As pessoas ao meu redor sempre falaram sobre criaturas sobrenaturais e como andavam entre nós, humanos. Nunca fui uma pessoa apegada ao misticismo e crenças populares; para falar a verdade, sempre fui cética em relação à vida. Não era o tipo que acreditava em religiões, histórias sobrenaturais e até mesmo em alienígenas. Sempre acreditei que esse tipo de história era contada tantas vezes que chegava a causar histeria coletiva, algo que justificava essas visões e encontros com o desconhecido.
Na infância, meu sonho era crescer, passar em uma boa faculdade e ter uma desculpa boa o suficiente para sair dessa pequena cidade antiquada e ir para um lugar onde realmente me entendessem. As únicas pessoas que me entendiam nessa cidade eram meus amigos Austin e Pierre. Mesmo minha irmã gêmea sendo a pessoa que melhor me entendia, a única que realmente sentia que todos nessa cidade eram loucos e que tínhamos que sair daqui, não éramos tão próximas e isso só piorou com sua mudança para a casa de nossos avós.
Os anos foram passando, aos poucos me afastei dos meus amigos e ao mesmo tempo me aproximei mais de Austin e seu primo Pierre. Viramos melhores amigos, inseparáveis. Ao mesmo tempo, continuei aprendendo mais sobre a cidade e sua história. Apesar de acreditarem nas lendas, meus pais não agiam como as outras pessoas da cidade. Não era algo tão sufocante; eles apenas me alertavam sobre como me proteger e que não deveria entrar na floresta em hipótese alguma. Parando para ver por um ângulo cético, isso é um bom conselho, independentemente de sua crença no mundo sobrenatural.
Com minha interação com os cidadãos locais, cresci ouvindo que deveria temer as criaturas da noite. Me contaram milhares de lendas sobre a floresta que fica perto da cidade, várias teorias macabras sobre a morte de moradores foram criadas. Mas como toda jovem, eu não dava muita atenção para os avisos dos adultos. Achava que a floresta era só mais uma floresta qualquer... Pena que estava enganada...
(...)
Corro desesperada, consigo ouvir os passos e o som de galhos quebrando. É assustador fugir de algo que não se sabe o que é. Aquela coisa com certeza não era humana, mesmo tendo sua aparência como a de um homem, eu o vi atacar pessoas inocentes, vi suas enormes presas e unhas.
- Deus, me ajude. – Minha voz sai ofegante e chorosa. Com pouco ar e coragem que haviam me sobrado, grito. – Se afaste de mim, besta!
Sua gargalhada demoníaca ecoa por toda a floresta, me causando arrepios por todo o meu corpo. Parece que a sorte não estava mesmo do meu lado, nem mesmo o mais forte dos deuses poderia me salvar agora.
Um grito assustado escapa da minha garganta quando tropeço em uma raiz grossa e acabo perdendo o equilíbrio. Minha cabeça bate com força assim que chego ao chão. Não consigo enxergar devido às lágrimas, a queda bagunçou os meus sentidos. Estou tonta, mal consigo ver um palmo de distância. Tento me levantar, mas meu pé está preso na raiz.
Solto um grunhido de dor ao sentir um peso sobre meu corpo e uma respiração ofegante em meu pescoço. O cheiro de sangue em seu corpo me deixa enjoada. Escuto uma risada maligna perto do meu ouvido, e isso me faz entrar em pânico. Eu iria morrer, sinto isso em cada célula do meu corpo. Sei que esse será meu último momento de vida, esse é o meu destino.
- Perdão, papai. – Minha voz sai rouca e trêmula. – Deveria ter te ouvido.
Sinto as lágrimas caírem pelo meu rosto. Seus dentes entram em meu pescoço, e isso me faz gritar de dor. As lágrimas continuam a cair pelo meu rosto, e a imagem do rosto de papai vem à minha mente. Em breve, eu me juntaria à minha família.
Meu corpo está fraco; sinto meu sangue ser drenado pelo meu pescoço. Não consigo lutar; estou presa pelo peso do corpo dessa maldita criatura.
