Quando o médico me disse que precisava de uma transfusão de sangue de emergência, o meu marido, Pedro, estava ao telefone como se nada fosse, discutindo a cor das cortinas do quarto do bebé.
A voz dele era impaciente, mas com um carinho que raramente me mostrava.
Eu estava ali, a esvair-me em sangue, com a hemorragia pós-parto a não parar.
Acontece que o meu tipo de sangue era raro, e só Pedro era compatível.
Ele tinha o poder de me salvar.
Mas quando lhe pediram para doar, ele riu-se, disse que tinha pavor de agulhas e que estava exausto.
Até me acusou de ser dramática, perguntando por que é que eu não podia ter tido um parto normal como toda a gente.
Depois, virou costas e foi ver a nossa filha, Eva, deixando-me à beira da morte.
Enquanto a minha vida (e a do nosso casamento) se esvaía, uma enfermeira apareceu com uma bolsa de sangue.
Alguém doou, mas não foi ele, o homem que jurei amar e que me tinha prometido um futuro juntos.
Ele nem sequer me perguntou se eu ia sobreviver.
A minha mãe entrou no quarto, os olhos vermelhos, e disse-me que, lá fora, Pedro se gabava da Eva ser parecida com ele, sem uma única preocupação comigo.
Como é que alguém podia ser tão frio? Tão egoísta?
Ele preferiu deixar-me morrer a enfrentar uma agulha!
Que tipo de homem era este, que via a sua esposa à beira da morte e se preocupava apenas com a cor de umas cortinas e com o seu próprio conforto?
Nesse momento, decidi. Iria sobreviver, por mim e pela minha filha.
E o meu primeiro passo seria pedir o divórcio, custasse o que custasse.
Quando o médico me disse que eu precisava de uma transfusão de sangue de emergência, o meu marido, Pedro, estava ao telefone, a discutir com a mãe sobre a cor das cortinas para o quarto do bebé.
"Mãe, já te disse, a Eva gosta de azul, não de amarelo. Sim, eu sei que é uma menina, mas ela quer azul. Podemos parar com esta discussão?"
A voz dele era impaciente, mas continha um carinho que ele raramente me mostrava.
Eu estava deitada na cama do hospital, com o suor a escorrer-me pela testa. A hemorragia pós-parto não parava.
O médico olhou para mim com pena e depois para o Pedro, que ainda estava de costas para nós, completamente absorto na sua chamada.
"Senhor, a sua esposa precisa de si. É uma emergência."
O Pedro finalmente virou-se, com o telemóvel ainda colado à orelha. O seu olhar passou por mim, sem qualquer preocupação, e focou-se no médico.
"O que se passa? Ela não acabou de ter o bebé? Está tudo bem com a minha filha?"
"A sua filha está perfeitamente bem, mas a sua esposa perdeu muito sangue. Precisamos de uma transfusão imediata. O tipo de sangue dela é raro, e o nosso banco de sangue está em baixo."
O Pedro franziu a testa. "E então? O que é que eu posso fazer? Não sou médico."
Ele ainda não tinha desligado a chamada. Ao fundo, ouvi a voz da minha sogra, a mãe dele, a gritar qualquer coisa sobre o azul ser uma cor para rapazes.
"O seu tipo de sangue é compatível. Pedimos que doe sangue para salvar a vida dela."
O Pedro riu-se, um som oco e sem alegria.
"Doar sangue? Agora? Eu acabei de passar a noite toda acordado. Estou exausto. Não podem encontrar outra pessoa?"
Antes que o médico pudesse responder, o Pedro voltou a falar ao telemóvel.
"Mãe, desculpa, estes médicos estão a ser ridículos. Ouve, compra as cortinas azuis. Eu pago. Tenho de ir ver a Eva. Sim, ela está bem. Beijo."
Ele desligou e meteu o telemóvel no bolso, finalmente a dar-nos a sua total atenção.
