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A Saga dos Kasenkinos

A Saga dos Kasenkinos

Autor:: Roseanautora
Gênero: Romance
Daily nasceu uma Kasenkina. Mas era curiosa, perspicaz e forte, querendo ir além do que as mulheres submissas e sem voz que representavam seu povo. Despertando o interesse do conselheiro do líder Kasenkino, Ahua, ela foi oferecida em casamento por seu próprio pai a um homem com idade para ser seu avô. Acreditando que nada poderia ficar ainda pior, apaixonou-se pelo homem mais proibido que poderia existir, uma pessoa do reino de Machia, que desde sempre foi o inimigo mortal de seu povo. Mas era nas noites, embrenhada no lado vetado da floresta, que ela tentava resistir e não conspirar contra seus próprios antepassados. Além de tentar lutar com todas as forças contra aquele sentimento, Daily ainda escondia de seu amado um grande segredo, o qual se soubesse ele jamais a perdoaria. Entre mitos, lenda, espíritos sagrados e segredos, Daily precisa ser forte e desvendar os mistérios sobre seu passado, o de seu próprio povo e tentar resistir à guerra que começava a ser travada, que poderia ser a mais mortal da história.

Capítulo 1 Um

Há muitos e muitos séculos atrás, não se sabe exatamente em que tempo e muito menos o local em que se passou, viveu um povo lendário, guerreiro e místico. Até hoje as pessoas se arrepiam de medo ao ouvir o nome Kasenkinos.

Povo do bem... Talvez do mau... Tinham tanto o poder de salvar vidas como também de tirá-las. Eles só queriam viver isolados naquela forma de vida em que acreditavam, mas não eram entendidos pelos outros povos. Lutavam contra tudo e todos que se aproximavam deles, inclusive entre si.

Nas batalhas entre grandes líderes e onde os deuses e espíritos sagrados os conduziam, eles sempre eram corajosos e impiedosos. Veneravam ao extremo a beleza feminina, mas ainda assim não respeitavam as mulheres como pessoas inteligentes ou que pudessem tomar decisões ou opinar dentro do clã.

Um povo crente em mitos, lendas e espíritos passados... Perseguido eternamente pelo reino, que sonhava um dia capturar cada um dos Kasenkinos e talvez poder julgá-los por tudo que fizeram, como seres sagrados ou demônios que vivam na floresta.

Daily olhou novamente para o povoado. Todos caminhavam de um lado para outro, desnorteados. Ela não sabia o que estava acontecendo. Mas temia que fosse uma batalha. Correu até o ponto de encontro no rio, onde estava a maioria dos Kasenkinos. Ahau e Ahua estavam sobre a grande pedra que ficava metade na água, outra na terra. Assim que Ahau, líder Kasenkino levantou o braço, todos se calaram para ouvi-lo.

- Povo Kasenkino. – falou Ahau. – Recebi finalmente o aviso que tanto esperava. Os antigos espíritos dizem que está na hora da grande batalha. Vamos atacar o rei Pollo e todo o Reino de Machia. Esperamos muito por este momento e estamos preparados para vencer esta guerra. Quero que derramem todo sangue necessário... Matem todos. Têm minha permissão e a dos velhos espíritos para irem... Os deuses estarão do nosso lado.

Assim que Ahau abaixou o braço, todos os homens saíram correndo do povoado, pegando todas as armas que conseguiam.

Daily ficou ali, olhando para ele. Percebeu o olhar de Ahua sobre ela. Não era a primeira vez que tinha uma sensação ruim ao ser observada pelo feiticeiro Kasenkino. Um arrepio a fez sair do devaneio e parar de pensar naquele homem que a impressionada e lhe dava certo temor.

Ela saiu correndo dali para ver se conseguia maiores informações sobre o que realmente estava acontecendo ali. Por que aquele luta agora? Teria o rei de Machia feito alguma coisa aos Kasenkinos que ela não sabia? Nascera ouvindo que o Reino de Machia e o rei Pollo eram inimigos dos Kasenkinos, mas na prática nunca havia visto nada que provasse isso. Somente histórias de uma inimizade que perdurava por muitos e muitos anos, décadas e talvez até séculos. Às vezes pensava que os dois povos haviam nascido inimigos.

Daily pensou em Burt. Se havia guerra, o velho amigo ferreiro sabia o real motivo. Ela se dirigiu até lá. Adentrou no local onde ele produzia suas armas sem se anunciar.

- Daily, o que faz aqui? – perguntou Burt surpreso ao vê-la ali.

- Você sabe que está havendo uma guerra lá fora?

- Sim, eu sei. Há muitos dias que não durmo direito, trabalhando na produção das melhores lanças e espadas que já fiz na minha vida. Enfim acho que agora vou poder descansar um pouco.

- E você está assim, tranquilo com esta guerra? Por qual motivo lutarão contra o rei Pollo?

- Seu pai não lhe disse nada?

