A chuva caía pesada sobre Hollow Creek quando o ônibus finalmente atravessou a estrada cercada pela floresta. O som constante das gotas batendo contra o teto metálico criava um ruído monótono e quase hipnótico dentro do veículo. Helena observava as árvores escuras através da janela embaçada enquanto apertava os dedos contra a alça da bolsa no colo. A cidade parecia distante do restante do mundo, escondida entre montanhas cobertas por névoa constante.
Não era o lugar onde imaginava recomeçar a própria vida.
Mas também não tinha muitas escolhas.
O reflexo cansado no vidro devolveu a imagem de uma mulher exausta demais para continuar lutando contra o orgulho. Os últimos meses tinham sido uma sequência interminável de contas atrasadas, entrevistas humilhantes e portas fechadas na própria cara. O aluguel antigo vencera duas vezes. O cartão de crédito estava bloqueado. O telefone passava mais tempo silencioso do que tocando.
Ela ainda conseguia ouvir a voz da antiga gerente dizendo que "o perfil dela não combinava com a empresa".
Perfil.
Helena quase riu sozinha.
Na prática, aquilo significava apenas que haviam escolhido alguém com menos olheiras, menos problemas e um sorriso mais convincente.
Então surgiu a Blackwood Corporation.
O anúncio parecia bom demais para ser real.
Salário absurdamente alto.
Moradia temporária incluída.
Benefícios incomuns para uma empresa localizada em uma cidade pequena e esquecida no meio das montanhas.
Helena pesquisara sobre a companhia antes de aceitar, mas encontrara pouco. Quase nada, na verdade. Alguns artigos financeiros vagos, números impressionantes de crescimento e fotos antigas do prédio principal. Nenhuma entrevista relevante. Nenhuma informação concreta sobre o dono.
Aquilo deveria ter sido um alerta.
Mesmo assim, ela aceitara.
Porque precisava.
O ônibus desacelerou devagar até parar diante da pequena rodoviária da cidade. Helena levantou-se junto dos poucos passageiros restantes e desceu carregando apenas uma mala média e o próprio cansaço. O ar frio atingiu seu rosto imediatamente, atravessando o tecido do casaco.
Hollow Creek tinha cheiro de terra molhada, madeira antiga e alguma coisa estranhamente selvagem.
O lugar parecia silencioso demais.
As luzes dos postes piscavam sob a chuva enquanto poucos moradores caminhavam depressa pelas calçadas estreitas. Ninguém permanecia muito tempo do lado de fora. Era como se todos estivessem tentando chegar em casa antes de alguma coisa acontecer.
Helena puxou a mala até o único táxi parado próximo à entrada.
O motorista era um homem grisalho, de expressão fechada, que apenas assentiu quando ela informou o endereço do apartamento alugado.
O carro arrancou lentamente pelas ruas vazias.
Durante os primeiros minutos, ninguém falou nada.
Helena observava a cidade pela janela. As construções eram antigas, quase todas feitas de madeira escura e pedra. Algumas lojas ainda permaneciam abertas apesar do horário, mas os comerciantes fechavam as portas com rapidez incomum assim que a chuva aumentava.
Não havia barulho.
Nem música.
Nem trânsito.
Nem pessoas conversando.
Aquilo fazia Hollow Creek parecer uma cidade abandonada.
- Você veio trabalhar pros Blackwood? - perguntou o motorista de repente, ajustando o retrovisor.
Helena desviou os olhos da janela.
- Sim. Começo amanhã.
O homem soltou um ruído baixo, quase desconfortável.
- Entendo.
Ela esperou o restante da frase.
Mas ele permaneceu em silêncio.
- A empresa é tão ruim assim? - perguntou Helena depois de alguns segundos.
O motorista hesitou antes de responder.
- Não é questão de ser ruim.
- Então é o quê?
Os dedos dele apertaram o volante.
- Gente da cidade evita falar sobre os Blackwood.
Aquilo despertou imediatamente sua curiosidade.
- Por quê?
O homem lançou um olhar rápido pelo retrovisor.
- Porque é mais seguro assim.
Helena sentiu um arrepio leve percorrer os braços.
Aquilo soava ridículo.
E ainda assim...
O desconforto permaneceu.
- Você está tentando me assustar? - perguntou ela, tentando soar despreocupada.
- Não preciso.
A resposta veio rápida demais.
