Ponto de vista de Camille
Três anos se passaram - mil e noventa e cinco dias tentando ser a esposa perfeita, e essa foi minha recompensa: um acordo de divórcio no dia do nosso aniversário.
Meus olhos se fixaram na assinatura impecável de Stefan na última página, cuja tinta ainda estava fresca. Ele devia tê-los assinado nessa manhã, provavelmente logo depois que deixei aquele estúpido cartão de aniversário feito à mão sobre o balcão da cozinha, intocado.
Foram três anos de casamento resumidos num gesto singelo e personalizado que ele nem se dera ao trabalho de ver.
Eu havia passado horas da noite passada escrevendo palavras que considerava simbólicas, como uma idiota que acreditava em contos de fadas.
Era engraçado como só percebi essas pequenas coisas quando o mundo estava desmoronando...
Enquanto isso, meu café esfriava.
"Assine aqui e aqui. As cláusulas destacadas precisam ser rubricadas." A voz de Stefan era distante e formal.
Os papéis do divórcio sobre a mesa pareciam contratos de uma de suas reuniões, com marcadores adesivos indicando cada linha de assinatura.
Minhas mãos não paravam de tremer. "Vamos fazer isso hoje? No nosso aniversário de casamento?"
Ele suspirou, um som familiar de decepção que eu já havia ouvido tantas vezes. "Camille... Não faz sentido prolongar isso."
O sol da manhã iluminava as janelas da nossa cozinha, refletindo no diamante em meu dedo - três quilates, corte princesa, escolhido pela mãe dele.
"Sei que não é seu estilo, querida, mas é o que uma esposa Rodriguez deve usar", ela dissera na época. Como tudo em minha vida, a joia nunca foi minha de verdade.
"Há outra pessoa?", perguntei, a questão pairando no ar denso entre nós.
Stefan ajeitou a gravata de seda italiana azul, que eu havia lhe dado de presente de Natal. "Sim."
Uma única palavra bastou para apagar três anos tentando ser a esposa perfeita.
"Há quanto tempo?"
"Dois meses. Meu primeiro amor voltou para a cidade. Ela...", começou, mal olhando em meus olhos.
"Dois meses", repeti, pensando em todas as noites que ele ficava até tarde no escritório, nos jantares que perdeu e no fato de ele ter parado de me beijar pela manhã. "Você ia me contar? Ou continuar mentindo até que os papéis estivessem prontos?"
"Não queria te machucar."
Diante dessas palavras, uma risada escapou de mim, áspera e estranha. "Que atencioso da sua parte."
Nesse momento, minha mão bateu na caneca de café, a fazendo se espatifar no chão. O líquido escuro se espalhou pelos azulejos impecáveis, manchando o rejunte que eu havia esfregado de joelhos na semana passada porque a mãe dele iria nos visitar.
"Deixe eu limpar isso...", disse Stefan enquanto pegava o papel-toalha.
"Não. Só... não finja se importar agora." Minha voz ecoou embargada.
Quando me abaixei para pegar os cacos, de repente uma foto deslizou dos papéis do divórcio e caiu virada para cima sobre o café derramado.
Nesse momento, meu mundo parou.
Eu conhecia bem esse sorriso e olhos, além da expressão perfeitamente equilibrada que assombrava todas as fotos de família desde que eu tinha doze anos.
"Rose? Seu primeiro amor foi Rose?" O nome da minha irmã tinha um gosto amargo.
O silêncio de Stefan respondeu à minha pergunta, e foi então que as lembranças me atingiram como um soco no estômago.
Lembrei-me de Rose me ajudando a escolher meu vestido de noiva e fazendo um brinde na nossa festa de noivado. Lembrei-me dela ligando toda semana para saber como estava meu casamento, dando conselhos sobre como fazer Stefan feliz.
Ela era minha irmã adotiva, a filha de ouro dos meus pais e a única que eles decidiram amar.
Como um passe de mágica, as peças começaram a se encaixar. "Ela nunca saiu da cidade, né? Ela esteve aqui o tempo todo, só esperando por este momento, fingindo ser a irmã solidária enquanto vocês dois riam da estúpida e ingênua Camille."
Stefan passou os dedos pelos cabelos. "Não foi assim. Tentamos lutar contra isso, mas algumas pessoas simplesmente estão destinadas a..."
Meus dedos se apertaram em torno da cerâmica quebrada. "Se você disser 'destinadas a ficar juntas', juro que jogo o que sobrou dessa caneca na sua cabeça. Há quanto tempo você está com ela? Antes de mim?"
