Do alto do meu império, observo Yarolensk com olhos de dono. Cada prédio, cada luz, cada centímetro dessa cidade me pertence de alguma forma. Gosto de lembrar a mim mesmo disso, porque poder é a única coisa que não posso perder. Ainda mais agora.
Mas mesmo com toda essa grandeza aos meus pés, minha mente insiste em me levar de volta àquela noite. A última vez em que olhei nos olhos do meu pai.
- Você precisa encontrá-la, Damian...
As palavras dele vinham com dificuldade, como se cada uma rasgasse seus pulmões.
- O seu destino já está traçado... Ela tem um sinal... Veja a imagem no cofre e a encontre... não quebre essa promessa de sangue. Eu confio em você... Só ela dará o herdeiro para continuar a nossa linhagem... Solto um suspiro pesado lembrando dessa cena.
Eu achei absurdo. Ainda acho. Uma garota que foi roubada ainda bebê, como posso encontrar depois de tantos anos desaparecida?! Se nem os pais conseguiram encontrar, como eu eu vou encontrar lá? Só com a merda do sinal na nuca? Que teria poder sobre o meu destino? Que tipo de loucura é essa?
Mas agora, aos trinta e cinco anos, com o tempo me encarando como um inimigo silencioso, a descrença começa a crescer com a urgência. Eu preciso encontrá-la. E rápido.
Meus pensamentos são brutalmente interrompidos quando a porta do meu escritório se abre com um rangido suave.
Ela entra.
Pequena, trêmula, invisível aos olhos de quem não sabe observar. Diana. A secretária nova que mal fala e parece fugir de mim como se eu fosse um predador nato.
Traz uma bandeja nas mãos e uma xícara de café do jeito que eu gosto. Forte, sem açúcar, direto, como tudo que valorizo na vida. Mas ela treme. E eu noto.
Quando seu olhar cruza com o meu, ela perde o ar. Não é a primeira vez que vejo isso acontecer, mas há algo diferente ali. Um desconforto mútuo, como se minha presença a desarmasse e, ao mesmo tempo... me tirasse do eixo.
Dou um pequeno gesto com os dedos, mandando-a se aproximar.
E então acontece.
Ela tropeça. O café quente me atinge como uma maldição. Sinto o líquido queimar minha pele por baixo da camisa.
- Merda! - solto o grunhido enquanto tento afastar o tecido do corpo.
Ela se encolhe, assustada, e tenta consertar seu erro, o que é ainda pior. Vem até mim, trêmula, os dedos tentando desabotoar minha camisa como se estivesse autorizada a isso. Mas eu não estou preparado para esse toque.
Seguro seus pulsos. Forte.
Nossos olhares se encontram. O dela amedrontado. E o meu furioso.
Mas meu coração... Desgraçadamente fora de controle. Bate tão alto que acho que ela pode ouvir. Que diabos está acontecendo comigo?
- Saia. - Minha voz sai fria.
Ela se ajoelha para recolher os cacos de porcelana, e essa imagem deveria me agradar. Sempre admirei a submissão. Mas com ela... não. Aquilo me irrita. Me enoja.
- Saia daqui agora! - ordeno, mais rude do que o necessário.
- Sim, senhor! - ela balbucia tão baixo mais consigo ouvir, antes de sumir.
Fico sozinho.
Respiro.
Me pergunto o que foi aquilo.
Por que minha reação?
Por que a imagem dela me assombra mais do que deveria?
Verônica entra, como sempre impecável, charmosa e segura de si. Seu perfume forte me invade antes mesmo de sua voz.
- O que aconteceu aqui?
Olho para a bagunça no chão. Os cacos, o café derramado no tapete branco. Tudo me leva de volta à imagem de Diana ajoelhada.
- A nova secretária deixou cair... por acidente.
- Quer que eu a chame de volta para limpar?
- Não. Peça alguém da copa. Ela já teve o suficiente por hoje.
Verônica me encara como se não me reconhecesse. Ela sabe que eu não perdoo erros. Mas não digo mais nada.
Vou até o banheiro para troca de camisa e vejo a minha pele avermelhada, me limpo com lenço de papel, e pego outra camisa.