Um filme da minha vida passa diante dos meus olhos. Vejo Simon correndo comigo na praia, nossos pais rindo enquanto nos filmavam. Meu primeiro baile, Simon me acompanhando; ele estava tão feliz por poder fazer parte dessa fase da minha vida. O nascimento de Anna, a saída de Sarah de casa e nossa última noite juntas em uma festa do pijama. A carta de aceitação de Simon para a faculdade. Nossa noite de loucura na cidade, onde trocamos nossos colares de melhores amigos.
Seu rosto está tão nítido à minha frente, é como se ele estivesse realmente aqui.
- Não é hora de desistir, flor de lótus. - Sua voz é calma e bela. Uma lágrima escorre pelo meu rosto e ele sorri antes de limpá-la. - Seja forte.
- Eu não consigo. - Minha voz sai fraca, tão baixa como um sussurro. - Já perdi coisas demais. Não existem mais motivos para continuar. Ao menos se eu me for, poderemos ficar juntos.
Simon sorri, um sorriso belo e sincero. Seus olhos brilham, e ele acaricia meu rosto antes de aproximar seus lábios da minha orelha.
- Ainda não é a hora. - Ele beija minha bochecha. - Estarei sempre cuidando de você. Se acalme, a ajuda está chegando.
Seu rosto desaparece como uma névoa no ar, e a adrenalina me tira do transe. Volto a sentir meus instintos de sobrevivência.
Um uivo alto faz a criatura desviar sua atenção do meu corpo e farejar o ar. Seu corpo parece ter entrado em estado de alerta, a criatura olha ao redor assustada. Os rosnados em meio aos arbustos me dão arrepios. Eles estão bem próximos, um uivo a alguns metros de distância me faz tremer de medo. A criatura sai de cima de mim e corre em direção oposta ao som, como se temesse por sua segurança. Um alívio se instala em meu corpo, e suspiro, mas um pensamento me faz congelar: a besta estava com medo, então há algo pior do que essa criatura que estava me caçando?
Minha visão está turva por causa das lágrimas, e a lembrança de toda a minha família sendo assassinada não sai da minha cabeça. Tudo isso é minha culpa, eu deveria ter escutado os conselhos dos meus pais, não deveria ter sido tão cética. Agora todos estão mortos, e isso é apenas culpa minha. Eu convidei a desgraça para nossa casa, fui eu que trouxe essa criatura demoníaca para nossa família. E o que me resta é apenas chorar e aceitar meu destino. Pelo menos em breve eu estarei junto novamente com minha família.
As palavras de Simon voltam a minha mente e uma descarga de adrenalina invade meu corpo, bloqueando meus pensamentos. Tudo que consigo fazer é me levantar e correr. Nunca havia corrido tão rápido em toda minha vida, era como se minhas pernas estivessem me guiando, como se elas soubessem para onde deviam ir. Entro em uma parte desconhecida da floresta, mas consigo ouvir o som de carros passando na pista. Tento correr mais alguns metros, mas perco o equilíbrio e sinto uma forte pressão em meu tornozelo. Olho para minha perna e grito de horror, havia pisado em uma maldita armadilha de urso! A forte adrenalina em meu sangue me faz agir sem pensar, e quando dou por mim, havia me livrado da velha armadilha.
Escuto sons de algo se aproximando, e sou tirada do chão por um enorme lobo. Grito de horror, começo a me debater, e meu casaco rasga. Aproveito a chance e saio correndo em direção a uma enorme árvore. Subo com dificuldades devido à fraqueza causada pelos meus múltiplos ferimentos. Me sinto tão frágil e indefesa como nunca antes.
Tenho que ser rápida, mas meu corpo dói, e isso dificulta a subida na árvore.
- Droga! – resmungo ao perceber que estava sangrando. Escuto sons de algo rodear a árvore, e meu grito desesperado ecoa pela floresta. – Saia daqui, monstro!