Mexendo-se desconfortavelmente, ele respondeu: "Quatro anos, quando ela recebeu a proposta de emprego em Londres."
Quatro anos... a mesma época em que comecei a namorar Stefan e que, do nada, Rose se tornara minha maior incentivadora, me empurrando para ficar com ele.
"Ela armou tudo, e eu caí nesse jogo como um patinho", sussurrei.
"Camille, você está sendo dramática. Rose se importa com você."
"Como ela se importa se disse ao meu primeiro namorado que sou uma mercadoria danificada? Ou quando convenceu meus pais de que eu era muito instável para a faculdade? Ela passou a vida inteira me sabotando, e eu sempre arranjava uma desculpa para defendê-la porque é isso que uma boa irmã faz, não é?"
O caco da caneca cortou minha mão, mas eu mal senti a dor, o sangue pingando sobre os papéis do divórcio.
Quando Stefan estendeu a mão em minha direção, me afastei. "Não me toque."
Então, peguei um pano de prato e o enrolei em minha mão. "Onde ela está agora? Esperando para me consolar pelo meu divórcio? Ou planejando o casamento de vocês?"
"Ela queria estar aqui, mas achei melhor..."
Soltei outra risada, dessa vez, carregada de histeria. "O que você achou melhor? Ah, claro! Vocês estão tão preocupados com o que é melhor para mim... Que pessoas atenciosas."
Peguei a caneta, a Mont Blanc que ele me dera no nosso primeiro aniversário, e a mesma que Rose o ajudara a escolher.
"Camille, espere. Precisamos conversar sobre isso direito."
Sem dizer nada, assinei todas as páginas de forma firme e uniforme, pois eu queria que eles vissem que eu não estava desmoronando e que pensassem que haviam vencido.
Pegando minha bolsa, os papéis assinados e a foto de Rose, concluí: "Já conversamos o suficiente. Chega de fingimentos. Chega de ser a irmã boazinha, a esposa perfeita, e a filha que nunca reclama."
"Para onde está indo?"
"Para longe de você e dela. Para longe de todos que acham que Camille Lewis é alguém que podem usar e descartar."
Nesse momento, meu celular vibrou, o rosto sorridente de Rose iluminando a tela.
Ela ligou na hora certa, pronta para desempenhar seu papel, mas recusei a ligação e caminhei em direção à porta.
Atrás de mim, Stefan gritou: "Você não pode simplesmente ir embora. Precisamos discutir os detalhes sobre a casa, as contas..."
Virei-me para encará-lo uma última vez. "Pode ficar com tudo. A casa, os carros, e a vida que você construiu em cima de mentiras. Não quero nada que me lembre de vocês."
"Camille, por favor..."
Abri um sorriso, e algo em minha expressão o fez recuar. "Adeus, Stefan. Ah, e mande um beijo para Rose. Aliás, agradeça a ela por mim."
"Pelo quê?"
"Por finalmente me mostrar a verdade - sobre ela, sobre você, e sobre quem preciso ser."
Após dizer essas palavras, saí dessa casa e dessa vida, deixando minhas impressões digitais cheias de sangue na maçaneta da porta. Que eles tentem apagá-las tão facilmente quanto fizeram comigo.
Três anos fingindo ser alguém que eu não era. Três anos engolindo a dor e arranjando desculpas para pessoas que nunca mereceram minha lealdade.
Nesse momento, meu celular vibrou novamente - era Rose, depois, minha mãe, em seguida, Stefan. Um por um, bloqueei todos eles, cortando qualquer conexão com a vida que eu achava que tinha que viver.
Ao entrar no carro, olhei para meu reflexo no retrovisor. As lágrimas borravam minha maquiagem, o sangue manchava meu vestido, e meu cabelo havia se soltado de seu coque perfeito.
Eu não parecia em nada com a esposa elegante e recatada com quem Stefan Rodriguez havia se casado.
Ponto de vista de Camille
A casa estava quieta, quieta até demais. Entrei pela porta lateral antes de trancá-la cautelosamente.
O ar cheirava a lustra-móveis de limão e rosas, como de costume. A cozinha estava escura, exceto pelo brilho fraco do painel da geladeira.
Era estranho estar de volta, como se estivesse entrando no lar de outra pessoa.
Então, subi as escadas silenciosamente, tomando cuidado para não pisar no terceiro degrau que rangia. Cada mínimo som que eu fazia parecia estridente, como se a casa estivesse me ouvindo e me julgando.
