A grama verdinha estava sendo pisoteada por pessoas de várias idades. A praça era grande e ladeada por ruas largas. Em seu entorno, havia prédios públicos, algumas casas e pequenos comércios locais. Do lado esquerdo, logo depois da linha do trem, crianças brincavam de pular corda em uma rua cheia de casas coloridas. Do lado oposto, jovens entoavam uma canção sem ritmo no karaokê da pizzaria. A biblioteca, que em outros tempos possuía um jardim bem-cuidado, estava com a fachada toda destruída.
No centro, havia um coreto decorado com mosaicos, de lá tinha-se uma visão panorâmica de toda a praça e de tudo em seu entorno. Era lá que eu estava.
Do coreto, eu conseguia ver um palanque armado em frente ao acarajé mais famoso da cidade. Várias pessoas estavam ao redor dele, a maior parte delas trajava camisetas personalizadas exibindo a foto e o partido de seu candidato a prefeito. Todos comportavam-se como se ali fosse um ídolo ou um Messias. Eu sabia que ele estava longe de ser qualquer um dos dois, mas, se quisesse que tudo desse certo, teria que me comportar como parte da massa.
Enquanto eu ia de encontro às pessoas, parei, olhei para o céu e fiz uma breve prece. Era uma noite de céu limpo e estrelado, uma noite onde nada deveria ou poderia dar errado. Era a noite que marcava a abertura da campanha eleitoral e o momento perfeito para eu dar início aos meus planos.
Tirei o celular da bolsa, me misturei à multidão enlouquecida e comecei a sorrir debilmente enquanto fazia selfies com o palanque ao fundo. Precisava de uma boa foto para exibir nas redes sociais, precisava provar aos miranguenses que eu não era da oposição, que eu estava com a maioria, mesmo que essa maioria se oferecesse como carniça aos urubus.
Ao fim do longo e esperançoso discurso, santinhos políticos foram jogados para o alto como confetes. Logo depois, todos foram para a Igreja Matriz, que ficava a poucos metros da praça central onde o comício havia acontecido, e claro que eu também fui com a multidão.
Assim que subi os quatro degraus que margeavam toda a frente da igreja, parei e fiquei olhando a nova pintura, cuidadosamente bem-acabada e nas cores da campanha de Daniel. A igreja era simples, o único luxo eram os azulejos portugueses azul e branco que decoravam as paredes cortadas por compridas janelas. Duas fileiras de enormes bancos de madeira ficavam de frente para um altar simples, forrado com toalhas brancas.
Coincidentemente - eu não acreditava nisso -, aquele era o dia do aniversário de Daniel Murtiga, o candidato com mais chance à eleição. Era em sua homenagem que aconteceria a missa na Igreja Matriz.
Miranga era uma cidade atrasada em relação ao resto do mundo, mas não muito diferente de várias outras cidadezinhas do interior baiano. Política e religião se misturavam num sincretismo pavoroso, onde mentes maquiavélicas se aproveitavam da fé alheia para usurpar votos em troca de promessas ungidas e abençoadas.
- Clara, aqui! - Ouvi a voz de Tércia, a minha melhor amiga, ela havia guardado um lugar para mim. - Bem no meio, como você pediu.
Sentei-me, abraçando a minha amiga. Foi um abraço demorado e carinhoso. Tércia não morava mais em Miranga, foi até ali só para me dar uma força, e eu sei que, lá no fundo, ela ainda tentaria me convencer a desistir dos meus planos.
Eu havia voltado para a cidade há um mês com o único propósito de buscar justiça, depois iria embora para nunca mais retornar. O plano era arriscado, eu sabia disso, mas não iria recuar, nem mesmo pela minha melhor amiga. Tércia insistia que aquilo não seria saudável para mim, dizia que, no final, eu sairia muito mais destruída dessa história.
- Você está bem? - foi a primeira coisa que perguntou assim que nos soltamos. Afirmei com um resoluto movimento de cabeça. - Será que ainda consigo dissuadi-la a voltar atrás? - Neguei com a mesma energia.
- Você vem tentando isso há meses, e nunca conseguiu, não vai ser agora que já estou aqui que vou ceder. - Acariciei o seu rosto com gentileza. - Amiga, eu te amo, mas não me peça mais isso.
