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A Queda Da Herdeira - O Preço Da Obsessão

A Queda Da Herdeira - O Preço Da Obsessão

Autor:: Leonor Magalhães
Gênero: Romance
Isadora Vance sempre viveu sob as luzes de cristal da alta sociedade de Nova York. Como filha de uma das linhagens mais influentes do país, seu destino estava traçado: um casamento impecável com um herdeiro político, uma vida de luxo inquestionável e uma reputação imaculada. Até a noite do noivado. ​Em questão de horas, a vida de Isadora desmorona. Escândalos financeiros brutais, segredos familiares expostos em telas gigantes para toda a elite e o abandono público de seu noivo deixam-na exposta, humilhada e desamparada. Enquanto o império Vance é reduzido a cinzas, Isadora percebe, tarde demais, que sua ruína não foi um acidente - foi uma arquitetura. ​Das sombras desse caos, surge Dorian Cavendish, um magnata recluso e impiedoso, cujo nome é sussurrado com cautela nos corredores do poder. Ele não é o salvador que ela esperava, mas é o único que permanece de pé quando tudo ao redor desaba. Dorian oferece a ela uma saída: um acordo de casamento onde o preço não é o dinheiro, mas a submissão total de sua vida. ​Isadora acredita que está fazendo um pacto com o diabo para salvar o pouco que restou de sua família. O que ela não imagina é que a obsessão de Dorian por ela não começou naquela noite, mas há anos, no momento em que ele decidiu que, se não pudesse tê-la por amor, ele a destruiria para tê-la por completo. ​Em um mundo onde o luxo esconde a podridão, Isadora aprenderá que, nas mãos de um homem que controla o destino, o seu silêncio é a moeda mais cara de todas.

Capítulo 1 O Banquete

​O salão de festas do Pierre Hotel, em Manhattan, não era apenas um ambiente; era uma exibição de poder. Cristais Baccarat pendiam do teto como diamantes congelados, refletindo o brilho das joias que adornavam os pescoços das mulheres mais influentes da cidade. O ar cheirava a flores frescas, champanhe caro e a pretensão inebriante da elite.

​Isadora Vance, contudo, sentia o ar pesado, quase irrespirável.

​Ela ajustou o decote do seu vestido de noiva, uma criação exclusiva que custara o equivalente ao PIB de uma pequena nação. O tecido de seda pura parecia uma segunda pele, ou talvez, um sudário. Ao seu lado, Julian, seu noivo, mantinha um sorriso plástico que não chegava aos seus olhos frios e calculistas. Ele era o herdeiro político que a família de Isadora havia escolhido para ela. Era uma aliança estratégica, um contrato selado com nomes e sobrenomes de peso.

​- Sorria, querida - Julian sussurrou, a voz destilando uma falsa doçura que fazia a espinha de Isadora gelar. - As câmeras estão todas voltadas para nós. Seus pais estão observando. O mundo está observando. Não estrague a estética da noite.

​Isadora forçou os lábios, sentindo o gosto amargo de um casamento que, desde o primeiro dia, soara como um funeral. Ela olhou através do salão, procurando um rosto familiar, um conforto, mas viu apenas lobos em pele de cordeiro.

​De repente, a música clássica que orquestrava o ambiente cessou com um ruído seco. Não foi uma pausa musical; foi como se o próprio tempo tivesse sido cortado. O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo som de um projetor sendo ligado.

​Nos quatro cantos do salão, telas gigantes que, até segundos atrás, exibiam montagens românticas do casal, piscaram em uma luz estática e fria. Isadora sentiu o coração falhar uma batida. O pânico, frio e agudo, começou a subir pela sua garganta.

​- O que é isso? - ela perguntou, a voz quase um sussurro.

​Julian não respondeu. Ele estava rígido, o rosto perdendo a cor. Nas telas, a montagem de fotos desapareceu, substituída por documentos digitalizados. Contas bancárias em paraísos fiscais, transferências ilegais, assinaturas falsificadas. O nome de seu pai, Arthur Vance, apareceu em letras garrafais, seguido por uma lista de crimes que fariam qualquer investidor entrar em colapso.

