Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > A Pérola Negra
A Pérola Negra

A Pérola Negra

Autor:: Maria Neto
Gênero: Romance
Com 1,82m de altura, olhos azuis intensos, pele morena, uma cabeleira farta com cachos volumosos e brilhantes, Alana White estava longe de ser a típica adolescente. Era perspicaz, inteligente e muito madura para a sua idade. Depois de perder o seu pai, com o qual se havia recentemente reunido, ficou sob a tutela de Evan Waltz, um bilionário prodígio na área de aviação, incrivelmente charmoso e sedutor. Como CEO de uma das empresas mais prestigiadas do país, Evan parecia sempre tão distante, tão concentrado na sua vida profissional, parecia ter se esquecido de que Alana existia. Cinco anos passaram e a menina se tornou numa mulher deslumbrante. Numa luta entre fazer o certo ou o errado, Evan debatia-se entre viver a paixão arrebatadora ou respeitar acordo que fez com o pai de Alana, seu mentor, e tratá-la somente como irmã mais nova. Sabendo que se entregar a este amor colocaria a vida de Alana em perigo.

Capítulo 1 O divorcio!

- Evan... – chamei quando finalmente ganhei coragem.

Ele continuava a deslizar os seus dedos ágeis no seu computador portátil, como se não me tivesse ouvido a chamá-lo. Evan, sempre tão distante, tão concentrado na sua vida profissional, parecia ter se esquecido de que eu existia. Havia passado tanto tempo desde que ele olhara para mim com carinho. Hoje só havia indiferença. A imagem dele, sentado à mesa, envolto em seu mundo, era um lembrete constante de que eu não era suficiente. Que nunca fui.

- Vamos nos divorciar... – disse-lhe com firmeza forçada.

Finalmente ele parou de teclar, levantou o rosto lentamente e olhou para mim. Ele era um especialista em esconder as suas emoções e agora estava a voltar a fazê-lo. Fechou o portátil e cruzou as pernas com elegância, dando-me a entender que cativei a sua atenção. Uma linha fina formou-se nos seus lábios.

- Porquê? – perguntou friamente.

O ar a nossa volta tornou-se pesado, mas reuni forças para continuar.

- Porque sinto que já não faz mais sentido, continuarmos com esta farsa. O meu estágio está no fim, faltam apenas alguns meses para eu assumir as minhas ações dentro da empresa e receber o meu património na integra. Já se passaram cinco anos desde que me acolheste e acho que estou a te reter. – Sorri triste- Está na hora de te apaixonares por alguém e formares uma família e eu estou a ser um estorvo. – disse com amargura na voz. - Além de mais, a tua posição como Presidente da Airspace & Co., está mais do que salvaguardada.

A empresa triplicou os lucros nos últimos anos sob a tua direção, é óbvio que ninguém irá se opor a ti. O nosso casamento foi apenas um contrato que o teu irmão e o meu pai nos impulsionaram a assinar. Não é mesmo?

Ele fechou os olhos e levou a mão nas têmporas, apertando suavemente.

- É isso que pensas? Foi isso que o nosso casamento significou para ti? – perguntou sem emoção.

- Sim- baixei a cara para não demonstrar a dor que esta conversa me estava a causar. - Vou reformar a minha residência em Sunnville e vou me mudar para lá depois do divórcio.

Ele assentiu.

- Vou pedir ao Roger...

- Não precisas de pedir mais nada ao Roger por mim, já não sou a menina de 18 anos que recebeste há cinco anos, já sou uma mulher e sei cuidar de mim. Obrigada – cortei-o antes que ele pudesse terminar.

Fitamo-nos intensamente num silêncio avassalador. O meu peito arfava descontroladamente. Todo o meu ser implorava que ele demonstrasse pelo menos um pouco de tristeza, que contestasse o meu pedido. Eu queria que ele lutasse por mim. Mas ali estava, inabalado e sereno, como se estivemos a falar do tempo.

- Se for por causa da Alice...