Ela se conformou, pelo menos foi o que me pareceu. Tércia sabia o quanto fazer aquilo seria importante para mim. O ódio que eu nutria pela família Murtiga era uma gangrena que corroía a minha alma, mas eu não conseguia me livrar dele.
De mãos dadas, voltamos a atenção para o púlpito da igreja que, a propósito, estava lotada. Muitas pessoas ficaram em pé, cabeças se espremiam na porta, todos se aglomeravam para tentar ver o candidato a prefeito de perto.
- Eita, tem gente saindo pelo ladrão! - Tércia comentou enquanto se abanava devido ao calor do final do outono.
- Não usa essa expressão, aqui muitos vão pensar que é indireta. - Sorri da minha piada e percebi o quanto estava tensa.
O padre Carlos começou a missa.
- Hoje nós temos a casa cheia. Obrigado, meu bom Deus! Está como o Senhor gosta. Amém?
- Amém! - Todos em uníssono.
- Temos muitas pessoas lindas neste recinto, mas não posso deixar de falar da presença de nosso ilustríssimo cidadão, filho da terra, cria da nossa paróquia, Daniel Murtiga. - Estendeu o braço na direção do candidato, que sorriu acenando para todos. - Um homem honrado e digno de nossa confiança. - Todos o aplaudiram como em um comício. - Eu poderia passar a noite listando as qualidades desse homem, poderia falar o quanto ele é e sempre foi importante para o nosso município, o quanto ajudou os mais necessitados e o quanto ainda pode vir a ajudar, se é que me entendem. - Todos caem na risada. - A lista seria enorme, mas vou falar apenas vinte e cinco motivos para gostarmos dele.
As risadas tornam-se estrondosas, pois vinte e cinco era o número de campanha do candidato em questão. O padre começou a enumerar todos os favores que Daniel havia prestado aos cidadãos miranguenses. Das cirurgias gratuitas à dentadura que permitia um sorriso mais simpático, do botijão de gás até aquelas telhas que impediam as goteiras dentro das casas. Tudo era jogado na cara de um povo simples e necessitado, que levava a gratidão tão a sério quanto a própria religião. Eles não percebiam que tinham seus direitos negados para serem humilhados. Eram induzidos a trocar votos por pão. Eu estava boquiaberta e visivelmente enojada com toda aquela situação.
- Meu Deus, isso é prostituição moral! Como pode um líder religioso usar o altar como palanque? - falei bem próximo ao ouvido de Tércia. - Isso é tão mesquinho, tão feio.
- É feio para quem é contra! - a fala veio acompanhada de uma batida em meu ombro, era a diretora de educação municipal que estava logo atrás de mim. - Por acaso você é da oposição?
Eu e Tércia nos assustamos com a inquisição de Irene Santos. Me perguntei como ela ouviu algo que foi dito ao pé do ouvido de outra pessoa e em um tom baixo. Miranga, pelo jeito, não mudou em nada, tinha olhos e ouvidos em todos os cantos. Percebi que precisaria ter muito cuidado e sangue frio para que meus planos tivessem o sucesso almejado.
- Meu voto é secreto - respondi, encarando uma Tércia que balançava a cabeça, pedindo que eu tivesse cautela -, mas acho que isso deixa claro a minha posição. - Virei-me para a diretora e apontei o adesivo colado ao bojo do vestido preto e superdecotado. - Só não tô acostumada com essa mistura de política com religião.
Irene não se convenceu de que foi um inocente descuido de minha parte e nem se dignou a responder-me, apenas voltou a cabeça para o padre, ignorando-me.
A missa continuou com o padre tocando nas feridas da população, fazendo com que todos se lembrassem da miséria em que viviam e a quem deviam gratidão, caso quisessem continuar recebendo auxílio. Era assim que a política em Miranga funcionava. O voto era de um cabresto arraigado, porém, disfarçado, moldado pela religião e alimentado com migalhas.
Assim que a missa acabou, formou-se uma fila, todos queriam apertar a mão do homem que, segundo o padre local, traria melhorias para a população. Parecia uma procissão, cada um com o seu pedido, respondido com promessas vazias de "Se eleito, vou dar o meu sangue por este lugar, assim como vem fazendo o meu pai".
Pai.
Essa palavra tão forte e cheia de significados que me levou até ali e que me dava forças para continuar.