Os barulhos ao redor da árvore são assustadores. O animal me rodeia, meus joelhos tremem. Não consigo ficar agachada para sempre, e o lobo parece saber disso. Minhas mãos suam, não vou conseguir me segurar por muito tempo. Um barulho me faz gritar, o galho em que estou cai e me leva ao chão. Outro enorme galho atinge minha perna, e o som de ossos quebrando ecoa pela floresta, me fazendo gritar de agonia e dor. Meus soluços de dor são altos, e escuto a criatura se aproximando cada vez mais. Tento me movimentar, mas a dor de ter o fêmur quebrado faz minha cabeça girar.
- Papai, em breve estarei com você.
Digo entre soluços. Sei que esse é o meu fim, não terei mais chances. Minhas escolhas tolas me trouxeram até aqui. Me sinto sozinha como nunca antes em minha vida, e a solidão dói ainda mais ao saber que sou a culpada por tudo isso.
Sinto minha cabeça girar ao tentar mover o galho. Minha visão fica turva, minha respiração fraca. Apenas ouço os passos se aproximando e o som de seu rosnado.
Violet Hathaway
Residência Hathaway
Horas antes
Hoje é o aniversário da Annabel, minha irmãzinha de 2 anos. Ela se parece muito comigo, todos dizem isso. Annabel é branquinha, com cabelos negros e olhos azuis. Ela é como eu era quando era pequena, exceto pela cor dos olhos, já que os meus são negros. Me chamo Violet e sou a mais velha das gêmeas. Minha gêmea idêntica se chama Sarah, mas ela mora em outra cidade desde que a mamãe descobriu que estava grávida de Anna.
Acho que Sarah só queria ter a própria vida, então, com dezesseis anos, o papai permitiu que ela morasse com a vovó no sítio.
Felizmente, hoje ela está aqui. Vamos comemorar o aniversário de nossa irmã em família.
Ajudo Sarah a levar as decorações da festa para o quintal dos fundos. Diversos balões rosa e branco estão pendurados formando um arco. Atrás do arco, há um painel rosa com alguns de seus personagens favoritos dos desenhos animados. Luzes coloridas enfeitam o quintal, que está cheio de mesas e cadeiras de madeira clara. No centro de cada mesa, há um vaso com rosas brancas, as favoritas de Anna.
Toda a família está em clima de festa, felizes pelo grande dia do aniversário de Annabel. Ela é uma criança adorável e faz amizade facilmente com todos que a conhecem. Seus amigos da escolinha também estão vindo para a festa. Papai contratou um mágico para entreter as crianças e alugou um castelo pula-pula. Será um dia memorável.
- Violet! – Sarah grita, chamando minha atenção. Seu rosto tem uma expressão divertida. – Pensa rápido!
Com um reflexo péssimo, não consigo segurar a bola e ela voa por cima da cerca, indo em direção às árvores que começam a floresta.
- Ótimo– minha voz sai irritada. – Você sabe que meus reflexos são uma porcaria. Agora perdemos uma bola!
O cabelo roxo de Sarah voa com o vento, e seus olhos azuis me encaram, sem esconder o tédio. Sua expressão sarcástica logo se transforma em pavor, e vejo a cor sumir de seu rosto.
- Essa era a bola que o vovô deu para Annabel– sua voz sai nervosa, apesar de seu esforço para disfarçar. – Violet, se você perder o último presente que ele deu em vida para Anna, a mamãe vai nos matar!"
Sei que ela está certa. Não posso deixar meus pais saberem que perdi a bola da Anna, ainda mais sendo o brinquedo favorito dela.
Coloco meu casaco, está muito frio, e sinto que estou mais segura com ele.
Com a ajuda de uma cadeira, pulo a cerca e caio na grama alta. Olho ao redor e um arrepio percorre meu corpo, como se houvesse uma energia ruim no lugar
- Violet? – Sarah fala com uma voz estranha. – Você está bem?
- Estaria melhor se você não tivesse me obrigado a vir aqui.
- Pegue logo essa bola e volte de uma vez! – Sua voz volta a ficar arrogante. – Você já está me irritando!
