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A Promessa Dele, a Prisão Dela

A Promessa Dele, a Prisão Dela

Autor:: Roana Javier
Gênero: Moderno
No dia em que saí da prisão, meu noivo, Danton Ferreira, estava me esperando, prometendo que nossa vida finalmente começaria. Sete anos atrás, ele e meus pais me imploraram para assumir a culpa por um crime que minha irmã adotiva, Késia, cometeu. Ela pegou o volante bêbada, atropelou alguém e fugiu do local. Eles disseram que Késia era frágil demais para a prisão. Chamaram minha sentença de sete anos de um pequeno sacrifício. Mas assim que chegamos à mansão da família, o telefone de Danton tocou. Késia estava tendo outra de suas "crises", e ele me deixou parada sozinha no imenso hall de entrada para correr ao seu lado. O mordomo então me informou que eu deveria ficar no quarto de despejo empoeirado no terceiro andar. Ordens dos meus pais. Eles não queriam que eu perturbasse Késia quando ela voltasse. Sempre foi a Késia. Ela foi o motivo pelo qual eles pegaram o fundo da minha bolsa de estudos da faculdade, e foi por causa dela que perdi sete anos da minha vida. Eu era a filha biológica deles, mas era apenas uma ferramenta para ser usada e descartada. Naquela noite, sozinha naquele quarto apertado, um celular barato que um guarda da prisão me deu vibrou com um e-mail. Era uma oferta de emprego para uma posição confidencial para a qual eu havia me candidatado oito anos atrás. Vinha com uma nova identidade e um pacote de realocação imediata. Uma saída. Digitei minha resposta com os dedos trêmulos. "Eu aceito."

Capítulo 1

No dia em que saí da prisão, meu noivo, Danton Ferreira, estava me esperando, prometendo que nossa vida finalmente começaria.

Sete anos atrás, ele e meus pais me imploraram para assumir a culpa por um crime que minha irmã adotiva, Késia, cometeu. Ela pegou o volante bêbada, atropelou alguém e fugiu do local.

Eles disseram que Késia era frágil demais para a prisão. Chamaram minha sentença de sete anos de um pequeno sacrifício.

Mas assim que chegamos à mansão da família, o telefone de Danton tocou. Késia estava tendo outra de suas "crises", e ele me deixou parada sozinha no imenso hall de entrada para correr ao seu lado.

O mordomo então me informou que eu deveria ficar no quarto de despejo empoeirado no terceiro andar. Ordens dos meus pais. Eles não queriam que eu perturbasse Késia quando ela voltasse.

Sempre foi a Késia. Ela foi o motivo pelo qual eles pegaram o fundo da minha bolsa de estudos da faculdade, e foi por causa dela que perdi sete anos da minha vida. Eu era a filha biológica deles, mas era apenas uma ferramenta para ser usada e descartada.

Naquela noite, sozinha naquele quarto apertado, um celular barato que um guarda da prisão me deu vibrou com um e-mail. Era uma oferta de emprego para uma posição confidencial para a qual eu havia me candidatado oito anos atrás. Vinha com uma nova identidade e um pacote de realocação imediata. Uma saída.

Digitei minha resposta com os dedos trêmulos.

"Eu aceito."

Capítulo 1

Lembro-me do dia em que fui para a prisão. Não foi por causa de um juiz ou de um júri. Foi por causa da minha própria família.

Sete anos atrás, minha irmã adotiva, Késia Salles, pegou o volante, bêbada. Ela atropelou alguém e fugiu do local. A pessoa sobreviveu, mas o crime era grave.

Meus pais, da família Salles, me sentaram para uma conversa. Minha irmã biológica, Juliana, também estava lá.

"Késia não está bem", disse minha mãe, com a voz fria. "Ela não pode ir para a cadeia. Isso a destruiria."

"Você pode ir por ela?", perguntou meu pai, sem me olhar. "São só alguns anos."

