A noite no Rio era abafada, e a única coisa que eu queria era salvar a minha avó.
Foi por isso que aceitei a "aposta fácil" da minha prima Nicole: uma apresentação privada para uns empresários.
Mas o que parecia uma chance virou um pesadelo de assédio, e logo fui vítima de uma armadilha.
Acordei no hospital, apenas para encontrar o amor da minha vida, Hugo, a olhar para mim com fúria.
"Quanto é que eles te pagaram, Lauren?", a voz dele era um chicote.
Nicole tinha contado uma mentira vil: que eu me vendera.
Eu tentei proteger Hugo do veneno dela, engoli a verdade e forcei uma frieza que não sentia.
"Você não pode me dar a vida que eu quero", disse, condenando o nosso amor.
Ele acreditou e partiu, levando consigo o meu coração. Menos de uma semana depois, perdi a minha avó.
Cinco anos se passaram, e eu era uma produtora de sucesso em Salvador, mas o meu passado bateu à porta.
Hugo, agora um magnata, convidou-me para uma "reunião" em São Paulo.
Mas era uma armadilha. Lá estava Nicole, nos braços dele.
Ele humilhou-me, acusou-me de ter "dormido com muitos homens para chegar onde cheguei".
E o choque final: "Nós vamos casar".
Nicole tinha uma nova mentira: que meu tio me dera dinheiro para a avó, e eu desapareci.
Hugo, cego, empurrou-me para fora. Eu estava de volta ao inferno.
Pedi justiça ao meu tio Ricardo, mas ele e Nicole vieram com mais acusações e violência.
"Gananciosa como sempre!", gritou Hugo. E então, o meu tio deu-me uma bofetada.
Mais tarde, Nicole, sabendo do meu trauma de afogamento, atirou-me para piscina, fingindo ser a vítima.
Hugo mergulhou. Pensei que ele me salvaria. Mas ele salvou-a a ela. E deixou-me afogar.
Eu sobrevivi, mas ele veio ao hospital e acusou-me novamente: "Tentaste matar a Nicole!".
A dor, a injustiça, o desespero. Porque é que ele nunca acreditou em mim?
Porque é que o homem que eu amei se tornou o meu maior carrasco?
Como é que eu posso lutar contra um ódio tão profundo e uma cegueira tão cruel?
Eu não sou a vilã. Eu sou a vítima. E eu não aguento mais.
Mas eu vou mostrar a eles o que acontece quando se pisa em quem não tem nada a perder.
A noite no Rio de Janeiro era abafada, e o cheiro de suor e cerveja barata misturava-se no ar quente do barracão da escola de samba. Eu precisava de 5.000 reais. Com urgência. A minha avó, a única família que me restava, estava no hospital, e o tratamento não podia esperar.
Foi por isso que aceitei a proposta da minha prima, Nicole. Uma apresentação privada para uns empresários ricos. "É dinheiro fácil, Lauren", ela disse, com aquele sorriso que eu conhecia tão bem. Um sorriso que escondia mais do que mostrava.
Mas o dinheiro não foi fácil. O ambiente era pesado, os olhares dos homens eram pegajosos. Eles não queriam ver a minha arte, o samba que a minha mãe, uma lenda da escola, me ensinou. Eles queriam o meu corpo. O assédio começou com palavras, depois com toques "acidentais". A situação saiu do controle rapidamente. Tentei ir embora, mas fui impedida. A humilhação transformou-se em medo, e o medo em dor física quando me empurraram e caí, batendo a cabeça.
Acordei no hospital, com uma dor latejante na cabeça e o corpo dolorido. A primeira pessoa que vi foi Hugo Gordon, meu namorado, o baterista talentoso da nossa escola, o homem que eu amava com todo o meu coração.
Mas o olhar dele não era de preocupação. Era de fúria e nojo.
"Quanto eles te pagaram, Lauren?"
A voz dele era fria, cortante. Cada palavra me feria mais do que a queda.
"O que estás a dizer, Hugo?"
"Não te faças de desentendida. Encontrei-te neste estado. A Nicole contou-me tudo. Que te vendeste."
Nicole. Claro. Ela tinha planeado tudo. A armadilha, a humilhação e agora, a destruição do meu amor. Ela também me tinha ameaçado. Se eu contasse a verdade ao Hugo, ela far-se-ia de vítima e arranjaria maneira de o prejudicar na escola de samba, de acabar com o sonho dele. Eu não podia permitir isso.
Olhei para o rosto dele, o rosto que eu tanto amava, agora contorcido pela raiva. Senti-me suja, indigna do seu amor. A única forma de o proteger era afastá-lo.
Engoli o choro e a verdade. Forcei uma frieza que não sentia.