Depois disso, o motorista não falou mais nada durante o restante do trajeto.
Aquilo a incomodou mais do que deveria.
O apartamento alugado ficava em um prédio pequeno próximo ao extremo da cidade. Não era bonito, mas parecia limpo e organizado. Helena agradeceu ao motorista, pegou a mala e entrou rapidamente para escapar da chuva.
O silêncio do apartamento era quase sufocante.
Ela deixou a bagagem ao lado da cama e caminhou devagar até a janela da sala. Dali conseguia ver parte da floresta que cercava Hollow Creek. Mesmo à distância, as árvores pareciam densas demais.
Escuras demais.
O vento balançava os galhos altos de maneira inquietante.
Por um instante, Helena teve a sensação absurda de estar sendo observada.
Como se existisse alguma coisa escondida entre as árvores.
Esperando.
Ela fechou a cortina imediatamente e soltou uma respiração curta, irritada consigo mesma.
- Ótimo. Já estou ficando paranoica.
Tentou ignorar a sensação tomando um banho quente antes de dormir, mas o desconforto persistiu. E naquela noite, mesmo cansada, demorou horas para conseguir pegar no sono.
Na manhã seguinte, acordou antes do despertador tocar.
O céu permanecia cinzento, coberto por nuvens pesadas. A chuva diminuíra, mas a névoa parecia ainda mais densa do que na noite anterior.
Helena vestiu a melhor roupa social que possuía, prendeu o cabelo em um coque baixo e encarou o próprio reflexo no espelho por alguns segundos.
Parecia cansada.
Mas apresentável.
Precisava ser suficiente.
Saiu cedo do apartamento e pegou outro táxi até a Blackwood Corporation.
Quanto mais se afastavam do centro da cidade, mais vazias as ruas ficavam.
A floresta reapareceu ao redor da estrada.
Densa.
Silenciosa.
Imensa.
Então o prédio surgiu entre a névoa.
Helena desacelerou involuntariamente ao vê-lo.
A Blackwood Corporation parecia deslocada da realidade. Grande demais. Escura demais. As paredes de pedra negra e os enormes vidros fumês davam ao lugar uma aparência muito mais próxima de uma fortaleza do que de uma empresa.
O prédio não parecia acolhedor.
Parecia observar quem se aproximava.
Os portões de ferro se abriram lentamente quando o táxi estacionou diante da entrada principal.
Helena agradeceu o motorista e desceu.
O vento frio atravessou suas roupas imediatamente.
Ela ergueu os olhos para o topo do edifício mais uma vez antes de entrar.
Do lado de dentro, tudo era silencioso.
Funcionários caminhavam pelos corredores de cabeça baixa, evitando conversas longas e contato visual prolongado. Ninguém parecia relaxado naquele ambiente. O som dos saltos de Helena ecoava pelo saguão amplo enquanto ela tentava ignorar o desconforto crescente no estômago.
O lugar era bonito.
Luxuoso até.
Mas havia alguma coisa errada ali.
Alguma coisa invisível.
Uma recepcionista ergueu os olhos rapidamente quando Helena se aproximou.
- Helena Albuquerque?
- Sim.
A mulher fechou a pasta que organizava sobre a mesa.
- O senhor Blackwood está esperando.
Aquilo fez Helena franzir a testa.
Ela chegara vinte minutos adiantada.
- Ele sabe que eu já cheguei?
- Sim.
A recepcionista levantou-se imediatamente.
- Venha comigo.
Os corredores internos eram ainda mais estranhos. Havia poucos quadros, pouca decoração e nenhuma janela aberta. O ar parecia frio demais apesar do aquecimento central.
Helena percebeu outra coisa enquanto caminhavam.
Todos os funcionários pareciam tensos.
Alguns desviavam do caminho assim que viam a recepcionista passar. Outros mantinham os olhos baixos, como se qualquer distração pudesse causar problemas.
O silêncio era constante.
Pesado.
A mulher parou diante de uma porta dupla de madeira escura.
- Pode entrar.
Então saiu rápido demais.
Como se não quisesse permanecer ali por mais um segundo.
Helena respirou fundo antes de bater.
Uma voz grave respondeu do outro lado.
- Entre.
Ela empurrou a porta lentamente.
O escritório era enorme.
