João Pedro, um arquiteto de renome, acreditava viver um conto de fadas com Sofia, sua namorada e esposa desde a adolescência. Aos 23 anos, o seu mundo parecia perfeito e imutável.
No entanto, um choque brutal quebrou a ilusão. Ele despertou subitamente no seu primeiro ano de casamento, com 24 anos, mas com memórias vívidas de um futuro devastador: a "morte" trágica de Sofia num acidente de iate, que o arruinaria, levando-o a 20 anos de luto amargo e a uma doença terminal. Pior ainda, a verdade de que essa "morte" era uma farsa – um plano cruel da sua esposa e do seu amante, Ricardo.
Agora, cada sorriso de Sofia, cada desculpa para as suas saídas secretas e os sussurros que ele ouvira sobre o "plano da lancha" para o eliminar por dinheiro, ressoavam como uma traição indizível. Ele vê a mulher ao seu lado não como o amor da sua vida, mas como a mente fria por trás da sua futura desgraça.
Como pôde ter sido tão cego? Aquele conto de fadas transformado num pesadelo gelado, o homem que ela viria a destruir na primeira vida, agora sabia a verdade. A dor lacerante da traição misturava-se a uma raiva gelada.
Ele não seria mais a vítima tola. Com o futuro desvelado, João Pedro decidiu que era a sua vez de jogar. Se ela forjaria a morte dele, ele forjaria a sua própria - e viveria para ver Sofia pagar por cada mentira, cada abraço falso e cada pedaço da sua vida que ela estava prestes a roubar.
João Pedro, um arquiteto de renome especializado na restauração de património, casou-se com Sofia, sua namorada desde a adolescência, aos 23 anos.
Viviam um conto de fadas, ou assim ele pensava.
Dois anos depois, a tragédia. Sofia "morreu" num terrível acidente de iate.
O mundo de João Pedro desabou.
Vinte anos se passaram. Aos 43 anos, João Pedro era um homem amargurado, a sombra do que fora, e com uma doença terminal a consumir-lhe os dias.
Decidiu viajar até aos Açores. Queria ver a Lagoa das Sete Cidades uma última vez, um lugar que Sofia sempre sonhara conhecer.
O ar era puro, a paisagem de uma beleza dolorosa.
Então, ele a viu.
Sofia.
Viva.
Radiante, ao lado de outro homem, Ricardo. Pareciam felizes, um casal apaixonado.
O coração de João Pedro parou, depois disparou numa dor lancinante. Vinte anos de luto, de saudade, de uma vida interrompida, eram uma mentira.
Os seus olhares cruzaram-se. O sorriso de Sofia congelou, o pânico estampou-se no seu rosto.
Antes que qualquer palavra pudesse ser dita, a terra tremeu. Uma tempestade súbita, violenta, formou-se sobre a lagoa. Gritos ecoaram. Um deslizamento de terras começou a engolir a margem onde estavam.
No caos, Sofia correu na direção de João Pedro.
Ela empurrou-o, protegendo-o com o seu corpo enquanto a lama e as pedras desabavam.
"Paguei a minha dívida," ela sussurrou, a voz fraca contra o barulho da tempestade. "Se pudesse recomeçar, esperaria por ele..."
A escuridão engoliu João Pedro.
Ele acordou sobressaltado, o coração a martelar no peito. Estava na sua cama, ao lado de Sofia.
Sofia, jovem, linda, a mesma de há vinte anos.
Era o primeiro ano do seu casamento. Ele tinha 24 anos.
As memórias do futuro, da sua "morte", da doença, do reencontro nos Açores, da confissão dela, estavam intactas, gravadas a fogo na sua mente.
O coração estava despedaçado, mas uma nova oportunidade surgia.
Sofia mexeu-se ao seu lado, ressonando suavemente.
Ele olhou para ela, a mulher que amara mais que a própria vida, a mulher que o traíra de forma tão cruel.
A dor era um abismo.
Ela abriu os olhos, sorriu sonolenta.
"Bom dia, meu amor."
A voz dela, antes música para os seus ouvidos, agora soava como um prenúncio de desgraça.
Ele não respondeu, apenas a observou.
Ela franziu o sobrolho, confusa com o seu silêncio.
"Está tudo bem, João? Tiveste um pesadelo?"
Ele desviou o olhar, levantou-se.
"Vou tomar um duche."