"Você não pode me dar a vida que eu quero."
Vi a dor nos olhos dele, a incredulidade a transformar-se em desprezo. O seu orgulho, tão grande quanto o seu talento, foi ferido. Ele não disse mais nada. Apenas se virou e saiu, deixando-me sozinha com a minha dor e o meu segredo.
Uma semana depois, a minha avó faleceu. Eu não tinha conseguido o dinheiro a tempo. Não tinha mais nada no Rio de Janeiro. Vendi o pouco que tinha e parti, deixando para trás a escola de samba, o fantasma da minha mãe e o coração partido de Hugo.
Cinco anos depois.
A vida tinha mudado. Eu era Lauren Dixon, uma produtora cultural e coreógrafa de renome em Salvador, Bahia. Tinha a minha própria companhia de dança, o meu nome era respeitado. O samba do Rio tinha ficado para trás, substituído pelo axé e pela força da cultura baiana.
Hugo Gordon também tinha mudado. Era agora um magnata da música, dono da maior gravadora do país, com sede em São Paulo. Um nome poderoso, intocável.
Um dia, o meu telefone tocou. Era um número de São Paulo. Uma voz profissional informou-me que o Sr. Gordon queria uma reunião comigo. Uma oportunidade profissional, pensei. Uma grande oportunidade. O meu coração acelerou, uma mistura de nervosismo e uma pontada de algo que eu pensava estar morto. Aceitei e viajei para São Paulo.
O hotel era luxuoso, o tipo de lugar que eu só via em revistas. Subi até à suite presidencial, como indicado. Bati à porta, ajeitando a minha roupa, preparando o meu discurso profissional.
A porta abriu-se. Era Hugo. Ele estava apenas de toalha, o cabelo molhado, o peito nu. O mesmo peito onde eu costumava repousar a cabeça. O olhar dele era gelado, cínico.
"Entra", disse ele, com um tom de sarcasmo. "Estava à tua espera."
Entrei, confusa. E então, vi-a. Nicole. Sentada na cama, vestindo apenas uma camisa de seda que eu sabia ser de Hugo. Ela sorriu, um sorriso vitorioso.
O meu mundo desabou.
"Então", começou Hugo, a voz a pingar desprezo, "a pequena passista do morro agora é uma grande produtora. Deves ter dormido com muitos homens importantes para chegar onde chegaste, não é?"
Cada palavra era um soco no estômago. Eu não conseguia respirar.
"Hugo, eu..."
"Nós vamos casar", ele interrompeu, apontando para Nicole. "E a reunião era só um pretexto. Queria convidar-te pessoalmente para o nosso casamento. Afinal, és da família."
O choque deu lugar a uma dor avassaladora. O homem que eu amava, o homem por quem eu sacrifiquei tudo, estava noivo da minha pior inimiga.
Nicole levantou-se, aproximando-se de mim.
"Lauren, não fiques assim. E a propósito, onde está o dinheiro que o meu pai te deu para o tratamento da avó? Ele foi tão generoso, e tu simplesmente desapareceste com o dinheiro. Que ingratidão."
Ela estava a distorcer tudo, a pintar-me como uma ladra, uma aproveitadora. Olhei para Hugo, procurando um pingo de dúvida nos olhos dele, um vestígio do rapaz que me amou. Não encontrei nada. Apenas gelo.
"Sai daqui", disse ele, a voz baixa e ameaçadora. "Não quero voltar a ver a tua cara."
Tentei defender-me, dizer que era tudo mentira, mas a minha voz não saía. Cego pelo ressentimento, ele agarrou-me pelo braço e empurrou-me para fora da suite, fechando a porta na minha cara.
Fiquei ali, no corredor luxuoso, completamente destruída. A minha carreira, o meu sucesso, nada importava. Naquele momento, eu era apenas a rapariga humilhada de cinco anos atrás, a chorar por um amor que nunca mais teria de volta.
Saí do hotel a cambalear, as lágrimas a queimarem-me os olhos. O ar de São Paulo parecia pesado, sufocante. Eu só queria voltar para Salvador, para a minha vida, para longe daquela dor.
Mas, ao chegar ao lobby, dois homens de fato preto, claramente seguranças, interceptaram-me.
"Senhorita Dixon, o Sr. Dixon gostaria de falar consigo."
Sr. Dixon. O meu tio. O pai de Nicole. O homem que me acolheu quando a minha mãe morreu, mas que nunca me tratou como família. Senti um calafrio.
Levaram-me até um carro preto e, minutos depois, estávamos em frente a uma mansão imponente. Fui conduzida a um escritório luxuoso, onde o meu tio, Ricardo Dixon, me esperava, sentado atrás de uma secretária de mogno.