As paredes escuras combinavam com o restante do prédio, mas havia algo sufocante naquele ambiente específico. Talvez o silêncio absoluto. Talvez o cheiro forte de madeira e café amargo. Talvez o homem sentado atrás da mesa.
Dante Blackwood ergueu os olhos do computador.
E Helena sentiu o próprio corpo travar.
Ele era absurdamente bonito.
Mas não de uma forma comum.
Havia algo intimidador nele. Algo perigosamente controlado.
Os olhos cinzentos analisaram Helena de cima a baixo sem qualquer pressa. O maxilar forte permaneceu rígido. O terno preto parecia moldado perfeitamente ao corpo alto e largo.
Ele não parecia apenas um homem rico.
Parecia alguém acostumado a dominar qualquer ambiente em que entrasse.
Por alguns segundos, ninguém falou nada.
Então Dante se levantou.
O movimento foi lento.
Predatório.
Helena não soube explicar por que aquela palavra surgiu em sua cabeça imediatamente.
Talvez porque existisse alguma coisa feroz escondida sob a calma dele.
Algo que ela não conseguia definir.
- Helena Albuquerque - disse ele, aproximando-se. A voz era baixa, firme e perigosamente calma. - Finalmente chegou.
Ela tentou ignorar o arrepio que percorreu sua nuca.
- Senhor Blackwood.
Dante parou perto demais.
Helena percebeu o cheiro dele antes de qualquer outra coisa.
Madeira.
Chuva.
E algo selvagem.
Algo impossível de identificar.
Os olhos dele se estreitaram discretamente enquanto observava o rosto dela.
Então desceram pelo pescoço.
Pelos cabelos presos.
Pelas mãos.
Por um instante, a expressão fria vacilou.
Como se tivesse sido pego de surpresa por alguma coisa.
Algo que claramente não esperava encontrar.
Então voltou ao normal.
Controlado.
Impenetrável.
- Seu currículo é melhor do que imaginei - disse ele.
- Obrigada.
- Espero que saiba trabalhar sob pressão.
Helena sustentou o olhar dele.
- Sei.
Os dedos de Dante bateram lentamente sobre a mesa atrás dele.
O som ritmado ecoou pelo escritório silencioso.
- Aqui existem regras específicas.
- Certo.
- Não faça perguntas sobre assuntos internos da empresa.
Aquilo foi tão direto que Helena piscou.
- Tudo bem...
- Não circule sozinha após as dez da noite.
Ela franziu a testa.
- Perdão?
- Hollow Creek não é uma cidade segura.
O tom dele não parecia preocupado.
Parecia um aviso.
Helena cruzou os braços lentamente.
- Isso deveria me preocupar?
Os olhos cinzentos encontraram os dela novamente.
Intensos.
Fixos.
- Depende da sua capacidade de seguir instruções.
O desconforto no estômago aumentou.
Dante desviou o olhar pela primeira vez.
- Megan vai lhe mostrar sua sala.
A conversa aparentemente terminara.
Helena assentiu e virou-se em direção à porta.
Mas antes que conseguisse sair, a voz dele voltou a ecoar atrás dela.
Mais baixa dessa vez.
Mais estranha.
- E mantenha distância da floresta.
Ela olhou por cima do ombro.
Dante continuava parado exatamente no mesmo lugar.
Observando.
Imóvel.
Como um animal esperando alguma reação.
- Entendido - respondeu ela.
Os olhos dele permaneceram fixos nela por mais alguns segundos.
Intensos demais.
Quando Helena finalmente saiu do escritório, conseguiu respirar direito outra vez.
Mesmo assim, a sensação permaneceu.
Aquela empresa escondia alguma coisa.
E Dante Blackwood era o centro dela.
Os corredores da Blackwood Corporation continuavam silenciosos demais.
Helena percebeu aquilo ao longo do restante do primeiro dia. Não importava o horário - manhã, almoço ou fim de expediente - ninguém falava alto naquele lugar. As conversas aconteciam em murmúrios rápidos, quase cautelosos, como se qualquer som excessivo pudesse incomodar alguém perigoso.
Ou despertar alguma coisa.
Megan, a assistente do setor financeiro, foi encarregada de mostrar o prédio para Helena depois da reunião inicial com Dante.
Era simpática, mas claramente nervosa.
- O senhor Blackwood gosta de organização - explicou enquanto caminhavam pelo terceiro andar. - Então tente evitar atrasos, mudanças de agenda e... bem... erros.