- Não... Nada ele acha que me diz respeito. – falou ela decepcionada pelo pai não ter comentado nada sobre a enorme batalha que estava sendo planejada.

- Mas isso não é segredo para ninguém... Estamos nos preparando para esta batalha há uma vida inteira.

- Afinal, Burt, para que esta guerra?

- Posse de território, briga por comida, ouro e tudo que você já sabe. Mas creio que o que levou a antecipar tudo foi o fato de que carnearam vários animais nas nossas terras... Eram nossos.

- Mas por que fariam isso? Eles não têm os próprios animais no reino?

- Talvez quisessem esta batalha mais que nós.

- Mas não há marcas e nada que delimite onde é território de quem, não é mesmo? Então como podem ter certeza de que foi no domínio das nossas terras?

- Daily, não entendo o porquê de tantos questionamentos... Por que você insiste nisso? Você acha que alguma mulher está se importando com as delimitações das terras ou o motivo desta batalha? Elas sequer sabem o que está acontecendo... Só ficam na espera para que seus maridos voltem da batalha. E apoiam nosso povo independente do que houve.

- Você sabe que eu não sou assim... Conhece-me a vida toda. Jamais aceitei coisas sem questionar.

- Sei disso... Você é diferente de todas. Só espero que não se prejudique com isso algum dia.

- Certamente meu pai estará liderando o povo na batalha... Há chances de ele voltar?

- Por que faz esta pergunta? Sabe que Erone é o melhor guerreiro Kasenkino que já existiu.

- Tenho tanto medo, Burt... Por meu pai, pelos Kasenkinos e pelo reino de Machia.

- Só uma pessoa pode lhe garantir se seu pai voltará ou não... E você sabe quem é.

- Moa. – afirmou ela.

- Exatamente. Vá até lá e ele poderá lhe dizer com exatidão o que o destino reserva para seu pai.

- Faz tanto tempo que não vou até lá... Ele pode estar magoado comigo.

- Não estará. Sabemos o quanto ele gosta de você e deve saber que não é culpa sua.

- Eu preciso ver Moa o mais rápido possível.

- Não irei com você. Vou descansar um pouco e preciso continuar a produção.

- Por que mais armas? Você não disse que está fazendo isso há dias?

- Tenho ordens de continuar produzindo... O máximo que puder.

- E acha que conseguirá fazer muitas?

- Se eu não fizer posso ser sacrificado não é mesmo? Então farei o meu melhor.

- Não podem fazer isso com você. É o único que produz armas no nosso povo... Deveriam venerá-lo e não ameaçá-lo.

- Você sabe que eles podem fazer qualquer coisa, Daily. E eu aceito a vontade do nosso líder e as decisões dele. Você sabe que ele cumpre as ordens dos antigos espíritos. Eu jamais ousaria desobedecer nossos antepassados sagrados. Não quero ser amaldiçoado de forma alguma. Prefiro a morte a ser um homem sem espírito.

Ela respirou fundo. Imaginava ouvir aquilo dele.

- É melhor se apressar para ver Moa. – falou ele.

- Estou indo imediatamente.

Daily correu seguindo o rio acima. Logo ficaria escuro e o caminho era longo. A mata havia crescido bastante naqueles lados da floresta e ela estava um pouco perdida. O longo vestido começava a rasgar pegando nos galhos cortantes. Ela já começava a sentir fome e por vezes esbarrava em poças que não havia como atravessar sem ser entrando dentro. Não parecia que aquele caminho era tão difícil. Fazia muito tempo que não visitava Moa. Seu pai não havia permitido e como sempre que ia até a casa dele brigavam muito ela decidiu obedecer, para que os dois pudessem conviver em harmonia.

Ela olhou para a lua cheia que iluminava a noite na mata escura e pediu:

- Grandes espíritos do passado... Deem-me força para não desistir e continuar minha jornada.

Depois de mais algum tempo caminhando entre a mata ela avistou no alto da colina a casa de Moa. Agora vinha a pior parte... A subida íngreme, que ardia os joelhos. Ela bateu com força na porta e demorou um pouco para Moa abri-la.

- Daily... O que faz aqui? – perguntou ele surpreso com a presença dela.

Ela ficou bastante impressionada com a aparência de seu velho amigo... Os anos não haviam sido muito generosos com ele. Parecia muito mais velho e tinha uma aparência frágil. Estava tão magro... Estaria doente? Ele vestia uma longa camisola branca, certamente preparado para dormir, sem esperar visitas no meio da noite.

- Moa... – ela abraçou-o com força. – Estou tão feliz de ver você... Quanta saudade eu senti.

- Nem lembro a última vez que nos vimos... Você cresceu tanto, minha pequena.

- A distância, a idade e meu pai nos separaram.

- Eu sei... Não precisa se explicar. Mas entre logo.

Ela sentou-se na velha cadeira que lhe era oferecida. Ele acendeu o fogo para que pudessem conversar melhor.

- Moa... Como eu precisava vê-lo.

