É impressionante como um único ato muda tudo em nossas vidas. Quando você pensa que tem tudo sob controle e está cheio de expectativas para um futuro promissor, a vida vem e te joga no fundo do poço. É o que aconteceu comigo meses atrás, quando cheguei no trabalho em meio a um julgamento foi descoberto um erro no documento da minha alegação. O resultado foi que perdi não só aquela disputa judicial, como meu emprego.
Já era quase meio dia quando acordei, tem sido assim desde o fatídico dia. Não que eu seja preguiçosa, tenho trabalhado como freelancer em uma lanchonete até cerca de 1 hora da manhã, ainda assim, com o dinheiro só tenho conseguido pagar minha alimentação e transporte até o trabalho e por isso, assim que acordo, como alguma coisa e saio ou para entregar currículos ou para entrevistas de emprego. Cada dia que passa, me sinto mais inútil e começo a perder as esperanças de conseguir alguma coisa em Manhattan.
Visto um jeans velho, uma camiseta branca e um casaco para o frio, pego minha mochila e desço as escadas correndo antes que a senhora Davis me veja. Estou com três meses de aluguel atrasado e todos os dias, assim que me vê, ela me cobra o aluguel furiosa e em todas as vezes eu prometo que pagarei o mais rápido possível. Não é mentira, mas arrumar um emprego não está sendo tão rápido como imaginei que seria.
Pego a minha bicicleta e entrego dois currículos em lojas que estão contratando para a temporada de natal. Nunca fui vendedora, mas na situação em que estou, aceito qualquer emprego, desde que me possibilite pagar as minhas contas.
Às vezes me pergunto o que fiz de tão errado. Me formei em direito há dois anos, consegui o emprego dos sonhos graças ao meu desempenho na faculdade e tudo ia bem até que cometi aquele maldito erro em um caso extremamente importante, um mínimo detalhe que condenou tudo, incluindo as minhas chances de conseguir outro emprego na minha área. Quem iria contratar uma advogada que cometeu um erro tão bobo?
Um erro que sequer sei se realmente cometi, revisei tanto que parece mentira o que aconteceu, mas me custou caro, não só financeiramente como psicologicamente. Algo que me fez duvidar do meu potencial, desistir de sonhos e apenas tentar sobreviver e honestamente, nem sei se estou sobrevivendo.
Às 16 horas eu tinha uma entrevista numa empresa de tecnologia, deixei um blazer social na mochila e o vesti por cima da camiseta assim que entrei no local da entrevista. O lugar estava repleto de pessoas aparentemente inteligentes o suficiente para pegar a vaga no meu lugar. Ainda assim, eu não podia desistir. Quando chamaram o meu nome, meu coração acelerou, fui oradora da minha turma de direito, mas estava nervosa em uma entrevista para a vaga de auxiliar de telecomunicações... Como o mundo da voltas.
A entrevista não durou muito, a mulher me fez algumas perguntas e concluiu dizendo que eles entrariam em contato. Não entraria. Me senti completamente derrotada e novamente aquela sensação angustiante apareceu, um nó na garganta, um aperto no peito, a agonia de saber que se as coisas não dessem certo naquela semana, eu teria que voltar para Michigan morar com a minha mãe e eu sequer tinha dinheiro para a passagem. Eu não queria deixar o medo e a insegurança me dominar, mas eu estava quase que literalmente num beco sem saída e atrás de mim tinham 3 leões famintos, incluindo a Sra. Davis. Voltar a morar com minha mãe era definitivamente o fundo do poço.
Na volta para casa, parei em um pequeno parque próximo ao meu apartamento. Costumava ir para desenhar os transeuntes e as crianças brincando. Gostava de ilustrar pequenos detalhes que podem fazer muita diferença em nossas vidas e que muitas vezes nem notamos. Quando se está no fundo do poço, até a alegria de uma criança ao ganhar um algodão doce é um motivo para se alegrar também. Desenhar para mim é uma forma de colocar meus sentimentos para fora e como eu estava uma bagunça por dentro, me sentei em um dos bancos no parque para me distrair.