- Não é por causa da Alice! Evan é por minha causa, eu não suporto mais ficar ao teu lado. – Gesticulei irritada – por favor me deixa ir embora - Saiu quase como uma súplica.

Ele era o gênio da aviação aérea, um prodígio. Era um bilionário de 29 anos, um homem multifacetado em todos os aspetos. Famoso e charmoso era muito cobiçado pelas filhas das melhores famílias do País. Ainda assim ele aceitou casar-se com uma órfã para honrar um pedido do meu falecido pai. Eu confundi gentileza com amor.

Por breves instantes eu vi um brilho no seu olhar, mas rapidamente voltou a fechar os olhos, e virou o rosto, para o outro lado.

- Esta bem, vou instruir ao David para preparar a papelada. – disse quase inaudível.

Levantou-se e saiu do escritório, ouvi os seus passos se afastando, deixando-me numa angústia desmedida. Senti a quentura das lágrimas no meu rosto. Tive um aperto no peito, um nó na garganta. Foi a minha última tentativa arriscada para ter a certeza que tanto evitei ter. Ele não me amava.

Essa confirmação foi um golpe fundo para o meu coração. Eu aprendi a amá-lo e queria fazer parte da sua vida para sempre, mas ele fechou-se e meteu uma barreira entre nós. Fazendo-me viver na expetativa de um romance que hoje sei que nunca irá acontecer.

Deixei-me escorregar pelo chão, tirei os sapatos, abracei os meus joelhos, e deixei-me embalar num choro copioso. Desde que o meu papá faleceu que não me sentia tão desolada, tão só. Não olhei para outro homem desde que o vi pela primeira vez, aos dezasseis anos. Ele era a família que aprendi a amar. Sentia-me sem forças para projetar um futuro sem ele. Sabia que teria de caminhar com as minhas próprias pernas, mas, não era o que eu queria. O que eu realmente precisava era de coragem para seguir em frente, para me reencontrar fora das sombras do que um dia sonhei que seria a nossa vida.

A dor que sentia era uma tempestade silenciosa, um furacão dentro de mim, arrasando tudo o que um dia construí em torno do amor que acreditava ser verdadeiro. As paredes do escritório que antes pareciam um abrigo acolhedor tornaram-se prisões que me isolavam daquela realidade insuportável. As lágrimas escorriam livremente, e eu me permitia chorar, sabendo que o grito silencioso da minha alma precisava ser ouvido.

Meus pensamentos devoravam a esperança que restava. O futuro parecia um caminho embaçado, repleto de incertezas. O que eu faria agora? Como reconstruir a minha vida a partir dos pedaços que sobraram? A ideia de me mudar para Sunnville se apresentava como uma luz distante, mas, ao mesmo tempo, quase como um castigo. Queria me libertar, mas estava presa a um amor que nunca será correspondido da forma que eu desejava.

Em meio ao meu desespero, percebi que precisava me levantar, que precisava me libertar daquela tristeza que só crescia em meu peito. Com um esforço monumental, consegui me pôr de pé, limpei o meu rosto com as costas da mão e respirei fundo. A primeira etapa já estava concluída – o pedido do divórcio. Agora era hora de dar o próximo passo.

A vida continua, pensei. E, a partir desse momento, decidi que seria forte. Que aprenderia a amar a mim mesma antes de buscar o amor dos outros. E, quem sabe um dia, encontraria alguém que me fizesse sentir novamente que era merecedora de ser amada. O futuro ainda era incerto, mas eu estava pronta para abraçar a mudança.

Ao dar dois passos em direção à porta, uma onda avassaladora de emoção tomou conta de mim. A minha visão ficou turva, os olhos se encheram de lágrimas que pareciam insurgir-se contra minha vontade de contenção. A fraqueza tomou conta do meu corpo, e uma vertigem me envolveu, como se o chão sob os meus pés estivesse se desfazendo. E então, em meio a essa tempestade interna, a perceção escorregou das minhas mãos, mergulhando-me em um vazio angustiante, onde não consegui lembrar de mais nada. Segurei-me numa cadeira, mas foi muito tarde com um estrondo o meu corpo caiu para o chão.