- Eu sei o que deseja, Daily.

- Sabe? – perguntou ela confusa.

- Os velhos espíritos me falaram sobre você.

- E o que eles disseram, Moa?

- Calma, minha pequena menina. Nem acredito que se transformou numa mulher. – disse ele olhando calmamente para ela. – O tempo passou tão rápido assim? Eu acho que nem me dei conta.

Ela sorriu. Como gostava daquele homem. Rosto magro e um pouco enrugado pelo tempo... Dentes ainda brancos, lábios pequenos, nariz grande e um cabelo quase branco que ia até os ombros. Ela não se lembrava daqueles cabelos brancos... Realmente o tempo havia passado e eles nem haviam percebido. Mas a saudade que ela sentia dele era imensa.

- Seu pai voltará mais honrado do que já é. Ele é um dos melhores guerreiros que os Kasenkinos já conheceram.

- E... Os demais homens?

- Será uma batalha difícil para ambos os lados... Todos sairão perdendo.

- Moa, não entendo o porquê desta guerra sem fim contra o reino de Machia.

- Pois isso é só o começo.

- Como assim? Haverá mais guerras depois desta?

- Infelizmente você verá muitas batalhas, querida Daily. Seu futuro está cheio delas... Na verdade, o de todos nós.

- Eu não gostaria que fosse assim... Queria que tudo fosse diferente. Quantas vidas perdidas... Nunca tentaram conversar sobre isso? Por que Machia e os Kasenkinos se odeiam tanto?

- A boa notícia, minha menina, é que você carrega a paz.

- Eu? – perguntou ela confusa e surpresa.

- Eu sempre soube que você era especial, desde que nasceu. Mas fui avisado que é a portadora do fim da guerra entre o Reino de Machia e os Kasenkinos... E isso me deixou muito surpreso, mas ao mesmo tempo temeroso, pois sabemos que o fim desta guerra não deve ser nada fácil.

- Não pode ter ouvido certo dos espíritos, Moa. Eu não seria capaz disso.

- Os espíritos nunca mentiram, Daily.

-Eu sei... – disse ela envergonhada.

- Mas vamos esperar para ver o que está previsto para você.

- Estar perto de você é como estar com minha mãe. Tenho sentido muito a falta dela nos últimos tempos. Deve ser porque estivemos afastados.

- Sua mãe era uma mulher única.

- Fale-me sobre ela, Moa... Por favor. Você nunca viu o espírito dela? Por que nunca me contam nada sobre ela? Por que meu pai evita falar sobre isso? É como se ela nem tivesse existido.

- Você já está tão crescida... Seu pai já deveria ter tido esta conversa com você. Merece saber a verdade sobre Darla. Mas ele deve saber o que faz.

- Moa, somente você poderá me contar sobre minha mãe. Papai nem me deixa tocar neste assunto. E isso me consome por dentro, acredite.

Capítulo 2 Dois

Daily olhou para ele quase implorando. Aquele velho feiticeiro, de olhos azuis desbotados poderia lhe contar tudo sobre sua mãe, o que ela esperou por toda sua vida para saber. Daily sempre acreditou que Moa era o mais forte dos feiticeiros Kasenkinos, pois ele tinha bondade no coração, o que parecia que Ahua não tinha. Não entendia o porquê de ele estar banido.

- Dá para ver que estou envelhecendo mais rápido do que esperava, não é mesmo? Cada vez se aproximo mais do fim da minha vida. Você merece ouvir a minha versão antes de eu me ir. – disse ele calmamente.

- Feiticeiros morrem? – perguntou ela curiosa. Não achava que sim.

- Não morremos... Somos mortos. Sempre haverá alguém mais forte que nós. E conforme ficamos mais velhos, vamos enfraquecendo. Este é o nosso destino... O meu destino. Mas sou grato por esta vida... Fiz o bem sempre. E farei tudo que for possível para vencer a maldade.

- E quem seria a maldade? – perguntou ela já tendo um nome em mente.

- Falo da maldade entre os próprios Kasenkinos, entende? – falou ele.

- Moa... Poderia ser Ahua? – perguntou ela.

- Talvez...

- Eu não quero que você morra.

- Bendita seja sua inocência, minha menina. E por isso você merece saber a verdade sobre sua mãe.

- Estou esperando ansiosa por isso, Moa.

- Tudo começou quando sua mãe cresceu e todos especulavam como era o rosto dela por debaixo do véu. Percebia-se que era uma linda mulher. Ela e seu pai se apaixonaram. Quando anunciaram o casamento, conforme a tradição Kasenkina, se algum outro homem se interessasse por ela, deveria desafiar seu pai e lutarem até a morte para ver quem ficaria com ela.

- Isso quer dizer que minha mãe teve outro pretendente?