Ainda haviam folhas em tons de amarelo e laranja do outono e as nuvens cobriam parcialmente o céu, nos dando um pequeno vislumbre do vasto azul celeste e embora estivesse um belo dia, meus traços no papel mais pareciam rabiscos, um amontoado de linhas tortas, que tentavam descrever o dia, mas no fundo descrevia o sentimento da artista. Um misto de medo, tristeza, frustração e algo mais que nem mesmo um poeta saberia escrever.
Chego em casa e abro as mensagens do correio de voz, só havia uma da dona da lanchonete me dizendo que não precisava da minha ajuda naquela noite. Eu recebia uma diária de 30 dólares e mesmo sendo pouco senti minhas pernas tremeram, meu armário estava quase vazio, tinha três meses de aluguel atrasado, além de outras dívidas e eu nem vou citar a infiltração no banheiro e o reparo do aquecedor. Tomei um banho na água morna para tentar acalmar os nervos e pensar numa solução, mas tudo que consegui foi chorar e quase ter uma hipotermia.
Me agasalhei e me encolhi no sofá para assistir algum programa local, por volta das 20 horas bateram na minha porta. Estranhei, quase não recebo visitas, mas fui até lá e me deparei com a minha irmã gêmea Alison, vestida elegantemente num vestido justo com um casaco de pele. Nós éramos o oposto uma da outra. Ela trabalhava como assistente do CEO de uma empresa bilionária e ganhava muito bem, mas a verdade é que ela sempre foi mais interessada em ganhar dinheiro se casando com um homem rico. Nunca entendi os motivos dela, aliás, sequer perguntei, mas sei que ela é muito empenhada nisso.
- Alyssa! Minha irmã preferida, como você está? - ela sorria exibindo os dentes perfeitamente alinhados com ajuda do aparelho, bem, os meus também eram assim. Me lembro que sempre colocávamos as borrachinhas da mesma cor para ficarmos iguais. Gêmeas quase idênticas, a diferença estava nos olhos, os meus eram azuis, o esquerdo tinha uma pequena mancha em castanho escuro, demonstrando que a genética quis brincar com nós duas.
- Eu sou sua única irmã, Alison, e estou bem. - falei e em seguida me acomodei no sofá deixando espaço pra ela se sentar também. - O que faz aqui?
Era incomum receber visitas dela, nos víamos em raras ocasiões e até mesmo mensagens ou ligações eram raras.
- Eu também estou bem irmãzinha, obrigada por perguntar. Estou aqui porque preciso da sua ajuda e quero te fazer uma proposta.
-Que tipo de proposta? - semicerrei os olhos a encarando, sabia que vindo dela, boa coisa não era. Ela endireitou a coluna e olhou para mim, desajeitada e confortável no meu sofá velho.
- Bem, vou direto ao assunto, sei que você está desempregada e eu estou precisando de uma folga, pois conheci um ricaço e ele me chamou para passar férias com ele no Caribe. - ela não conseguia esconder o orgulho que sentia, sorrindo ela inclinou levemente o queixo. - Não posso deixar o meu emprego porque não é garantido que vou entrar em um relacionamento com ele, então pensei que você poderia se passar por mim. - ela sorria com a "ótima" ideia dela. Pisquei algumas vezes, ela não podia estar falando sério, nenhuma das frases parece ser dita por alguém normal, mas ela continuou. - Olha, enquanto eu estiver viajando, você recebe o meu salário e fica com ele só pra você, tenho certeza que vai te ajudar muito a sair dessa situação difícil. Talvez você até consiga uma vaga por lá.
Aquela era uma ideia maluca e eu não estava nada convencida, aliás, sequer fazia sentido eu conseguir uma vaga lá depois de, definitivamente, mentir sobre minha identidade. Alison trabalhava na Séculus Security, uma empresa especializada em equipamentos de segurança, desde softwares à produção, ela recebia muito bem por ser assistente do próprio CEO e era tentador aceitar, mas nossas personalidades não eram nada parecidas. Eu estava desesperada, mas isso não seria muita loucura?