Quando volto a Verônica não estar mais, e o tapete estar limpo da pequena bagunça. Gosto de ficar sozinho, sento na minha cadeira, pego o tablet e deslizo os dedos por um novo esboço. O desenho de um carro toma forma diante de mim. A única coisa que me acalma. Que me devolve o controle.
Mas mesmo com o som do lápis digital, mesmo com a beleza das curvas técnicas tomando forma, meu pensamento volta àquela garota. Diana.
Inofensiva.
Desajeitada.
E, de alguma forma, perigosa.
Como se minha linhagem inteira dependesse dela. Não posso né deixar levar por ela. Uma inofensiva.
Após terminar o desenho vou até no setor de design, verificar pessoalmente os últimos modelos de lançamento, fico afundando no setor algo que gosto, faço algumas modificações que apareceu em cima da hora. Quando olho no relógio já está tarde, apenas sigo para minha cobertura. Saindo da empresa meu celular começa a vibrar olho e aparece o nome do Viktor meu irmão. Resolvo atender.
- Irmão, está de pé para você fazer presença no casa de show do Bóris?
- Tinha esquecido. Vai você.
- Damian, ele faz questão da sua presença, até mesmo deixou claro que lá terá as melhores. Só para você. Não vai fazer desfeita com ele.
- Farei a presença de meia hora e nada mais. Não sei onde estava com a cabeça de aceitar esse convite.
Sigo para casa, apenas para fazer hora e segui para casa de show...
Mesmo contra vontade estou no carro seguindo para casa de show, Viktor já me encheu o saco que estou atrasado. Estaciono carro e por onde passou todos ficam olhando e abrindo passagem.
A minha entrada é liberada e sou acompanhado até a área que foi reservada para mim, e Viktor não exagerou em dizer que ele superou dessa vez,ele me ver e vem cumprimetar.
- Que bom que veio meu amigo! Você não vai se decepcionar! -Ele diz direcionar o olhar para um canto onde tem algumas garotas dançando em cima do palco. E isso me agrada. Vou ao encontro do Viktor que já está com um copo na mão, e me estende.
- Aproveite irmão o paraíso._ ele diz enquanto eu beberico meu copo olhando para as garotas dançando, mais de onde eu estou, consigo ter uma visão da casa, onde algo chama a minha atenção.
Não pode ser ela?
Meus olhos se estreitam automaticamente. O copo que estava prestes a tocar os meus lábios para no ar, esquecido.
Entre as luzes pulsantes e os corpos dançantes, no meio daquele espetáculo que mais parece uma vitrine luxuosa de desejos, há algo... ou melhor, alguém... que destoa.
Ela. Diana.
A luz vermelha percorre seu rosto oscilante, e por um segundo duvido da minha própria sanidade. Talvez seja uma alucinação. Talvez seja culpa do café que não tomei direito hoje. Mas quando ela vira de lado, com aquele jeito desajeitado de quem não está acostumada a ser olhada, eu tenho certeza. É ela.
Sem maquiagem pesada. Sem roupas provocantes como as outras. Como se tivesse sido colocada ali por engano. Como se não soubesse onde está, estar se sentindo uma peixe fora d'água.
- Quem é aquela? - pergunto a Viktor, sem tirar os olhos dela, só para ter a certeza de que eu não estou vendo coisas.
- Qual delas? - ele ri, achando que estou apenas brincando. - Aqui só tem obra-prima, meu irmão.
- Aquela - aponto com o queixo - perto da escada lateral. A que parece mais perdida do que qualquer outra coisa nesse lugar.
Viktor ergue uma sobrancelha, curioso. Olha na direção que indiquei, mas parece não dar muita importância.
- Ah... Ela? Nova aqui. Acho que veio com uma das meninas fixas da casa. Quase não quis entrar, o segurança teve que insistir. - Ele ri. - Acha que ela combina com esse lugar?
Não. Definitivamente, não combina.
- Preciso ir. - minha voz sai baixa, tensa.
- O quê? Você chegou agora!-ele vida de irritação, mas eu não respondo. Já estou andando.