No espelho, viu o seu rosto jovem, sem as marcas do tempo e da doença. Mas os seus olhos carregavam o peso de uma vida inteira de sofrimento.
Sofia entrou na casa de banho, abraçou-o por trás, encostou a cabeça nas suas costas.
"Estás estranho hoje."
Ele sentiu o corpo dela contra o seu, o cheiro familiar do seu perfume. Antes, aquilo seria o paraíso. Agora, sentia repulsa.
Afastou-se dela delicadamente.
"Só estou cansado."
Ela observou-o, uma sombra de dúvida no olhar.
"Vou preparar o pequeno-almoço. Fiz aqueles teus bolinhos de chocolate preferidos."
Chocolate. Ele lembrou-se de como ela lhe dava chocolate no futuro, quando ele estava doente, um gesto vazio de significado.
"Não tenho fome," ele disse, a voz fria.
Sofia saiu, magoada.
Ele sabia. Ele sabia de tudo. E desta vez, não seria o tolo enganado.
João Pedro começou a observar Sofia com outros olhos, os olhos de quem conhecia o futuro.
Os telefonemas misteriosos, as saídas repentinas.
"Tenho um jantar de trabalho, amor."
"Vou encontrar-me com a Beatriz, coisas de amigas."
Mentiras. Ele sabia que eram mentiras.
Beatriz, a melhor amiga de Sofia, era cúmplice. Ele viu-as a cochichar, a rir baixinho, e Beatriz a lançar-lhe olhares culpados quando pensava que ele não estava a ver.
Um dia, Sofia disse que ia a uma conferência de arquitetura no Porto por três dias.
Ele lembrou-se dessa viagem. Na "primeira vida", ele acreditara.
Agora, seguiu-a.
Ela não foi para o aeroporto. Foi para um pequeno apartamento nos subúrbios, um lugar que ele não conhecia.
Ricardo abriu a porta.
Eles beijaram-se. Um beijo longo, apaixonado. O tipo de beijo que Sofia nunca mais lhe dera, nem mesmo no início da "primeira vida".
João Pedro sentiu o sangue ferver. A vontade de entrar ali e acabar com tudo era imensa.
Mas conteve-se. Precisava de mais. Precisava entender a extensão da traição.
Ricardo viu-o. Os seus olhos arregalaram-se por um instante, depois um sorriso trocista surgiu nos seus lábios. Ele puxou Sofia para dentro e fechou a porta.
Naquela noite, Sofia não voltou para casa.
Ligou, a voz casual.
"A conferência está ótima, meu amor. Mas vou ter de ficar mais uma noite, surgiu um imprevisto com um dos oradores. Muitos beijinhos."
Desligou antes que ele pudesse responder.
Ele lembrou-se de outra vez, na "primeira vida". Um aniversário dele. Sofia prometera um jantar romântico. Desapareceu durante horas. Voltou tarde, cheirando a perfume masculino que não era o dele, com uma desculpa esfarrapada sobre um pneu furado e um colega de trabalho prestável.
Ele acreditara. Ou fingira acreditar.
Agora, a dor era diferente. Era uma dor fria, calculista.
Na noite seguinte, quando Sofia ainda não tinha regressado da "conferência", ele passou pela porta do apartamento de Ricardo.
Ouviu as vozes deles lá dentro. Risos. E depois, a voz de Sofia, clara e distinta.
"Oh, Ricardo, és tão melhor que ele. Com ele é tudo tão... aborrecido. Tu fazes-me sentir viva."
Cada palavra era uma facada.
O seu mundo, que ele pensava ter sido reconstruído com esta segunda chance, desmoronava novamente.
A imagem da jovem Sofia, a prometer-lhe amor eterno na igreja, surgiu na sua mente.
"Até que a morte nos separe," ela dissera, os olhos brilhando.
Que ironia. A morte, ou melhor, a "morte" dela, tinha sido apenas o começo da mentira.
Ele sentou-se no carro, o corpo a tremer.
Não de tristeza. Mas de uma raiva gelada.
Ela queria sentir-se viva? Ele ia dar-lhe exatamente isso.
Ia fazê-la sentir a dor da perda, a agonia da culpa.
O plano começou a formar-se na sua mente. Um plano de vingança.
Um sorriso amargo curvou-lhe os lábios.
Se ela podia fingir a sua morte, ele também podia. E faria melhor.