Por três anos, meu marido, Caio Mendonça, teve disfunção erétil. Ou pelo menos foi o que ele me disse. Fui eu quem o tirou de um acidente de carro em chamas, e este casamento foi sua promessa de valorizar as mãos que o salvaram.
Mas esta noite, eu o ouvi conversando com minha cunhada, Júlia. Ele confessou que sua condição era uma mentira para evitar me tocar, e que ele sempre a amou. Nosso casamento era apenas uma farsa para agradar seu avô.
As traições continuaram. Ele alegou que foi ela quem o salvou. Ele me abandonou durante um deslizamento de terra para resgatá-la. Quando acordei no hospital com as costelas quebradas, ele me pediu para doar pele da minha perna para consertar um arranhão no rosto dela.
Ele queria mutilar meu corpo pela mulher que roubou minha vida, a mulher que carregava seu filho secreto. Meu amor era um fardo, meu sacrifício uma piada da qual eles riam pelas minhas costas.
Então, descobri a verdade final e esmagadora: nossa certidão de casamento era falsa. Eu nunca fui sua esposa, apenas um tapa-buraco.
Naquela noite, peguei meu celular e liguei para a única pessoa de quem ele me avisou para ficar longe.
"Alex", sussurrei, minha voz embargada. "Preciso ir embora. Você pode me encontrar na Europa?"
Capítulo 1
HELENA POV:
Descobri que meu casamento havia acabado da mesma forma que o resto do mundo: por um alerta de notícias. Mas a mentira já vivia na minha casa há três anos.
Por mil e noventa e cinco dias, meu marido, Caio Mendonça, teve disfunção erétil. Ou pelo menos foi o que ele me disse. Era uma condição que só existia dentro das paredes do nosso quarto, uma crueldade reservada apenas para mim.
Esta noite era o 1096º dia. Eu tinha visto o laudo médico que não deveria ver. Caio estava perfeitamente saudável. A mentira era um muro que ele construiu entre nós, e esta noite, eu iria derrubá-lo.
Eu estava do lado de fora de seu escritório, com a mão levantada para bater, quando ouvi vozes lá de dentro. A risada suave de uma mulher, seguida pelo murmúrio baixo de Caio. Era Júlia, minha cunhada.
"Sinceramente, Caio, por quanto tempo mais você vai ter que fingir com ela? Não suporto ver vocês dois juntos", disse Júlia, sua voz pingando o desprezo familiar que ela guardava só para mim.
Minha mão congelou no ar. Meu coração começou a bater contra minhas costelas, um pássaro frenético e aprisionado.
"Só mais um pouco, meu amor", a voz de Caio era uma carícia suave, um tom que ele nunca havia usado comigo. "O vovô ainda está de olho. Ele sente que te deve por ter salvado minha vida no acidente. Este casamento com a Helena é só um teatro para mantê-lo feliz, para te manter na família."
O mundo inclinou. Minha respiração ficou presa na garganta. Ela o salvou? Não. Isso não estava certo. Fui eu quem o tirou dos destroços em chamas de sua Ferrari. Fui eu cujas mãos ficaram marcadas pelos cacos de vidro e metal retorcido.
As próximas palavras de Caio estilhaçaram o que restava do meu mundo.
"Júlia, você sabe que não suporto tocá-la. Esta farsa de casamento é a única maneira de eu poder estar com você. Assim que eu tiver o controle total das Indústrias Mendonça, poderemos ficar juntos. De verdade."
Ele a amava. Ele sempre a amou.
"E o irmão dela, o Guilherme?", a voz de Júlia estava carregada de uma diversão cruel. "O último desejo dele foi que você cuidasse da irmãzinha dele. Ele deve estar se revirando no túmulo."
"Ele deveria ter cuidado da própria vida", cuspiu Caio, sua voz de repente fria. "Se não fosse por ele, eu teria me casado com você anos atrás. Toda a minha bondade com a Helena, toda a paciência... foi tudo uma atuação. Cada segundo com ela parece uma eternidade."
Uma onda de náusea me atingiu. Os últimos três anos, meu amor paciente, meu cuidado meticuloso com seu suposto trauma, meu apoio inabalável - tudo era uma piada para eles. Uma história da qual eles riam pelas minhas costas.
Meu casamento inteiro era uma mentira. Meu amor era um fardo. Minha própria presença era uma performance que ele era forçado a suportar.