​O burburinho no salão começou como um murmúrio, mas logo explodiu em um caos de vozes. Convidados que, momentos antes, brindavam ao casal, agora apontavam, sussurravam e recuavam como se a própria família Vance tivesse uma doença contagiosa.

​Isadora sentiu o chão girar. Ela olhou para Julian, buscando apoio, mas ele deu um passo atrás, afastando-se dela como se ela fosse o epicentro daquela destruição.

​- Julian? - ela chamou, a voz trêmula.

​- Eu não sabia de nada disso, Isadora - ele respondeu, alto o suficiente para que os arredores ouvissem. - A família Vance é uma farsa. Eu não posso associar o meu nome a isso. O noivado termina aqui.

​Ele se virou e caminhou em direção à saída, ignorando os pedidos de socorro de Isadora. O salão, que minutos antes parecia um palácio, agora parecia uma jaula. Ela estava sozinha, no centro da tempestade. As câmeras dos jornalistas, antes focadas em sua beleza, agora eram canhões disparando flashes impiedosos em seu rosto, capturando sua humilhação em alta resolução.

​Ela tentou caminhar em direção ao seu pai, mas viu-o ser cercado por oficiais de justiça que entravam pelo salão com mandados em mãos. A cena era surreal, uma queda livre da alta sociedade direto para o abismo.

​Foi então que ela sentiu. Não um toque, mas uma presença.

​Uma mudança na pressão atmosférica. O cheiro de cedro, tabaco caro e algo metálico, como aço. Ela não precisou se virar para saber que não estava mais sozinha. A multidão, antes hostil e barulhenta, abriu-se de forma quase reverente, como se reconhecessem o predador alfa que acabara de entrar no salão.

​Uma mão firme, envolvida por uma luva de couro, pousou em seu ombro. Era uma posse absoluta, um controle que a impediu de cair.

​- O castelo de cartas finalmente caiu, Isadora - a voz era um sussurro rouco, um som que vibrou profundamente contra a sua pele, carregando uma autoridade que ela nunca ouvira antes. - Não chore pelos pedaços. Eu construí o chão que você está pisando, e garanto que ele é muito mais sólido do que aquele seu noivo medíocre poderia oferecer.

​Ela congelou. Lentamente, girou o corpo, encontrando um olhar que a fez perder o fôlego.

​Dorian Cavendish.

​Ele não estava vestindo um smoking como os outros homens da festa. Seu terno era um tom de carvão tão escuro quanto a alma que parecia habitar seus olhos. Ele não parecia um convidado; parecia o dono do local. Não havia julgamento em seu olhar, apenas uma satisfação obscura, como alguém que acaba de assistir ao ato final de uma ópera trágica que ele mesmo escrevera.

​- Dorian... - o nome escapou de seus lábios sem permissão. Ela sabia quem ele era, claro. Todos sabiam. O homem cujos negócios operavam nas margens da legalidade, o investidor que comprava empresas em falência e as transformava em extensões de sua vontade.

​- Você está devastada, Isadora - ele disse, ignorando o caos ao redor com uma indiferença calculada. - O mundo que você conhecia acabou. O seu noivo, o seu prestígio, a sua reputação... tudo virou cinzas. Sinta o peso disso.

​Ele deslizou a mão do seu ombro para o seu rosto, o polegar roçando a linha de sua mandíbula com uma delicadeza que era mais ameaçadora do que um soco.

​- Por que você fez isso? - ela perguntou, a voz falhando. - Foi você? Tudo isso... a exposição?

​Dorian sorriu. Não era um sorriso de alegria; era um sorriso de caçador.

​- O mundo da elite é construído sobre mentiras, Isadora. Eu apenas retirei os tijolos falsos para ver quanto tempo a estrutura aguentaria. O seu pai não tem competência para estar no topo, e o seu noivo não tem espinha dorsal para permanecer ao seu lado quando as coisas ficam difíceis. Eu fiz um favor a você.

​- Um favor? - ela tentou se afastar, mas ele a manteve perto, a força em sua mão sendo um lembrete constante de que ela não tinha mais o direito de ir a lugar algum. - Você destruiu a minha vida!