Quando vou responder à sua afronta, tenho minha atenção roubada por uma árvore. A árvore estava repleta de marcas, mas as que me deram arrepios foram as mais recentes. Eram grossas, como arranhões. Passo minha mão por elas e vejo que cada marca é mais grossa que meus dedos. Nem mesmo uma faca de caça conseguiria fazer uma marca desse tipo com tamanha precisão. Minha visão foca nas outras árvores e vejo que nelas havia mais das mesmas marcas, mas dessa vez mais grossas, maiores e em uma altura mais baixa.
Algo vermelho estava entre as marcas de uma árvore, passo o dedo e vejo que está fresco. Seria sangue? Arregalo os olhos ao cheirar e constatar que estou certa.
Um arrepio invade meu corpo e ele fica em estado de alerta. Uma estranha sensação de estar sendo observada me faz olhar em direção a uma árvore. Me arrepio ao ver, por um breve instante, um homem pulando entre as árvores.
- Violet?
Volto à realidade com o som da voz de Sarah. Limpo minha mão na minha calça e olho ao redor em busca da bendita bola. Certo, isso deve ser apenas mais uma das minhas alucinações. Na certa, meus medicamentos não estão mais fazendo efeito.
Meu olhar vagueia pela extensão da floresta, sinto o ar faltar ao ver um jovem ruivo correndo ferido. Parece estar fingindo algo. Seus pés mal tocam o chão e seu corpo está repleto de cortes que escorrem sangue. Vejo um homem alto usando capuz se aproximar lentamente do fugitivo e, em breves segundos, essa visão se transforma em névoa.
Meu coração acelera. Droga, o que foi isso? Sempre tive essas visões, mas normalmente meus remédios faziam efeito e me impediam de ver essas coisas. Mesmo com meus remédios, às vezes ainda tenho essas visões. Não gosto de falar sobre isso com os meus pais, pois sei que está fora do meu controle. Elas não são tão vívidas e nem tão frequentes.
Mas agora? Agora estão ficando cada vez mais frequentes e realistas. Posso sentir as emoções das pessoas nessas visões, sentir os cheiros, ouvir suas vozes e até mesmo ver o clima mudar. É como assistir a um filme, vejo o lugar de forma diferente, em um tempo que não consigo decifrar. É como se pudesse ver o passado e o futuro de um lugar. Sei que isso é apenas uma desculpa para essas visões devido aos meus distúrbios psiquiátricos, uma forma de me sentir normal em meio a esse mundo de remédios e terapias.
- Não achei. – Falo com a voz trêmula. – Acho que deve ter caído no meio das árvores.
Não vou entrar nessa floresta, não após ver essas marcas e ter essa visão macabra. Essas marcas me fazem quase acreditar nas lendas que cercam essa floresta, como se as crendices populares fossem verdadeiras. E essa visão só me faz ter mais certeza de que nunca devo pisar nesse lugar.
- Vai lá buscar! – Sarah grita irritada. – Se a mãe souber que você perdeu, ela vai nos matar!
Ando em direção à floresta e me assusto quando os pássaros começam a voar. O som dos animais é relaxante, o canto dos pássaros, o som do vento, o ar fresco.
Ando alguns minutos até ouvir passos. Paro de andar no mesmo instante. Seria Sarah vindo ver o motivo da minha demora?
Olho em direção ao som e vejo que não há ninguém. Reviro os olhos, provavelmente é alguma pegadinha da minha irmã gêmea.
- Muito engraçado, já pode parar!
Vejo um vulto se movimentar rapidamente entre as árvores, um movimento impossível de ser reproduzido por qualquer criatura viva. A floresta fica em silêncio e tenho a sensação de estar sendo observada. Olho para o alto e não vejo ninguém nas árvores. Dou um pulo de susto ao sentir uma mão em meu pescoço, olho ao redor e não vejo ninguém. Coloco meu capuz e começo a correr, escuto os passos me seguindo rapidamente. Olho entre as árvores e observo o vulto cada vez mais próximo.
Tropeço nos meus próprios pés, rolando barranco abaixo. Bato com a cabeça em uma pedra e sinto minha visão ficar embaçada.
Tonta, levanto-me com dificuldade. Limpo meu corpo, tirando a areia e as folhas secas.
Olho para o barranco e me pergunto como conseguirei sair desta floresta.