Eu recusei. Não podia acreditar no que estavam me pedindo. Mas uma noite, eles me enfiaram num carro. Não era o carro deles. Era um carro da polícia.

Meu noivo, Danton Ferreira, estava lá. Ele era um peixe grande em São Paulo, um magnata financeiro que podia fazer as coisas acontecerem. Ele arranjou tudo. Ele segurou meu rosto entre as mãos, seus próprios olhos cheios de uma dor que eu não conseguia decifrar.

"Ana Maria, quando você sair, eu me casarei com você", ele prometeu. "Apenas aguente firme por esses sete anos. É a única maneira de te proteger de um destino pior."

Eu não entendi que destino pior ele queria dizer. Só entendi a traição.

Agora, sete anos se passaram. O pesado portão de ferro se abriu, e eu saí para um mundo que parecia brilhante demais, barulhento demais.

Um carro preto elegante estava esperando. Danton Ferreira saiu. Ele parecia o mesmo, impossivelmente bonito em seu terno sob medida, nem um fio de cabelo fora do lugar.

Ele abriu os braços para me abraçar. Eu recuei.

Ele pareceu magoado, seus braços caindo ao lado do corpo. "Ana Maria."

Olhei para mim mesma. Minhas roupas eram baratas, fornecidas pela prisão. Meu cabelo estava sem vida, minha pele pálida. Eu estava magra, só pele e osso, pura sombra. Sete anos de comida de prisão e trabalho duro me transformaram em alguém que eu não reconhecia. Ele, por outro lado, parecia ter acabado de sair de uma revista. O contraste foi um golpe físico.

"Estou aqui", disse ele, com a voz suave. "Eu disse que estaria. Vamos nos casar. Vamos começar nossa vida."

A promessa soava vazia, um eco de uma vida passada. Olhei para ele, olhei de verdade, e não senti nada. O amor que eu um dia tive, a esperança desesperada que me manteve viva nos primeiros anos lá dentro, havia virado pó.

"Onde eles estão?", perguntei. Minha voz estava rouca pelo desuso.

A expressão de Danton se fechou. "Seus pais... e a Juliana... não puderam vir. Késia teve outra de suas crises esta manhã. Tiveram que levá-la às pressas para o hospital."

Claro. Késia. Sempre era a Késia. A garota frágil e doentia que meus pais haviam adotado anos atrás. Ela era tudo para eles. Eu era a filha biológica, mas era apenas um detalhe, uma ferramenta para ser usada e descartada.

Lembrei-me de encontrar meus pais biológicos, a família Salles, cheia de esperança. Eu era órfã e pensei que tinha encontrado meu lar. Mas eles já tinham sua filha perfeita em Késia. Eu era apenas a verdade inconveniente.

Danton me levou de volta para a mansão dos Salles. Não era meu lar. Era apenas a casa onde eu costumava morar. O mordomo, um homem que me conhecia desde a adolescência, olhou para mim com desdém.

"O Sr. e a Sra. Salles instruíram que a senhorita deve usar o quarto dos fundos no terceiro andar", disse ele, com a voz carregada de desprezo. "Eles não querem que a senhorita perturbe a Srta. Késia quando ela retornar."

O quarto dos fundos era um depósito glorificado, empoeirado e esquecido. Era onde eles sempre me colocavam, fora da vista e da mente.

Danton parecia desconfortável. "Vou falar com eles, Ana Maria. Isso não está certo."

Mas então seu telefone tocou. "É sua mãe", disse ele, o rosto se contraindo de preocupação. "Tenho que ir para o hospital. Késia está perguntando por mim."

Ele a escolheu. De novo. Claro que sim. Ele sempre a escolhia.

Eu assenti, sentindo nada além de um vazio profundo. "Vá."

Ele saiu. Fiquei sozinha no imenso hall de entrada, um fantasma na casa da minha própria família. Subi as escadas de serviço para o pequeno e apertado quarto que era para mim.