Capítulo 2 Má noticia

Cinco anos antes...

- Senhorita Alana... – chamou novamente com preocupação o senhor David, o advogado do meu pai.

David Clarke vestia um terno preto e uma gravata sóbria, e a tristeza nos seus olhos parecia pesar ainda mais do que o luto que ele vestia. O seu cabelo escuro, levemente grisalho nas têmporas, era um sinal silencioso do tempo que passou e das histórias não contadas que ele carregava. O seu profissionalismo, àquela altura, era uma muralha impenetrável; ele mantinha a compostura, mesmo enquanto um turbilhão de emoções se desenrolava à sua volta.

As minhas mãos tremiam levemente, e eu evitava encará-lo diretamente, temendo a gravidade das palavras que ele poderia proferir. Aquela manhã havia sido um turbilhão de sentimentos confusos e angustiantes, e a presença de David apenas intensificava a dor. As suas feições sérias mostravam que ele trazia notícias que meu coração e minha mente ainda lutavam para assimilar.

O silêncio na sala era ensurdecedor, como se o mundo lá fora tivesse parado para respeitar a dor que eu sentia. Ele respirou fundo antes de começar a falar, e eu temi o que viria a seguir. A última coisa que eu queria era ouvir um adeus definitivo, mas a atmosfera pesada já havia me preparado para o que poderia ser uma revelação devastadora.

- Eu venho por um motivo... - começou pausando para avaliar os meus olhos arregalados. A sua voz, embora firme, tremia ligeiramente, e percebi que aquela conversa era tão difícil para ele quanto para mim. – O teu pai... ele deixou algumas instruções, coisas que realmente tens de tomar conhecimento. - As palavras saíram lentas e pesadas, como se cada uma delas fosse um tijolo assentado em um muro de resistência que começava a desmoronar diante da realidade.

Eu só conseguia assentir, e cada batida do meu coração parecia ecoar pelo espaço enquanto David continuava, as suas revelações mergulhando-nos em um abismo de incertezas e memórias. O luto nos unia naquele momento, transformando a dor em um vínculo silencioso de compreensão mútua.

- Repete, por favor, o que disse - murmurei baixinho, com lábios trêmulos.

Ele respirou fundo e disse:

- Foi uma tragédia sem precedentes... - gesticulou incrédulo, atrapalhado - O Ronald sofreu um acidente de aviação a bordo da nova aeronave. Como executivo sênior da empresa, não havia necessidade de ser ele a testar a aeronave. O avião despenhou-se vinte minutos após a decolagem. – Fez uma breve pausa, tirou um lenço do bolso, limpou o canto do olho e continuou com um sorriso triste. Sabes bem que, quando ele decidia fazer algo, ninguém conseguia lhe fazer mudar de ideias. Sinto muito pela tua perda, Alana...

Senti um turbilhão de emoções naquelas palavras. O impacto da notícia deixou-me atordoada, em estado de choque. A imagem do meu papá, sempre tão cheio de vida e determinação, maravilhado pelos seus esboços, inundava a minha mente. Aquele homem que me ensinou a sonhar alto e a nunca desistir tinha partido em busca do seu maior projeto.

- Não pode ser verdade... – David murmurou, com voz trêmula. - Ele sempre dizia que a aviação era sua maior paixão. Como foi que um desastre deste aconteceu? Ele estava tão entusiasmado com essa aeronave... infelizmente, o destino tem as suas próprias regras.

Respirei fundo e tentei apegar-me às belas memórias que tivemos: as tardes passadas na oficina, as conversas sobre o futuro da aviação, a forma como ele falava sobre a sua paixão como se estivesse a descrever um amor. Era isso que o fazia seguir em frente, estava sempre um passo à frente dos outros.