Depois do que pareceu uma eternidade, chegou a minha vez apertar a mão do ilustre candidato. Eu tremia só de imaginar tocar naquele homem asqueroso, mas era um sacrifício que valeria a pena. Teria que valer! Ajeitei o generoso decote e estiquei a bainha do vestido para que não parecesse tão vulgar.
Eu tenho estatura mediana e não sou dotada de muitas curvas. Não gosto de atividades físicas, faço apenas natação. Eu adoro o contato com a água, pois me traz doces recordações da infância. Com uma aparência normal, nada exuberante, um rosto bonito e um olhar sensual, é o que dizem, eu conseguia seduzir usando elegância e inteligência.
- Prazer, Clara! - Minha voz estava trêmula, mas poderia passar a impressão de nervosismo diante do ídolo.
- Não vai fazer nenhum pedido? - Daniel perguntou sem soltar a minha mão.
- Um emprego, estou retornando para a cidade e estou precisando de trabalho. - Eu estava planejando apresentar currículo na única escola particular da cidade, mas poderia aproveitar que ano eleitoral era melhor para se conseguir empregos nos cargos públicos.
- "Um bom filho à casa retorna".
- É o que dizem.
- E bela moça faz o quê? - Daniel oscilava o olhar entre meu decote e os meus lábios.
- Sou professora de Língua Portuguesa. - Sorri pequeno, tentando parecer tímida e, ao mesmo tempo, sensual.
- Seja bem-vinda, professora! Que profissão bonita! Vocês são o alicerce de nosso país - falou a última frase elevando a voz. - E não esqueça de transferir o título de eleitor, se for do seu interesse, é claro!
- Ah, é claro! Já providenciei isso - respondi, soltando a sua mão.
Saí da igreja assim que pude. Tércia estava na porta, esperando-me com uma garrafinha de água mineral, que eu bebi em grandes goles antes de deixar as lágrimas caírem.
Apressei-me até o carro com medo de que me vissem chorando e sentei-me no assento do carona, entregando a chave para Tércia.
- Amiga, desiste disso! - Tércia suplicou com preocupação. - Mal começou, e você já está assim. - Colocou o cinto de segurança e segurou o volante com força.
- Não posso, você não entende? - Enxuguei os olhos e levantei a cabeça, puxando ar com mais força do que o normal. - Pode seguir, vamos pra casa, preciso de um banho, pois estou nojenta depois do toque desse homem.
Ficamos caladas durante todo o trajeto. Concentrei-me em olhar pela janela e ver todas as transformações ocorridas nesses mais de dez anos que fiquei fora. Apesar de algumas mudanças físicas, percebi que as grandes famílias ainda dominavam o comércio local. Enquanto mergulhava em minhas recordações, nem me dei conta que já estávamos no bairro onde vivi a maior parte de minha vida.
A casa que aluguei ficava no mesmo bairro onde nós duas moramos na infância. Nos conhecemos através da cerca que separava os quintais de nossas casas. No caminho, paramos diante delas, mas hoje era totalmente diferente de outrora. Os novos donos haviam construído no primeiro andar, agora a casa tinha uma garagem e um ar de classe média. Nem de longe era a casa da minha infância, aquela que trazia à tona as melhores e piores recordações de minha vida.
A rua estava diferente, silenciosa. Em outra época, ali era uma extensão da sala de estar. Muitos levavam suas cadeiras e poltronas para os passeios, alguns seguravam uma tábua nas pernas, improvisando uma mesa para o carteado ou o jogo de dominó. As casas ficavam com portas e janelas abertas, as crianças entravam e saíam sem pedir permissão, pois todos eram de confiança. Ninguém se assustava se, durante o jornal ou a novela, alguém passasse correndo e se abaixasse atrás do sofá, com certeza eram crianças brincando de esconde-esconde.
Quase toda a minha família paterna morava ali. À direita de minha antiga casa, ficava a casa de Tia Nana, a mais simpática de todas. Do lado esquerdo, ficava a casa onde Tércia morava. Tia Lula morava de frente para mim. Ao lado dela, ficava a casa do meu avô Antônio, logo depois a de tio Lucas, e assim por diante. Tia Lula havia se casado com um petroleiro, era a abastada da família.
Para mim, a Tia Lula oscilava entre um anjo bom e uma megera, pois sempre ajudava as pessoas, mas depois as humilhava. Por várias vezes, fui vítima de suas maldades. Enquanto olhava para o que um dia foi o meu lar, várias recordações vieram à mente, abrindo feridas que nunca sararam.
