A música alta da festa abafava o zumbido nos meus ouvidos, mas ele persistia, uma lembrança constante do acidente.
Todos na festa da empresa se viraram quando entrei, o choque evidente em seus rostos; Joana, a sócia dada como morta, estava de pé, num vestido vermelho.
Eles não sabiam que eu já tinha "morrido" antes, num acidente de carro "infeliz", orquestrado pelos meus queridos sócios, Pedro e Lucas.
Meu olhar varreu a multidão, ignorando os sussurros, até encontrar Pedro.
Seu copo de uísque se estilhaçou no chão de mármore.
"Joana?", sua voz um sussurro rouco, ele parecia incrédulo.
O cheiro de álcool e perfume caro dele me embrulhou o estômago.
"Você estava no incêndio. O prédio desabou."
"Eu sou uma mulher de muitos talentos", respondi com frieza, "inclusive o de sobreviver."
Os murmúrios ao nosso redor aumentaram: "É ela mesma?", "O corpo estava irreconhecível...", "Eles herdaram a parte dela, não foi?".
Pedro tentou me tocar, mas eu recuei: "Não me toque".
"O que está acontecendo, Joana? Onde você esteve? Por que voltou assim?"
Eu dei um sorriso sem calor.
"Eu vim corrigir alguns erros. E, a propósito, não é mais Joana. É Senhora Albuquerque."
A confusão no rosto dele aprofundou-se.
"Estou falando do meu marido", anunciei, alto o suficiente para todos ouvirem. "Eu me casei."
Pedro balançou a cabeça, um riso amargo escapando.
"Você não pode ter se casado. Você... você pertence a nós."
Sua raiva explodiu, e ele socou um painel de vidro, quebrando-o.
"Chega de joguinhos, Joana!"
Lucas emergiu da multidão, calmo e arrepiante.
"Ela não é a Joana", disse Lucas, sua voz carregada de certeza. "Ela finalmente voltou para nós. Nossa paixão de infância."
Ele se virou para multidão atônita.
"Esta mulher não é esposa de ninguém. Ela é uma farsa. E ela veio para casa."
Pedro e Lucas, dois predadores me encurralaram.
"Você não vai a lugar nenhum", disse Pedro, ameaçador.
"Você vai ficar conosco", completou Lucas, com um sorriso gelado. "Para sempre."
Naquela noite, eu "morreria" pela terceira vez, não de fogo ou aço, mas de uma verdade mais cruel: para eles, eu nunca fui Joana.
Eu era apenas um corpo para preencher o vazio de um amor doentio por um fantasma.
Mas agora, eu não era mais uma ovelha.
Eu era a loba, e eles, minhas presas.
E eu não morreria mais por eles.
A música alta do salão de festas parecia abafar o zumbido nos meus ouvidos, mas ele continuava lá, uma lembrança constante do acidente. Do primeiro acidente. Ou talvez do segundo. Eu já não tinha mais certeza.
Todos os rostos na festa da empresa se viraram para mim quando entrei. O choque era visível, bocas abertas, olhos arregalados. Joana, a sócia que todos acreditavam estar morta num incêndio trágico, estava ali, de pé, usando um vestido vermelho que contrastava com a palidez da minha pele.
Eles não sabiam que eu já tinha "morrido" uma vez antes, num acidente de carro que me deixou em coma, um acidente que meus queridos sócios, Pedro e Lucas, chamaram de "infeliz".
Meu olhar varreu a multidão, ignorando os sussurros e os dedos apontados, até encontrar o dele.
Pedro.
Ele estava no centro de um grupo, um copo de uísque na mão, o sorriso charmoso congelado no rosto. O copo escorregou de seus dedos e se estilhaçou no chão de mármore. O som agudo cortou a música por um instante.
Ele caminhou na minha direção, seu passo normalmente confiante agora era hesitante, quase incrédulo.
"Joana?", sua voz era um sussurro rouco. "Não é possível."
Eu mantive meu rosto sem expressão.
"Por que não, Pedro? Sentiu minha falta?"
Ele parou a um passo de mim, o cheiro de álcool e do perfume caro dele me atingiu, me enjoando. Seus olhos percorreram meu corpo, como se procurassem por cicatrizes, por provas de que eu era real.
"Você... você estava no incêndio. O prédio desabou."
"Eu sou uma mulher de muitos talentos", respondi com frieza, "inclusive o de sobreviver."
Os murmúrios ao nosso redor aumentaram, uma onda de fofocas se espalhando pelo salão.
"É ela mesma? A sócia que morreu?"
"Eu ouvi dizer que o corpo estava irreconhecível..."
"E o Pedro e o Lucas? Eles herdaram a parte dela na empresa, não foi?"
"Que situação estranha. Ela aparece justo na noite em que eles anunciam a nova expansão."
Pedro estendeu a mão para tocar meu rosto, mas eu recuei.
"Não me toque", minha voz saiu firme.
Ele franziu a testa, a confusão dando lugar à raiva.
"O que está acontecendo, Joana? Onde você esteve? Por que voltou assim?"
Eu dei um pequeno sorriso, o primeiro da noite. Era um sorriso sem qualquer calor.
"Eu vim corrigir alguns erros. E, a propósito, não é mais Joana. É Senhora Albuquerque."
A confusão no rosto dele se aprofundou. Albuquerque não era um nome que ele conhecia.
"Do que você está falando?"