Finalmente uma lágrima escorreu pelo rosto do David, ele sentou-se pesadamente na poltrona de couro castanho que estava ao meu lado, tapou o rosto com a mão, sem poder conter um choro silencioso. Ele não perdeu só um cliente, perdeu um grande amigo. E eu o observava impotente, sem conseguir reagir pelo choque da notícia, e para o que implicava para o resto da minha vida.

- Lembras-te da última vez que estive com ele? - perguntou, a voz já um pouco mais firme. - Ele estava tão animado para o teste que quase não consegui fazer outro assunto entrar na conversa.

Sorri triste, e funguei.

- Sim, ele não parava de falar. E, mesmo assim, eu nunca imaginei que fosse ser a última vez ... – finalmente comecei a chorar copiosamente. Pela perda do meu papá.

Este foi o dia em que a minha vida acabou de vez. Foi o segundo funeral que não tive outra opção senão acompanhar, de coração despedaçado. Primeiro, perdi a mamãe, que sucumbiu depois de anos de luta contra o câncer, quando eu tinha dez anos, e agora o meu papá, com o qual me reuni há apenas três anos. Por quê? O que é que eu fiz de errado? O que é que eu vou fazer agora? Ele era tudo para mim... era o meu mentor, o meu herói. Será que eu voltaria para o orfanato?

Sim, vivi até os catorze anos num orfanato. Quando a minha mãe faleceu, a minha vida desmoronou. Fui encaminhada para o orfanato, onde as paredes brancas e frias não podiam esconder a tristeza que carregava no peito. Fui acolhida, mas nunca me senti completamente em casa. A luta pela sobrevivência emocional tornou-se a minha rotina. Aprendi a esconder os meus sentimentos, a construir muros ao meu redor, enquanto as noites eram preenchidas por perguntas sem respostas e saudades intermináveis.

Quando os meus pais se divorciaram, a mamãe não sabia que tinha um presentinho rebelde como eu a crescer no seu ventre. Foi um casamento muito conturbado, eram muito pobres e casaram-se por impulso sem pensar muito no amanhã. Por puro orgulho, a mamãe escolheu guardar-me só para ela e cresci sem conhecer o meu pai. Aos oito anos, vi-a dia após dia a lutar contra a doença que se apresentou superior aos esforços dos médicos e aos tratamentos agressivos. Observei-a a definhar lentamente, impotente, enquanto a perdia aos poucos.

Numa bela tarde de primavera, parei no lado de fora, respirei fundo e meti um sorriso de orelha a orelha no rosto quando entrei de rompante no quarto do hospital que ela partilhava com mais três pacientes, poisei a minha mochila na cadeira e virei para observá-la no leito, senti um nó na garganta. O seu rosto pálido e lábios ressecados partiram-me o coração, abracei-a carinhosamente. Dei-lhe um beijo suave na testa. Ela abriu os olhos, sorriu e sussurrou no meu ouvido aquelas que foram as suas últimas palavras.

- Alana, já não sinto mais dor, - tossiu fortemente pelo esforço que fez para falar, depois de alguns segundos conseguiu finalmente acalmar-se, pegou a minha mão, fechou os olhos e continuou com voz muito baixa e tremula - o teu pai chama-se Ronald White. Procura-o, ele é um bom homem que ama os aviões como tu, mas ele não sabe da tua existência, porque eu nunca contei nada sobre ti. Perdoe-me, filha, fui ingênua e arrogante...

Largou a minha mão e foi-se... perdia-a para sempre.

A mamãe era professora de História no orfanato. Foi este mesmo orfanato que me acolheu. Foram anos muito difíceis, o orfanato sobrevivia de doações. Sobrevivíamos como podíamos, mas nunca passei fome. Tornei-me uma criança triste e insegura. Com a ajuda da diretora, quatro anos depois, finalmente encontrei o meu papa.

Depois de toda a burocracia, um ano depois fui morar com ele, tinha quinze anos naquela altura. Ele era aventureiro e destemido, dei logo conta de quem herdei a teimosia. Tínhamos uma linguagem em comum, o amor pelas aeronaves. Eu rabiscava aviões por todos os sítios. Queria ser engenheira de aviação.