Minhas pernas se movem antes da minha consciência acompanhar. O som da música, as luzes, o cheiro do álcool, tudo some enquanto atravesso o salão com os olhos fixos nela. Há algo errado. Algo que não bate.
O que Diana, a secretária trêmula, a garota que mal consegue me olhar nos olhos, está fazendo aqui? Sozinha. Fora do expediente. Em um lugar como este?
E por que... por que eu me importo tanto?
Quando estou a poucos passos dela, ela me vê.
Seus olhos se arregalam. O corpo se enrijece.
Ela tenta se virar. Fugir.
Mas eu seguro seu braço antes disso.
- Diana?
Ela empalidece.
Está com medo. Mas não é só isso. É como se... estivesse envergonhada. Humilhada.
- O que está fazendo aqui? - pergunto em voz baixa, mas firme, sem disfarçar a intensidade com que a encaro.
- Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece...- E lá estava ela outra vez, sem conseguir me encarando ou apenas dar uma resposta direta,
O que ela não entende é que tanto faz o motivo. Ela não devia estar aqui.
Não neste lugar. Não com aquele olhar.
Não provocando em mim essa confusão maldita entre raiva, proteção e... desejo.
- Venha comigo - ordeno, sem deixar espaço para discussão.
Ela hesita.
- Eu... não posso... minha amiga...
- Agora, Diana. - minha voz sai como um comando. Ela cede.
Me acompanha em silêncio, desviando os olhos de tudo e todos, como se quisesse desaparecer.
Eu a conduzo até o andar superior, para um dos camarotes mais reservados. Fecho a porta atrás de nós e me viro para encará-la.
- Você tem ideia do que está fazendo? - pergunto, mais calmo, mas ainda tenso.
Ela me encara, agora com uma mistura de medo e orgulho. Há algo naquela menina que me desconcerta. Ela não é como as outras. Não se encaixa. Mas também não se dobra.
- Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo.
E, de repente, como se fosse puxado por algo invisível, dou um passo em direção a ela. Ela recua.
Dou outro passo.
Ela encosta na parede. E mesmo assim não desvia o olhar.
E eu penso: Por que ela?
Por que ela me tira do controle?
E mais ainda: Por que diabos eu não consigo deixá-la ir?
- Fale a verdade - exijo, cruzando os braços, bloqueando qualquer saída. - Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?- Ela pisca, confusa.
- O quê? O senhor acha que eu...?
- Eu não sei o que pensar, Diana! - rebato, a voz mais alta do que gostaria. - Você aparece na minha vida feito um erro de sistema, tropeça, derruba café, me tira do eixo... e agora aparece aqui, nesse lugar, como se nada demais estivesse acontecendo!
- Eu só vim acompanhar uma amiga! - ela finalmente grita de volta, os olhos faiscando de indignação. - Eu nem queria vir, mas ela insistiu, disse que seria rápido! Eu nem sabia que esse lugar era assim, e muito menos que o senhor viria aqui!
- Está dizendo que foi uma coincidência?
- Estou dizendo que o senhor está me julgando sem saber de nada!- O silêncio que se segue é denso. O tipo de silêncio que queima por dentro.
Ela respira com dificuldade, o peito subindo e descendo. Está nervosa, mas se recusa a abaixar a cabeça. E eu...
Eu estou mais irritado com isso do que com o fato de ela estar aqui.
Ela não tem medo de mim como os outros. Ou talvez tenha, mas luta contra isso.
E, pela primeira vez, me sinto um idiota completo.
- Por que está tão incomodado com a minha presença aqui? - ela pergunta, com uma coragem que não esperava. - É porque sou sua funcionária? Porque sou desajeitada demais pra estar num lugar como esse? Ou porque te incomoda o fato de eu não fazer parte do seu mundo perfeito?
Eu me aproximo de novo, e ela não recua dessa vez.
- Você não faz parte do meu mundo - respondo com frieza, encarando-a nos olhos. - Mas, de alguma forma... ele tem girado em torno de você nos últimos dias. E isso é um problema.
Ela engole em seco.
- Então me demita.
O silêncio corta o ar. Meu maxilar trava. Meus punhos se fecham.