- Poxa, Thaís, você riscou a parede do meu quarto, agora mainha vai brigar comigo! - resmunguei enquanto tentava limpar a sujeira que a minha prima fez.
- Aff, Clara, deixa de ser ruim! Mainha deixou você morar aqui, agora não posso nem desenhar na parede que você reclama. - Thaís sempre jogava na minha cara que eu morava ali de favor. - Esta casa é minha, sabia? Minha mãe disse que, quando eu crescer e me casar, venho morar aqui.
Eu revirava os olhos e voltava a limpar a parede. Saímos da roça para morarmos na cidade só para eu poder estudar. O terreno, que o meu pai comprou com muito sacrifício, havia sido invadido pelo filho de um famoso grileiro de terras da região. O alicerce da casa já estava pronto, metade das paredes já tinha sido levantada, mas todo o investimento foi perdido. Meu pai tentou reaver a propriedade, mas foi ameaçado de morte. Sem dinheiro e sem opção, teve que aceitar a ajuda da irmã e acabou construindo na metade do terreno que ela gentilmente lhe cedeu.
Na outra metade do terreno, a Tia Lula construiu uma casa para alugar, foi assim que eu e Tércia nos conhecemos. A nova vizinha foi um anjo bom na minha vida. Nós duas compartilhamos os brinquedos, as dúvidas e as angústias. Tornamo-nos muito mais do que amigas.
Thaís era tão cruel quanto a mãe, que justificava os erros da filha com a desculpa de que a menina tinha ciúme de mim e por isso me pirraçava. Eu sabia que aquela casa não era da minha prima, era minha. Meu pai que a construiu, mas as humilhações pelo favor prestado eram diárias e sempre dirigidas a mim e à minha mãe.
Uma batida no vidro me tirou de meu devaneio.
- Querem alguma coisa? Estão perdidas? - Era o novo morador da casa.
- Não, senhor, me desculpe, é que o carro morreu. - Tércia virou-se para mim e, como se pedisse permissão, girou a chave na ignição, saindo dali em seguida.
Assim que chegamos em casa, tomei um banho revigorante.
- Não vai comer nada? - Tércia perguntou enquanto mexia algo numa panela.
- Não estou com fome. - Me dirigi ao quarto e fui deitar-me. O dia havia sido desgastante demais.
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- Socorro! Tem um bebê nas pedras, socorro! - gritei, apontando para uma criança pequena andando sobre o quebra-mar.
Ninguém fazia menção de se atirar ao mar, todos ficavam boquiabertos, apontando para a onda gigante que se aproximava. Eu não entendia como ninguém se mexia para salvar a pobre criança, então, sem pensar, resolvi mergulhar. Apesar de nadar bem e a distância não ser muito longa, demorei para chegar às pedras. A criança havia sido atingida pela onda, estava de bruços e parecia desmaiada. Quando eu a carreguei no colo, vi o seu rosto todo desfigurado e suas mãos dilaceradas pelo choque com as pedras. A dor foi excruciante.
- Ah, socorro!
Tércia pulou da cama com o susto. Ela estava dormindo ao meu lado quando comecei a gritar. Com certeza era aquele pesadelo de novo.
- Clara, calma, calma! - Tércia me acolheu em seus braços, como sempre fazia naqueles momentos. - Foi só um sonho ruim. Já passou. Shi!
Não sei o que esse sonho significa, mas eu o tive um dia antes da morte do meu pai e o tenho até hoje, mais de uma década após o ocorrido. Eu acho que é um pedido de socorro e só eu posso ajudá-lo, por isso não vou descansar até me vingar de Daniel. Foi pensando em fazê-lo sofrer que eu voltei a dormir horas depois do pesadelo.
Tércia me convenceu a ir espairecer, afinal, era sexta-feira e eu estava tensa demais. Resolvemos ir até o vilarejo na zona rural onde eu morei na primeira infância. Queria ser eu mesma por algum tempo, porque depois teria que ser a perfeita daquela cidade, a contratada exemplar, a ovelha que abaixa a cabeça e diz "sim, senhor'' sem pensar.