- Sim, outro Kasenkino era interessado por ela e tinha o direito de luta. Seu pai venceu a batalha e ganhou assim sua mãe. Depois de casada, ela pôde tirar o véu e todos ficaram impressionados com a beleza dela, conforme já imaginavam. Até então a mais bela era a mulher de Ahau. Mas sua mãe a superou. Então Ahua começou a espalhar pelo povoado que os deuses estavam impressionados com a beleza de Darla e queriam que ela fosse sacrificada, em nome de prosperidade dos Kasenkinos. Seu pai claro que não queria que isso acontecesse, mas ao mesmo tempo tinha medo de ir contra a vontade dos deuses. Erone era o melhor guerreiro Kasenkino desde sempre e por este motivo Ahua propôs que em troca do sacrifício de sua mãe, ela ficaria com Ahau por uma semana, pois acreditava que ele como líder tinha o direito de usufruir da beleza daquela mulher. – Moa viu uma lágrima escorrer pelo rosto de Daily, molhando seu véu. Mas continuou: - Depois desta semana que ela teve com Ahau, voltou para casa com seu pai. E ele a amava muito e por isso nunca se importou com o que houve. Sabemos que traição entre nosso povo é um dos piores crimes, no entanto ele não havia sido traído... Os deuses haviam decidido que seria daquela forma, então Darla estava perdoada. O tempo passou e sua mãe engravidou de você. Ela veio até mim e pediu que que você viesse ao mundo pelas minhas mãos. Na primeira lua do inverno ela começou a sentir as dores do parto. Imediatamente ela me procurou. Depois do possível sacrifício aos deuses ela mudou... Passou a ter medo o tempo inteiro. Temia que Ahua novamente quisesse fazer dela uma oferenda ou torná-la esposa de Ahau. Seu parto foi difícil. Mas eu consegui salvar você. Não pude fazer o mesmo com Darla... Talvez realmente os deuses a quisessem ao seu lado. Seu pai e todos os Kasenkinos me culparam pela morte dela. Foi a primeira e única mulher que morreu em minhas mãos durante um parto. E infelizmente ela era muito especial para mim, pois era uma grande amiga. Ahua sugeriu meu banimento do povoado... E eu concordei, pois não suportaria mais viver lá depois de tudo que havia presenciado. Amo nosso povo e faço tudo por ele... O sangue Kasenkino corre nas minhas veias. Mas não consigo concordar com tudo que acontece no povoado e nem com estas tradições tão antigas que muitas vezes machucam as pessoas. Nosso povo nem sempre foi assim. Tivemos melhores líderes.

Daily não conseguia evitar as lágrimas. Era impossível não se culpar pela morte de sua mãe, que morreu ao colocá-la no mundo.

- Moa, então eu sou a culpada pela morte de minha mãe?

- Não, de forma alguma, Daily. Eu sou o culpado... Somente eu.

- Moa, você não teve culpa... Ela queria que fosse você entende?

- Infelizmente eu não consegui salvá-la... E ela era minha amiga. Talvez eu pudesse ter tentado de outra forma. Sempre vou me culpar... Por isso eu mesmo me retirei e aceitei o banimento como forma de punição.

- Eu tenho certeza de que você fez tudo que estava ao seu alcance.

- E por isso temo por você, minha menina.

- Por mim? Por quê?

- Se por baixo de seu véu seu rosto for tão lindo quanto o de sua mãe, poderá atiçar Ahau. E se ele quiser você, assim como quis sua mãe?

- Mas ele é muito velho, Moa... Não faria isso eu acho.

- Ahau e Ahua às vezes parecem se importar mais com a beleza das mulheres Kasenkina do que com qualquer outra coisa. Vi muitas brigas por este motivo no povoado.

- E a mulher de Ahau na época? Como reagiu a tudo que aconteceu?

- Terry? – ele fez uma pausa. – Terry foi a mulher mais bela que eu já conheci.

- O que houve com ela?

- Foi banida também.

- Banida? Mas por quê? O que ela fez?

- Ahua mais uma vez o convenceu de que os deuses não queriam Terry como esposa dela. Que ela não servia para ele por não ser a mais bela Kasenkina. Que uma nova mulher estava predestinada a ele e esta era a mais bela de todas. Não poderiam deixar Terry viver livre entre os Kasenkinos, não é mesmo? Jamais eles fariam isso... Então decidiram que ela teria que ir embora para longe do povoado.

- Mas você disse que ela era linda...

- E era...

- Então por que fizeram isso?

- Ahau até gostava de Terry eu acho... Mas ele sempre deu ouvidos a tudo que Ahua lhe falava... Nunca questionou nada.

- E você acha que Ahua pode não conversar com os espíritos antigos? Poderia ele estar mentindo para todos?

- Acho que ele só não fala com os espíritos certos.

- Pode ser... Tenho um pouco de medo dele, Moa. – confessou ela. – Às vezes ele me olha de um modo muito estranho e sinto com frequência ele me observando, mesmo não estando olhando para ele.

- Por isso temo por você. Caso herde a beleza de Darla, pode mexer com os desejos dele novamente. Primeiro foi Terry, depois sua mãe... A próxima pode ser você.