Minha única alternativa é continuar andando. Sei que Sarah não irá me procurar e, mesmo se ela vier, não irá imaginar que estou aqui.
A sensação de estar sendo observada piora à medida que me afasto de casa. É como se cada passo que dou para adentrar as profundezas da floresta me colocasse no território de seja lá o que está me seguindo.
Uma pegada na lama me assusta. Parece uma pegada de um cão, só que extremamente maior. Comparo com o tamanho do meu pé e me assusto ao ver que é muito maior.
Tiro uma foto e guardo o celular no bolso. Escuto o som de um rosnado muito próximo. Olho na direção do som e vejo um enorme lobo marrom a alguns metros de distância. Seu tamanho é assustador, como se fosse maior que eu, algo totalmente ilógico. Nunca vi um animal desse tamanho.
O lobo encara algo atrás de mim, mostrando os dentes como se estivesse prestes a atacar. Olho na direção em que ele olha e avisto o tal vulto no meio das árvores. Parece que seja lá o que isso for, é algo que os lobos não gostam. Meu coração acelera ao me lembrar da visão. Esse vulto poderia ser o homem de capuz.
"Deixe de bobagem, Violet. Isso é apenas uma visão devido à dosagem errada da sua medicação. Não existe homem de capuz!" Digo para mim mesma, mas parece não funcionar, pois vejo, a alguns metros de distância, uma pessoa extremamente alta usando uma capa preta que cobre todo o seu corpo.
- Violet! – Escuto a voz de Sarah, parecendo estar muito próxima. – Onde você está?
Quando olho na direção do lobo, ele já não está mais lá. Vejo a tal figura caminhar lentamente para dentro da floresta e, num piscar de olhos, desaparecer.
Céus, devo estar louca.
As pessoas riam e conversavam despreocupadamente enquanto eu encarava o celular, sem que percebessem minha crescente apreensão. Olhava fixamente para a foto da pegada, e a imagem do imponente lobo marrom ecoava em minha mente. Contudo, mesmo considerando o tamanho desse lobo, suspeitava que a pata em questão não lhe pertencia. Parecia ser de um animal ainda maior.
Caramba, será possível que exista um lobo ainda maior nesta floresta?
Logo, as lendas sobre homens que se transformavam em feras e eram exilados para a floresta me ocorreram. Se essas lendas fossem verídicas, então as histórias sobre criaturas demoníacas que se alimentavam de sangue humano também poderiam ser reais.
Rio sozinha, achando graça da minha própria imaginação. Isso não pode ser real. Deve haver uma explicação lógica para tudo isso.
Decido procurar na internet por informações sobre "lobos gigantes na floresta de Vila Legal".
Para minha surpresa, os únicos resultados que encontro são relatos de moradores sobre encontros com criaturas gigantes, lendas e histórias intrigantes. Deparo-me com uma foto embaçada de um imponente lobo preto e um calafrio percorre meu corpo, pois esse lobo é pelo menos duas vezes maior que o lobo marrom. Além disso, encontro fotos de pegadas idênticas às que capturei e vídeos de lobos correndo atrás de algo entre as árvores, algo similar ao que me seguiu hoje.
Essas coincidências todas são difíceis de ignorar. Seria possível que tudo isso fosse apenas uma brincadeira de mau gosto perpetrada por algum entediado? Sinceramente, só pode ser. A sensação de desamparo começava a se instalar, enquanto a realidade perturbadora se impunha diante de mim.
Algo dentro de mim diz que tudo isso é verdade e que cometi o pior erro da minha vida ao entrar naquela floresta.
Minha cabeça começa a doer, e sinto tudo girar. "Por favor, agora não!", penso inutilmente.
Sempre tenho fortes dores de cabeça e tontura. Geralmente, elas vêm acompanhadas de uma visão estranha que me causa pesadelos por semanas. Sinto o ar faltar nos meus pulmões e meu coração acelerar. É como se estivesse prestes a entrar em pânico.
Olho para a porta da casa e vejo uma poça de sangue. "Agora não, por favor", peço mentalmente para que as visões desapareçam. Seguro o pingente do meu colar, e ele queima meus dedos, fazendo-me soltá-lo rapidamente. Geralmente, meu pingente esquenta durante essas visões e ataques, mas nunca dessa maneira.
