Quando acordei no hospital, a primeira coisa que vi foi o gesso na minha perna.
A minha memória estava turva, mas lembrei-me do acidente.
Perguntei pela minha mãe e, desesperadamente, pelo meu noivo, Diogo.
O meu pai ligou e, em voz alta, a verdade chocou-me: Diogo tinha passado a noite a salvar a minha prima "frágil" Cláudia e o cão dela, enquanto eu estava entre a vida e a morte.
Ele sequer pensou em mim.
Foi então que decidi: "Vamos cancelar o casamento. Eu não quero mais casar com ele."
O meu pai explodiu, acusando-me de egoísmo e falta de compaixão.
Diogo, ao telefone, acusou a minha mãe de manipular-me.
Ninguém perguntou se eu estava bem, se tinha dor.
Ninguém se importou que a _noiva_ estivesse num acidente grave.
Enquanto o meu corpo estava partido, a minha alma também desmoronava sob o peso da sua indiferença.
Chega de ser a segunda opção.
Chega de ter o meu trauma diminuído pela "fragilidade" da Cláudia.
O acidente não partiu só a minha perna, partiu a venda dos meus olhos.
Agora, a única questão é: como é que eu vou reconstruir a minha vida, pedaço por pedaço, longe de todos eles?
Eles querem uma guerra?
Vão tê-la!
Quando acordei, a primeira coisa que vi foi o teto branco do hospital.
Um cheiro forte de desinfetante encheu o ar.
A minha cabeça doía, e o meu corpo inteiro parecia ter sido atropelado por um camião.
A minha mãe, Sofia, estava sentada ao meu lado, com os olhos vermelhos e inchados.
"Filha, finalmente acordaste", disse ela, a sua voz rouca.
Tentei sentar-me, mas uma dor aguda na minha perna esquerda fez-me recuar. Estava engessada.
"O que aconteceu?", perguntei, a minha memória estava turva.
"Houve um deslizamento de terras na estrada da serra. O teu carro...", a voz da minha mãe falhou.
Fragmentos de memória voltaram. O som da terra a mover-se, o carro a capotar, o vidro a estilhaçar-se. E o Diogo.
"Onde está o Diogo? Ele está bem?", perguntei, o meu coração a acelerar.
A minha mãe evitou o meu olhar. Nesse momento, o meu telemóvel, que estava na mesa de cabeceira, começou a tocar. Era o meu pai, Rui.
A minha mãe atendeu rapidamente, colocando-o em altifalante.
"Sofia, como está a Ana? O Diogo já está a caminho daí. Ele insistiu em ir, apesar de eu lhe dizer para descansar. O rapaz está exausto."
A voz do meu pai soava cansada, mas aliviada.
"Ele passou a noite toda a ajudar no resgate da Cláudia. A coitada ficou presa nos escombros da casa dela. Se não fosse o Diogo, ela não teria sobrevivido."
Cláudia. A minha prima. A filha da irmã da minha madrasta.
"Ele está bem?", perguntou a minha mãe.
"Sim, só alguns arranhões. Mas o cão dela, o Max, partiu uma pata. O Diogo levou-o ao veterinário de urgência. Ele ama mais aquele cão do que a si mesmo."
Senti um nó na garganta.
Então, enquanto eu estava inconsciente e a minha mãe chorava ao meu lado, o meu noivo estava a salvar a minha prima. E o cão dela.
"Rui", disse eu, a minha voz a sair mais firme do que esperava. "Diz ao Diogo para não vir."
"Ana? Já estás acordada? O que se passa, querida?"
"Vamos cancelar o casamento. Eu não quero mais casar com ele."
Houve um silêncio chocado do outro lado da linha. Depois, a fúria do meu pai explodiu.
"Estás louca? Cancelar o casamento por causa disto? O Diogo é um herói! Ele estava a salvar uma vida! A tua prima!"
"E eu? Eu não sou a noiva dele? Eu estava num acidente de carro, pai!"
"Foi um acidente! A Cláudia estava numa situação de vida ou morte! Não tens compaixão? Sabes o quão frágil a Cláudia é, a viver sozinha depois de tudo o que passou!"
Frágil? E eu? A minha vida não importava?
A minha perna partida, o meu corpo dorido, o meu trauma... nada disso se comparava à fragilidade da Cláudia? Ou à pata partida do cão dela?
As lágrimas que eu não sabia que estava a segurar começaram a escorrer pelo meu rosto.
O meu pai continuou a gritar.
"Queres cancelar tudo a um mês do casamento? Depois de tudo o que gastámos? Pensa bem, Ana! O Diogo ama-te! Ele só fez o que qualquer pessoa decente faria!"
"Qualquer pessoa decente teria verificado primeiro a noiva!", gritei de volta, a minha voz a quebrar.
"Pára de ser egoísta! A Cláudia precisa dele agora. Pensa nas tuas ações!"
Com isso, o meu pai desligou.
A minha mãe pegou na minha mão. As suas lágrimas caíam silenciosamente.
Olhei para o gesso na minha perna. Hoje de manhã, eu estava a experimentar o meu vestido de noiva. Agora, estava aqui, com uma perna partida e um noivado desfeito.
O Diogo tinha razão numa coisa que o meu pai disse. Ele ama-me. Pelo menos, ele dizia que amava.