​- Eu limpei o caminho - ele corrigiu, inclinando a cabeça para perto da dela, o hálito quente em sua orelha. - Você sempre foi criada para ser a noiva de alguém, o rosto bonito de uma marca, a decoração de um gabinete político. Agora, você não é nada. E, em um mundo onde você não é nada, Isadora... você finalmente é minha.

​O choque foi tão profundo que ela não conseguiu processar as palavras. O salão parecia estar se desintegrando ao redor deles. Repórteres gritavam perguntas, seguranças tentavam conter o tumulto, mas nada daquilo importava. A única coisa que existia era a mão dele em seu queixo e o brilho intenso em seus olhos que a prendia como um animal em uma armadilha.

​- O que você quer? - ela perguntou, sentindo as lágrimas finalmente traírem sua fachada de compostura.

​- Eu não quero nada que eu já não tenha planejado ter há anos - Dorian respondeu, sua expressão se tornando impenetrável. - Sua família tem dívidas que nem dez gerações seriam capazes de pagar. O seu pai será preso antes do amanhecer. Você não tem para onde ir, não tem quem te defenda, e não tem um centavo sequer para comprar a liberdade de quem você ama.

​Isadora sentiu o desespero atingir o estômago. Ele estava descrevendo a realidade dela com uma precisão cirúrgica.

​- Então, o que acontece agora?

​Dorian olhou em volta, observando os destroços daquela vida que Isadora construíra por vinte e dois anos. Então, ele voltou o olhar para ela, intenso e inegociável.

​- Agora, você vem comigo. Eu ofereço um contrato. Um casamento. Uma fachada de luxo para esconder a verdade sobre a ruína da sua família. Eu protejo o pouco que restou deles, e em troca... - ele fez uma pausa, o olhar descendo para os lábios dela, antes de voltar aos seus olhos. - Em troca, você para de tentar ser uma Vance. Você se torna uma Cavendish. E, a partir de hoje, você aprende que a única pessoa que dita o que você faz, como você respira e a quem você serve, sou eu.

​O silêncio dela foi a resposta que ele esperava. Dorian não perguntou se ela aceitava. Ele simplesmente começou a guiá-la para longe do salão, para fora daquelas portas onde o mundo antigo de Isadora estava morrendo.

​Conforme eles atravessavam o saguão do hotel, o brilho das luzes parecia mais fraco, quase como se a própria cidade estivesse reconhecendo que ela estava sendo levada. Isadora olhou para trás uma última vez, vendo o que restava da sua antiga vida sendo devorado pelos abutres da mídia.

​Ela sabia que estava caminhando para o escuro. Sabia que aquele homem era o arquiteto do seu desastre. Mas, pela primeira vez em toda a sua vida, ela sentiu algo que não era apenas o medo das aparências. Era o medo - e a estranha e avassaladora curiosidade - de estar diante do homem que não apenas queria o seu corpo, mas queria a sua própria essência.

​Dorian Cavendish abriu a porta de uma limousine blindada. Ele esperou que ela entrasse, o olhar fixo nela, desafiador.

​- Entre, Isadora - ele comandou, sua voz firme como um decreto. - A sua nova vida começa agora. E acredite, o preço que você vai pagar por ela... será muito mais do que você imagina.

​Ela hesitou por um segundo. A liberdade, por mais ilusória que fosse, estava ali fora, na rua gelada de Nova York. Mas a destruição absoluta também estava. Ela respirou fundo, o ar entrando frio em seus pulmões, e entrou no carro.

​Dorian entrou logo atrás dela, fechando a porta com um som abafado que soou como a tranca de uma cela. O carro partiu em silêncio, deixando para trás os restos mortais de uma herdeira que nunca mais existiria.

Capítulo 2 Mansão dos Cavendish

​A mansão dos Cavendish em Connecticut não fora projetada para abrigar pessoas; fora projetada para impedi-las de sair. Enquanto o carro percorria a última milha da estrada privada, cercada por uma floresta densa que parecia se fechar como dedos de gigante, Isadora observou a construção surgir na penumbra. Era uma fortaleza de vidro e pedra negra, uma estrutura imponente que parecia ter sido esculpida diretamente da rocha, desafiando a própria gravidade.

