era apenas um obstáculo no caminho. Era o fim. O fim absoluto.
Pressionei a mão na boca, lutando contra o gosto amargo que subia na minha garganta. Eu não conseguia respirar.
Ponto de Vista de Alice:
- A senhora tem certeza absoluta, Sra. Prado? - A voz da médica era gentil, quase uma súplica. Seus olhos continham uma profunda preocupação.
- Gravidez de gêmeos é muito rara, sabe. Uma verdadeira bênção. - Ela fez uma pausa, deixando as palavras pairarem no ar.
Assenti, com a garganta apertada.
- Tenho certeza, doutora. - Minha voz era um sussurro plano e oco.
Ela suspirou, um som suave e triste.
- Como desejar. Vamos preparar tudo.
Voltei para a cobertura, o silêncio ecoando meu vazio interior. Cada canto, cada móvel caro, gritava a decepção dele.
Balões flutuavam perto do teto. Uma faixa luxuosa proclamava: "Feliz Aniversário, Meu Amor!"
Meu coração parecia uma ameixa seca. A ironia era uma piada cruel.
- Surpresa! - Arthur surgiu de trás do sofá, com um sorriso largo e deslumbrante no rosto. Ele correu em minha direção.
Ele me envolveu em um abraço apertado. Seus braços pareciam pesados, sufocantes.
Ele beijou minha testa, depois meus lábios. Parecia errado. Sujo.
- Você voltou cedo - consegui dizer, as palavras com gosto de cinzas na minha boca.
- Não poderia perder o aniversário da minha esposa, poderia? - Ele piscou, me levando até uma mesa cheia de presentes.
A mão dele roçou a minha. Foi quando eu vi. Um pequeno curativo cor de pele no dedo indicador.
Meu olhar se prendeu naquilo. Uma pequena centelha de suspeita, fria e afiada.
Ele puxou a mão de volta, um pouco rápido demais.
- Vidro quebrado - murmurou ele, com um aceno desdenhoso.
Mas o formato daquilo... Não era um corte. Era uma indentação perfeita, em forma de meia-lua. Uma marca de mordida.
De Eduarda. Sua ex-mulher. O "fogo".
Ele gesticulou para uma caixa de veludo na mesa.
- Abra, meu amor. - Sua voz era suave, confiante.
Levantei a tampa. Um colar repousava lá dentro. Diamantes, brilhando contra uma almofada de veludo escuro.
Ele o pegou, seus dedos roçando meu pescoço enquanto o fechava em mim. Um arrepio de repulsa percorreu minha espinha.
Ele ajeitou meu cabelo, os lábios roçando minha orelha.
- Lindo, assim como você. - Sua voz era um murmúrio suave.
Eu vi então, no reflexo do espelho do outro lado da sala. O colar. Parecia familiar.
Eduarda tinha usado um igualzinho. Um presente rejeitado, provavelmente. Uma sobra do "fogo" dele.
Suas palavras, destinadas a serem doces, pareciam veneno. Eu queria arrancá-lo do pescoço.