Helena soltou uma pequena risada.
- Ele parece um pouco rígido mesmo.
Megan não riu de volta.
Aquilo bastou para o desconforto retornar.
A sala de Helena ficava ao lado direto do escritório principal de Dante. Pequena, elegante e fria como todo o restante do prédio. Havia uma mesa preta impecavelmente organizada, um computador novo e uma parede inteira ocupada por arquivos físicos.
Ela deixou a bolsa sobre a cadeira.
- Alguma dúvida? - perguntou Megan.
Helena hesitou por um segundo.
- O senhor Blackwood sempre trata todo mundo daquele jeito?
A mulher pareceu escolher cuidadosamente as palavras.
- Dante exige muito dos funcionários.
O uso do primeiro nome chamou atenção imediatamente.
Não "senhor Blackwood".
Dante.
Como se dentro daquela empresa existissem regras diferentes.
- Ele mora aqui na cidade? - perguntou Helena.
- Na mansão Blackwood. Fica depois da floresta.
Outra vez a floresta.
Tudo naquela cidade parecia girar ao redor dela.
- E ele tem família?
Megan congelou por um instante.
Foi rápido.
Mas Helena percebeu.
- Você vai aprender que Hollow Creek não gosta de perguntas pessoais.
Aquilo soou mais como advertência do que conselho.
Antes que Helena pudesse insistir, Megan mudou completamente de assunto e começou a explicar a rotina administrativa da empresa.
Mesmo assim, a curiosidade permaneceu crescendo.
Durante o restante da manhã, Helena organizou documentos, respondeu e-mails atrasados e atualizou agendas corporativas. O trabalho em si era simples. Estranhamente simples para um cargo tão bem pago.
O problema era Dante Blackwood.
A presença dele parecia ocupar o andar inteiro.
Toda vez que a porta do escritório principal abria, os funcionários imediatamente ficavam tensos. O som dos teclados diminuía. As conversas morriam.
E Dante atravessava os corredores como se absolutamente tudo lhe pertencesse.
Talvez porque pertencesse mesmo.
Perto do almoço, Helena finalmente voltou a vê-lo mais de perto.
Ela carregava algumas pastas quando a porta do escritório dele se abriu repentinamente. Dante surgiu falando ao telefone, a expressão rígida.
- Não me importa o que o conselho decidiu - dizia ele em voz baixa. - O território continua fechado.
Território.
A palavra soou estranha.
Antes que Helena pudesse pensar melhor sobre aquilo, Dante ergueu os olhos.
E parou.
O silêncio no corredor pareceu imediato.
Os olhos cinzentos percorreram Helena lentamente.
Muito lentamente.
Ela sentiu o corpo inteiro enrijecer.
Havia alguma coisa errada naquele olhar.
Alguma coisa intensa demais.
Dante encerrou a ligação sem desviar os olhos dela.
Então se aproximou.
Helena tentou manter a postura profissional enquanto ele diminuía a distância entre os dois.
De perto, era ainda pior.
Ou melhor.
Dependendo da perspectiva.
O homem era absurdamente bonito de forma quase agressiva. Alto, ombros largos, movimentos controlados demais. Como alguém constantemente segurando a própria força.
O cheiro dele voltou a atingir Helena.
Madeira molhada.
Terra.
Frio.
E algo perigosamente masculino.
- Está se adaptando? - perguntou ele.
A voz grave atravessou Helena de maneira desconfortável.
- Sim.
Dante inclinou levemente a cabeça.
Como se analisasse não apenas suas palavras, mas sua respiração, seus batimentos, suas reações.
Helena apertou as pastas contra o peito.
- Precisa de alguma coisa, senhor Blackwood?
O maxilar dele tensionou discretamente.
Outra vez aquela estranha mudança de expressão surgiu.
Quase irritação.
Quase fome.
Então desapareceu.
- Não me chame assim.
Ela piscou.
- Como?
- "Senhor Blackwood."
A forma como ele pronunciou o próprio sobrenome parecia carregada de desprezo.
- Aqui dentro, todos me chamam de Dante.
Helena estranhou imediatamente.
Aquilo parecia íntimo demais.
- Certo... Dante.
O silêncio seguinte durou segundos longos demais.
Os olhos dele escureceram.
Literalmente.
Por um instante, Helena teve certeza de que as pupilas de Dante haviam se dilatado de forma anormal.