Meu estômago se revirou, e um gosto amargo subiu pela minha garganta. Tropecei para trás, longe da porta, minha mão voando para a boca para abafar um soluço. Meu pé prendeu na beirada do tapete persa e eu caí com força, meu joelho batendo no chão de mármore.
Uma dor aguda subiu pela minha perna, afiada e branca. Era o mesmo joelho que eu havia machucado ao tirá-lo daquele acidente de carro. Uma nova dor sobre uma cicatriz antiga, um lembrete físico da verdade.
Lembrei-me do dia em que ele me pediu em casamento. Ele segurou minhas mãos marcadas nas dele, seus olhos cheios do que eu pensei ser adoração. "Helena", ele disse, "essas mãos salvaram minha vida. Deixe-me passar o resto da minha valorizando-as."
Era tudo mentira. Uma mentira lindamente elaborada e esmagadora.
Meu amor por Caio começou quando eu era adolescente. Ele era o melhor amigo do meu irmão, carismático e brilhante. Eu tive uma queda por ele por anos, escrevendo seu nome em meus cadernos, sonhando com um futuro que agora parecia um pesadelo. Eu dediquei dez anos da minha vida a amá-lo, três deles como sua esposa.
E para quê? Para ser seu álibi. Para ser o tapa-buraco para a mulher que ele realmente amava. Para ser um peão em seu jogo doentio.
Cada toque gentil, cada "Me desculpe, Helena, é o trauma", cada noite passada em nossa cama compartilhada e estéril - tudo era veneno. Ele se casou comigo para pagar uma dívida a Júlia. Uma dívida que eu havia conquistado.
Um vômito violento escapou da minha garganta. Levantei-me cambaleando, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Eu tinha que sair. Tinha que escapar desta casa de mentiras.
Meu celular parecia pesado em minha mão trêmula. Rolei pelos meus contatos, meus olhos embaçados de lágrimas, até encontrar o nome dele. Um nome que eu não ligava há três anos, desde que Caio sutilmente me convenceu de que ele era uma má influência.
Alexandre Porto. Meu amigo de infância. Minha âncora, antes de Caio se tornar minha tempestade.
O telefone tocou duas vezes antes de ele atender.
"Helena?" Sua voz era hesitante, surpresa.
O som do nome dele em meus lábios era um sussurro rouco. "Alex."
"Oi", disse ele, seu tom mudando de surpresa para preocupação. "Faz tempo. Está tudo bem?"
Eu não conseguia formar as palavras. Um soluço engasgado foi minha única resposta.
"Helena? O que há de errado? Onde você está?"
"Preciso de você", finalmente consegui dizer, as palavras se quebrando. "Você pode me ajudar? Preciso ir embora."
Houve uma pausa do outro lado, uma batida de silêncio que pareceu uma eternidade.
"Sim", disse ele, sua voz agora firme, séria. "Claro. Onde você precisa que eu esteja?"
Ele não perguntou por quê. Ele não precisava. Ele tinha visto as sombras em meus olhos no dia do meu casamento.
"Posso comprar um voo", sussurrei. "Você pode... você pode me encontrar na Europa?"
"O que você precisar", disse ele, sua voz uma tábua de salvação na escuridão. "Mas e ele?"
"Ele não pode saber", eu disse, minha voz tremendo. "Ainda não."
Outro som estrangulado veio de trás da porta do escritório. O gemido de uma mulher.
Senti um enjoo terrível.
Ouvi a voz de Caio novamente, abafada, mas clara o suficiente. "Não se preocupe, meu amor. O bebê terá tudo. Diremos a todos que é um milagre. Diremos que é meu e da Helena. Ela será a fachada perfeita, como sempre foi."
HELENA POV:
O mundo ficou em silêncio. Fiquei paralisada no corredor, as palavras de Caio ecoando no súbito silêncio da minha mente. Uma fachada. Eles iam roubar minha vida, meu nome, por uma criança que não era minha, um símbolo do amor deles que eu seria forçada a carregar como minha própria vergonha.
Um gosto azedo encheu minha boca. Os sons do escritório, os murmúrios suaves e os gemidos abafados, tornaram-se um tormento físico. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Através da visão embaçada, vi um fantasma de mim mesma, a garota ingênua que caminhou até o altar três anos atrás, tão cheia de esperança.
Lembrei-me de todas as vezes que tentei diminuir a distância entre nós. Usei a lingerie que ele uma vez disse que gostava, apenas para ele se virar, culpando uma dor de cabeça. Iniciei o contato inúmeras vezes, apenas para ser recebida com um recuo e um gentil: "Hoje não, Helena. Eu simplesmente não estou pronto."