Mas eu não consigo dizer as palavras. Porque a ideia de demiti-la... me corrói.
- Não posso. - minha voz sai baixa, quase amarga. - E isso me irrita mais do que você imagina.
- Então o problema não sou eu. O problema é senhor, senhor Damian. Que não sabe o que sente, nem o que fazer com isso.
Essa foi a gota.
Avanço mais um passo, colando nossos corpos sem tocá-la. Ela prende a respiração, mas não se move.
- Eu sou o homem que manda nesse império - murmuro, encarando seus lábios e depois seus olhos. - O que dita regras, muda rotas e faz impérios se curvarem. Mas com você... nada faz sentido. E se isso for um jogo, Diana, você está brincando com fogo.
- Não é um jogo - ela sussurra. - Mas se fosse... talvez eu já estivesse queimando.
Por um segundo, a tensão quase se rompe em algo mais.
Mas eu me afasto. Um passo. Dois.
Preciso de ar. De distância. E voltar a calma.
- Vá para casa. Agora. E amanhã... não chegue atrasada.
Ela parece hesitar, como se esperasse algo mais. Mas apenas acena, em silêncio, e se retira com a mesma dignidade que trouxe com ela.
E quando a porta se fecha atrás dela, eu sei:
Essa garota não é só um contratempo.
É o início de um caos que carrega o meu nome.
Capítulo fresquinho!!!!!
Meninas livro em crianção, então paciência!!!!
Mas tentarei ao máximo postar com frequência!!!!
Para que ainda não me segue, no Instagram, tenho um grupo só de leitoras , assim podemos debater! ( @autoramillaalmeida)
Quando finalmente completei dezoito anos, soube que o momento de enfrentar o mundo havia chegado. Crescer em um orfanato, sem respostas sobre quem sou ou de onde vim, moldou minha visão de futuro com incertezas. Meus pais? Não faço ideia de quem sejam. Fui deixada ainda bebê, com apenas alguns meses de vida, e desde então ninguém apareceu, ninguém procurou por mim. Essa ausência de identidade me frustrava cada dia mais enquanto os anos se arrastavam dentro daquelas paredes frias e solitárias do orfanato.
Com a maioridade batendo à porta, era hora de seguir em frente. Foi então que uma das irmãs, percebendo minha angústia, recorreu à ajuda de Berta Still, uma mulher generosa que decidiu me acolher em sua casa. Berta não apenas me ofereceu um lar temporário, como também me arranjou um emprego. Sempre sonhei em cursar Medicina, e tão logo
comecei a trabalhar, ingressei na faculdade com muito esforço e gratidão no coração.
O problema é que trabalho para o senhor Stark. Damian Stark. Um homem sério, de semblante duro, e que exala uma aura de autoridade que me faz estremecer só de pensar em encará-lo. Sei que preciso vencer essa timidez, afinal, não faço ideia de quanto tempo ele vai tolerar meus deslizes e minha inexperiência e os meus desastres.
Assumir o cargo de secretária na empresa dele nunca foi algo que imaginei para meu primeiro emprego. Achei que começaria com algo mais simples, algo que combinasse com alguém que mal conhece o mundo real. Mas ao receber a proposta, vi ali uma oportunidade única, um desafio à altura dos meus sonhos. E, quem sabe, uma porta que me levasse mais perto do futuro que desejo.
Contudo, meu primeiro encontro com Damian Stark foi tudo, menos acolhedor. Ao entrar em sua sala, com um sorriso educado e esperançoso, fui imediatamente engolida por aquele olhar impetuoso que parecia atravessar minha alma. Havia algo de feroz e selvagem em seu olhar, algo que me obrigou a engolir o sorriso na mesma hora.
- Bom dia, senhor Stark! Eu sou sua nova secretária e vim para atualizá-lo sobre a sua agenda, anunciei, tentando manter firmeza na voz, mas falhei miseravelmente.
Ele não respondeu. Apenas me observou em silêncio, sentado em sua imponente cadeira de couro, e com um gesto seco, apontou a cadeira à minha frente. Sentei-me com as mãos trêmulas e, em um deslize desastroso, deixei cair a agenda eletrônica no chão. Pedi desculpas rapidamente, tentando não demonstrar meu desespero, mas percebi sua impaciência crescendo. Meu jeito retraído e o hábito de manter os olhos baixos pareciam irritá-lo.