"Olhe, eu não vou doar sangue. Tenho pavor de agulhas. E se eu desmaiar? Quem é que vai cuidar da minha filha recém-nascida? A mãe dela certamente não pode, nesse estado."
A minha visão estava a ficar turva. A voz do médico parecia vir de longe.
"Senhor, isto é uma questão de vida ou de morte."
"Não me pressione," disse o Pedro, a sua voz a subir. "Eu sou o único que pode cuidar da minha filha agora. A minha saúde é mais importante. Encontrem outra solução."
Ele olhou para mim, na cama, e a sua expressão não era de preocupação, mas de aborrecimento.
"Sofia, porque é que tens de ser sempre tão dramática? Não podias ter um parto normal como toda a gente?"
Com isso, ele virou-se e saiu do quarto, dizendo que ia ver a nossa filha, a Eva.
Fiquei sozinha com a equipa médica, o som da minha própria respiração fraca a ecoar nos meus ouvidos.
Naquele momento, enquanto a minha vida se esvaía, percebi que o meu casamento também tinha acabado.
A única coisa que me ligava a ele era uma bebé que ele já usava como desculpa para me deixar morrer.
A enfermeira correu para dentro do quarto, com o rosto pálido.
"Conseguimos encontrar uma bolsa! O tipo de sangue é compatível! Vamos começar a transfusão imediatamente."
Senti um alívio momentâneo, uma onda de calor a espalhar-se pelo meu corpo frio. A escuridão nos cantos da minha visão começou a recuar.
Enquanto o sangue vermelho e vital entrava nas minhas veias, a minha mente começou a clarear.
O Pedro não tinha voltado.
Ele nem sequer tinha perguntado se eu ia sobreviver. Tinha ido direto para o berçário para ficar com a Eva.
A minha filha. O nome que ele escolheu.
Lembro-me de termos discutido sobre isso. Eu queria chamar-lhe Clara. Ele insistiu em Eva.
"É o nome da minha avó," ele disse. "Ela era uma mulher forte. Quero que a minha filha seja como ela."
Na altura, pareceu-me um gesto doce. Agora, parecia mais uma forma de ele marcar o seu território, de apagar a minha influência até no nome da nossa filha.
Quando a transfusão terminou e eu estava estável, a minha mãe entrou no quarto. Os seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar.
Ela agarrou na minha mão, e as suas mãos tremiam.
"Sofia, meu amor. Pensei que te ia perder."
"Estou bem, mãe. Sobrevivi."
A minha voz era um sussurro rouco.
"Aquele monstro," ela cuspiu a palavra. "O teu marido. Ele estava lá fora, a gabar-se ao telefone com a mãe dele sobre como a bebé é parecida com ele. Nem uma vez perguntou por ti."
Fechei os olhos. Não estava surpreendida. Apenas cansada.
"Mãe, eu quero o divórcio."
A minha mãe parou de chorar e olhou para mim, com uma determinação feroz a substituir a sua tristeza.
"Já devias ter feito isso há muito tempo. Ele nunca te mereceu."
Ela tinha razão. O casamento tinha sido um erro desde o início. Eu estava cega pelo seu charme inicial, pela forma como ele me prometeu o mundo.
Mas as promessas dele eram vazias, como a sala de espera do lado de fora da minha porta.
"Ajuda-me, mãe. Eu não consigo fazer isto sozinha."
"Claro que ajudo," disse ela, apertando a minha mão com mais força. "Vamos tirar-te daqui. Tu e a minha neta."
A menção da minha filha trouxe uma nova onda de dor.
Como é que eu ia separar uma filha do pai dela, mesmo que ele fosse um monstro?
Mas a alternativa era pior. Ficar com um homem que me via como um inconveniente, um obstáculo para a sua felicidade. Um homem que me teria deixado morrer para não ter de enfrentar uma agulha.
Não. A minha filha merecia mais. Ela merecia uma mãe viva e um exemplo de força, não de submissão.