Ele nunca estava pronto para mim. Mas para Júlia, ele estava mais do que pronto. A prova estava crescendo dentro dela.
Na manhã seguinte, desci para a sala de jantar como um fantasma. Caio e Júlia já estavam lá. Ele estava colocando um pedaço de melão no prato dela, um gesto pequeno e íntimo que pareceu um tapa na minha cara.
"Bom dia, dorminhoca", disse Caio, seu sorriso não alcançando seus olhos.
Eu vi então, debaixo da mesa. A mão dele repousava na coxa dela, o polegar desenhando círculos lentos e possessivos.
"Bom dia", respondi, minha voz vazia. Sentei-me, a cadeira arranhando ruidosamente o chão polido.
Caio franziu a testa, um lampejo de irritação cruzando seu rosto. "Algo errado?"
Antes que eu pudesse responder, Júlia engasgou, a mão voando para a boca. Ela saiu correndo da mesa, e pudemos ouvi-la vomitando no lavabo próximo.
O corpo de Caio ficou tenso. Ele se levantou parcialmente da cadeira, seu instinto era ir até ela, mas ele encontrou meu olhar e congelou. Seu olhar dardejou entre mim e o corredor, um homem pego entre seu dever e seu desejo.
Ele permaneceu sentado, mas sua atenção havia sumido. Ele continuava olhando para o lavabo, sua preocupação com Júlia uma coisa palpável no ar.
Quando Júlia voltou, pálida e abalada, Caio se levantou de um salto.
"Esta comida é inaceitável", ele esbravejou para nosso chef particular, que estava nervosamente parado na porta da cozinha. "O que é isso? Está fazendo a Júlia passar mal."
O café da manhã era salmão defumado e ovos pochê. Meu favorito. Ele sabia. Não era sobre a comida; era sobre punir alguém pelo desconforto de Júlia.
Meu apetite desapareceu. Afastei meu prato.
"Onde você vai?", exigiu Caio, agarrando meu pulso. Seu aperto era surpreendentemente forte.
"Não estou com fome."
"Não seja difícil, Helena", disse ele, sua voz baixa e autoritária. "Eu estava pensando que poderíamos todos dar uma volta de carro. Até as falésias. O ar fresco fará bem à Júlia." Ele não esperou por minha resposta, virando-se para a empregada. "Marta, prepare uma cesta. Certifique-se de incluir o guaraná que a Júlia gosta e um cobertor. Aquele de caxemira macio."
Ele listou as coisas favoritas de Júlia, desde a água com gás que ela preferia até a marca específica de biscoitos que ela comia. Eu era um pensamento posterior, uma bagagem sendo levada junto no passeio.
No carro, o banco do passageiro, meu banco, havia sido ajustado. Estava empurrado para trás, e uma pequena almofada de seda rosa estava aninhada contra o encosto de cabeça. Da Júlia. Lembrei-me de ter perguntado a Caio uma vez se eu poderia deixar um livro no carro, e ele me disse que odiava bagunça.
O carro dele era um santuário, só não para mim.
Engoli o nó na garganta. "Júlia, por que você não senta na frente? Você ficará mais confortável."
Ela me deu um sorriso grato e doentio e trocou de lugar comigo. Passei todo o trajeto no banco de trás, observando-os pelo espelho retrovisor. Eles conversavam e riam, suas cabeças próximas. Eu me senti uma estranha.
O piquenique foi uma performance. Caio interpretou o papel de marido dedicado para alguns amigos que nos encontraram lá, mas seus olhos constantemente se desviavam para Júlia. Ele sabia exatamente quando lembrá-la de não beber seu chá gelado muito rápido. "Você sabe que isso irrita seu estômago, querida."
Ele me pegou observando e sua mão recuou como se estivesse queimada. Ele rapidamente se virou para mim, um sorriso falso estampado em seu rosto. "Helena, tome um pouco de suco. Sei que você adora cranberry."
Eu encarei o copo que ele ofereceu. Eu não conseguia beber suco de cranberry há dois anos. Não desde que desenvolvi um problema crônico de estômago.
Ele não sabia. Ou não se importava.
Ele então me ofereceu um prato de camarão. "Aqui, seu favorito."
Sou alérgica a frutos do mar. Júlia adora camarão. Minha garganta se fechou.