- Alison? Tem noção de suas próprias palavras? Eu poderia dizer vários motivos para recusar isso, mas o principal é: somos muito diferentes, com certeza perceberiam e nesse caso nós duas saímos perdendo.
- Aly, você me conhece melhor que ninguém, tenho certeza que pode me imitar por alguns dias e pense no dinheiro, com um mês do meu salário você poderia pagar todas as suas contas e ainda sobraria dinheiro. Faz isso por nós, Aly. - ela pegou minha mão com as unhas enormes e fez um bico me olhando em súplica.
Olhei para a geladeira e mordi o lábio inferior, a incerteza do dia seguinte e dos próximos, me deixava tentada a aceitar algo que poderia, inclusive, me mandar para a cadeia. Mas o que eu faria? Depois de alguns segundos de silêncio olhando para o vazio, finalmente decidi aceitar. Aquilo era loucura, mas eu ia ficar louca se não resolvesse meus problemas, no fim parecia uma resposta dos céus depois daquele dia cheio. Alison deu um gritinho de animação com a minha confirmação.
- Agora você precisa treinar andar igual a mim e a falar como eu - me olhou de cima abaixo - e a se vestir como eu. Já que começamos amanhã, precisamos treinar agora mesmo.
- O que?! Amanhã? - me sobressaltei do sofá e ela também se levantou.
- Sim irmãzinha, na verdade foi tudo muito rápido e eu só tive essa ideia hoje. - ela me puxou para o centro da sala e começou a me instruir.
Passei a noite toda treinando andar como a Alison, um pé na frente do outro, balançando os quadris, queixo erguido e coluna ereta. Tropecei no meu próprio pé durante o processo, estou acostumada a usar salto, mas sério? Um pé na frente do outro? Falar também não foi exatamente muito fácil, Alison tem mania de falar com uma doçura exagerada, um exemplo: ela chama o chefe de "chefinho", não sei se estou preparada para passar essa vergonha.
Na dúvida, perguntei:
- Chefinho? Vocês são... íntimos? - ela riu.
- Viktor é um gato, mas também é mais fechado que cofre de banco. Eu chamo de "chefinho" para quebrar o gelo. - explicou.
Ela também me passou informações sobre a empresa, os funcionários e o chefe.
• O Sr. Hopkins era o porteiro, ela sempre o cumprimentava com "bom dia, como vai Sr. Hopkins".
• Jessy Sullivan, a secretária, eram amigas e fofocavam sempre, ela provavelmente descobriria e não havia problema em contar.
• Viktor Bresson, o chefe, nas palavras dela: "cara gostoso e incrivelmente chato", trocavam poucas palavras e a maioria apenas ordens.
- O sr. Bresson não gosta que vamos de forma muito extravagante, então evite cores muito fortes. - ela olhou para mim.
- Acho que isso não vai ser um problema, no seu caso você vai ter que exagerar um pouco mais que o seu costume. E quanto ao serviço, tenho certeza que vai se adaptar bem, você só precisa organizar a agenda, atender telefones e bem, ajudar no que for preciso... você é uma advogada, vai tirar de letra. - olhou para a tela do telefone. - Tenho que ir agora, não esqueça que precisa chegar às 8 horas e que o chefe gosta de café puro sem açúcar. Ah, antes que eu me esqueça, aqui estão as lentes de contato no tom dos meus olhos, assim ninguém vai desconfiar.
Ela havia pensado em tudo. Minutos depois ela voltou para deixar a chave do apartamento comigo, para que eu pudesse pegar roupas dela ou em caso de alguma emergência.
Não queria pensar muito no quão louco era aquela ideia, mas muitas coisas poderiam dar errado. Se o chefe dela descobrisse... Bem nesse caso até eu tentaria encontrar um velho rico.