Quando cheguei à porta do meu quarto, parei ao perceber que ela estava entreaberta, exatamente como a deixei todos esses anos atrás.
Respirando fundo, entrei e a fechei.
Meu quarto de infância não mudara nada em três anos, com as mesmas paredes rosa-pastel, os mesmos móveis brancos, e a mesma coleção de troféus de segundo lugar. Os troféus de primeiro lugar de Rose ficavam expostos no quarto ao lado.
Olhei para meu reflexo no espelho da penteadeira, onde eu havia feito minha maquiagem de casamento há três anos, enquanto minha irmã estava atrás de mim com aquele sorriso perfeito no rosto. Agora, meu rímel estava borrado, o cabelo todo bagunçado e o vestido de marca, amarrotado.
Se minha mãe me visse assim, teria um ataque.
O relógio na minha mesa de cabeceira marcava dez e quarenta e sete da noite.
Naquela época, eu havia ficado sentada aqui por horas, empacotando o pouco que restava da minha antiga vida. Era incrível como dezessete anos nessa casa cabiam numa única mala.
Em meio ao devaneio, meu celular começou a vibrar novamente, pela vigésima vez em uma hora. Desta vez, era minha mãe.
"Camille, sua atitude é ridícula. Volte para casa para discutirmos isso como adultos. Rose está morrendo de preocupação..."
Sem nem responder, toquei na opção de encerrar a chamada.
Era óbvio que Rose estava preocupada. Afinal, seus planos cuidadosamente elaborados estavam indo por água abaixo...
Nesse momento, ouvi a porta de entrada no andar de baixo ser aberta, e paralisei diante dos passos familiares no assoalho de madeira. A batida leve dos saltos, o sussurro do tecido caro...
"Camille?" A voz da minha mãe ecoou pelas escadas. "Querida, sei que você está aqui. A empregada viu seu carro."
Eu deveria ter sido mais esperta e estacionado no quarteirão de trás, mas nunca fui a mais inteligente, não era mesmo? Esse era o papel de Rose.
Logo, mais passos surgiram, e uma voz mais grave ecoou - a do meu pai, que provavelmente fora chamado do trabalho para lidar com a filha caçula histérica. Mais uma vez...
"Princesa? Vamos conversar..." Sua voz carregava o mesmo tom gentil que ele usava quando eu tinha doze anos e chorava porque Rose havia ficado com meu lugar na peça da escola.
Um terceiro par de passos, mais leves e graciosos, perfeitos como tudo que vinha da dona deles fez meu sangue gelar.
"Camille? Querida, por favor. Não nos rejeite assim." A voz de Rose transbordava preocupação.
Olhei para a foto da família na minha cômoda, tirada no dia em que a adoção dela foi oficializada.
Minha mãe e meu pai sorriam de orelha a orelha, Rose estava radiante no seu vestido novo, e eu, com treze anos, forçava um sorriso com aparelho nos dentes e o rosto cheio de espinhas.
Uma feliz e bela família... Que piada.
De repente, a lembrança daquele dia me atingiu como um soco no estômago.
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"Mas estou ensaiando há meses, e a senhora Bennett disse que o papel principal era meu!", exclamei, segurando meu roteiro enquanto o choro embargava as palavras.
Rose tocou meu ombro com sua gentileza de sempre. "Ah, irmãzinha. Não foi minha intenção pegar seu papel. É que... as palavras saíram tão naturalmente durante a audição que a senhora Bennett disse que eu tinha um dom."
Claro que tinha - todos diziam que ela tinha um dom. Para a música, para a atuação, para fazer as pessoas amá-la.
"Talvez..." Os olhos de Rose brilharam com aquela centelha especial que sempre significava problemas. "Você pudesse me ajudar a ensaiar? Sendo minha atriz coadjuvante? Poderíamos fazer disso um trabalho entre irmãs!"
Acabei aceitando, já que era isso que boas irmãs faziam. Se eu lhe dissesse não, receberia olhares decepcionados da minha mãe e sermões do meu pai sobre lealdade à família.
Na noite de estreia, assisti das coxias enquanto minha irmã arrancava lágrimas do público. Depois do espetáculo, minha mãe entregou a ela um lindo buquê de rosas cor de pêssego, e meu pai nos levou para jantar fora.
Ninguém comentou sobre os discursos bem elaborados que eu havia escrito para ela durante nossos "ensaios", ou que o monólogo dramático dela era idêntico ao que eu apresentara na minha audição original.