Toda a tristeza e o trauma de ter perdido a mãe foram aos poucos substituídos por um amor de pai maravilhoso. Ele era um homem muito gentil e bondoso. Lamentou muito por não ter feito parte da minha infância. Nos anos a seguir, fez de tudo para recuperar o tempo perdido e fê-lo muito bem. Mudei de cidade, de sobrenome e de estatuto, afinal de contas, nos últimos anos o meu papá enriqueceu muito. Por causa da sua paixão, tornou-se sócio da empresa que detinha o monopólio da aviação aérea do País, a Airspace & Co.

As roupas desgastadas e o único par de sapatos descolados e apertados foram substituídos por vestes e joias luxuosas. Estudava em uma das escolas mais caras e conceituadas do País, e vivia numa mansão grande demais para nós dois. Tinha as melhores professoras de etiqueta e os melhores perceptores. No princípio, eu estudava e aprendia com exímio porque queria muito agradar ao papá. Depois, acabei por gostar da minha nova vida. A adolescente triste e maltrapilha do orfanato tornou-se a senhorita Alana White.

As nossas viagens aventureiras e as noites passadas a desenhar aeronaves em silêncio foram um bálsamo para os anos em que fui órfã. Lembro das noites em que ficávamos acordados no escritório, esboçando projetos, cercados por papéis e modelos em miniatura. A excitação que carregava na voz sempre que falava sobre a próxima grande ideia. Eu não conseguia imaginar um mundo sem aquela paixão ardente. O mais importante foi realmente a amizade e as lições de vida que ele me inculcou, pois nenhuma riqueza será capaz de substituir o lugar que o papá ganhou no meu coração.

Olhei mais uma vez para os móveis cobertos, as silhuetas escondidas debaixo dos lençóis brancos pareciam fantasmas de um passado que eu mal conseguia lembrar. A sala de estar, que outrora fora o coração da casa, agora estava imersa em silêncio e saudade. O cheiro de poeira e abandono preenchia o ar, como se o tempo tivesse parado ali, entre aquelas paredes que haviam testemunhado tantas risadas e histórias.

Caminhei para a porta, com passos hesitantes. A luz do dia filtrava-se pelas janelas empoeiradas, formando raios dourados que dançavam no chão. O que o futuro me reserva? Essa pergunta girava em minha mente, insistente e angustiante. Ao lembrá-lo, a imagem do papá surgia, travada entre o amor e a dor da saudade. Ele havia sido tudo o que eu tinha, e a sua promessa de uma festa do século ecoava agora como uma lembrança distante e amarga.

Faltavam exatamente cinco meses para eu completar dezoito anos de idade. O papá prometeu-me a festa do século... mas ele não a conseguiu cumprir...

Capítulo 3 O meu Tutor Arrogante

Espreguicei-me, preguiçosamente, no meu assento. Girei o pescoço de um lado para o outro para tentar diminuir a tensão que sentia, por estar a caminho do desconhecido. Por alguns minutos, adormeci e acordei com um desconforto não só no pescoço, mas também no corpo.

A tarde de outono estava exatamente igual ao meu humor, cinza e desagradável. Passamos por uma colina e havia bosques dos dois lados da estrada. Amo a natureza, mas não consegui sentir nada naquele momento, além de tristeza e desolação. Olhei pela janela novamente, tentando me conectar com aquele ambiente que sempre me trouxe paz. As árvores, majestosas e silenciosas, pareciam guardar segredos, e eu quis saber o que elas pensavam. Mas mesmo esse desejo se esvai com a nuvem cinza que eu trazia dentro de mim.

Saímos do centro da cidade e, quando dei por nós, estávamos a entrar numa área privada. Tudo à volta era extremamente bonito. A paisagem que passava pela janela era deslumbrante, com árvores altas e verdes, campos abertos e flores silvestres que dançavam ao vento. Olhei brevemente para o David que estava a dirigir a viatura, tentava decifrar a sua expressão facial. Eu não conhecia mais ninguém além dele e não tenho outra opção senão confiar nele.