Minha intuição me dizia que toda essa mentira seria o ato inicial que mudará tudo em minha vida. E se mudaria para bem ou para mal, dependia das minhas escolhas e atitudes e bem, como saber quais são as escolhas certas na vida? Apenas sei que mesmo com medo, terei que enfrentar o que vier. Não dava para voltar atrás.
A noite, não conseguia dormir. Minha mente estava ansiosa com o que estava por vir. Nunca fui boa atriz, muito pelo contrário, era péssima com mentiras. Jamais seria uma boa advogada defendendo bandidos e me assustava com a facilidade que alguns advogados tinham para inventar mentiras num tribunal... Como meu ex namorado. A causa de eu estar no fundo do poço a ponto de aceitar uma ideia maluca da Alison.
Pensar nele, me fez voltar meses atrás, quando eu pensava que tinha pego o caso que consolidaria minha carreira e poderia, finalmente conseguir um cargo superior. O Sr. Colleman foi enfático, eu coordenaria o caso e representaria frente ao tribunal ao lado de seu filho Daniel, o meu ex-namorado. Sr. Colleman não gostava de nos colocar no mesmo caso juntos, mas como era um caso importante Daniel insistiu em participar. Mas tudo começou numa reunião, quando Daniel decidiu passar por cima de mim.
- Alyssa, estive pensando, acho melhor você ficar com a papelada. Eu e Diogo representaremos Rosevelt no tribunal. - disse Daniel, cortando a minha fala quando o eu explicava o caso.
- Seu pai foi bem claro, Dan, eu vou representar. Não acredita em mim? - eu sabia que não, mas queria ouvi-lo dizer.
- Claro que sim, mas esse é um caso para homens, Alyssa. E já que conhece bem o caso, fique com a documentação. - ele sorria calmamente, antigamente aquele sorriso me fazia ceder, mas as coisas haviam mudado há muito tempo. Olhei para Diogo e esse sorria, com uma caneta na boca, se divertindo com a situação.
- Não! Não vou perder essa chance. Além disso, foi uma ordem do seu pai, não sua! - falei firme, mas Daniel manteve a expressão calma, sabendo que sempre conseguia o que queria.
- Você tocou num ponto interessante, meu pai, dono dessa empresa e que contratou você porque é minha namorada. - ele se inclinou para perto de mim. - Não me desafie, Alyssa, posso fazer você desaparecer dessa empresa.
- Tente! O único que está aqui por misericórdia é você, consegui esta vaga por mérito e pode ter certeza que seu pai vai me manter aqui. - alterei o tom de voz e me levantei enquanto falava, Diogo soltou um riso abafado e Daniel se reclinou na cadeira. - Agora se me dão licença, tenho que me preparar para o julgamento amanhã.
Saí da sala de reuniões a passos largos e com os nervos à flor da pele, mas fui parada por Daniel, que segurou meu braço me fazendo parar no meio do escritório. Olhei para ele, com tanto ódio, que era quase palpável. Foram quatro anos sendo chantageada, manipulada e traída. Não podia perder também a carreira que tanto lutei para conquistar. Era hora de dar um basta.
- Com quem pensa que está falando? - perguntou entredentes, tentando evitar chamar atenção.
- Chega Daniel! Chega das suas chantagens e manipulações. Eu cansei de ser seu fantoche! - quase gritei, atraindo a atenção de metade do pessoal do escritório. - Acabou!...
Aquelas palavras saíram como um torpedo e foi um alívio pronunciar elas em voz alta. Havia muito tempo que queria dize-las, mas antes que eu pudesse continuar e terminar de dizer tudo que precisava, ele pegou meu braço e me arrastou para uma parte afastada do escritório. Seu aperto era tão forte que estava me machucando.
- O que eu já te falei sobre fazer escândalos? - a voz alterada e as sobrancelhas arqueadas mostravam que eu consegui deixá-lo bem irritado.
- Não ligo para o que você disse! - antes que eu percebesse, ou pudesse reagir, ele acertou meu rosto com um tapa. A região logo ficou dolorida e começou a arder, coloquei a mão na parte acertada para tentar aliviar a dor.