Em meio a tudo isso, o único talento de Rose era a memorização, apenas.
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"Camille Elizabeth Lewis! Esse comportamento é inadmissível!", gritou minha mãe com rispidez, me trazendo de volta ao presente.
Quando abri a porta do meu quarto, deparei com eles no corredor como um retrato de família perfeita - minha mãe com seu terninho de grife, meu pai num visual elegante em seu traje de trabalho e Rose exibindo sua preocupação como parte essencial do look despojado.
"Olá, irmã. Não deveria estar consolando seu noivo?", perguntei com a voz firme.
Diante das minhas palavras ácidas, os olhos de Rose se arregalaram.
Sempre tão boa em atuar...
"Camille, por favor. Me deixe explicar..."
"Explicar o quê? Como você está dormindo com meu marido? Ou como armou tudo isso desde o começo?"
"Do que ela está falando?", meu pai perguntou a Rose, cujos olhos já estavam marejados.
"Ela está me atacando assim porque está chateada. Você sabe como ela é, papai", ela sussurrou, as lágrimas perfeitas e delicadas, que nunca borravam sua maquiagem, prestes a cair.
Soltando uma risada que soou estranha até para mim, rebati: "Não! Não se atreva a jogar essa carta de novo. Mostre a eles o anel, Rose. Aquele que Stefan te deu há dois meses quando eu estava 'doente demais' para ir ao evento de caridade."
Ao ouvir isso, minha mãe arfou, ao passo que o semblante do meu pai se fechou.
Por um segundo, a máscara de Rose caiu, permitindo que eu visse o lampejo de cálculo frio por trás da preocupação fingida.
"Não foi bem assim", ela começou.
"Não foi? Então como foi? Explique para eles que você me ligava toda semana, me dando conselhos sobre casamento enquanto dormia com meu marido. Conte a eles sobre todas as vezes que você me ajudou a escolher lingerie para os aniversários de casamento, enquanto Stefan estava trabalhando até tarde com você."
"Já chega! Rose jamais..." Minha mãe se manifestou, dando um passo à frente.
"Jamais o quê, mãe? Jamais mentiria? Ou manipularia? Jamais roubaria algo que pertencia à sua irmã?"
Após fazer essa série de perguntas, peguei meu celular e reproduzi a última mensagem de voz que Stefan enviara.
"Rose é minha alma gêmea, Camille. Tentamos resistir, mas algumas pessoas simplesmente estão destinadas a ficar juntas. Você tem que entender que..."
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor, até que Rose se recompôs. "Nunca quis te machucar, mas não podemos controlar quem amamos..."
No instante seguinte, o som da minha mão atingindo o rosto dela estalou como um tiro.
"Camille! Você enlouqueceu?", gritou minha mãe enquanto segurava meu braço.
"Não, pelo contrário. É a primeira vez em quatorze anos que vejo tudo com clareza", respondi calmamente, observando a marca vermelha surgir na pele macia e imaculada de Rose.
Passando por eles com minha mala na mão, ouvi os soluços de Rose ecoarem atrás, a mesma atuação que ela aperfeiçoara ao longo dos anos para colocar todos contra mim.
"Para onde está indo? Você não pode simplesmente abandonar sua família!", meu pai gritou.
Nesse momento, parei no topo da escada e olhei para minha tal "família".
Enquanto minha mãe confortava Rose, meu pai parecia dividido, e minha irmã me observava em meio às lágrimas com um olhar que não demonstrava qualquer afeto.
"Família? Isso não é uma família, é um jogo. E por quatorze anos, joguei de acordo com as regras de Rose", eu disse com um sorriso que os fez recuar.
"Camille, por favor. Me deixe consertar isso." Rose se aproximou e estendeu a mão em minha direção, se mostrando sempre a irmã atenciosa.
Antes que ela pudesse me tocar, segurei seu pulso com firmeza. "Como irmã mais velha, você me ensinou bem - sobre manipulação, sobre paciência, e sobre esperar o momento perfeito para contra-atacar."
Mais uma vez, os olhos dela se arregalaram, o medo genuíno finalmente os dominando.
"Obrigada pelas lições. Agora, veja como as aprendi bem", sussurrei antes de soltá-la com brusquidez.
Ignorando seus apelos desesperados, desci as escadas, parei em frente ao espelho do corredor da entrada e dei uma última olhada em mim - rímel borrado, olhos vidrados, mas finalmente livre.