Ele tinha o testamento do meu papá, mas aparentemente ainda não era a hora de abrir. Ele fez todo um mistério à volta deste assunto que perdi a vontade de continuar a questioná-lo e acabamos por fazer o trajeto todo em silêncio. Eu sabia que o verdadeiro caminho pela frente ainda estava repleto de incógnitas e decisões difíceis a serem tomadas.

Depois de duas horas de estrada, O carro luxuoso que nos transportava parou numa cancela. David limpou a garganta e olhou rapidamente para mim, voltou a concentrar-se na estrada e disse quando me viu a esfregar as mãos pela milésima vez:

- O teu tutor é um homem muito bondoso e generoso, ele vai cuidar bem de ti. Tenha somente atenção e um pouco de empatia, porque ele também está a passar por um momento difícil, tal como tu.

Olhei-o, questionando-o com o olhar, para que ele continuasse a falar. Depois de um tempo que pareceu uma eternidade, chegamos a um portão imponente, cercado por flores e arbustos bem cuidados. A casa à nossa frente era grande e intimidante; tinha um charme rústico que sugeria acolhimento e segredo.

Entretanto, passamos por outro portão metalizado todo ornamentado e vi homens vestidos de ternos pretos que pareciam guarda-costas pelo caminho. Uma mansão deslumbrante apareceu diante de mim e fiquei boquiaberta, nunca vi uma casa tão grande, era majestosa. O meu tutor devia ser um bilionário. Não sei qual era o relacionamento que tinha com o meu papá, mas devia confiar muito nele, pensei.

O carro parou na entrada, onde alguns empregados estavam perfilados à espera. Fiz menção de abrir a porta, mas o David segurou-me pelo braço, virei-me bruscamente preocupada:

- Alana, disse franzindo a testa, não sei se fizeste o que eu pedi e te afastaste das notícias e da televisão por alguns dias.

Assenti.

- Pois, o presidente da Airspace & Co. também estava na aeronave, - suspirou - não houve nenhum sobrevivente.

Abri os olhos e levei a mão à boca de espanto. Ele balançou a cabeça.

- Eles eram grandes amigos, seria um voo como tantos outros que eles fizeram juntos. Quem haveria de imaginar que acabaria num desastre? O teu tutor é o irmão do falecido presidente e foi a ele a quem foi confiada a tua guarda. Tenha paciência, por favor.

Assenti, pensativa.

Um mordomo meticulosamente bem vestido estava ao lado da porta do carro quando desci.

- Menina Alana, seja bem-vinda à sua nova casa. Eu sou o Nigel, o mordomo, e estou à sua inteira disposição.

- Obrigada – disse baixinho – pode me chamar de Alana – fiz um sorriso de lado e caminhei entre a fileira de empregados, me sentindo desconfortável e ansiosa por tanto protocolo. Não via a hora de ficar a sós no meu canto.

- O jovem mestre está no escritório à vossa espera, é por aqui, por favor.

Assim que entramos na casa, o aroma de madeira e flores frescas encheu o ar. A luz suave filtrava-se através das janelas, criando uma atmosfera serena. A porta da entrada devia ter três metros, parei no meio do hall de entrada e olhei para o mais magnífico lustre. Cada objeto e escultura demonstravam a riqueza desta família.

O chão brilhante de mármore branco fazia ecoar os nossos passos pelos salões. Em poucos minutos, paramos em frente a uma porta, o Nigel bateu somente com um toque e convidou-nos a entrar.

O escritório chique e moderno exibia um design arrojado que transmitia elegância e sofisticação. As paredes de vidro permitiam a entrada abundante de luz natural, criava um ambiente iluminado e arejado. O mobiliário, todo feito em vidro, era uma obra de arte em si, com mesas de superfície transparente que refletiam não só a luminosidade do espaço, mas também transmitiam a sensação de frieza.