​Dorian permaneceu em silêncio ao seu lado durante toda a viagem. Ele não a olhou, não tentou confortá-la - nem mesmo com uma mentira piedosa. Ele estava mergulhado em seu tablet, lendo relatórios de mercado com a mesma indiferença com que se lê o menu de um café da manhã. Para ele, Isadora não era uma noiva; era um ativo. Um troféu de guerra que ele acabara de conquistar.

​Quando a porta do veículo se abriu, o ar da noite cortou o rosto de Isadora como uma lâmina. Victor Volkov, o homem que ela vira brevemente no hotel, já estava lá, imóvel como uma estátua de granito. Ele não fez uma reverência, apenas assentiu para Dorian e seus olhos cinzentos fixaram-se em Isadora por um segundo - um olhar impenetrável que a fez sentir-se, pela primeira vez, como se estivesse sendo escaneada.

​- Bem-vinda ao lar, Isadora - Dorian disse, saindo do carro e estendendo a mão para ela. Não era um convite; era uma ordem.

​Ela aceitou a mão dele, sentindo o calor da pele contra o frio da sua. Enquanto subiam os degraus de mármore, o peso do que havia acontecido nas últimas horas parecia cada vez mais real. O escândalo no Pierre, o abandono de Julian, a queda de seu pai. Ela era uma morta-viva andando em um mundo de titãs.

​Ao entrarem no hall principal, o luxo era tão opressor que causava náusea. O teto de vidro revelava o céu noturno, e uma escadaria em caracol ocupava o centro da sala. No topo dela, uma mulher esperava. Julianna Cavendish. Ela não parecia ter envelhecido um único dia em vinte anos; seu porte era rígido, seus olhos, idênticos aos de Dorian, carregavam uma crueldade que não precisava de palavras para ser sentida.

​- Você trouxe lixo para dentro da minha casa, Dorian? - A voz de Julianna ecoou pelo salão, clara e afiada como cristal quebrado. Ela desceu os degraus lentamente, ignorando Isadora como se ela fosse um móvel mal posicionado.

​Dorian não hesitou. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre Isadora e sua mãe, uma proteção que, no fundo, Isadora sabia que era apenas a proteção de um dono sobre a sua propriedade.

​- Ela é a minha escolha, mãe. E, a partir de hoje, ela é o que define o futuro dos nossos ativos. Sugiro que você se acostume com a presença dela antes que eu decida que a sua opinião não é mais necessária nesta casa.

​Julianna soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ela parou diante de Isadora, analisando-a com um desdém que queimava.

​- Ela é fraca. O cheiro de derrota da família Vance ainda está impregnado nela. Você está brincando com fogo, Dorian. Se você acha que essa garota vai ajudá-lo a lidar com o Marcus, você é mais tolo do que eu pensava.

​Marcus. O nome pairou no ar, trazendo consigo uma tensão palpável. Isadora não sabia quem era Marcus, mas a forma como Dorian endureceu a mandíbula foi uma resposta suficiente.

​- Victor - Dorian chamou sem desviar os olhos da mãe. - Leve Isadora para o quarto. Garanta que ela tenha tudo o que precisa. E certifique-se de que ninguém entre sem a minha autorização direta.

​Victor aproximou-se, mantendo uma distância profissional, mas eficiente.

​- Siga-me, Srta. Vance.

​Isadora olhou para Dorian uma última vez. Ele estava preso em uma troca de olhares frios com a mãe, uma guerra silenciosa que ela mal conseguia compreender. Ela se virou e seguiu o segurança. Enquanto subiam, ela sentiu, pela primeira vez, que a mansão não era apenas um prédio. Era um labirinto, e ela acabara de entrar no centro dele.

​Enquanto isso, a quilômetros de distância, em um apartamento modesto nos arredores de Manhattan, Sebastian Vance observava o noticiário com uma garrafa de uísque pela metade na mão. Ele jogou o controle remoto contra a parede, vendo o rosto de sua irmã estampar as telas.

​- Maldito Cavendish - ele sibilou, os olhos injetados de raiva.

​Ele não se importava com a ruína do pai; Arthur Vance sempre fora um homem que merecia o que lhe acontecera. Mas Isadora... Isadora era a única coisa que ele ainda respeitava. E ela estava nas garras de um homem que não tinha piedade.