Então ele recuou um passo abruptamente.
Como se tivesse se forçado a isso.
- Termine os relatórios da sala leste até o fim do expediente - ordenou em tom frio novamente.
E foi embora.
Simples assim.
Helena permaneceu parada no corredor tentando entender por que aquela interação aparentemente banal havia deixado seu coração acelerado.
Ela voltou para a própria sala tentando ignorar a sensação.
Não conseguiu.
Durante a tarde inteira, percebeu olhares constantes vindos dos outros funcionários.
Principalmente depois que Dante passou a chamá-la diretamente pelo interfone pessoal em vez de enviar mensagens internas.
Megan apareceu perto das cinco horas trazendo café.
- Você chamou atenção rápido.
Helena ergueu os olhos do computador.
- O quê?
A mulher hesitou antes de responder.
- Dante raramente mantém secretárias por muito tempo.
Aquilo não ajudou.
- Por quê?
- Porque ele perde a paciência.
Helena soltou um suspiro cansado.
- Ótimo.
Mas Megan continuava séria.
- Só... tome cuidado.
- Com o quê exatamente?
A mulher demorou para responder.
- Com ele.
O tom baixo fez um arrepio atravessar Helena.
Antes que pudesse perguntar mais alguma coisa, a energia do prédio mudou abruptamente.
Foi quase físico.
Os funcionários ficaram tensos ao mesmo tempo.
Alguns levantaram os olhos em direção às janelas escuras.
Megan empalideceu.
- O que aconteceu? - perguntou Helena.
Então ouviu.
Um uivo.
Distante.
Vindo da floresta.
O som atravessou o prédio inteiro.
Profundo.
Animal.
Helena sentiu o sangue gelar.
E naquele mesmo instante, a porta do escritório principal de Dante se abriu violentamente.
Ele surgiu imóvel no corredor.
Os olhos presos na janela.
O rosto completamente transformado por uma expressão brutal.
Predatória.
Os funcionários imediatamente desviaram o olhar.
Mas Helena não conseguiu.
Porque pela primeira vez viu aquilo claramente.
Os olhos dele não eram cinzentos.
Sob a luz fria do corredor, brilhavam dourados.
O silêncio que tomou o corredor após o uivo pareceu sufocar o prédio inteiro. Algo pesado, denso, mórbido e assustador.
Helena continuava parada ao lado da própria mesa, incapaz de desviar os olhos de Dante.
Dourados.
Os olhos dele estavam realmente dourados.
Não era reflexo da iluminação. Como isso poderia ser possível?
Não era impressão. Deveria ser. Era irreal.
Por alguns segundos, ninguém se moveu. Os funcionários mantinham a cabeça baixa como se olhar diretamente para Dante fosse proibido. O ar parecia pesado demais, carregado por uma tensão invisível que Helena não conseguia compreender.
Então Dante piscou.
E o dourado desapareceu.
Os olhos voltaram ao tom cinzento frio de antes.
Mas o estrago já estava feito. Ela estava admirada.
Helena sentiu o coração bater forte demais dentro do peito.
Dante virou lentamente o rosto em sua direção.
Ela teve a sensação absurda de que ele conseguia ouvir cada batimento acelerado.
O maxilar dele se tensionou.
- Todos podem ir embora - disse ele.
A voz grave ecoou pelo andar imediatamente.
Ninguém hesitou. Helena não se moveu.
Em menos de dois minutos, os corredores começaram a esvaziar. Funcionários recolhiam bolsas e documentos sem trocar palavras, como pessoas acostumadas a obedecer ordens rápidas.
Megan passou pela mesa de Helena visivelmente nervosa.
- Você também deveria ir.
- Megan...
- Vá pra casa.
A insistência na voz dela parecia quase desesperada.
Antes que Helena pudesse continuar, Dante voltou a falar:
- Helena. No meu escritório.
O que???
O tom não soou como convite.
Ela engoliu seco.
Quando entrou novamente naquela sala escura, sentiu a pressão retornar imediatamente. Dante permanecia de pé diante da enorme janela ao fundo, observando a floresta além da empresa.
A chuva havia parado.
A névoa, porém, parecia ainda mais densa entre as árvores.
Helena fechou a porta atrás de si.
- O que foi aquilo?
Dante não respondeu imediatamente.