Ponto de vista de Rose.
Agitei o champanhe na taça de cristal e observei as bolhas subirem à superfície. A vitória era deliciosa, assim como eu havia imaginado por todos esses anos.
A sala de estar da minha cobertura tinha vista para a cidade onde havia passado vinte anos bancando a filha adotiva perfeita, a irmã amorosa e a amiga solidária.
Tudo não passava de teatrinho...
"À liberdade", sussurrei para o meu reflexo na janela de vidro. A mulher que me encarava de volta sorriu, seus dentes perfeitos, cabelo impecável e uma falsidade exemplar - como de costume.
Meu celular vibrou com outra ligação de Stefan, que não parava de ligar desde que Camille foi embora, provavelmente preocupado com a possibilidade de eu mudar de ideia agora que tudo viera à tona.
Ah, pobre e previsível Stefan... Ainda achando que tinha controle sobre alguma coisa.
Tirei meus Louboutins, me joguei no sofá de couro e deixei as lembranças me invadirem como um calor que sobe ao primeiro gole de vinho.
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Logo na primeira vez que vi Camille Lewis, a odiei.
Eu tinha treze anos, havia acabado de sair do orfanato e estava desesperada para agradar meus novos pais. Eles me levaram para uma mansão enorme, com um gramado bem cuidado e pisos de mármore, me prometendo um novo começo e uma família de verdade.
Foi então que aquela magricela de aparelho e cabelos bagunçados desceu as escadas, com um sorriso radiante e olhos inocentes.
"Oi! Sou Camille. Sempre quis ter uma irmã!"
Ela veio correndo e me abraçou ali mesmo, no corredor da entrada, sem nem se importar que minhas roupas eram de segunda mão ou que eu estivesse com cheiro de sabão industrial do orfanato. Tudo o que a garota mostrava era uma alegria pura e genuína por ter uma irmã.
Ao vê-la à minha frente, tive vontade de vomitar. Afinal, ela era desajeitada e esquisita mesmo tendo tudo o que eu havia passado treze anos sonhando - pais que a amavam, um lar que era seu, e um futuro garantido pelo sobrenome Lewis, mas ela nem sequer valorizava isso.
Naquela primeira noite, fiquei a observando durante o jantar, notando como ela se sentava toda torta na cadeira sem saber qual garfo usar para a salada, falava de boca cheia, ria alto e fazia perguntas desnecessárias.
"Rose é tão educada. Talvez você devesse aprender com sua nova irmã, Camille", disse a senhora Lewis - ou melhor, mamãe - sorrindo para mim.
Foi aí que vi a primeira rachadura no mundinho perfeito de Camille - o sutil desbotamento do seu sorriso e a maneira como ela se endireitava na cadeira, se esforçando para ser uma filha honrosa.
Foi lindo de ver...
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Meu celular vibrou novamente, me trazendo de volta à realidade. O rosto de Stefan iluminava a tela em sua quinta ligação em menos de uma hora.
Soltando um suspiro, atendi. "Meu gato, você está tão carente..."
"Rose", ele chamou com uma voz rouca, o que me levou a ponderar se ele estava bebendo. "Ela se foi - ela se foi pra valer. Bloqueou meu número, esvaziou o armário..."
"Não era isso que queríamos?", perguntei, mantendo um tom suave e tranquilizador. O mesmo tom que eu usava todas as vezes que aconselhava Camille sobre seus problemas conjugais, problemas que eu havia orquestrado minuciosamente.
"Eu só... o jeito que ela olhou para mim..."
"Stefan, querido. Ainda inseguro? Depois de tudo o que passamos juntos?", perguntei, deixando um tom afiado transparecer em minha meiguice.
"Não! Claro que não. Eu te amo. Sempre te amei."
"Então pare de me ligar por causa da sua ex-esposa. Isso é patético."
Após dizer isso, encerrei a ligação e joguei o celular no canto do sofá.
Como os homens podiam ser tão previsíveis e fracos? Por que até Stefan, que passei quatro anos moldando antes de empurrá-lo para Camille, ainda precisava de controle constante?
Mesmo assim, felizmente ele cumprira seu propósito, assim como todos os outros no meu joguinho elaborado.
A foto em família sobre a prateleira da lareira chamou minha atenção - era do dia da minha adoção. Obviamente, eu estava no centro, assim como sempre.
Já Camille, estava na ponta, forçando um sorriso em meio às suas inseguranças.