​O celular sobre a mesa vibrou. Era uma mensagem de um número bloqueado: "Ela está na mansão de Connecticut. O jogo começou, Sebastian. Se você quer tirá-la de lá, vai precisar de mais do que coragem. Você vai precisar de um aliado que odeia o Dorian tanto quanto você."

​Sebastian releu a mensagem, um sorriso torto e perigoso surgindo em seus lábios. Ele sabia exatamente quem havia enviado aquilo. Julian Thorne. O noivo desprezado.

​- O inimigo do meu inimigo - ele murmurou, levantando-se.

​Ele foi até o armário, afastando algumas camisas velhas para revelar um cofre escondido na parede. Digitou a senha e retirou um envelope pardo contendo documentos que poderiam destruir não apenas Dorian Cavendish, mas toda a dinastia de sua família.

​Ele sabia que seria uma missão suicida. Sabia que se fosse pego por Victor , não sairia vivo. Mas ele tinha uma carta na manga, algo que ninguém, nem mesmo o onipotente Dorian, sabia que existia. Ele iria para Connecticut. Ele iria buscar a irmã.

​De volta à mansão, Isadora estava sentada à beira da cama em um quarto que parecia mais uma suíte de um hotel cinco estrelas do que um quarto de dormir. O luxo não a confortava; o silêncio era ensurdecedor. Ela sentia-se vigiada por cada canto, por cada câmera escondida nos sensores de movimento.

​A porta abriu suavemente e Clary Miller entrou. A melhor amiga de Isadora tinha sido autorizada a vir, provavelmente como uma concessão de Dorian para manter a calma de sua nova "aquisição".

​- Isa! - Clary correu para ela, abraçando-a com força.

​Isadora sentiu as lágrimas que ela vinha segurando desde a manhã finalmente transbordarem.

​- Clary... eu perdi tudo. Eu sou uma prisioneira aqui.

​Clary soltou-a e olhou ao redor, os olhos brilhando com uma mistura de medo e determinação.

​- Eu vi o que aconteceu lá fora, Isa. Eu vi a cobertura da imprensa. Mas você não está sozinha. Sebastian me mandou uma mensagem antes de eu vir. Ele está tramando alguma coisa.

​- Ele não pode! - Isadora exclamou, sentindo o medo pelo irmão. - Dorian vai destruí-lo se ele tentar qualquer coisa.

​- Sebastian não é o mesmo garoto mimado de antes - Clary disse, baixando a voz. - Ele mudou. E eu... eu vou ajudar. Eu consegui entrar, não consegui? Dorian acha que somos apenas garotas assustadas. Ele subestima a gente.

​Isadora olhou para a amiga. Clary sempre fora a mais ousada das duas.

​- E Victor? - Isadora perguntou, lembrando-se do homem que a trouxe até ali.

​- O guarda-costas? - Clary soltou uma risada nervosa. - Ele é assustador. Mas até as máquinas mais perfeitas têm falhas, Isa. Eu vou descobrir a dele.

​Naquele momento, Isadora percebeu que a vida dela não seria apenas a submissão que Dorian esperava. Com Sebastian tramando nas sombras e Clary ao seu lado, ela percebeu que, talvez, a "queda da herdeira" fosse apenas o primeiro paço de uma guerra que ela estava começando a aprender a lutar.

​A porta do quarto abriu-se novamente. Victor estava lá. O rosto dele era uma máscara impassível.

​- Srta. Miller - ele disse, a voz profunda e sem emoção. - O tempo de visita terminou. Sr. Cavendish a espera lá embaixo.

​Clary deu um último aperto de mão em Isadora, um sinal silencioso de que elas tinham um pacto. Enquanto ela saía do quarto, Isadora viu Victor observar o movimento da garota com uma intensidade que, por um milésimo de segundo, não pareceu fria. Pareceu... curiosidade.

​Isadora estava sozinha novamente. Ela se levantou e caminhou até a janela, olhando para a vasta floresta lá fora. Ela era uma herdeira em um palácio de sombras, mas enquanto olhava para o horizonte escuro, ela percebeu que Dorian Cavendish cometera um erro fatal: ele a trouxera para dentro de seu castelo, sem perceber que, às vezes, o maior perigo para um rei não é o exército lá fora, mas a rainha que ele tranca no quarto.