Quando ele levantou a cabeça, finalmente reconheci-o, era ele, o jovem dos meus sonhos. O tio Josh e ele foram à nossa casa há dois anos, jantaram conosco e depois ficaram durante várias horas no escritório com o papá. Lembro-me de ter perguntado o seu nome mas o meu pai levantou o sobrolho desconfiado, e não me disse o nome dele, desconversei desapontada e não falei mais sobre ele. Durante a refeição, eles tratavam-no por gênio. A verdade é que o encanto que aquele jovem despertou em mim era inegável.

A luz do ambiente refletia nos tecidos delicados do terno, perfeitamente engomado. A aparência era de um príncipe, não, devo dizer, de um verdadeiro príncipe. O seu andar era a definição de elegância, riqueza e arrogância. Tinha o rosto bem definido, com maçãs do rosto marcadas e um sorriso cativante. A carteira escorregou-me do ombro enquanto o observava trocando cumprimentos com o David. Olhos expressivos, com uma cor azul intensa, pararam na minha direção. Os meus pés ficaram colados no chão enquanto apreciava aquela obra de arte que, embora parecesse um pouco antipática, não lhe retirava o charme.

- Senhorita Alana! – David chamou, tirando-me do meu devaneio – aproximem-se e sentem-se, o que eu tenho a dizer é do interesse dos dois. Julgo que vocês não se conheciam, pois não? – Olhou inquisitivamente de um para outro e, como viu, não haveria resposta, suspirou impaciente, sentou-se e começou a abrir a sua maleta.

O Evan olhou para mim friamente e indicou a cadeira. Sentei-me calmamente e, quando ele se sentou ao meu lado, o cheiro da sua colônia deixou-me completamente inebriada. Quem cheira assim tão bem? inspirei e expirei profundamente, eu era apenas uma adolescente com as hormonas descontroladas, tinha que me controlar ou o meu tutor me mandaria de volta ao orfanato.

- Muito bem, podemos começar? - perguntou David.

Assentimos e ele continuou:

- Pois bem, quero mais uma vez transmitir os meus sentimentos de pesares a vocês pela grande perda que tiveram. Foi uma fatalidade...

O Evan respirou, impaciente, com uma carranca. O David engoliu em seco e continuou:

- Como advogado das vossas famílias, fui incumbido de gerir a leitura dos vossos testamentos e me certificar de que os desejos de ambos sejam cumpridos integralmente nos próximos anos. Pelo que, por favor, tenho cartas que o seu pai deixou, aqui está a senhorita Alana – entregou-me a carta. Aproximei-me e, com um gesto de encorajamento de David, recebi-a apreensiva, com as mãos trêmulas, abri a carta e depois entregou a outra ao Evan, que também recebeu. Vi-o abrir o envelope com elegância.

- Por favor, leiam as cartas na minha presença. – Pediu o David meio atrapalhado.

David era muito mais velho que Evan, mas a aura do Evan era de amedrontar qualquer um. Enquanto lia as primeiras linhas, uma mistura de emoções começou a se formar dentro de mim - ansiedade, saudade, expectativa. O meu nariz começou a fungar e não pude evitar soltar uma lágrima, parecia que o meu papá estava a falar comigo diretamente. Depois de acabar de ler a minha carta, eu assenti vigorosamente, secando as lágrimas com as mãos.

- Eu aceito as condições que o papá propôs. Eu vou assinar o documento. – respondi emocionada.

Olhamos os dois para o Evan, que estava visivelmente irritado com o que quer que estivesse escrito na carta dele.

- Que brincadeira de mal gosto é esta, David? – perguntou com dentes cerrados e olhar gelado – mas quem é que eles pensam que eu sou? Eles sabem em que posição me estão a meter?