Dirigimos por quase meia hora até a Embira Branca. Queria ir até o barzinho de seu Nô, um amigo antigo de minha família. Eu tinha ótimas recordações do lugar, um ambiente bem familiar à beira do rio do Buril, onde eu costumava pescar com o meu pai. Lembrei-me também dos deliciosos pratos caseiros que eram servidos lá. Dona Isaura, esposa de seu Nô, era cozinheira de mão cheia. Seria bom um pouco de recordação positiva para lembrar-me de quem eu era e que o mundo não era um lugar apenas de pessoas más.
Senti-me um pouco decepcionada logo que cheguei, pois o lugar não era mais isolado como antes. De onde estava, conseguia avistar uma ou outra casa nos terrenos mais elevados. A estrutura externa do estabelecimento também estava diferente, mesmo que preservasse as características rústicas que eu tanto apreciava. O telhado de palha foi substituído por telhas de cerâmica vermelha, as paredes de taipa estavam cobertas por tijolos marrons e havia um novo andar, provavelmente uma casa sobre o bar. A varanda continuava cercada de árvores frutíferas e mesas de jaqueira com bancos de madeira maciça. A lua cheia refletia sua imponência sobre as águas do rio, que brilhavam e faziam lembrar-me das pescas noturnas com o meu pai.
Tércia percebeu uma lágrima formando-se em meu rosto, então, puxou-me pela mão e nós duas entramos pela porta vaivém. Sorri ao constatar que a porta não havia mudado. O bar estava cheio, o cheiro de comida caseira pairava no ar e meu estômago roncou ao sentir-se em casa. Fui até o balcão, pedi água e duas cervejas a um rapaz.
- Se nós duas vamos beber, quem que vai voltar dirigindo para casa? - Tércia perguntou, me encarando.
- Par! - Escondi as mãos nas costas.
- Quanta maturidade, hein, Clarinha! - Tércia apertou os olhos de forma debochada. - Pode beber, eu sei que está precisando bem mais que eu.
- Pô, amiga, vou aceitar, viu? - Não me fiz de rogada. - Amanhã a gente sai e deixo você beber todas.
- Quanta evolução! - Tércia ironizou. - O meu robozinho, que só pensa em sua desforra, já está planejando se divertir amanhã de novo. Fico feliz com isso, de verdade.
As cervejas chegaram e eu tomei um copo inteiro em grandes goladas e já parti para o segundo. Estava calor, e eu não bebia há tempos. Sabia que deveria ter moderação, mas viveria milimetricamente controlada nos próximos quase três meses, queria desopilar ao menos neste fim de semana.
- Vai com calma, Clara! A noite mal começou, e você já entornou duas cervas. - Tércia me conhecia como ninguém e sabia que eu estava entrando em pânico. - Não trouxe o ENGOV, assim teremos um carro fedido amanhã.
- Ah, amiga, deixa-me beber, vai? - Bati no balcão, pedindo a terceira rodada. - Vamos dizer que é nossa despedida, vou levar o maior tempão sem te ver.
Tércia olhou em volta, tentando mudar de assunto, e eu senti que ela estava me escondendo algo.
- Clara? - uma mulher que parecia me conhecer chamou-me e ficou encarando. Ela percebeu que eu não havia a reconhecido. - Não se lembra de mim, não é?
Um cliente se aproximou e ela me deixou para atendê-lo. Tércia me encarou curiosa, e eu apenas dei de ombros, pois sabia tanto quanto ela. A mulher apoiou a cerveja no balcão e se abaixou para pegar o abridor, quando se levantou, tomei um susto.
- Meu Deus, devo estar muito bêbada, juro que vi um cara bem gato me atendendo - falei logo depois de um arroto. - Perdão, mas acho que não te conheço.
Ela era muito bonita, parecia ser um pouco mais velha do que eu e, por mais que tentasse, não conseguia recordar-me dela.
- Sou eu, Angélica, filha de seu Nô, o dono deste bar. E, sim, foi um rapaz que te atendeu - falava enquanto derramava o líquido âmbar em meu copo. - Nossa, se eu não fosse boa fisionomista, acharia que estava falando com a pessoa errada.
Eu fiquei assustada e, ao mesmo tempo, sem graça por não reconhecer a simpática mulher, mas, assim que entornei todo o líquido do copo, uma lembrança chegou até mim.
- Anjinha? É você? - Recordei-me daquela menina magrinha que sempre brincava comigo quando eu ainda era pequenina. - Dá cá um abraço, minha eterna anjinha.