Mas agora, eu já não tinha a ilusão de um futuro perfeito. A única coisa que nos unia, a promessa de uma vida juntos, tinha-se quebrado.
Então, era melhor acabar agora. Para quê esperar? Só continuaria a sentir-me como um segundo plano na minha própria vida.
Além disso, salvar a Cláudia foi mesmo um ato de puro heroísmo? A casa dela ficava na direção oposta ao local do meu acidente. Mesmo que ele estivesse perto, ele teria recebido a notícia do meu acidente primeiro.
Ele pensou em mim quando soube que o meu carro tinha capotado? Ele pensou no nosso futuro, nos nossos planos?
Provavelmente não. Senão, não teria ignorado as chamadas da minha mãe durante horas. Não teria priorizado a sua prima e o cão dela em vez de mim.
Eu era a noiva dele! Estávamos a um mês de prometer uma vida inteira um ao outro.
E nós tínhamos passado por tanto para chegar até aqui.
Ainda me conseguia lembrar da alegria que senti quando ele me pediu em casamento. Da excitação de planear cada detalhe. Agora, tudo parecia uma piada cruel.
Enquanto eu me perdia nos meus pensamentos, o telemóvel do meu pai, que ele tinha deixado na mesa, começou a tocar. Era uma chamada do Diogo.
A minha mãe olhou para mim, hesitante. Eu assenti. Ela atendeu.
Imediatamente, a voz preocupada do Diogo encheu o quarto. "Tio Rui! A Ana já acordou? Estou a caminho! O que se passou com ela para querer cancelar o casamento? A tia Sofia está a meter-lhe ideias na cabeça? Ela nunca gostou de mim!"
A acusação do Diogo pairou no ar, pesada e injusta.
A minha mãe enrijeceu, a sua expressão passando de tristeza para uma raiva fria.
"Diogo, a tua noiva sofreu um acidente grave. Ela podia ter morrido. E a tua primeira preocupação é acusar-me de a manipular?"
A voz da minha mãe era baixa, mas cortante.
"Tia Sofia, eu não quis dizer isso... Eu só estou preocupado. O pai dela disse que ela estava a falar em cancelar tudo. Isso não faz sentido."
"O que não faz sentido, Diogo, é que a tua noiva está numa cama de hospital e tu estiveste a noite toda a cuidar da tua prima."
"A Cláudia estava presa! O que é que eu devia fazer? Deixá-la morrer?"
A sua voz subiu de tom, cheia de uma justificação que me revirou o estômago.
"Ninguém te pediu para a deixares morrer. Mas talvez pudesses ter ligado. Talvez pudesses ter mostrado um pingo de preocupação pela mulher com quem vais casar."
"Eu estava ocupado! Não consegues entender isso? Foi uma emergência!"
Peguei no telemóvel da mão da minha mãe.
"Diogo."
A minha voz saiu surpreendentemente calma.
"Ana! Meu amor, estás bem? Eu estava tão preocupado! O teu pai assustou-me. O que é essa conversa de cancelar o casamento?"
"É exatamente isso, Diogo. Está cancelado."
"O quê? Porquê? Por causa da Cláudia? Eu já te expliquei, foi uma emergência! Eu salvei a vida dela!"
"Eu sei. E eu fico feliz que ela esteja bem. Mas tu fizeste uma escolha."
"Escolha? Que escolha? Não havia escolha a fazer!"
"Havia sempre uma escolha, Diogo. E tu não me escolheste a mim."
Desliguei a chamada antes que ele pudesse responder.
Entreguei o telemóvel à minha mãe e bloqueei o número dele. Depois o do meu pai. E o da Cláudia, para garantir.
Um silêncio pesado instalou-se no quarto.
A minha mãe apenas me observava, os seus olhos a transmitirem uma mistura de dor e orgulho.
"Tens a certeza, filha?", perguntou ela suavemente.
"Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida."
Ela assentiu lentamente, um pequeno sorriso a formar-se nos seus lábios pela primeira vez naquele dia.
"Então vamos para casa. Assim que tiveres alta, vamos para a minha casa."
A ideia de ir para a casa da minha mãe, o pequeno apartamento onde cresci, trouxe-me um conforto inesperado. Longe do apartamento que eu e o Diogo partilhávamos, cheio de planos e promessas agora vazias.
Longe do meu pai e da sua nova família.
O meu pai, Rui, casou com a Helena, a mãe da Cláudia, poucos anos depois de se divorciar da minha mãe.
Para ele, a Helena e a Cláudia eram a sua família perfeita. Eu e a minha mãe éramos apenas um lembrete de uma vida anterior que ele preferia esquecer.
O Diogo, sendo o seu protegido no trabalho e o noivo da sua única filha, sempre se esforçou para agradar ao meu pai. E a melhor maneira de o fazer era cuidar da Cláudia.
A "frágil" Cláudia.
A raiva borbulhou dentro de mim, quente e amarga.
Não era a primeira vez. Lembrei-me de aniversários esquecidos, de jantares importantes cancelados, tudo porque a Cláudia tinha uma "crise".
E eu, como a "compreensiva" Ana, sempre desculpei. Sempre entendi.
Mas não mais.
O acidente de carro não partiu apenas a minha perna. Partiu a venda que eu tinha nos olhos.