A porta estava entreaberta. Eu podia ouvir meus pais conversando na sala de estar principal, no andar de baixo.

"Ela já se instalou?", a voz da minha mãe, ríspida e irritada.

"Sim, senhora. Ela está no quarto de despejo", respondeu o mordomo.

"Ótimo. Mantenha-a lá. Não podemos tê-la perturbando a Késia. Danton está a caminho do hospital. Ele sabe o que é importante."

Meu coração, que eu pensei ter virado pedra, sentiu uma dor fria e aguda.

Fechei a porta do meu quartinho e sentei no colchão irregular. Meu celular, um aparelho barato que uma guarda gentil da prisão me deu, vibrou. Era um e-mail.

A linha de assunto dizia: "Posição Confidencial - Instituto Nacional de Pesquisa."

Era uma oferta. Um emprego em um departamento confidencial de restauração de arte, uma posição para a qual eu havia me candidatado oito anos atrás, antes de minha vida ser roubada de mim. Vinha com uma nova identidade e um pacote de realocação.

Uma saída.

Digitei minha resposta com os dedos trêmulos.

"Eu aceito."

Capítulo 2

Antes de minha vida ser arruinada, eu tinha um futuro. Tinha sido aceita em um prestigiado programa de artes, uma bolsa de estudos que me colocaria no caminho que sempre sonhei. Mas então Késia aconteceu. A família precisava de dinheiro para seus tratamentos médicos intermináveis e, como eu agora suspeitava, muitas vezes exagerados. O fundo da minha bolsa de estudos, uma herança deixada por meus avós, foi "emprestado" para ajudá-la. Disseram-me que eu poderia me candidatar novamente no próximo ano.

Então veio o atropelamento e fuga, e o "próximo ano" se tornou sete anos em uma cela.

O e-mail do instituto de pesquisa era um fantasma daquele futuro roubado. Era uma segunda chance que eu nunca pensei que teria. A guarda gentil, a policial Mendes, deve ter mexido uns pauzinhos, reenviando minha antiga inscrição.

Uma mensagem de acompanhamento chegou quase imediatamente. "Bem-vinda a bordo. Sua realocação para Fernando de Noronha está agendada para daqui a três dias. Um carro irá buscá-la às 22h. Nós cuidaremos do resto."

Três dias. Eu só tinha que sobreviver mais três dias nesta casa.

Desci para o jantar. A sala de jantar estava arrumada para uma celebração. Balões e flores por toda parte. Késia estava de volta do hospital, parecendo perfeitamente saudável e radiante em um novo vestido de grife. Ela era o centro das atenções, agarrada ao braço de Danton como um troféu.

Meus pais e Juliana a paparicavam, ignorando-me completamente enquanto eu estava parada na porta. Eu era invisível.

Danton finalmente me notou. "Ana Maria, venha, junte-se a nós. Estamos comemorando a recuperação da Késia."

Sua voz estava tensa. Ele estava tentando fingir que aquilo era normal.

Késia fez beicinho, sua voz um choramingo enjoativo. "Danton, querido, quero que você descasque uma uva para mim. Meus dedos estão tão fracos hoje."

Era um teste, um ato deliberado de provocação direcionado a mim.

Observei-o, esperando para ver o que ele faria. Ele hesitou por uma fração de segundo, depois pegou uma uva e começou a descascá-la para ela.

Virei-me para sair.

"Onde você vai?", minha mãe estalou, a voz afiada. Ela mudou para o espanhol, uma língua que eles sempre usavam quando queriam falar de mim na minha frente. "Ela não tem modos. Criança ingrata. Depois de tudo que fizemos por ela."

Meu pai acrescentou: "Ela provavelmente está com ciúmes da Késia. Sempre esteve."

Mantive o rosto inexpressivo, fingindo não entender. Eles não sabiam que eu tinha usado meus sete anos na prisão com sabedoria. Eu me tornei fluente em espanhol, francês e italiano, graças à biblioteca da prisão e às minhas colegas de cela. Eu entendia cada palavra venenosa.