- Mas ele não verá meu rosto antes de eu estar casada.

- E se ele quiser lutar com seu pretendente? Ou mandar alguém fazer isso?

- Ele não faria isso, Moa. Não deixaria isso tão evidente lutando por mim. Pelo menos eu acho.

- Talvez você tenha razão... Deixaria tudo muito claro ao povo Kasenkino. Creio que Ahua queira as mulheres que procura para Ahau para ele mesmo. E até hoje Ahau não teve um herdeiro... Já está com idade avançada. Quando ele morrer se não houver um filho para assumir seu lugar na liderança Kasenkina, Ahua será o novo líder.

- Isso não pode acontecer nunca.

- Peço que não fale com ninguém sobre o que conversamos aqui e o que eu lhe contei, Daily.

- Eu nunca farei isso, Moa.

- Confio em você, Daily, como sempre confiei em sua mãe.

- E Terry, para onde ela foi?

- A mandaram para o outro lado do rio... Muito tempo se passou. É difícil que ela esteja viva depois de tanto tempo.

- Do outro lado do rio? Mas lá é perigoso... Outros povos podem passar por lá... Há animais ferozes. É até um local proibido para os Kasenkinos.

- Terry nunca foi culpada por nada... Seu único pecado foi ter sido menos bela que sua mãe.

- Ela deve estar bastante mudada... O tempo passou. Como será que ela vive?

- Espero que ela não tenha sofrido... Pobre Terry.

- Parece que você gostava muito dela, Moa.

Ele sorriu tristemente:

- Eu a amava, Daily.

- Você era apaixonado por Terry? Por que não lutou por ela?

- Lutar com Ahau? Ninguém pode fazer isso, Daily.

- Ahau era um bom guerreiro?

- Ahau nunca lutou... Sempre teve todo um povo para lutar por ele. Se eu sequer olhasse para Terry ele poderia me punir, entende?

- Ahau é um homem horrível.

- Não tanto quanto Ahua... Lembre-se disso sempre.

- Você não tentou encontrar Terry depois que ela foi banida?

- O rio foi vigiado por um longo tempo depois que ela foi mandada para lá. Não queriam que ninguém passasse para o lado de lá para levar qualquer tipo de ajuda para ela. Na época eu ainda era jovem e tentei encontrar outro caminho... Mas não havia. Agora estou muito velho para esta longa jornada.

- Ainda gosta dela?

- O verdadeiro amor é eterno, minha menina. Um dia você saberá disso.

- Meu pai diz que o amor só serve para trazer sofrimento.

- Pode ser... Para ele realmente foi. Os deuses nem sempre estão do nosso lado no amor.

- Terry sabia de seu amor por ela?

- Não sei... Éramos grandes amigos e eu tinha este amor secreto por ela. Depois que ela casou com Ahau nós nunca mais nos vimos. Talvez ela tenha me achado um covarde por nunca ter pedido sua mão... Ou ter lutado por ela.

- Talvez ela espera por você...

- Não sei se ela sentia o mesmo que eu... Eu gostava tanto dela que por vezes achava ser correspondido. Meu amor era imenso que nem cabia dentro de mim. Mas sei que quando amamos tão intensamente, ficamos cegos e às vezes imaginamos coisas, como ser correspondidos.

Daily olhou a claridade do sol nas montanhas. Mas ainda tinha tantas coisas para perguntar. O tempo havia passado muito depressa.

- Não quero que sintam sua falta no povoado, Daily. Precisa ir.

- Meu pai não está em casa. Ninguém sentirá minha falta.

- Esta luta contra o Reino de Machia demorará bem mais do que todos imaginam.

- Você sabe quanto tempo?

- Talvez umas duas luas.

- Nossa... É muito tempo, Moa.

- O caminho até o castelo de Machia é longo... É um extenso reino.

- Moa, por que nós e o reino de Machia não somos um povo só?

- Somos diferentes... Temos hábitos e culturas completamente opostas. Nunca viu uma pessoa do reino, não é mesmo?

- Não... Nunca. Mas gostaria.

- São diferentes no tom da pele, nas crenças, no vestuário. Se vir um deles, saberá que não é um Kasenkino. E todos, sem exceção, odeiam o nosso povo.

- Por que nos odeiam, Moa?

- Somos povos inimigos desde sempre... Não sei se realmente houve um motivo ou qual foi na verdade.

- Verdade que eles tem um rei e uma rainha que lideram eles?

- Verdade.

- Acho estas lutas tão desnecessárias. Tantas pessoas morrem por isso. O mundo é tão grande... Poderia ser dividido, não acha? E não haveria guerras. Há comida e lugares para todos.

- Os deuses nos deram esta imensidão de terras... Mas os homens não se satisfazem com o que têm... Querem mais e não aceitam partilhar. Mas os Kasenkinos brigam por este lugar na floresta... Só isso. O Reino de Machia sempre quis também.

- Por que todos querem a floresta?