- Eu vou destruir a sua vida Alyssa! - esbravejou próximo a mim, me encolhi na parede, fechando os olhos com força, temendo outro tapa ou algo pior.
- Se chegar perto de mim outra vez, vou ligar para a polícia - falei sentindo uma lágrima escapar. - e pode ter certeza que quem vai perder vai ser você. Eu cansei de ceder às suas ameaças.
Ele deu uma risada amarga e forçada.
- Duvido que consiga. Quem é você, Alyssa Keen? Nada além de uma pobre coitada! - murmurou se aproximando de mim.
- Já chega! - a voz mais velha e irritada do Sr. Colleman ecoou por meus ouvidos, afastando o zumbido e a presença sufocante de Daniel. - Pensei que eu fosse claro quanto a discussões no escritório!
- Sinto muito por isso, Sr. Colleman, mas Daniel quer eu deixe de representar Rosevelt no tribunal e fique apenas com a papelada. - falei com a voz fraca e a garganta seca, tentando ajustar com as mãos trêmulas o blazer que eu usava. O mais velho se virou para Daniel, com pena no olhar, por um momento pensei que ele fosse me defender e dizer algo sobre as agressões que eu sofri. Sozinha eu não teria voz, com ele seria diferente, mas seu semblante se tornou sério novamente e ele respondeu apenas:
- O caso é de Alyssa e como não sabe se comportar, ficará de fora. Agora voltem aos seus trabalhos! - ele se retirou primeiro, seguido por Daniel, que antes de sair me lançou um olhar feral.
Sozinha no caso Rosevelt, passei a tarde toda trabalhando e terminei em casa, tarde da noite. Cai no sono perto de finalizar a revisão, acordei tendo a sensação de ter ouvido a porta se fechar, mas não havia ninguém. O notebook ainda estava ligado e aproveitei para terminar a revisão antes de finalmente ir dormir.
No dia seguinte, assim que a juíza olhou para o documento, torceu o nariz e olhou para mim. Aquele foi o fim da minha carreira. Tive que ouvir um sermão do Sr. Colleman antes da temida frase "está demitida" sair de seu lábios. Todo o escritório me assistiu pegar minhas coisas e sair. Daniel, me olhava com um sorriso vitorioso e então me lembrei: ele tinha uma cópia da chave do meu apartamento.
As lembranças eram tão dolorosas que meu rosto já estava molhado pelas lágrimas. Não dava para tentar por a culpa em algo, Daniel tinha a chave, mas eu estava tão esgotada que poderia ter deixado aquele erro passar. E o que me restou era cometer um crime para sobreviver, que fase!
Cobri meu rosto com o travesseiro abafando um grito angustiado que se instalava na garganta toda vez que eu me lembrava do que aconteceu. A única coisa que eu podia dizer com certeza que não havia me arrependido, era de ter terminado definitivamente com Daniel. Ele nunca mais me procurou, um alívio, foram quatro anos sendo humilhada, chantageada, manipulada, traída, depreciada... Uma pena que me livrar dele me custou a carreira.
Tudo que eu queria era recomeçar minha vida e a proposta da Alison não era a melhor forma de fazer isso, mas se tornou o único caminho, conhecendo minha irmã, ela jamais me ajudaria sem pedir algo em troca. Até que ela estava sendo justa.
Não sei em que momento aconteceu, mas finalmente dormi. Um sono pesado e turbulento, onde eu parecia estar sendo arrastada por uma correnteza, como se quisesse me avisar que algo estava prestes a mudar.
Na manhã seguinte, mesmo após a péssima noite, acordo bem cedo a fim de não me atrasar. Tomei um banho quente e me vesti da melhor maneira possível, com uma calça e blazer social preto e uma camisa rosa claro, definitivamente não tinha roupa para me parecer com a Alison. Fiz uns ovos mexidos, comi rapidamente e sai. Enquanto trancava a porta, a sra. Davis apareceu atrás de mim, a mulher que devia ter uns 60 anos, com o cabelo meio grisalho e meio ruivo, me olhou da cabeça aos pés e franziu o cenho.