Capítulo 3 A Moeda de Troca

​A manhã na mansão Cavendish não trazia a promessa de um novo dia, apenas a continuação de uma existência vigiada. Isadora acordou não com o sol, mas com o som abafado de passos pesados no corredor. O quarto era uma suíte vasta, decorada em tons de cinza e azul-marinho, tão impessoal que parecia um cenário de exposição.

​Ela sentou-se na borda da cama, sentindo o peso da seda do roupão que encontrara sobre a poltrona. Era caro, obviamente, mas parecia uma armadura de luxo. A porta abriu-se sem uma batida prévia. Não era Victor, nem uma camareira. Era Dorian.

​Ele entrou com a precisão de um predador que marca seu território. Vestia um terno impecável, o colete ajustado ao corpo, a gravata perfeitamente nódulo. Ele trazia consigo o cheiro de café amargo e o ar gélido da madrugada.

​- O café está servido na sala de estar privada - ele disse, a voz desprovida de qualquer calor humano. - Você tem trinta minutos para se vestir.

​- E se eu não quiser? - Isadora desafiou, levantando-se. A coragem era um espasmo, mas ela precisava testar as correntes.

​Dorian atravessou o quarto em três passos largos. Ele não a tocou, mas a sua presença era tão física quanto uma parede de concreto. Ele inclinou-se, o olhar fixo no dela com uma intensidade que fazia o ar parecer denso.

​- Você não está em posição de querer nada, Isadora - ele respondeu, a voz perigosamente baixa. - Seus pais assinaram a transferência da dívida. Você é legalmente, contratualmente e praticamente minha responsabilidade. O "não" é uma palavra que você vai esquecer de usar dentro desta casa.

​Ele virou-se para sair, mas parou na porta.

​- Ah, e vista algo discreto. Hoje você vai acompanhar uma reunião importante. Quero que todos vejam que a herdeira que caiu está sendo bem cuidada... pelo homem certo.

​Isadora sentiu o estômago revirar. Ele não a queria como esposa; ele a queria como troféu. Como uma forma de humilhar a elite que a descartara e, ao mesmo tempo, exibir o seu novo brinquedo.

​Enquanto ela se vestia, seus pensamentos divagavam. Onde estava Clary? O que Sebastian estaria fazendo naquele exato momento? Ela precisava de um plano, de uma brecha. Ela não era apenas uma Vance; ela era uma mulher que tinha sido criada para liderar, para negociar, para entender a política por trás das cortinas de veludo. Ela não seria submissa para sempre.

​A reunião de negócios ocorreu em um escritório que mais parecia o centro de comando de uma empresa de defesa. Mesa de mogno, telas de alta definição mostrando flutuações de ações em tempo real e homens em ternos caros que falavam em números e mortes corporativas.

​Isadora sentava-se ao lado de Dorian, as mãos dobradas no colo. Ela era o objeto de análise. Ela via os olhares que os sócios de Dorian lançavam em sua direção - desejo misturado com desprezo. Eles a viam como a mulher que perdera tudo, a herdeira caída.

​- O contrato está pronto - disse um dos investidores, um homem chamado Elias Thorne, primo distante de Julian. Ele olhou para Isadora com um sorriso lascivo. - É uma excelente oportunidade, Cavendish. Mas, me diga, o que você pretende fazer com a sua esposa quando a utilidade dela... expirar?

​Dorian, que estava assinando papéis, parou a caneta. O silêncio na sala tornou-se ensurdecedor. Ele não olhou para Elias; ele olhou para Isadora. Seus olhos eram dois buracos negros de possessividade.

​- A utilidade de Isadora é algo que só eu tenho o direito de medir - Dorian respondeu, a voz gelada. - Se você estiver preocupado com o futuro dela, talvez deva se preocupar mais com o seu próprio. Seus fundos de investimento estão sob auditoria interna, Elias. Eu sugiro que você se concentre na sua própria falência.

​O investidor empalideceu. Ele não sabia que Dorian tinha acesso a essas informações. Isadora sentiu um calafrio. Ela percebeu que Dorian não a estava "protegendo" do insulto; ele estava mostrando aos seus rivais que ele era o dono da verdade, do dinheiro e da vida de todos ali.