Ainda assim, ele nada disse. Apenas me instigou, com o olhar, a continuar. Tomei fôlego e comecei a ditar sua agenda: reuniões com fornecedores, entrevista para a revista Forb Car, visita aos galpões de exposição e um jantar com Madeleine Stark, sua mãe.
Ao encerrar, ergui os olhos e encarei o CEO por um breve instante. Ele me observava com atenção, como se estivesse tentando decifrar cada camada da minha alma.
- Eu já terminei - disse, com um leve tremor, esperando que me dispensasse para voltar à segurança da minha mesa. Mas não foi o que aconteceu. O telefone tocou e, por um segundo, acreditei que poderia sair da sala. Em vez disso, ele levantou a mão e me ordenou, sem palavras, que permanecesse. Enquanto falava ao telefone, afastado de mim, aproveitei para observá-lo com mais atenção.
Seu rosto era quadrado, de traços fortes e inexpressivos. As sobrancelhas grossas se uniam com frequência, formando uma expressão de constante desagrado. Seus lábios finos, de um rosado pálido, se comprimiam a cada resposta ríspida. Era impossível decifrar o que se passava por trás daquela fachada. E então, por um breve instante, juro que vi algo estranho, um leve brilho amarelado em seus olhos.
Não, isso foi coisa da minha cabeça. Deve ter sido a luz. Tentei me convencer.
- Senhorita Cross, preciso que me traga as pastas com os documentos de engenharia e desenvolvimento. Preciso revisar os desenhos técnicos e avaliar dimensões, tolerâncias e desempenho dos croquis para as novas frotas - disse ele, sem rodeios.
Ele não pedia. Ordenava.
Aliviada pela chance de sair de sua presença, levantei-me prontamente e corri para cumprir a tarefa. Havia algo nele que me deixava inquieta, quase como se... meu instinto quisesse me alertar sobre um perigo invisível.
Após entregar tudo que ele solicitou, voltei à minha mesa e mergulhei no trabalho: responder e-mails, organizar os compromissos do dia seguinte, e tentar em vão afastar da mente a imagem daquele olhar que parecia esconder algo mais profundo... e sombrio.
Nos primeiros dias, me se sentia como uma peça fora do lugar.
A rotina na Stark Tech era intensa, marcada por prazos apertados, reuniões frequentes e funcionários que se moviam com precisão quase militar pelos corredores envidraçados. Todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo menos eu.
Chegava antes das sete, mesmo que o expediente começasse às oito. Precisava de tempo para respirar, organizar a mesa, revisar a agenda do dia e preparar os relatórios que Damian exigia pontualmente. Os olhos dele não perdoavam atrasos. E, ainda que não gritasse ou fizesse escândalos, o silêncio carregado de reprovação era o suficiente para fazer me encolher por dentro.
Seu escritório era minimalista, moderno, e impecavelmente limpo. Suspeitava que até a poeira tivesse medo de aparecer ali.
As manhãs eram tomadas por atualizações de cronogramas, conferência de contratos e e-mails longos demais que ela tinha que traduzir e sintetizar para o CEO. À tarde, organizava documentos, acompanhava Damian em reuniões ou repassava pautas com os setores jurídico e comercial. Aprendeu a lidar com os temperamentos difíceis de alguns diretores e o desprezo de algumas secretárias veteranas que me tratava como se fosse um erro de RH.
Mas o que mais consumia sua energia era a constante tensão ao redor de Damian. Ele parecia onipresente, mesmo quando estava trancado em sua sala. O som de seus passos no corredor bastava para fazer o meu coração acelerar.
Tentei aprender rápido. Passava noites estudando termos técnicos, engenharia básica, estratégias empresariais. Era a forma de sobreviver, e provar que não estava ali apenas por sorte.
Apesar disso, cometer erros era inevitável. E Damian não era condescendente.