- Comida suficiente para viver por um bom tempo. Se ficarmos com a floresta não precisaremos mudar daqui por muitas gerações, entende?

- Eu não gostaria de sair da floresta.

- Esta floresta tem tudo que os dois povos precisam... Mas não aceitam dividir.

- Confesso que eu gostaria muito de conhecer o Reino de Machia algum dia, Moa.

- Espero que ninguém a ouça dizendo isso.

- Não tem curiosidade, Moa?

- Já conheci o Reino de Machia.

- Conheceu? E como é, Moa? Conte-me tudo.

- Lutei quando era jovem pelos Kasenkinos contra o reino. Mas não foi contra o rei, como esta batalha que está tendo agora.

- Venceram na época?

- Numa guerra nunca há vencedores, minha menina. Só há perdas para todos os lados.

- Você foi um bom guerreiro?

- Conseguir sobreviver, mas nunca fui como seu pai.

- Por que lutaram?

- Outras épocas... Nem lembro ao certo o motivo, pois sempre foram para mim pouco relevantes, entende? Mas eu sou um Kasenkino e não fugiria da luta... Sempre vou proteger meu povo. Muita coisa mudou desde então. Pelo que sei o Rei Pollo não é um rei ruim. É muito estimado pelo povo e tem curiosidade sobre nosso povo. Mas assim como no nosso reino, ele também tem seus conselheiros que nem sempre pensam como ele. Julgavam-nos animais no passado... Hoje pensam diferente e nos respeitam... Ou talvez tenham muito medo de nós. Os Kasenkinos só desejam uma coisa: viver em paz, sem nenhum outro povo próximo.

- Eu sonho conhecer o Reino algum dia... E ir saber sobre Terry também e o que aconteceu com ela. Queria ver outros lugares além desta floresta, embora eu a ame. Sei que existe um mundo enorme lá fora, com tantas coisas e pessoas diferentes para conhecer. E sei que sei tão pouco sobre tudo.

- Uma aventureira Kasenkina. – disse ele sorrindo.

- Isso é um pecado, Moa?

- Não... Sonhar e ter desejos não é pecado, Daily. Você sempre foi diferente, desde pequena. Acho que deveria ter nascido um bom tempo depois do que nasceu. Você tem um pensamento que vai além do que todos pensam. Talvez por isso possa ser incompreendida. Você poderia mudar todo o povo Kasenkino se quisesse... E para melhor. Tens força e coragem para isso.

- Conheço lugares na floresta que nenhum outro Kasenkino conhece. – falou ela orgulhosa.

- Tenho certeza disto. E sabe todos os sonhos que você tem? Realize cada um. Lute para conhecer o mundo e os lugares que deseja. Não tenha medo. Faça o que eu sempre quis fazer e nunca tive coragem. Você me lembra de minha juventude. Mas sempre seja sensata e tome cuidado. Nosso povo não perdoa e você sabe disso.

- Espero um dia ter coragem para fazer tudo isso.

- Quanto à Terry, prefiro que espere. É muito perigoso do outro lado. Você nem saberia por onde começar a procurar. Me prometa que não vai tentar encontrá-la... Pelo menos não agora.

- Acha mesmo que ela morreu?

- Terry era uma mulher muito forte... Nunca desistia de nada. Mas muito tempo se passou...

- Eu preciso ir agora. Gostaria muito de ficar, mas preciso partir. Obrigada por esta conversa e por tudo que me contou sobre minha mãe. Para mim foi muito importante. Conversar com você sempre foi a melhor coisa que fazia. Não deveria ter parado de vir procurá-lo.

- Você é uma menina muito inteligente... Não por saber o que sabe, mas por saber o que quer.

Moa olhou para a menina com o rosto escondido sob o véu fino. Percebia-se nitidamente a beleza dela e isso era um perigo. Olhos castanhos grandes e bem definidos muito bem pintados com Kohl. Cílios grandes e curvados. Sobrancelhas bem definidas e uma pele escura e muito bem cuidada. Cabelos longos e com cachos indefinidos caíam até a altura das costas. Ela usava uma tiara de pedras rosas e azuis dentro de fios dourados. O véu em tons de azul e verde contrastavam com sua pele.

- Daily, tome cuidado... Não deixe Ahua se aproximar de você. – avisou ele temendo pela jovem.

- Não se preocupe, Moa.

Capítulo 3 Três

Daily seguiu seu longo caminho de volta ao povoado Kasenkino. Iniciou correndo, mas logo cansou e voltou a caminhar novamente, em passos largos. Ela foi costeando o rio. O sol já estava alto no céu. Ela não estava muito preocupada com isso, pois sabia que seu pai não estava em casa. Estava na batalha com os demais Kasenkinos. Ela parou e olhou para o outro lado do rio. Aquele lado da floresta era escuro e não havia caminhos abertos em lugar algum. Além das árvores, o mato cobria tudo. Nunca se ouviu falar de alguém daquele lado do rio, nem mesmo outros povos.