- Tenha calma, Evan, não descontes em mim, eu estou a transmitir os últimos desejos dos vossos entes queridos. Não haverá leitura de testamento enquanto a Senhorita Alana não terminar a faculdade no curso de sua escolha. Depois da graduação, ela devera ser recrutada na empresa Airspace & Co., como estagiária. Após o estágio, então, a leitura será oficializada. Entretanto, durante este tempo, Evan será o tutor da Senhorita Alana, até ela terminar a faculdade.

Pulei do meu assento quando ouvi o barulho do copo que bateu contra a parede, caindo pequenos estilhaços de vidro no chão de tão furioso que o Evan estava.

- Eles enlouqueceram, só pode ser, eu não tenho tempo nem paciência para tomar conta de filho adolescente de outrem.

- Se enlouqueceram ou não, eu não posso afirmar. Tenha em mente que o teu irmão detinha 24% das ações, enquanto o Ronald tinha 17%. Somando com as tuas ações, fará 65%. Vocês dois, juntos, são acionistas majoritários. Ninguém te pode tirar da presidência enquanto tiveres a Senhorita Alana sobre a tua guarda, percebeste? E a senhorita Alana precisa crescer para saber gerir a sua herança. Ninguém é mais honesto que tu para ensiná-la a fazer isso. Eles fizeram isto para vos proteger, entenderam agora?

David tirou um acordo da maleta e o colocou em cima da mesa.

- Por favor, assinem o acordo em que vão cumprir, com as exigências, e voltaremos a ver-nos quando a senhorita Alana estiver a fazer o estágio na empresa. Estamos de acordo?

Evan levantou-se bruscamente, pegou na caneta e assinou, olhou para mim com desprezo, levantei-me e assinei o documento. Ele deu meia volta e dirigiu-se à porta com passos largos, não saiu sem antes dizer, com uma voz fria e desinteressada:

- O Nigel vai te apresentar a casa. Podes escolher qualquer quarto que não seja o meu, e o mais distante possível do meu. De repente, parou e olhou-me de cima a baixo, certifica-te de ficar bem longe de mim nos próximos anos. Garanto-te que nada te vai faltar. Qualquer coisa que precisares, podes falar com o Nigel ou o Roger, o meu assistente, e bateu com a porta, levando a sua carta na mão.

A minha respiração ficou presa na garganta, com o estrondo da porta que bateu. O que será que o tio Josh escreveu, que o deixou tão irritado? Olhei para o David aflita, de repente fiquei com o estômago embrulhado.

- David disseste que ele é bondoso e gentil – disse aflita, levando a mão ao peito – mas parece que ele não gosta de mim. – Terminei triste.

David, arrumou rapidamente o documento na sua maleta e aproximou-se de mim, pousou a mão no meu ombro com carinho, o meu olhar suplicava: leva-me contigo. Ele suspirou:

- Seja paciente, o Evan é um homem espetacular, ele está de luto e também inconformado com a morte do Josh. Ele está a lutar com a perda prematura do irmão, eram muito apegados. Tal como tu, ele é órfão de pai e mãe. Além do mais, ele teve que lidar com todas as questões relacionadas ao acidente pela primeira vez sem o suporte do Josh e tem dirigido a crise em que a empresa se encontra com mestria. Com vinte e cinco anos, eu nunca teria tal capacidade.

O Evan nasceu para os negócios, aos vinte e cinco anos tornou-se vice-presidente da Airspace & Co., e naturalmente assumiu a presidência depois do falecimento do Josh. Nem sei se ele já conseguiu parar para chorar o irmão. O Ronald sabia que não haveria ninguém melhor para ajudar-te na tua formação. Sei que és corajosa, confia na escolha do teu pai.

- Não te preocupes David, o legado do papá continuará vivo, farei de tudo para garantir que suas invenções não caiam no esquecimento. Não posso ficar aqui paralisada - disse, com uma nova determinação nos olhos. - Tenho que continuar o que ele começou. Ele sempre acreditou em mim, e isso significa que eu também devo acreditar nele. Ele dedicou a sua vida a criar, a inovar, e agora cabe a mim honrar esse legado.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022