- Senhorita Cross, o relatório da Forb Car deveria ter sido entregue ontem às 18h, não hoje pela manhã - disse ele certo dia, com a voz grave e baixa, enquanto folheava os papéis que ela havia deixado sobre a mesa.
Diana baixou a cabeça.
- Eu... tive problemas com o anexo, senhor. Achei que havia enviado, mas...
- "Achou" não é um verbo que serve em uma empresa como esta. Aqui, lidamos com certezas, não suposições.
Ela engoliu em seco, sem ousar responder. Por dentro, a raiva e a vergonha brigavam para ver quem a derrubaria primeiro.
Por outro lado, havia momentos, raros e confusos, em que Damian parecia observá-la com algo diferente nos olhos. Curiosidade, talvez? Ou era apenas sua imaginação tentando amenizar a pressão?
Certa tarde, enquanto organizava arquivos na sala de reuniões, ouviu a porta se abrir discretamente.
- Você sempre fica depois do horário?
Ela se virou, surpresa. Era ele. Sem terno, com as mangas da camisa dobradas e o olhar menos frio do que o habitual.
- Sim, senhor. Ainda tenho algumas pendências - respondeu, tentando manter o tom neutro.
Ele a observou por um tempo que pareceu longo demais. Em seguida, apenas assentiu e saiu sem dizer mais nada. Fiquei parada por alguns segundos, sem entender aquele breve momento de... humanidade?
Aos poucos, começou a notar outros detalhes. Damian evitava toques. Não gostava de ser chamado pelo primeiro nome. Nunca sorria. E embora comandasse tudo com mão de ferro, seu olhar denunciava um cansaço antigo, quase crônico.
E hoje, definitivamente, não era o meu dia.
Tudo começou naquela maldita hora em que resolvi levar o café para o meu chefe. Ele já estava visivelmente irritado, dava para sentir isso no ar antes mesmo de abrir a porta , mas eu precisava cumprir com minhas funções, então engoli o medo e fui.
Assim que entrei na sala, percebi que não seria simples. O ambiente estava carregado, como se cada centímetro do espaço soubesse que algo estava prestes a dar errado. Eu mal consegui sustentar o olhar, só queria deixar o café na mesa e sair dali o mais rápido possível.
Mas o destino, cruel como sempre, resolveu brincar comigo.
Tropecei.
Não sei como, nem onde meu pé se enroscou, mas tudo aconteceu rápido demais. A bandeja escapou das minhas mãos, o copo voou e o café quente... caiu direto sobre ele.
Na camisa impecável. Na mesa de vidro. No orgulho dele.
O rosnado que ele soltou... foi quase animal. Um som grave, gutural, que pareceu vibrar dentro de mim. Me fez tremer por dentro, como se cada osso do meu corpo quisesse desaparecer.
Tentei me justificar, claro. Balbuciei algo sobre o chão escorregadio, sobre o cansaço, sobre qualquer coisa que pudesse explicar o desastre, mas nada justificava. Nada.
Ele não gritou, não precisou. A ordem para que eu saísse da sala foi seca, direta. Como uma sentença. E eu obedeci, com o coração aos pulos e um nó na garganta que parecia feito de cacos de vidro.
Passei o resto do dia me arrastando pela empresa, me sentindo uma intrusa. Cada vez que alguém me olhava, eu tinha certeza de que sabiam. Que comentavam. Que riam por dentro.
E quando finalmente chegou o fim do expediente, nem esperei o relógio marcar a última batida. Desliguei meu computador, peguei minha bolsa e fui embora.
Fugir parecia a única opção.
Assim que saí do prédio, peguei o celular e vi várias chamadas perdidas da Berta. Meu coração deu um salto. Ela não costumava ligar tanto assim. Será que algo aconteceu?
Mas eu só queria chegar em casa. Precisava de um banho. De silêncio. De um pouco de dignidade.
Não demorou muito até que eu colocasse a chave na porta e entrasse. E lá estava ela. Berta. Pronta, arrumada, com um vestido justo e um salto que eu jamais conseguiria usar sem tropeçar.
- Dih! - ela exclamou animada. - Estava tentando falar com você! Vá se arrumar, tenho entradas pra uma nova casa de shows que acabou de abrir. Está todo mundo indo!
