Acordei no hospital. O cheiro a desinfetante e uma dor surda eram as minhas únicas companhias, para além de um vazio perturbador na memória dos últimos sete anos.
Miguel, o meu melhor amigo, estava lá, mas as suas palavras revelaram uma chocante verdade: eu tinha vivido uma obsessão doentia por Sofia, a sua irmã, que me via apenas como um fardo. O acidente que me deixou à beira da morte? Foi culpa dela, depois de me ter abandonado para ir ter com o namorado dela, Ricardo.
Mesmo sem me lembrar de nada, a crueldade deles não parou. Sofia atirou-me para uma piscina, deixou-me a morrer num incêndio e publicamente humilhou-me, acusando-me de plágio para garantir o sucesso de Ricardo. A minha carreira, o meu nome, tudo em ruínas.
Como pude ser tão cego? A raiva fria e o vazio eram palpáveis, o peso de uma obsessão fantasma que me perseguia.
Decidi que o Porto era um novo começo, longe de tudo. Lá, encontrei Inês, a promessa de um amor genuíno e cura. Mas o destino, com a sua ironia cruel, reservava-me um último golpe: uma nova tragédia que me devolveria todas as memórias. E com elas, a força para finalmente confrontar a minha dor e abraçar a verdadeira felicidade.
O cheiro a desinfetante e o som de um bip constante foram as primeiras coisas que registei.
Abri os olhos, a luz branca do teto do hospital feriu-me a vista.
A minha cabeça latejava, uma dor surda que se espalhava por todo o meu corpo.
"Tiago! Acordaste!"
A voz era do Miguel, o meu melhor amigo. Ele estava ao lado da minha cama, com o rosto pálido e olheiras profundas.
Tentei sentar-me, mas uma dor aguda na minha perna fez-me gemer.
"Calma, não te mexas," disse ele, pousando uma mão no meu ombro. "Tiveste um acidente de carro. Estás no hospital."
Acidente de carro. As memórias voltaram em flashes. A estrada sinuosa junto ao mar, o brilho dos faróis de outro carro, o som de metal a rasgar.
"E a Sofia?" perguntei, a preocupação a tomar conta de mim. "Ela estava comigo?"
Miguel hesitou, o seu olhar desviou-se por um segundo.
"Não, ela não estava no carro."
Respirei de alívio. "Ainda bem. Onde é que ela está? Ela sabe que estou aqui?"
Miguel olhou para mim, a sua expressão era estranha, uma mistura de pena e confusão. "Tiago... de quem é que estás a falar?"
Franzi a testa. "Como assim, de quem estou a falar? Da Sofia. A tua irmã."
Ele continuou a olhar para mim, como se eu fosse um estranho. "Tiago, tu... não te lembras da Sofia?"
"Claro que me lembro. É a tua irmã, Sofia Costa. Arquiteta, como eu. Conhecemo-nos na faculdade."
Miguel abanou a cabeça lentamente. "Não é disso que estou a falar. Estou a falar dos últimos sete anos."
Ele puxou uma cadeira e sentou-se. A sua voz era baixa, quase um sussurro.
"Tiago, nos últimos sete anos, tu foste completamente obcecado pela Sofia. Um amor não correspondido. Ela nunca te deu a mínima atenção, porque sempre foi apaixonada pelo Ricardo, o ex-namorado dela."
As palavras dele não faziam sentido. Eram como peças de um puzzle que não encaixava.
"Obsessão? Eu?"
"Sim," confirmou Miguel, com o rosto carregado de culpa. "Foi por causa dela que tiveste o acidente. Ela ligou-te a dizer que o Ricardo estava a voltar do Reino Unido e que precisava que o fosses buscar ao aeroporto. Tu largaste tudo e foste. Mas a meio do caminho, ela ligou outra vez. Disse que já não precisava de ti, que ia ela mesma. Deixou-te pendurado. Foi aí que te despistaste."
A minha cabeça girava. Eu, obcecado por uma mulher que me tratava assim? Que me deixava na estrada para ir buscar outro?
Era impossível.
"Não acredito em ti, Miguel."
Ele suspirou, tirou o telemóvel do bolso e abriu uma pasta. "Vê por ti mesmo."
Ele virou o ecrã para mim.
Havia centenas de fotografias. Todas da Sofia. Fotos dela na universidade, em festas de família, a rir, a olhar para longe. Eram fotos tiradas de longe, sem que ela soubesse. Fotos de um perseguidor.
Depois, ele mostrou-me os meus cadernos de esboços. Projetos inteiros, edifícios complexos e bonitos, todos inspirados nela. O nome dela estava escrito nas margens, em letras pequenas e devotas.
"A palavra-passe do teu telemóvel," disse Miguel, com a voz embargada. "Era a data de aniversário dela."
Olhei para as provas, para o rosto daquela mulher nas fotografias. Não sentia nada. Nenhuma centelha de reconhecimento, nenhum pingo de amor ou dor. Era como olhar para uma desconhecida.
Mas uma tristeza profunda, uma dor que não era minha mas que ressoava dentro de mim, começou a instalar-se no meu peito. A dor do homem que eu tinha sido.