- Senhorita Keen, espero que esteja indo trabalhar para pagar o aluguel, caso contrário considere-se despejada. - ela praticamente cuspiu as palavras.
- Sim sra. Davis, estou indo para o meu primeiro dia no novo emprego e prometo a senhora que quando receber pagarei o aluguel; mas agora preciso ir antes que eu chegue atrasada. - respondi sorrindo enquanto descia as escadas correndo, evitando aumentar a conversa. Ela não era uma mulher fácil, mas eu sabia que ela tinha perdido o marido e o filho num acidente e acabou sozinha, podia imaginar o que esse tipo de trauma causa nas pessoas.
Juntei algumas moedas e conseguiria pagar a passagem de ônibus, mas não conseguiria pagar o café do sr. Bresson. Para não decepcionar o meu chefe no "primeiro dia" optei por ir de bicicleta e comprar o café. O prédio ficava na quinta avenida, próximo ao Empire State Building, por isso as ruas estavam bem movimentadas àquela hora. Comprei o café puro e sem açúcar numa lanchonete próxima ao prédio e entrei no edifício, com pressa, porém com cuidado para não derramar o café.
- Bom dia sr. Hopkins, como vai? - falei passando a passos largos pela porta e tentando evitar o contato visual. A moça na recepção acenou com um sorriso e retribui.
- Bom dia Alison, eu sou o Roger. - quase gritou o porteiro depois que passei por ele e congelei. Eu não tinha como saber que hoje era o Roger que ficaria na portaria. E por quê ele não disse o sobrenome? Me virei para ele e notei o homem de meia idade em pé com um sorriso tímido, esperando que eu o reconhecesse.
- Ah! Desculpe estou com tanta pressa que não percebi que era você. - sorri. - Um ótimo dia para você Roger.
- Está de bom humor hoje. - ele deu um sorriso malicioso e eu percebi que deveria tomar cuidado. Minha irmã sempre preferiu a atenção de homens que pudessem pagar coisas para ela, mas não se importava em atrair atenção dos outros que não podiam.
Apenas acenei e me dirigi ao elevador apertando o botão para o 18° andar. O elevador estava cheio e eu temi que alguém conhecesse Alison e decidisse puxar algum assunto, para mim eram todos desconhecidos, mas por sorte todos pareciam ocupados demais para prestar atenção em mim.
Aquele andar tinha duas salas, além da mesa da secretária, onde me deparo com a Jessy, uma garota de cabelos e lábios tingidos de vermelho carmim e um óculos com armação retangular e preta. Ela me recebeu com um caloroso sorriso.
- Bom dia Alison! Se divertiu ontem?
- Bom dia Jessy, não... - fiquei confusa com sua pergunta e tentei soar despreocupada.
- Ah que pena, sabe que sempre fico ansiosa pra ouvir suas aventuras. - ela ajeitou o óculos e se inclinou como se fosse contar um segredo. - O sr. Bresson está te esperando, ele está furioso porque você não entregou aquele relatório ainda.
- Então é melhor eu ir andando antes que ele fique furioso por eu estar atrasada também. - ela me olhou de cima abaixo e levantou as sobrancelhas antes que eu saísse dali. Jessy e Alison eram próximas, não me surpreenderia ela descobrir, mas preferia tentar evitar, qualquer conversa poderia ser ouvida.
A sala do CEO era bem espaçosa, havia uma pequena recepção onde ficava uma mesa, provavelmente minha; dois sofás e poltronas e uma mesa com café e biscoitos. A decoração basicamente eram quadros de algum artista local e vasos de plantas, as paredes todas em branco gelo, deixavam o ambiente parecido a recepção de um hospital, tudo estava impecavelmente limpo. As janelas enormes de vidro tinham vista para o centro de Manhattan, e eram elas que davam ao ambiente um ar mais arejado. Havia uma divisão com uma porta que provavelmente era o escritório oficial do presidente da empresa.