Eles pensavam que eu era a mesma garota fraca e sem instrução que haviam mandado embora. Eles não tinham ideia de quem eu havia me tornado.

Senti uma fria determinação se instalar em meus ossos. Eu tinha acabado com eles. Tinha acabado com essa vida de mentiras e manipulação.

Saí da sala de jantar sem olhar para trás. Não voltei para o quarto de despejo empoeirado. Saí pela porta da frente e entrei na noite.

Enquanto caminhava pela longa e bem cuidada entrada de carros, um pensamento me ocorreu. Hoje era meu aniversário. Eles tinham esquecido. De novo.

Capítulo 3

Eu precisava de dinheiro para os próximos dois dias. Não podia tocar nos fundos que o Instituto estava fornecendo até começar oficialmente. Então, encontrei um emprego em uma pequena lanchonete, lavando pratos por dinheiro vivo. Era um trabalho humilhante, mas era honesto.

Meus pais sempre foram mesquinhos comigo. Késia ganhou um carro novo no seu aniversário de dezesseis anos; eu ganhei um vale-transporte. Késia fazia compras na Europa; eu trabalhava em empregos de meio período para comprar meu próprio material escolar. Eles chamavam isso de "formar caráter". Eu chamava do que era: favoritismo descarado.

A lanchonete estava quieta. Eu estava esfregando uma panela gordurosa quando o sino acima da porta tocou. Não levantei o olhar até que uma sombra caiu sobre mim.

"Ana Maria?"

Era Danton. Ele segurava um bolo pequeno e elaboradamente decorado. Uma única vela tremeluzia no topo.

"Feliz aniversário atrasado", disse ele, com a voz suave. "É de coco. Seu favorito."

Era o meu favorito. Sete anos atrás. Agora, o cheiro de coco me enjoava. Era o cheiro do sabonete barato que nos davam na prisão.

Nossa história era profunda. Tínhamos crescido juntos. Ele era a única pessoa que já me fez sentir vista, querida. Eu o amei tanto que, quando ele estava lutando para lançar sua primeira empresa, eu vendi secretamente uma pintura valiosa que minha avó me deixou - a única coisa de valor real que eu possuía - e investi o dinheiro anonimamente em seu empreendimento. Foi o capital inicial que o tornou um magnata. Ele nunca soube que fui eu. Késia, claro, levou o crédito, alegando que havia convencido seus "amigos ricos" a investir.

"Você se lembrou", eu disse, minha voz sem emoção.

"Claro que me lembrei. Como eu poderia esquecer?" Ele olhou para a água suja da louça, para minhas mãos rachadas. Seu rosto era uma máscara de dor. "Você não deveria estar fazendo isso."

Ele colocou o bolo em um pedaço limpo do balcão. Olhei para ele, para o redemoinho perfeito de cobertura, e senti uma onda de náusea.

"Eu não gosto mais de coco", eu disse, voltando para a pia. Foi uma pequena rejeição, mas pareceu significativa.

Seu telefone tocou, quebrando o silêncio tenso. Sua expressão mudou ao atender.

"Como assim ela está no telhado?", ele sibilou no telefone. "Estou a caminho."

Ele desligou, o rosto pálido. "É a Késia. Ela está na mansão. Está ameaçando pular."

Ele olhou para mim, seus olhos implorando por compreensão. Mas tudo que senti foi uma sensação cansada de déjà vu.

"Você deveria ir", eu disse.

Ele hesitou, dividido. "Ana Maria..."

"Vá", repeti, minha voz firme.

Ele saiu correndo pela porta, deixando o patético bolinho derretendo no balcão.

Késia, a rainha do drama. Outra performance, outro grito por atenção, outra maneira de afastá-lo de mim e trazê-lo de volta para ela. Era um jogo que ela havia aperfeiçoado ao longo dos anos, e ele caía toda vez.

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