"Lauren", disse ele, sem sequer me olhar nos olhos. "Há quanto tempo."
A frieza dele era familiar. Nunca houve calor, nunca houve afeto. Eu era apenas a filha da irmã pobre da sua esposa, uma obrigação que ele cumpria com relutância.
"O que quer de mim, tio?" perguntei, a minha voz ainda trémula.
Ele finalmente levantou o olhar. Havia desprezo nele.
"A Nicole vai casar-se com o Hugo. É um casamento muito importante para a nossa família, para os nossos negócios. Não quero que nada o estrague."
"Eu não vou estragar nada. Só quero ir embora."
Ele riu, um som seco e sem alegria.
"Não sejas ingénua. Eu sei que estás aqui por dinheiro. Sempre foste como a tua mãe, a sonhar com uma vida que não te pertencia."
A menção à minha mãe fez o meu sangue ferver.
"Não fale da minha mãe."
Ele ignorou-me, abrindo uma gaveta e tirando um envelope grosso. Empurrou-o pela mesa.
"Aqui tens. Cinquenta mil reais. Pega nisto e desaparece. Volta para a tua Bahia e não voltes a aparecer na vida da minha filha."
Cinquenta mil reais. O preço do meu silêncio. O preço para eu desaparecer. A humilhação era tão grande que me senti tonta. Olhei para o envelope, depois para ele. Um desafio nasceu dentro de mim.
"Cinquenta mil? Acha que a minha dignidade vale tão pouco? Eu quero quinhentos mil."
Ele arregalou os olhos, chocado com a minha audácia.
"Estás louca?"
"É o meu preço. Ou isso, ou talvez eu decida contar ao Hugo algumas verdades sobre a sua noiva perfeita."
Foi nesse momento que a porta do escritório se abriu. Hugo e Nicole entraram. Hugo ouviu a minha última frase. O rosto dele endureceu ainda mais.
"Gananciosa como sempre, Lauren. A tentar extorquir dinheiro do teu próprio tio. Não tens vergonha?"
Nicole correu para o lado do pai, fingindo-se magoada.
"Pai, como é que ela pode fazer isto? Depois de tudo o que fizemos por ela."
Eu não aguentei mais. O veneno acumulado durante anos explodiu.
"Fizeram por mim? Vocês nunca fizeram nada por mim! Trataram-me como lixo, como uma empregada! A tua mãe sempre me humilhou, disse que eu tinha o sangue sujo da favela, como a minha mãe!"
"Cala a boca!" gritou Nicole. "Não te atrevas a comparar-te a mim! Eu sou uma Dixon, tu não és nada!"
"Eu sou filha da minha mãe! E tenho mais orgulho disso do que tu alguma vez terás deste nome comprado!"
A fúria descontrolada tomou conta do meu tio. Ele levantou-se de um salto, contornou a mesa e, antes que eu pudesse reagir, deu-me uma bofetada com toda a força.
O impacto atirou-me ao chão. O meu lábio partiu-se e senti o gosto metálico de sangue na boca. Fiquei ali, atordoada, a olhar para o rosto furioso do meu tio, para a satisfação no rosto de Nicole e para a indiferença gelada no rosto de Hugo.
Mais tarde, o caos parecia ter diminuído. Eu estava perto da piscina da mansão, a tentar recuperar o fôlego, a pensar em como sair dali. Nicole aproximou-se, o seu sorriso era pura maldade.
"Sabes, Lauren, o Hugo nunca te amou de verdade. Ele só tinha pena de ti. Agora, ele ama-me. Ele faria qualquer coisa por mim."
Ela chegou mais perto, a sua voz um sussurro venenoso.
"E eu vou certificar-me de que ele te odeie para sempre."
Com um movimento rápido, ela agarrou-me e atirou-se comigo para dentro da piscina. A água fria foi um choque. Eu debati-me, a tentar vir à superfície, mas Nicole agarrou-se a mim, a empurrar-me para baixo, a gritar por socorro como se fosse ela a vítima.
"Socorro! Hugo! Ela empurrou-me! Ela quer matar-me!"
Hugo apareceu à beira da piscina. Sem hesitar, ele mergulhou e nadou diretamente para Nicole, puxando-a para a segurança da borda. Eu continuei a lutar, a água a encher-me os pulmões. Um trauma de infância, um quase afogamento num rio, voltou com uma força avassaladora. O pânico tomou conta de mim. Hugo sabia desse medo. Eu tinha-lhe contado, numa noite de confidências, anos atrás.
Enquanto a minha consciência se esvaía, vi-o a segurar Nicole, a confortá-la, olhando para mim com acusação. Ele salvou-a a ela primeiro. E deixou-me a afogar.