"Estou falando do meu marido", anunciei, minha voz clara e alta o suficiente para que todos ao redor ouvissem. "Eu me casei."
A declaração caiu como uma bomba no salão. Pedro me olhava como se eu tivesse acabado de confessar um crime. Ele balançou a cabeça, um riso amargo escapando de seus lábios.
"Você não pode ter se casado. Você... você pertence a nós."
Sua raiva explodiu. Com um movimento rápido e violento, ele se virou e socou um painel de vidro na parede, onde a logo da nossa antiga empresa estava gravada. O vidro se quebrou com um estrondo, cacos voando para todos os lados. As pessoas gritaram e se afastaram.
"Chega de joguinhos, Joana!"
Uma voz fria e calculista cortou o caos. Lucas.
Ele emergiu da multidão, ajeitando seu terno impecável, seu rosto calmo contrastando com a fúria de Pedro. Ele se aproximou, seus olhos escuros fixos em mim.
"Ela não é a Joana", disse Lucas, sua voz baixa, mas carregada de uma certeza assustadora. Ele olhou para Pedro e depois para mim. "Ela finalmente voltou para nós. Nossa paixão de infância."
Ele se virou para a multidão atônita e anunciou, com uma autoridade arrepiante:
"Esta mulher não é esposa de ninguém. Ela é uma farsa. E ela veio para casa."
Pedro e Lucas agora estavam lado a lado, me encarando. Dois predadores que pensavam ter encurralado sua presa. Eles não perceberam que a presa que eles conheciam já tinha morrido duas vezes. E a mulher que estava ali agora não era mais uma ovelha, mas uma loba esperando para atacar.
"Você não vai a lugar nenhum", disse Pedro, sua voz baixa e ameaçadora.
"Você vai ficar conosco", completou Lucas, com um sorriso gelado. "Para sempre."
No momento em que as palavras de Lucas pairavam no ar, carregadas de ameaça, um grupo de homens de terno preto entrou no salão. Eles se moviam com uma eficiência silenciosa e profissional, abrindo caminho pela multidão assustada.
O líder deles, um homem alto de rosto sério, parou ao meu lado. Ele me ignorou por um momento e se dirigiu diretamente a Pedro e Lucas.
"Com licença, senhores."
Ele então se virou para mim e fez uma leve reverência.
"Senhora Albuquerque. O carro está esperando. O Senhor Miguel pediu para garantir que a senhora não seja incomodada."
A confirmação pública do meu novo status fez uma nova onda de sussurros percorrer o salão. A expressão de Pedro era uma mistura de fúria e descrença. Lucas, por outro lado, manteve sua compostura fria, mas seus olhos se estreitaram.
"Senhora Albuquerque?", cuspiu Lucas. "Que piada. Vocês sabem quem ela é de verdade?"
"Nossas ordens são claras", respondeu o segurança, impassível. "Estamos aqui para escoltar a esposa do nosso chefe."
A multidão observava, fascinada e confusa. Quem era Joana? A empresária morta? A noiva perdida? Ou a esposa de um homem poderoso e misterioso chamado Miguel? A incerteza era palpável.
Eu me virei para sair, sentindo um pingo de alívio. Os seguranças formaram uma barreira protetora ao meu redor, me guiando em direção à saída. Eu só queria sair daquele lugar, respirar ar fresco, longe das memórias e dos rostos que me assombravam.
"Senhora", disse o assistente de Miguel, que estava entre os seguranças. Ele tirou um xale de caxemira pesado dos braços e o colocou sobre meus ombros. "O Senhor Miguel pensou que a senhora poderia sentir frio."
O tecido era macio e quente contra a minha pele. Era um gesto simples, mas naquele momento, pareceu uma âncora de sanidade. Um símbolo de que eu não estava mais sozinha.
Mas a calma durou pouco.
"Esse xale não significa nada!", gritou Pedro, avançando contra a barreira de seguranças.
Com uma velocidade surpreendente, ele passou por um dos homens e arrancou o xale dos meus ombros. Ele o segurou no ar por um segundo, o rosto contorcido de desprezo, e então o jogou no chão, pisando em cima com seu sapato caro.
"Miguel não sabe quem você é! Ele não sabe que você é nossa!", ele rosnou. Lucas observava a cena com uma aprovação silenciosa.
"Prendam todos eles!", ordenou Lucas para a segurança do local, sua voz ecoando com a autoridade de quem ainda mandava ali. "Esta mulher é uma impostora, e esses homens estão invadindo uma propriedade privada."
Os seguranças do salão, acostumados a obedecer às ordens de Lucas e Pedro, hesitaram por um momento, mas depois avançaram. A situação se transformou em caos.
Os homens de Miguel tentaram me proteger, mas foram superados em número. Vi o assistente que me deu o xale ser empurrado com força contra uma parede. Ele caiu no chão, e um dos seguranças de Lucas o chutou com força nas costelas. O homem gemeu de dor, o rosto pálido.
A crueldade do ato me chocou. Eles não estavam apenas tentando me controlar, estavam dispostos a machucar inocentes para conseguir o que queriam.
Fui agarrada por dois seguranças do salão. As mãos deles eram brutas nos meus braços. Olhei para Pedro e Lucas, seus rostos triunfantes.
Meu breve momento de esperança havia se esvaído, substituído pelo terror familiar de estar completamente à mercê deles mais uma vez.