Todos diziam que lá não havia árvores frutíferas, pouca caça e animais ferozes que rondavam em todos os lugares. Daily se sentou sobre as pedras pequenas e arredondadas que ficavam na margem do rio. Estava cansada e o vestido pesava em seu corpo. Começou a jogar algumas pedras dentro do rio. A correnteza era forte e todos sabiam que era bastante profundo. Ela colocou a mão na água límpida e sentiu uma enorme sensação de frescor. Tirou o vestido quente e pesado e colocou os pés na água refrescante. Sentiu a brisa tocar seu corpo e seu rosto e sentiu aquele véu, que sempre a acompanhava, coçar sua face. Não havia ninguém naquele lugar e a possibilidade de alguém aparecer era quase nula. Ela tirou o véu e colocou-o junto do vestido. Olhou sua imagem refletida em uma poça de água na margem do rio. Passou a mão no seu rosto macio. Seria tão bela quanto sua mãe? Sabia o quanto seu provo se preocupava com a beleza das mulheres e o quanto elas se empenhavam para estarem sempre bonitas. Mas esta beleza também poderia trazer perigo nas atuais circunstâncias. Ela entrou na água e foi nadando devagar para sentir a correnteza. Precisava ver se conseguia atravessar, mas percebeu que era quase impossível. A correnteza conforme ia adentrando ficava cada vez mais forte... Sem contar as enormes pedras que havia no leito. Logo ela precisou voltar às margens e deitou-se sobre as pedras, sentindo-se muito cansada e com os braços doloridos.

Ela fechou os olhos e ouviu o forte barulho da correnteza do rio descendo. Sabia que mais adiante havia uma enorme cachoeira que formava um imenso rio manso. Tinha o sonho de um dia conhecer aquele lugar que ouvira falar, mas nunca conseguira ter coragem para esta aventura. Imaginava a cachoeira de uma forma, mas talvez não fosse daquele jeito. Pensou o quanto ela sabia pouco sobre tudo. Por vezes achava que sabia mais que seu povo, mas ouvindo Moa falar percebeu que não sabia quase nada. Tinha tanto a aprender, tantas coisas a ouvir e tantos lugares para conhecer. Ela tinha certeza de que Moa era o mais sábio dentre os Kasenkinos e também mais forte que Ahua. No entanto ainda assim, mesmo sabendo sobre tudo, ele se apaixonou. E não se importou que o amor trouxesse dor. Nunca pensou que ele, sábio como era, pudesse ter deixado o amor se apossar dele daquela forma. Erone pouco respondia suas perguntas sobre o mundo e tudo mais que ela queria saber. Dizia que sempre que ela era muito jovem, embora se achasse madura o suficiente para saber sobre tudo. Talvez seu pai tivesse razão. Ela não sabia ao certo o que queria... Tinha tantos desejos, tantos sonhos... E nenhuma coragem para realizar nenhum deles. Será que o tempo lhe daria a coragem necessária? Moa dissera que ela tinha pensamentos bons e desejos possíveis. Um dia ela conheceria o Reino de Machia, Terry e a cachoeira. Mas tudo tinha seu tempo e ela acreditava muito nisso. Na hora certa, tudo aconteceria como os deuses queriam. E ela estava preparada para tudo, inclusive para a espera.

Ela vestiu-se novamente, colocou cuidadosamente seu véu cobrindo o rosto e seguiu seu caminho de volta. Estava sentindo fome e parou para comer algumas amoras silvestres. Alternava entre corridas e caminhadas largas. Seu vestido estava imundo. Logo ela entrou na bifurcação que se dividia em dois caminhos: um era o caminho de sempre, seguro e recomendado por seu povo. O outro, um caminho de terra e árvores, com um tronco meio caído, muito próximo ao rio, de onde se podiam ouvir as águas. Diziam que o caminho do tronco era perigoso, por ter animais selvagens que iam beber água no rio e ser caminho de pessoas do reino algumas vezes. Ela deu alguns passos no atalho não recomendado... Mas logo voltou e retornou ao seu trajeto de sempre. Ainda não se sentia preparada para ir para o povoado pelo caminho mais perigoso. Era melhor voltar logo para seu povo. Ela lembrou-se do povo Naiguã. Também não era um povo amistoso, embora não fosse inimigo de morte como o Reino de Machia. Era um povo selvagem e só queriam pedras e ouro. E para isso dizimavam outros povos. Viviam em tribos, seminus e eram conhecidos por abusarem das mulheres depois que matavam os homens nos povoados. Eram bons mercadores e por isso os Kasenkinos tentavam uma boa relação com eles em troca das boas mercadorias, em especial as maquiagens de olhos que só eles tinham, assim como excelentes tiaras de pedras e colares valiosos. Nunca entraram em briga com os Kasenkinos pois sabiam que o povo não tinha muitas pedras preciosas guardadas. Mas por inúmeras vezes invadiram Machia e tentaram roubar, sempre impedidos pela boa guarda do castelo. Ela teve medo que os Kasenkinos tivesse se unido aos Naiguã para atacar o reino de Machia. Não queria mais violência do que já estava previsto. Ela particularmente não gostava nem confiava nos Naiguã. Já presenciara uma luta entre os povos na infância, em que vira seu pai lutar bravamente. Era um povo muito forte, mas também sem escrúpulos. Embora Daily gostasse dos produtos que comercializavam, tinha medo de eles irem à aldeia mais para especularem do que para venderem. No povoado Kasenkino os Naiguã trocavam suas belas peças por verduras e legumes produzidos na horta e algumas especiarias como café e chás. Até quando haveria aquela guerra entre os povos? Seria o mundo tão pequeno para ter espaço para todos os povos? Ela esperava que um dia tudo aquilo acabasse, especialmente entre os Kasenkinos e Machia, que eram povos mais próximos.