Vejo pegadas de sangue indo em direção ao muro que vai em direção à floresta. Começo a sentir o cheiro forte de sangue e a ouvir os gritos de pavor do papai. Cubro meus ouvidos com as mãos e começo a recitar o cântico antigo que minha mãe me ensinou quando eu era criança. Ele sempre faz essas imagens irem embora. Fecho os olhos e canto com mais convicção, mas sinto como se meu corpo estivesse flutuando. Abro os olhos e percebo que estou na sala de estar. Vejo minha mãe caída sem vida no chão, com a garganta cortada e os olhos abertos e cinzentos, sem vida.
- Não, não! – Afasto-me e sinto minhas costas baterem na parede. – Não pode ser!
Um som alto vem do topo da escada, e consigo ouvir os gritos de Sarah. Seguro meu colar com força e começo a oração que a vovó havia nos ensinado quando éramos crianças. Sinto meus olhos arderem, e a pedra em meu colar esquenta, queimando minha mão. O cheiro de pele queimada me dá náuseas, mas isso só me faz segurar o colar com mais força. Fecho os olhos e sussurro os versos finais da oração.
- Você está bem, querida? – Escuto a voz doce de mamãe. Abro os olhos e a vejo me olhar assustada. Sua mão toca meu rosto. – Nossa, você está quente e suando frio. Seus olhos estão vermelhos, e você está pálida.
Solto meu colar e suspiro aliviada. Os olhos de mamãe tremem, seu olhar está focado na minha pedra. Percebo que ela mudou de cor, está rosa escuro e brilhante. Aos poucos, ela volta à sua tonalidade preta normal.
Às vezes, durante as minhas visões ou ataques, ela muda de cor, mas nunca havia ficado rosa escuro. Por algum motivo, sinto que algo vai acontecer.
- Você teve outra visão? – Seus olhos se arregalam ao ver minha mão queimada. – Vamos, vou cuidar disso.
Ando até a sala de estar e me sento na poltrona. Depois de alguns minutos, minha mãe surge na sala com uma caixa de primeiros socorros. Estendo minha mão e divago em meus pensamentos enquanto meu ferimento é limpo.
- Prontinho, terminamos. - mamãe fala, enfaixando minha mão. Ela ri da minha expressão confusa. - Você sempre teve uma grande tolerância à dor, nem mesmo sente quando faço curativos.
Sorrio timidamente. Entre todos da minha família, sempre fui a mais sortuda em relação à saúde. Nunca fiquei doente, nem mesmo com um resfriado. Nunca quebrei um osso, e meus ferimentos cicatrizavam rapidamente. Sarah costumava dizer que eu era uma mutante, pois até minha tolerância à dor era grande.
- Então, minha filha. - mamãe solta um longo suspiro. - Sua pedra brilhou de uma forma diferente hoje. Aconteceu alguma coisa?
Fico boquiaberta. Minha mãe sempre negou que os brilhos da pedra tivessem relação com minhas visões, e até mesmo dizia que isso era algo comum, que não passava de minha ansiedade.
- Dessa vez foi diferente. Eu... Bem, não sei explicar. - minha voz sai esganiçada, e fecho os olhos, tentando me concentrar para evitar gaguejar novamente. - Não era uma simples visão, era como se eu estivesse lá, como se fosse uma versão do futuro. Não sei explicar com exatidão, mas não era como das outras vezes, em que me sinto em um sonho. Eu senti como se fosse real, mas de alguma forma senti como se aquilo fosse uma versão do futuro. Entende?
Para minha completa surpresa, ela não questionou nem fez qualquer comentário como das outras vezes. Mamãe suspirou, passou a mão em sua nuca e, por fim, olhou nos meus olhos.
- E o que você viu?
Fico alguns segundos em silêncio, reunindo coragem para contar sobre esse pensamento horrível. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o grito de Anna ecoa pela sala, e a pequena entra aos prantos, esticando seus pequenos braços na minha direção. A pego no colo, e ela esconde a cabeça em meu ombro. Papai entra no cômodo ofegante, seu cabelo está bagunçado e suas roupas estão sujas de tinta.