- Nem pensar. - murmurei, deixando a bolsa cair no sofá. - Preciso descansar. Hoje o dia foi um desastre.
- Por isso mesmo! - ela insistiu, empolgada. - Vamos! Prometo que voltamos logo. Você não vai me negar isso, vai? Por favorzinho??
O olhar dela, aquele brilho no rosto... e talvez um pouco da culpa me corroendo ainda por dentro, me fizeram ceder.
- É... quem sabe seja bom mesmo. Preciso esquecer esse dia.
Ela comemorou como se tivesse ganhado na loteria, e eu fui direto para o banheiro. Precisava de um banho, de água quente, de tentar lavar um pouco da vergonha que ainda grudava na pele.
Enquanto a água escorria, a única coisa que vinha à minha mente era a expressão dele. O rugido, o olhar de fúria, o jeito como me expulsou da sala.
Merda, Diana. Você precisa ser mais atenta. Mais forte. Menos você.
Suspirei fundo, tentando empurrar o pensamento para longe.
Minutos depois, estávamos entrando na casa de shows. As luzes, a música, o ambiente todo pareciam girar em torno de uma energia pulsante. Gente bonita, animada, euforia no ar.
Mas algo dentro de mim apertou. Um desconforto. Um aviso. Como se meu corpo soubesse de algo que minha mente ainda não entendia.
- Berta... - tentei dizer. - Acho que não vou ficar...
Antes que pudesse recuar de verdade, os seguranças já haviam aberto caminho, e fui praticamente empurrada para dentro com ela.
Ficaria alguns minutos. Só até ela se distrair. Depois daria uma desculpa e iria embora.
Pelo menos, esse era o plano.
O que eu não esperava... era que ele estivesse aqui.
Damian. No mesmo lugar que eu. E que, por algum motivo que eu ainda não conseguia entender, seu olhar me encontrasse no meio da multidão. Como se me reconhecesse pelo caos que eu carregava. Como se me enxergasse antes mesmo de querer me ver.
E naquele instante, soube que o desastre do café não seria o maior problema da minha noite.
- Diana?
O som da minha voz me chamando faz meu estômago embrulhar.
Congelo. Meu corpo inteiro fica gelado como se tivesse sido mergulhado em água fria. Reconheceria aquela voz em qualquer lugar grave, firme, com um timbre que carrega autoridade e ameaça em igual medida.
Viro devagar. E ali está ele.
Damian Stark.
Meu chefe. O homem que mais me intimida no mundo.
Sinto o rosto perder a cor. O coração dispara tanto que quase me sinto zonza. Não deveria estar aqui. Eu sei disso. Não neste lugar. Não desse jeito. Tudo em mim denuncia o erro. A roupa, o olhar culpado, a respiração curta.
- Eu... eu não sabia que o senhor vinha... eu só vim acompanhar uma amiga... não é o que parece...
As palavras saem fracas. Não consigo sustentá-lo com o olhar. Me odeio por isso. Odeio parecer sempre essa versão frágil de mim quando ele está por perto. Mas não consigo controlar.
E o pior... não é só medo. É vergonha.
Vergonha de estar ali, vulnerável, fora do lugar. De ser vista por ele como alguém menor. Como se eu fosse uma criança brincando num mundo de adultos.
Ele não responde. Apenas me encara. Aquele olhar dele me fura, me desnuda, me desmonta. E então, a ordem vem:
- Venha comigo.
A voz é seca. Sem espaço para negociação. Meu corpo reage antes da minha mente. Hesito.
- Eu... não posso... minha amiga...
- Agora, Diana.
Engulo em seco. Não consigo dizer "não" a ele. Nunca consegui. Me sinto como uma sombra quando o sigo por entre a multidão. Meus olhos não focam em ninguém. Quero desaparecer.
Ele me leva até um dos camarotes no andar superior, longe de tudo e todos. Assim que entramos, ele fecha a porta atrás de nós. O som do trinco me faz pular por dentro.
Me viro devagar. Ele está me encarando de novo. A tensão entre nós é densa, quase visível.