Deus, como foi fácil... fácil até demais!
Bastou um comentário à mesa de jantar sobre o quanto Camille estava instável, algumas conversas preocupadas com minha mãe, explicando o quanto eu estava aflita com o emocional da minha querida irmã, e uma ou outra menção ao meu pai sobre como ela parecia estar sofrendo com as responsabilidades básicas de um adulto.
Foram quatorze anos de uma preparação criteriosa, me posicionando como a filha responsável e idealizada enquanto pouco a pouco destruía a confiança de Camille, seus relacionamentos e sua autoestima.
A rejeição da faculdade foi particularmente instigante, se assim posso dizer.
Tudo o que foi preciso foi uma conversa chorosa com minha mãe sobre ter encontrado o diário "secreto" de Camille, repleto de pensamentos sombrios e planos destrutivos. Tudo que eu mesma havia planejado, é claro, com a caligrafia infantil dela que eu passara meses praticando para falsificar.
Num piscar de olhos, a preciosa filha caçula não estava pronta para a faculdade. Ela precisava de tempo para "se encontrar" e estar sempre perto de casa, onde eles poderiam ficar de olho nela - onde eu poderia ficar de olho nela.
Saboreando outro gole de champanhe, desfrutei o momento, porque era exatamente isso que eu queria o tempo todo.
Eu não queria Stefan, que era apenas uma peça útil no meu tabuleiro, nem a fortuna da família Lewis, embora, com o tempo, ela acabasse caindo em minhas mãos.
O que eu desejava mesmo era ver a perfeita e preciosa Camille se despedaçando e percebendo que tudo o que ela achava que tinha - família, amor, segurança - havia sido construído às custas das minhas mentiras.
Nesse momento, meu celular vibrou com uma mensagem da minha mãe: "Querida, venha para casa. Seu pai e eu precisamos conversar sobre o que aconteceu."
Li a mensagem com um sorriso, já planejando minha atuação. A perplexidade chorosa, a confissão relutante sobre a perseguição de Stefan, a preocupação gentil com o psicológico de Camille...
Quando eu terminasse meu discurso polido, eles me agradeceriam por protegê-los da filha instável todos esses anos.
Com uma determinação renovada, me levantei do sofá, fui até o closet e escolhi a roupa perfeita para minha próxima performance - algo sutil, mas caro, me mostrando como a irmã de luto, e não a vitoriosa em plena comemoração.
O enorme closet fora o presente de casamento de Camille para mim.
"Para que você sempre tenha espaço para seu incrível talento para a moda", ela dissera e me dera um forte abraço.
Mesmo depois de anos me vendo roubar todos os holofotes, oportunidades e aprovação dos pais, ela ainda me amava e confiava em mim.
Que grande idiota...
Ao pegar um suéter de caxemira cor de creme, me lembrei de quando Camille pegava minhas roupas emprestadas no ensino médio. Esperando que ela tivesse algum compromisso importante, como um encontro, uma apresentação ou uma entrevista, de repente eu "me lembrava" de que precisava justamente daquela roupa.
Ela sempre as devolvia sem qualquer contestação, pedindo desculpas pelo inconveniente e se esforçando ao máximo para ser a irmã perfeita.
Meu reflexo no espelho chamou minha atenção e, por um instante, vi algo feio ali - a menina assustada e revoltada do orfanato que havia entrado na casa dos Lewis há tantos anos.
Mas aí pisquei e voltei a ser a Rose perfeita e impecável, a Rose segura de si que só fazia o certo.
Colocando a pulseira Cartier, outro presente da minha querida irmã, terminei de me arrumar para a próxima atuação, ciente de que a reunião familiar em questão precisaria do toque certo de honestidade relutante e traição devastadora.
"Ah, Camille... o que você fez consigo mesma?", sussurrei para meu reflexo, praticando minha expressão preocupada.
Porém, quando me virei para sair, algo me fez parar. O olhar de Camille antes de partir... eu nunca o vira antes - nem em vinte anos a pressionando, testando e destruindo.
Aquele olhar parecia de... compreensão, como se ela finalmente tivesse visto a verdade por baixo da minha máscara.
Balancei a cabeça levemente para afastar o mau pressentimento.
Camille era fraca, assim como eu a havia tornado. Talvez ela fugiria, curaria suas feridas e tentaria recomeçar em outro lugar.
Contudo, uma coisa era certa: ela nunca se livraria de mim, pois eu já havia garantido isso anos atrás.