Naquele momento, o céu ficou de um roxo escuro e machucado. O vento aumentou e, de repente, a chuva começou a cair forte.
"Deveríamos ir", eu disse, minha voz tensa. "A estrada ficará perigosa."
"Não seja tão estraga-prazeres, Helena", resmungou Júlia, puxando o cobertor com mais força. "Eu quero esperar pelo arco-íris."
"Júlia está certa", disse Caio, seu tom não deixando espaço para discussão. "Nós vamos ficar."
Seus olhos estavam frios, me desafiando a discutir. Eu me calei.
O arco-íris nunca veio. Em vez disso, o chão começou a se mover. Um estrondo baixo cresceu para um rugido, e uma onda de lama e detritos veio surgindo pela encosta. Um deslizamento de terra.
O pânico explodiu. As pessoas gritavam e corriam. Eu me levantei cambaleando, mas meu tornozelo torceu na grama escorregadia e eu caí com um grito de dor.
"Caio!", gritei, estendendo a mão para ele.
Ele já estava se movendo, mas não em minha direção. Ele pegou Júlia nos braços e correu para a fila de carros, me deixando para trás na lama e na chuva.
Eu o vi ir, de costas para mim, sua única preocupação a mulher em seus braços. A sensação de abandono foi tão absoluta que foi quase pacífica.
Consegui me levantar, meu tornozelo gritando em protesto. Dei um passo, depois outro, antes que meu pé escorregasse novamente. Desta vez, não havia nada para me segurar. Rolei pela beira do penhasco, o mundo girando em um caos de dor e escuridão.
A última coisa que me lembrei foi o peso esmagador do meu próprio corpo batendo nas rochas abaixo.
Quando acordei, estava em uma cama de hospital. Caio estava sentado ao meu lado, seu rosto uma máscara de culpa.
"Helena", disse ele suavemente. "Você acordou."
Tentei falar, mas minha garganta estava áspera. Meu corpo inteiro doía.
"Os médicos disseram que você tem sorte", ele continuou, evitando meus olhos. "Apenas algumas costelas quebradas e uma concussão forte. Júlia... o rosto da Júlia foi bem cortado por alguns detritos voando. Os médicos disseram que ela precisa de um enxerto de pele para evitar cicatrizes permanentes."
Ele finalmente olhou para mim, seus olhos suplicantes. "Eles precisam de um doador, Helena. Da sua perna. Disseram que você é a melhor compatível."
HELENA POV:
"Um enxerto de pele?" Minha voz era um grasnido rouco e incrédulo. "Você quer que eles tirem pele da minha perna... para ela?"
Caio teve a decência de desviar o olhar. "É só um pedacinho, Helena. Disseram que cicatrizaria rápido. É para o bem de todos."
Para o bem de todos. As palavras eram uma zombaria. Eu havia entendido quando ele não conseguia me tocar. Eu havia entendido quando ele preferia a companhia dela à minha. Eu havia entendido ser abandonada em uma montanha. Mas isso? Isso era um novo nível de crueldade. Ele queria mutilar meu corpo pela mulher que carregava o filho dele.
Uma onda de fúria, quente e poderosa, inundou-me. "Saia", gritei, minha voz quebrando. "SAIA DAQUI!"
Passei o braço pela mesa de cabeceira, derrubando uma jarra de água no chão.
Caio recuou, sua mandíbula se contraindo. "Helena-"
"Sr. Mendonça", chamou uma enfermeira da porta. "Seu avô está na linha."
Ele me lançou um último olhar, uma mistura de frustração e impaciência, antes de se virar e sair.
Olhei para minha mão esquerda. A aliança de casamento parecia pesada, estranha. Sempre foi um pouco grande demais. Uma aliança substituta para uma esposa substituta. Com uma risada amarga que se transformou em soluço, tirei-a do meu dedo e a joguei com toda a minha força. Ela bateu na janela com um clique suave e desapareceu nos arbustos abaixo.
Passei dois dias naquele hospital. Caio me visitou duas vezes, visitas breves e protocolares, cheias de desculpas vazias sobre estar ocupado com "assuntos da empresa".
As enfermeiras sussurravam no corredor. Ouvi meu nome, seguido pelo de Júlia.
"Dá para acreditar? Ele deixa a esposa, que tem costelas quebradas, para ficar com a cunhada que só tem alguns arranhões."
"Ouvi dizer que a cunhada está grávida. Dizem que o Sr. Mendonça é o pai."