- Você tem ideia do que está fazendo? - pergunta, a voz ainda carregada, embora mais baixa.
Respiro fundo. Preciso responder. Preciso ser firme.
- Eu não vim aqui para isso... e nem sabia que o senhor estaria... eu juro. Não estou mentindo.
Me surpreendo com a força da minha própria voz. Ele se aproxima. Um passo. Eu recuo. Outro passo. E meu corpo encontra a parede.
Mas, dessa vez, não desvio o olhar.
Por dentro, estou tremendo. Por fora, luto pra manter a firmeza. Ele me encara com aquela intensidade que mistura raiva, julgamento e... algo mais. Algo que me assusta tanto quanto me atrai.
- Fale a verdade. Você veio aqui por quê? Está envolvida com alguém? Está me espionando? Tentando... subir na empresa?
As acusações me atingem em cheio. Fico atônita.
- O quê? O senhor acha que eu...?
- Eu não sei o que pensar, Diana! - ele explode. - Você aparece na minha vida feito um erro de sistema, tropeça, derruba café, me tira do eixo... e agora aparece aqui, nesse lugar, como se nada demais estivesse acontecendo!
O calor sobe ao meu rosto. A indignação me toma.
- Eu só vim acompanhar uma amiga! - rebato, a voz mais alta do que eu mesma esperava. - Eu nem queria vir, mas ela insistiu, disse que seria rápido! Eu nem sabia que esse lugar era assim, e muito menos que o senhor viria aqui!
Ele me encara, como se tentando decifrar a verdade.
- Está dizendo que foi uma coincidência?
- Estou dizendo que o senhor está me julgando sem saber de nada!
O silêncio que segue é sufocante. Meu peito sobe e desce com força. Estou no limite. Mas não abaixo a cabeça. Não pra ele. Damian parece tão perdido quanto eu. Como se estivesse lutando com algo dentro de si. Algo que não pode nomear. E então pergunto o que está entalado em mim desde o primeiro segundo:
- Por que está tão incomodado com a minha presença aqui? É porque sou sua funcionária? Porque sou desajeitada demais pra estar num lugar como esse? Ou porque te incomoda o fato de eu não fazer parte do seu mundo perfeito?
Ele se aproxima. Mais um passo. Mas dessa vez, eu fico. Não fujo.
- Você não faz parte do meu mundo - ele diz com frieza. - Mas, de alguma forma... ele tem girado em torno de você nos últimos dias. E isso é um problema.
Sinto um nó na garganta. Mas não desvio. Não dessa vez.
- Então me demita.
O ar se parte entre nós. Ele empalidece. Trava o maxilar. Mas... não responde. E eu vejo nos olhos dele o que ele não quer dizer.
- Não posso - ele murmura. - E isso me irrita mais do que você imagina.
Meu coração parece dar um salto. Mas não é felicidade. É confusão. Medo. Tudo misturado num caos que me enlouquece.
- Então o problema não sou eu. O problema é o senhor, senhor Damian. Que não sabe o que sente, nem o que fazer com isso.
Ele avança de novo. Dessa vez tão perto que posso sentir o calor do seu corpo. Meu coração martela. A respiração prende. Mas não me mexo.
- Eu sou o homem que manda nesse império - ele diz, baixo, tenso, os olhos passeando entre meus lábios e meus olhos. - O que dita regras, muda rotas e faz impérios se curvarem. Mas com você... nada faz sentido. E se isso for um jogo, Diana, você está brincando com fogo.
Engulo seco.
- Não é um jogo - sussurro. - Mas se fosse... talvez eu já estivesse queimando.
Por um instante, tudo para. O mundo deixa de existir. Só nós dois, presos nesse campo de força invisível.
Mas ele se afasta.
O ar volta. Mas deixa um vazio no lugar.
- Vá para casa. Agora. E amanhã... não chegue atrasada.
Ele vira de costas, como se encerrar aquela conversa fosse sua única forma de não ceder.
Como se esperasse que ele dissesse algo mais. Mas ele não diz.
Saio, com o coração na garganta, sabendo que, depois daquela noite, nada mais será o mesmo.
Capítulo liberado!!!!
Espero que vcs gostem!!!