Ela percebeu os dedos dele pressionando o peitoril da janela com força excessiva. Forte demais.
Como se estivesse contendo alguma coisa.
- Hollow Creek tem animais selvagens - respondeu por fim.
Mentira.
Helena reconheceu aquilo imediatamente.
- Seus olhos mudaram de cor.
O silêncio seguinte foi perigoso.
Dante virou o rosto lentamente.
A expressão dele endureceu.
- Você deve estar cansada da viagem.
- Eu vi.
Ele caminhou na direção dela.
Devagar.
Controlado.
Helena tentou ignorar o instinto estranho que gritava para recuar.
Mas não recuou.
Dante parou perto o suficiente para fazê-la prender a respiração.
- Escute com atenção, Helena - disse ele em voz baixa. - Existem coisas nesta cidade que você não entenderia.
O tom grave atravessou a pele dela como um aviso.
- Então me explique.
Algo brilhou no olhar dele.
Irritação.
Ou surpresa.
Talvez ambos.
- A curiosidade pode colocar você em perigo.
- Isso deveria me tranquilizar?
Dante ficou em silêncio por alguns segundos.
Os olhos dele percorreram o rosto dela lentamente, como se avaliassem alguma decisão interna.
Então se afastou abruptamente.
- Vá para casa.
Helena cruzou os braços.
- Você não respondeu minha pergunta.
- E você continua insistindo em perguntas erradas.
A resposta fria despertou irritação imediata nela.
- Certo. Então talvez eu devesse começar a fazer perguntas para outras pessoas.
O efeito foi instantâneo.
O ambiente pareceu congelar.
Dante ergueu os olhos devagar demais.
Predatório outra vez.
- Não faça isso.
A intensidade na voz dele arrancou um arrepio involuntário de Helena.
Não parecia apenas um pedido.
Parecia ameaça.
Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos antes de pegar a própria bolsa.
- Boa noite, Dante.
Saiu da sala antes que ele respondesse.
Mas conseguiu sentir os olhos dele acompanhando cada passo.
Do lado de fora, o estacionamento da empresa estava praticamente vazio. A noite caíra rápido sobre Hollow Creek, cobrindo a cidade inteira com sombras azuladas e névoa baixa.
Helena apertou o casaco contra o corpo enquanto caminhava até o carro alugado.
Tentava racionalizar tudo.
Olhos dourados.
Funcionários assustados.
Uivos.
Advertências estranhas.
Nada daquilo fazia sentido.
Quando entrou no carro, percebeu outra coisa.
O silêncio.
Não havia sons da cidade.
Nenhum movimento.
Nenhuma voz.
Apenas o vento atravessando as árvores distantes.
Ela ligou o motor rapidamente.
Durante o trajeto até o apartamento, teve a sensação constante de estar sendo seguida. Não por um carro.
Por alguma coisa na floresta.
Várias vezes enxergou movimentos rápidos entre as árvores enquanto os faróis cortavam a estrada escura.
Sombras grandes demais.
Rápidas demais.
Helena acelerou.
Só conseguiu respirar melhor ao estacionar diante do prédio pequeno onde morava.
Subiu as escadas depressa.
Trancou a porta.
E permaneceu alguns segundos imóvel dentro do apartamento silencioso.
Então ouviu o som.
Um arranhão.
Vindo da janela da sala.
O coração dela disparou imediatamente.
Outro arranhão.
Lento.
Helena caminhou até a cortina com cuidado.
A racionalidade dizia que provavelmente era apenas um galho.
Mas o medo crescia mesmo assim.
Ela afastou a cortina de uma vez.
Nada.
Apenas a rua vazia.
Helena soltou o ar lentamente.
Ridículo.
Estava ficando paranoica.
Virou o corpo de volta para a sala.
E congelou.
Porque do lado de fora do prédio, parcialmente escondido pela sombra das árvores, havia um homem observando sua janela.
Alto.
Imóvel.
Mesmo à distância, Helena reconheceu imediatamente.
Dante Blackwood.
Ela prendeu a respiração.
O vento atravessou a rua silenciosa enquanto ele continuava parado ali.
Observando.
Sem piscar.
Então, lentamente, Dante virou o rosto em direção à floresta atrás dele.
Como se tivesse ouvido alguma coisa.
O corpo inteiro dele pareceu tensionar.
E um segundo depois, desapareceu na escuridão entre as árvores.