"Pobre Sra. Mendonça. Que casamento terrível."
Fechei os olhos, as palavras uma nova onda de humilhação.
Quando recebi alta, Caio estava esperando na entrada principal. Ele pegou minha bolsa, seu toque fazendo minha pele se arrepiar.
"Desculpe por não ter estado mais por perto", disse ele, sua voz anormalmente gentil. "As coisas têm estado uma loucura no escritório."
Eu não respondi. Passei por ele e entrei no banco de trás do carro.
De volta à mansão dos Mendonça, Bernardo Mendonça, o patriarca da família, estava esperando. Ele era um homem formidável, seu rosto gravado com as linhas do poder e da tradição. Ele correu para frente, seus olhos cheios de preocupação enquanto pegava minhas mãos.
"Minha querida Helena, você sofreu", disse ele, sua voz embargada de emoção.
Ele se virou para Caio. "Caio foi imprudente. Mas ele estava preocupado com a Júlia, você sabe como é. Não guarde rancor dele."
Ele estava dando desculpas para ele. Até ele.
Ele gesticulou para a equipe, que trouxe caixas de presentes caros. Era um pagamento pelo meu silêncio, pela minha dor.
Então, ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Dentro havia um magnífico colar de diamantes, uma peça famosa conhecida como "A Estrela dos Mendonça". Era a herança da família, passada para a esposa de cada geração.
Ele o prendeu em volta do meu pescoço. "Você é a única Sra. Mendonça que eu reconhecerei", disse ele, sua voz firme. Ele olhou de forma pontual por cima do meu ombro em direção ao corredor, onde Júlia acabara de aparecer. Ele estava fazendo uma declaração.
O rosto de Júlia ficou branco. Ela murmurou uma desculpa sobre não se sentir bem e fugiu escada acima.
Caio começou a segui-la, mas um olhar afiado de seu avô o parou no meio do caminho.
Olhei para os diamantes frios e pesados na minha pele. Parecia uma gaiola dourada. Eu sabia o que tinha que fazer. Mais tarde naquela noite, fui ao escritório para devolvê-lo.
Ao me aproximar da porta do escritório, ouvi suas vozes novamente, alteradas em raiva.
"Por que você deu a Estrela para ela?", exigiu Caio. "Pertence à matriarca! Deveria ser para a Júlia!"
"Vou dizer isso uma última vez", a voz de Bernardo era como pedra. "Eu só reconheço a Helena como sua esposa. Aquela... mulher nunca terá esse título."
"Não importa o que você reconhece!", a voz de Caio estava tensa, desesperada. "Minha certidão de casamento com a Helena é falsa! Eu já sou legalmente casado com a Júlia!"
O mundo parou. Falsa. O pedaço de papel que eu havia valorizado era uma falsificação.
Meu corpo tremeu violentamente. Virei-me e corri, minha respiração saindo em arquejos irregulares. De volta ao meu quarto, revirei meu cofre até encontrá-la. A certidão de casamento. Minhas mãos tremiam enquanto a desdobrava. E lá estava. Um erro de digitação gritante no nome do oficial do cartório. Um detalhe que eu estava feliz demais para notar.
Eu não era sua esposa. Eu era sua amante, sem saber.
Eu ri, um som quebrado e histérico que se transformou em choro.
A próxima coisa que soube foi uma empregada me sacudindo para acordar, me puxando da cama.
"Sra. Finley! Venha rápido!"
Ela me arrastou escada abaixo para a sala de estar. No chão, a Estrela dos Mendonça jazia, sua corrente quebrada, diamantes espalhados. Bernardo estava sobre ela, seu rosto uma máscara de trovão.
A empregada apontou um dedo trêmulo para mim. "Foi ela! Eu a vi descer e quebrá-lo!", ela chorou. "Trabalho para esta família há vinte anos! Eu nunca mentiria!"
Os olhos frios de Bernardo se fixaram em mim. "Helena, você fez isso?"
Antes que eu pudesse negar, meu olhar caiu sobre Júlia, parada no canto. Em sua mão, ela segurava uma fotografia. Uma foto dos meus pais idosos e frágeis, sorrindo, completamente vulneráveis. Era uma ameaça.
Minha boca secou. Minha voz era um sussurro. "Sim. Eu quebrei."
O rosto de Bernardo era uma parede de pedra de decepção. "Estou muito desapontado com você, Helena. Você ficará no seu quarto até entender seu erro."