​Após a reunião, enquanto caminhavam pelos corredores de vidro, Isadora finalmente falou:

​- Você está usando a minha humilhação para chantageá-los.

​- Estou usando a sua presença para estabelecer limites - ele respondeu, parando em frente a uma enorme parede de vidro que dava vista para o skyline de Connecticut. - Eles precisam entender que o que é meu, é intocável. Até mesmo as coisas que não me amam.

​Isadora engoliu em seco. A honestidade dele era pior do que a crueldade.

​Em um hangar isolado nos arredores, Sebastian encontrava-se com Julian . O ambiente era frio e cheirava a combustível de aviação.

​- Você tem os documentos? - Julian perguntou, os olhos brilhando com uma mistura de ódio e ganância.

​- Eu tenho tudo o que você precisa para derrubar a Cavendish Corp - Sebastian disse, entregando uma pasta. - Mas, em troca, eu quero a minha irmã fora daquela casa. E quero que o Dorian pague.

​- Eu não quero a sua irmã - Julian disse, rindo sarcasticamente. - Eu quero o império que ele me roubou. Se para isso eu precisar usar a Isadora como isca, eu usarei.

​Sebastian sentiu um aperto no peito. Ele sabia que Julian era um canalha, mas ele não tinha outra escolha. Ele precisava de recursos, e Julian tinha os contatos no submundo.

​- Se você tocar um fio de cabelo dela, eu mesmo te mato - Sebastian avisou, a voz grave.

​- Não se preocupe, Vance. Ela ainda é a joia da coroa. Mas se Dorian Cavendish cair, a joia volta para quem pagou o preço.

​Eles apertaram as mãos. Um acordo entre dois homens que se detestavam, unidos pelo desejo comum de destruir o homem que os fizera sentir impotentes. Enquanto Julian saía, Sebastian olhou para o horizonte. Ele sentia que algo terrível estava prestes a acontecer. Ele precisava avisar Isadora. Mas como entrar em uma fortaleza de vidro onde nem o som conseguia atravessar as paredes?

​De volta à mansão, Clary encontrava-se na cozinha, tentando manter uma fachada de calma enquanto observava Victor limpar uma arma de fogo na mesa de jantar. A tensão entre eles era elétrica, um jogo de gato e rato que começara na noite anterior.

​- Você gosta de armas, Victor? - ela perguntou, tentando soar casual enquanto servia um chá que, na verdade, ela não queria.

​Victor não desviou o olhar da peça que ele lubrificava.

​- Gosto de coisas que funcionam exatamente como foram projetadas. Sem surpresas. Sem falhas.

​- E você acha que pessoas são assim? - Clary aproximou-se, o perfume floral dela invadindo o espaço do homem de gelo. - Projetadas para serem perfeitas e nunca falharem?

​Victor finalmente levantou o olhar. Seus olhos cinzentos eram profundos, quase analisando a alma de Clary.

​- As pessoas são as criaturas mais falhas do mundo, Srta. Miller. É por isso que eu sou pago para garantir que as falhas delas não custem vidas.

​Ele guardou a arma no coldre e levantou-se, aproximando-se de Clary até que a distância entre eles fosse quase proibitiva. Ela não recuou.

​- Você parece achar que é uma exceção - ele murmurou, a voz um rosnado baixo perto do ouvido dela.

​- Talvez eu seja - ela respondeu, desafiadora.

​Ele a encarou por um longo momento. Era um duelo de vontades, um jogo onde a atração era disfarçada de suspeita. Clary não sabia, mas Victor já a tinha investigado. Ele sabia quem ela era, sabia que ela era amiga de Isadora, e sabia que ela estava ali para algo mais do que apenas visitar. Mas, por algum motivo que ele ainda não conseguia explicar, ele não a entregou para Dorian. Ainda não.

​A mansão dos Cavendish era um barril de pólvora, e cada personagem - Sebastian, Julian, Clary, Victor - estava segurando um fósforo aceso. Isadora, no centro de tudo, começou a perceber que, para sobreviver, ela não teria apenas que aprender as regras de Dorian Cavendish; ela teria que aprender a quebrá-las sem ser percebida.

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