Peguei o telefone conforme a instrução da Alison e deixei uma mensagem para o sr. Bresson.
- Bom dia sr. Bresson, já estou no escritório, Jessyca disse que o senhor estava me esperando. - ele não respondeu, mas minutos depois a porta do escritório se abriu e quem saiu de lá me deixou apenas sem palavras.
O chefe de Alison, Viktor Bresson aparentava ter uns 30 anos, era mais alto que eu com meus 1,65m, tinha uma barba bem aparada sobre o rosto perfeitamente esculpido e os cabelos castanhos e lisos penteados para a lateral formando um topete, tinha olhos castanhos intensos e usava uma roupa social que devia ter sido feita exclusivamente para ele e provavelmente foi. Não era só a beleza que chamava atenção, ele tinha uma certa imponência que o fazia ser notado. Esbanjava masculinidade e poder.
Era o tipo de homem que faria qualquer mulher derreter em questão de segundos e eu não estava alheia a essa sensação, eu sabia lidar com homens bonitos, mas havia algo diferente... Talvez por que ele não era advogado? Bem, ao menos era provisório. Alison me avisou sobre isso, mas eu não dei crédito, conheço os gostos da minha irmã e para ela qualquer homem com dinheiro é gostoso e bonito.
- Tem três relatórios atrasados, um deles é da semana passada e eu soube que ontem saiu mais cedo. Se continuar assim, terá que achar outro emprego, Alison, isso não é uma brincadeira e pode ter certeza que tem muitos que queriam estar no seu lugar. - a voz dele me fez arrepiar, mesmo sendo um tom de voz firme e irritado. Ele estava brigando comigo e ainda assim não consegui me concentrar nesse fato. Limpei a garganta, apesar de também precisar de um lencinho para...
- Eeh... bom dia sr. Bresson, e-eu vou terminar isso ainda hoje não se preocupe.- minhas mãos tremiam, juntamente com minha voz. Se alguém perguntasse eu diria que era o nervosismo por fingir ser outra pessoa.
- É sua última chance, Alison. - assim que ele se virou para sua sala me lembrei do café.
- Ah! O seu café senhor Bresson. - falei estendendo a mão com o copo térmico e me certificando que ainda estava quente, ele olhou para o copo e depois para mim antes de pega-lo da minha mão. Não disse sequer um obrigado.
Soltei um suspiro de alívio assim que ele voltou para a sala dele e ao mesmo tempo notei a máquina de café na sala, eu não precisava ter comprado o café, me sentei frustrada na cadeira de Alison me perguntando o que deu em mim, sempre fui séria e responsável no trabalho não alguém que quase gagueja, que as pernas ficam bambas e que sente arrepios ao ouvir a voz de alguém. Senti meu rosto ruborizar na mesma hora em que entendi que eu estava completamente atraída por ele, mas isso não devia acontecer, ele ainda era o meu... o chefe da minha irmã. Precisava me controlar e agir com responsabilidade. E claro, parar de levantar suspeitas.
Mesmo com as lentes de contato incomodando meus olhos, terminei os relatórios antes do almoço, eram bem mais fáceis que a documentação necessária para um julgamento, e entreguei para o sr. Bresson assim que ele saiu novamente da sala, olhou para os papéis surpreso, passando as folhas e depois olhou para mim, arqueando a sobrancelha, sorri orgulhosa do meu trabalho, mas ele não disse uma única palavra, apenas assentiu e deixou a sala.
Olhei para o relógio e percebi que era o horário do almoço. Jessy me esperava para almoçar, fomos até um restaurante perto do prédio, no caminho ela não parava de falar, foi até difícil acompanhar. Só ao chegar me lembrei que estava sem dinheiro.
- Desculpa Jessy, vou almoçar em casa, estou sem dinheiro. - comentei olhando dentro da bolsa para dar veracidade a cena.
- O que há de errado com você, garota? - ela me puxou, fazendo com que a encarasse e em segundos abriu a boca num "o". - Você não é a Alison! - ela quase gritou ao constatar e eu gelei.