Dei a volta no balcão e abracei a mulher. Nós duas estávamos visivelmente emocionadas. Todas as lembranças voltaram em flashes. Seu Nô era amigo de meu pai e, sempre que podiam, as famílias se encontravam. Geralmente era na casa do seu Nô, pois este tinha um bar e não podia se ausentar por trabalhar de domingo a domingo. Lembrei-me de quando tinha quatro anos e houve um descarrilamento do trem na cidade. Por conta do incêndio que deixou muitos mortos, eu e minha mãe passamos uma semana na casa de seu Nô enquanto o meu pai ficava na cidade ajudando na reconstrução das casas destruídas, afinal, ele era pedreiro de mão cheia.
Apesar da diferença de idade entre nós duas, sempre brincamos juntas. Eu era a bonequinha de Angélica, mas lembro que só a chamava de Anja, tanto que o apelido pegou e todos passaram a chamá-la assim. Repentinamente, Angélica ficou doente e teve que ir para a capital morar com uma tia. Quando retornou, quase dois anos depois, não era mais a mesma menina feliz. Seu Nô vivia repreendendo-a e nem a chamava mais de Anjinha. Segundo o que a dona Isaura contou para a minha mãe, Angélica sorria apenas na minha presença e, mesmo assim, não brincava mais como antes, pois seu Nô a colocava para trabalhar o tempo todo. Assim que iniciou o ano letivo, seu Nô novamente enviou Angélica para a cidade, disse que ela faria curso técnico à noite e tomaria conta do priminho pela manhã. Me recordo que, a partir daí, só via Angélica nas férias. Depois da morte de meu pai, nunca mais havíamos nos visto, até este dia.
- Menina, como você cresceu. - Angélica me olhou de cima a baixo. - Ficou um mulherão lindo da porra!
- Ah, para! Assim eu fico sem graça. Deixa-me te apresentar a minha melhor amiga. Vem cá, Tércia! - Sorri para Angélica. - Tá vendo essa mulher linda aqui? Esta é a minha Anja.
Tércia sabia que eu não era efusiva daquele jeito, era fraca para bebidas e, com certeza, já estava levemente alterada.
- Prazer! - Tércia e Angélica abraçaram-se feito velhas amigas. - A Clara falava muito em você quando éramos crianças, só não morria de ciúme porque achava que você não era real. Nunca te via.
No início de nossa amizade, contei sobre Angélica para Tércia. Eu sofri muito quando ela foi embora. Angélica era uma espécie de irmã mais velha, bem mais velha, já que dez anos nos separava.
- Pois é, tive que ir embora, as coisas se complicaram e acabamos perdendo o contato. - Angélica pareceu triste ao lembrar do passado. - Mas, cá estamos nós, a vida dá voltas, mas parece que nossos destinos estão entrelaçados, né, Clarinha?
Me limitei a levantar o copo e fazer um brinde à nossa amizade. Todas caíram na risada e me seguiram.
- Oxe, vai brindar com água por que, dona Tércia? - Angélica tinha uma voz vibrante e levemente autoritária. - Não aprovou o cardápio de cervejas, não? Tem vinho e caipirinha também.
- Estou dirigindo, hoje é a vez de ela beber. - Apontou para mim.
- Pois pode beber que hoje vocês duas vão dormir aqui - proferiu, entregando um copo a Tércia. - Hoje nós vamos comemorar esse reencontro lindo.
Tércia arqueou os ombros e, ao olhar para mim e me ver dançando no meio do salão, deve ter julgado que talvez esta fosse uma ótima opção. Ela também estava louca para beber um pouco e eu adorava vê-la sorrindo quando bebia. Tércia pegou o copo e sorveu todo o líquido de uma vez, logo depois foi para perto de mim e nós começamos a dançar ao som de Reginaldo Rossi. Tércia não gostava muito do gênero, mas já que estava na chuva, que se molhasse então. Angélica voltou para o balcão e foi atender os outros fregueses, ela não demorou a colocar dois pratos caprichados na mesa e nos chamou para comermos.
- Bora encher o bucho que não quero ninguém passando mal por aqui. - Sentei-me diante do prato e aspirei o aroma da comida como se fosse a maior faminta do planeta. - Cheiro bom, né? Pode comer que é igualzinho ao que mainha fazia.
Não precisou insistir muito para que começássemos a devorar o prato como se não comêssemos há séculos. A comida tinha cheiro de passado, gosto de infância e evocou memórias do meu pai.