Ela chegou logo ao povoado. Estava muito cansada e foi para sua casa. Ainda havia pessoas na rua.

Ela acendeu o lampião e preparou algo para comer. Estava faminta. Logo subiu as escadas e foi para sua cama. Sentia falta do pai em seu lar. O ar fresco da noite entrava pelas frestas e ela sentiu um pouco de frio. Levantou-se para pegar uma pele para cobrir-se. Observou do alto de sua janela a rua. Podia ver todo o povoado dali. Quase todos dentro de suas casas, com seus lampiões acesos e provavelmente solitários como ela, esperando alguém voltar da batalha. Ela estava cansada, mas não tinha sono. Reconheceu Ahua andando e voltou depressa seu corpo para dentro da casa, escondendo-se ao lado da janela. Seu coração bateu mais forte. Não sabia ao certo o motivo, mas temia aquele homem. Algo lhe dizia que os espíritos que conversavam com ele não eram do bem. E depois da conversa com Moa, ela teve mais certeza ainda de que seus pensamentos sobre ele não estavam errados. Ela foi deitar novamente.

Ela levantou-se da cama num salto. Seu coração batia descompassadamente. Se Ahua tivesse virado para trás a teria visto sem o véu. Então, segundo a tradição Kasenkina, teriam que se casar. Ela sentiu um arrepio percorrer seu corpo ao pensar na possibilidade de ser mulher de Ahua.

Ela desceu, fez um chá calmante e logo foi deitar novamente. Depois de muito pensar, rolar pela cama, ela acabou finalmente pegando no sono.

Daily acabou acordando mais tarde do que o normal. Percebeu o sol já no alto. Ser uma Kasenkina sem um marido lhe dava liberdade para fazer o que quisesse durante o dia. Sua única função era cuidar de seu pai e lhe servir. As mulheres casadas cuidavam dos maridos, dos filhos e trabalhavam de dia na horta do povoado. Daily sabia que um dia teria que se casar. E haveria luta se ela tivesse mais de um pretendente. E o que vencesse a luta e matasse o adversário seria o seu marido. Então deveria pedir aos deuses que se um dia se apaixonasse, não houvesse outro homem interessado nela. Então, no dia do casamento, tiraria seu véu para que todos conhecessem seu rosto. E começaria a ser como as outras mulheres: cuidar do marido e ir diariamente para o trabalho na horta. A horta era muito bonita e dela saíam as verduras e legumes frescos, que todos almejavam. Porém os mais bonitos eram reservados para o líder Ahau. O restante era dividido em partes iguais para todos que trabalhavam na colheita. Daily não trabalhava, por isso não tinha direito em usufruir dos produtos que eram cultivados lá. Era um privilégios das famílias constituídas de casais e filhos. Se sua mãe estivesse viva estaria trabalhando na horta, então eles teriam direito nas coisas produzidas lá. Erone era o melhor guerreiro Kasenkino, conhecido em todo o povoado, no entanto ele não tinha nenhum privilégio por isso, nem nos produtos da horta. Moças que ainda não eram casadas não trabalhavam em nenhum lugar pela possibilidade de perderem o véu. A única função que elas tinham era ficar em casa e cuidar da organização da mesma e serem responsáveis pelos cuidados com o seu véu e sua aparência. Precisavam sempre estar com cabelos penteados e adornos que chamassem a atenção. Tiara era item quase obrigatório também, pois chamava a atenção dos homens. Daily se cuidava conforme era necessário, mas achava aquilo ridículo algumas vezes. Alguém precisava se interessar por ela, mas o que ela sentia com relação a esta pessoa pouco importava para o povo. Qualquer descuido com o véu e o rosto ser mostrado antes do casamento levaria a jovem a ser ofertada aos deuses. O marido era o primeiro que deveria ver o rosto da mulher no dia do casamento. Em seguida ela seria mostrada para todos os demais presentes. Quando as meninas começavam a dar os primeiros passos já eram presenteadas com seus primeiros véus. E assim se seguia as tradições, que eram cultuadas de séculos em séculos, sem nunca serem questionadas.

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