Peguei no meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira. Com as mãos a tremer, apaguei todas as fotos. Uma por uma. Depois, fui às definições e mudei a palavra-passe.
"Acabou," disse eu, mais para mim do que para o Miguel. "Quero esquecer isto. Quero seguir em frente."
Miguel assentiu, com os olhos húmidos. "Desculpa, Tiago. Eu nunca devia ter-te apresentado a ela."
"A culpa não é tua."
O telemóvel dele tocou. Era uma chamada do trabalho. Ele tinha de ir.
"Eu volto mais tarde," disse ele, levantando-se. "Descansa."
Fiquei sozinho no silêncio do quarto, a olhar para o teto branco.
Minutos depois, o meu telemóvel pessoal tocou. Era a minha mãe.
"Tiago, filho! Como estás? O Miguel disse-nos do acidente. Estamos tão preocupados!"
"Estou bem, mãe. Não foi nada de grave."
"Filho," a voz dela hesitou. "Lembras-te daquela promessa de casamento que os teus avós fizeram com a família Pereira, aqui no Porto? A filha deles, a Inês... ela está de volta à cidade. Talvez seja uma boa altura para vires para casa, para a conheceres."
Uma promessa de casamento. Parecia algo saído de um filme antigo. Mas, naquele momento, pareceu-me a saída perfeita. Uma forma de fugir de Lisboa, de fugir de um passado que eu não reconhecia como meu.
"Sim, mãe," respondi, para surpresa dela e minha. "Eu vou. Vou voltar para o Porto."
Dois dias depois, tive alta. Miguel ajudou-me com as malas. A minha perna ainda estava ligada e eu precisava de uma muleta para andar.
"Tens a certeza disto, Tiago? Voltar para o Porto? Um casamento arranjado?"
"Tenho," respondi, sem hesitar. "Preciso de um novo começo."
Antes de sairmos do hospital, eu precisava de ir buscar os resultados de uns exames finais. Miguel foi tratar da papelada da alta.
Enquanto esperava no corredor, vi-as.
Sofia e Ricardo.
Ele estava numa cadeira de rodas, com uma perna engessada. Ela empurrava a cadeira com uma expressão de preocupação e carinho que eu, aparentemente, nunca tinha recebido.
O meu coração não acelerou. A minha respiração não mudou. Eram apenas duas pessoas num corredor de hospital.
Mas Sofia viu-me. A sua expressão mudou instantaneamente. A preocupação deu lugar a uma hostilidade fria.
"O que é que estás aqui a fazer?" cuspiu ela. "Estás a seguir-me outra vez?"
A sua voz era cortante. A acusação era tão absurda que eu quase me ri.
"Estou no hospital porque tive um acidente," respondi calmamente. "O mesmo que me pôs com esta muleta."
Apontei para a minha perna.
Ricardo olhou para mim com um sorriso arrogante. "Ah, então tu és o famoso Tiago. O admirador secreto."
Sofia apresentou-me com desdém. "Ricardo, este é o Tiago Almeida. Um colega de trabalho."
Um colega de trabalho. Era só isso que eu era para ela, depois de sete anos de... devoção?
"Lamento pela tua perna," disse eu a Ricardo, educadamente. Tentei explicar a minha situação. "Na verdade, o acidente fez-me perder parte da memória..."
"Doutor! O paciente do quarto 302 precisa de si!"
Uma enfermeira interrompeu-me, e eu tive de me afastar para fazer os exames.
Quando voltei, eles já não estavam no corredor. Senti um alívio estranho.
Mais tarde, encontrei Miguel à saída. Ele parecia agitado.
"A Sofia e o Ricardo estão na quinta este fim de semana. Eles convidaram-me. E... bem, convidaram-te a ti também. Para te redimires, segundo a Sofia."
"Redimir-me de quê?"
"Ela acha que tu és o culpado pela lesão do Ricardo."
Eu ri-me. "Isto é ridículo."
"Eu sei. Mas talvez seja melhor ires. Para pores um ponto final nisto tudo antes de ires para o Porto."
Concordei, relutantemente. Talvez ele tivesse razão.
A quinta da família Costa era magnífica. Uma casa enorme, rodeada de jardins e com uma piscina cintilante.
Encontrei Ricardo junto à piscina, a apanhar sol. Sofia não estava por perto.
Aproximei-me, apoiado na minha muleta.
"Então," disse ele, sem sequer abrir os olhos. "Ainda não desististe dela, pois não? Mesmo depois de ela te ter deixado na estrada."
"Eu não sei do que estás a falar," respondi, a minha voz neutra. "Eu perdi a memória. Para mim, a tua namorada é só a irmã do meu melhor amigo."
Ele abriu os olhos e sorriu. Um sorriso que não chegava aos olhos. "Claro. A amnésia. Que conveniente."
Ele levantou-se e aproximou-se da beira da piscina. "Sabes, a Sofia ama-me. Sempre me amou. Eu só fui para o Reino Unido para fazer carreira. Mas agora voltei. E ela é minha."
A sua arrogância era palpável. Eu não sentia ciúmes, apenas um cansaço profundo.