- George! - minha mãe fala, entre risadas. - Parece que o carro de um palhaço te atropelou!
- A bomba do pula-pula estava com alguns problemas e, quando fui consertar... Bem... - ele aponta para o próprio corpo. - Ela explodiu, e eu caí em cima da mesa onde estavam as tintas que as crianças estão usando em suas pinturas.
Não contenho a risada e recebo um olhar duro do papai, que acaba rindo ao ouvir o som bizarro da minha risada.
- Anna estava perto e ficou assustada. - Ele fala envergonhado. - Desculpa, minha filha. O papai está bem.
Anna olha para ele, seus pequenos olhos brilhando devido às lágrimas. Papai olha em direção à minha mão e eleva uma sobrancelha.
- Você pode explicar o motivo desse curativo gigantesco?
Seu tom de voz duro me deixa sem ação. Papai sempre foi um homem calmo e brincalhão, mas ele odiava me ver machucada, especialmente porque eu não tinha tanto cuidado como as outras pessoas, devido a essa minha falta de dor.
Mamãe pega Anna no colo e sorri para mim. Sinto meu corpo aliviar ao ver que ela tomou a frente da situação.
- Dessa vez, a culpa foi minha. - ela fala com uma voz envergonhada. - Sarah estava com as crianças, então resolvi pedir para que a Violet cuidasse de algumas coisas na cozinha. Só esqueci de avisar que a travessa estava quente, e a coitadinha acabou queimando sua mão.
A expressão de papai suaviza, e ele suspira. Eu até conseguia entender esse seu lado rabugento. Eu nunca tomava cuidado e acabava me metendo em situações bem complicadas, às vezes com riscos reais de morte. Mas depois que o Simon se foi... Bem, acho que passei a ter mais cuidado.
- Você deveria descansar. - ele fala, olhando para mim de forma estranha. - Você não me parece bem.
Sorrio de lado. Bem que eu estava precisando me deitar mesmo.
Agradeço por sua preocupação e subo até meu quarto.
(...)
Deitada em minha cama, sinto minha cabeça girar com tantas informações e teorias. Não aguentava mais ficar deitada, precisava fazer alguma coisa.
Reunindo coragem, decidi que era hora de ir até a floresta e investigar o que estava acontecendo. Olho para a lua cheia, e meu corpo se arrepia. Meu pai iria reprovar essa ideia, por isso pretendia fazer isso escondida, aproveitar a movimentação da festa para passar despercebida.
Saio de casa e, sem grandes dificuldades, consigo pular o muro. Minha atenção é fisgada por algo que não havia notado antes: algumas pedras verdes estão encostadas em nosso muro, intercalando entre uma pedra verde, uma vermelha e uma muito semelhante ao pingente do meu colar. Pego a pedra semelhante à do meu colar e, com a luz da lanterna, consigo notar várias diferenças em relação ao meu pingente. Era como se essa pedra fosse mais escura, velha e bruta.
Um som de uivo faz meu coração acelerar, e sem pensar duas vezes, pulo novamente o muro. Talvez devesse voltar amanhã.
Me aproximo de uma mesa e me sento, tiro a pedra do meu bolso e a observo, tentando entender o motivo de ela estar ali.
Sinto novamente aquela velha sensação de estar sendo observada. Olho em direção à cerca e me assusto ao ver um homem alto me encarando. Seus olhos são vermelhos, sua pele pálida, seu cabelo ruivo e suas roupas são pretas. Ele me observa como um animal prestes a atacar sua presa. Seu sorriso, por algum motivo, me incomoda profundamente, é como ver um monstro sorrir.
Crianças correm, tampando meu campo de visão da cerca. Quando olho novamente para o local, ele não está mais lá. Uma sensação de desespero invade meu corpo, deixando-me em estado de alerta, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer.
Meus pensamentos se aceleram, e a sensação de desespero aumenta a cada instante, como se eu sentisse o perigo se aproximar, o mal ficar à espreita.