- O quê? Claro que sou a Alison! - não convenceria ninguém.
- A Alison nunca tem dinheiro pro almoço, mas ela nunca disse que iria almoçar em casa e muitos menos pediu desculpas por isso. - ela cruzou os braços. - Além disso a Alison jamais se vestiria assim. Me fala, quem é você?
- Eu sou a Alyssa, irmã gêmea da Alison. Eu estou desempregada e ela pediu que eu ficasse no lugar dela enquanto ela viaja para o Caribe com um homem rico, em troca eu poderia ficar com o salário dela.
- Nossa, ou você é maluca ou precisava mesmo do dinheiro.
- Eu realmente preciso do dinheiro. - falei sorrindo. Um garçom se aproximou para anotar os pedidos.
- Pede o que quiser, eu pago, considere uma cortesia. - ela sorriu ajeitando os óculos. - Sabe, no seu lugar eu faria o mesmo, apesar que eu não tenho uma irmã gêmea. Você e ela se dão bem? Quero dizer, somos amigas há um bom tempo e ela nunca me falou sobre você. - perguntou após o garçom sair.
- Um pouco na verdade. Quando éramos crianças, éramos muito próximas, mas aconteceram algumas coisas que nos afastaram e desde então nossa relação não é mais a mesma.
- Deve ter sido bem grave, para ela nunca ter te mencionado para mim. Posso perceber que são bem diferentes, você é mais séria e menos... Espontânea, tem certeza que isso vai funcionar? - concordei com a cabeça, mesmo incerta. - Bem, pode contar comigo quando precisar, se sou a melhor amiga da Alison, também posso ser da Alyssa.
Sorri, aliviada por ela não desejar contar a verdade e ter alguém com quem contar e ajudar na mentira.
- Obrigada Jessy.
Quando voltei do almoço, Bresson havia deixado mais uma pilha de papéis para revisão e relatório. Passei a tarde toda entretida com os papéis, atendendo telefone e organizando a agenda com os compromissos dele. Alison havia deixado uma bagunça enorme, relatórios atrasados, falhas nas planilhas e muitas outras coisas. Fiquei até mais tarde organizando tudo. Nunca pensei que fosse agradecer pelo meu supervisor do estágio ter me ensinado tudo isso, na época eu achava perda de tempo.
- Ainda está aqui? - sr. Bresson apareceu de repente e me assustou.
- Ahn sim, eu estava entretida arrumando toda a bagunça que a A... que eu deixei ontem. - sorri nervosamente tentando corrigir meu erro. - Estava precisando.
- Você está bem srta. Keen? Está agindo de forma estranha hoje, preencheu os relatórios e formulários tão rápido que me surpreendeu estarem bons, está usando roupas... Diferentes, me desejou um bom dia "normal" e me trouxe café sem eu precisar pedir. Até sua voz está diferente.
Engoli em seco, minhas mãos começaram a suar e tremer e não podia pensar demais numa resposta. Abaixei os olhos e comecei a arrumar os objetos na mesa, canetas, grampeador, folhas de papel, qualquer coisa que tirasse o foco de mim.
- Eeh, bem, é que estou tão feliz trabalhando aqui que decidi me dedicar mais para não perder a vaga, o senhor mesmo me alertou. - sorri tentando esconder o nervosismo. - E estou um pouco gripada, sabe como é, esse clima de Nova Iorque... - pigarreei para parecer mais real, mas ele não pareceu muito convencido. Senti meu rosto todo esquentar com a vergonha.
-... Certo. Então... Termine isso amanhã, está tarde. - Ele relaxou o cenho mas manteve a expressão séria.
- Certo. - falei e sorri colocando as mãos para trás.
Que belo começo! Só cometi alguns deslizes! - pensei ironicamente enquanto arrumava minhas coisas para ir embora. Se eu durasse uma semana nessa farsa, seria muito. Claramente não nasci para ser atriz, muito menos para interpretar alguém tão intenso como a Alison.