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A Sombra de Heitor

A Sombra de Heitor

Autor:: Jane
Gênero: LGBT+
Minha casa, antes um lar, virou uma prisão silenciosa, onde eu era apenas uma sombra ao lado de Heitor, vivendo um casamento de fachada há três anos. A rotina vazia desabou quando, procurando um carregador em seu armário, descobri uma caixa antiga, cheia de fotos de um homem chamado Gabriel – fotos íntimas, cheias de uma paixão que Heitor nunca me dedicou. A revelação me atingiu como um soco no estômago: eu nunca tive uma chance, sempre fui um substituto, um "marido troféu" moldado para caber em seu mundo, abdicando de mim mesmo por migalhas de atenção. A dor se transformou em um vazio gelado ao ouvir Heitor sussurrar "Eu te amo" para Gabriel ao telefone, confessando um amor que me foi negado por anos. Cansado da farsa e com o coração despedaçado, olhei para Heitor e disse as palavras que selariam meu destino: "Eu quero o divórcio."

Introdução

Minha casa, antes um lar, virou uma prisão silenciosa, onde eu era apenas uma sombra ao lado de Heitor, vivendo um casamento de fachada há três anos.

A rotina vazia desabou quando, procurando um carregador em seu armário, descobri uma caixa antiga, cheia de fotos de um homem chamado Gabriel – fotos íntimas, cheias de uma paixão que Heitor nunca me dedicou.

A revelação me atingiu como um soco no estômago: eu nunca tive uma chance, sempre fui um substituto, um "marido troféu" moldado para caber em seu mundo, abdicando de mim mesmo por migalhas de atenção.

A dor se transformou em um vazio gelado ao ouvir Heitor sussurrar "Eu te amo" para Gabriel ao telefone, confessando um amor que me foi negado por anos.

Cansado da farsa e com o coração despedaçado, olhei para Heitor e disse as palavras que selariam meu destino: "Eu quero o divórcio."

Capítulo 1

A casa estava silenciosa, um silêncio pesado que parecia sugar todo o ar dos meus pulmões, eu estava sentado no sofá da sala de estar, o mesmo sofá caro que Heitor escolheu sem sequer me consultar, e olhava para a porta, esperando por um som de chave que talvez nunca viesse, ou que, se viesse, só traria mais frio para dentro de casa. Nosso casamento de três anos parecia uma piada de mau gosto, um roteiro mal escrito onde eu era o único ator que levava o papel a sério.

Eu estava cansado, um cansaço que ia além do corpo, era uma exaustão na alma, a sensação de ter corrido uma maratona para no final descobrir que a linha de chegada nunca existiu. Era hora de acabar com isso. A decisão se formou na minha mente, não com um estrondo, mas com a quietude resignada de algo que morre lentamente.

Decidi procurar o carregador portátil que Heitor havia comprado, ele sempre guardava as coisas novas no fundo do seu armário, um lugar que eu raramente mexia, mas meu celular estava morrendo e eu precisava dele. Abri a porta de madeira escura e o cheiro familiar de seu perfume caro me atingiu, um cheiro que antes me trazia conforto, mas que agora só me causava náusea. Empurrei alguns casacos de lado e, no fundo, atrás de uma pilha de camisas passadas, vi uma caixa de madeira que eu nunca tinha visto antes. Não era grande, mas era claramente antiga e bem cuidada. A curiosidade foi mais forte que o meu bom senso, eu a puxei para fora, o coração batendo um pouco mais rápido. Ao abrir a tampa, meu estômago gelou, não eram eletrônicos ou documentos, eram fotos, dezenas de fotos de Gabriel. Gabriel sorrindo, Gabriel na praia, Gabriel dormindo, Gabriel em momentos que claramente não eram para os meus olhos, eram momentos íntimos, olhares que Heitor nunca me dirigiu. A prova estava ali, em papel fotográfico, a prova de que o coração de Heitor sempre pertenceu a outro.

Minha mente voltou no tempo, para o dia em que conheci Heitor. Eu era barulhento, cheio de vida, pintava o cabelo de cores vibrantes e ria de um jeito que fazia a sala inteira virar para olhar, Heitor era o oposto, calmo, contido, um homem de poucas palavras e gestos medidos. Eu me apaixonei por aquele mistério, por aquele desafio. Para me encaixar no seu mundo, eu me apaguei, me tornei mais quieto, parei de usar roupas coloridas, aprendi a gostar de ópera e de vinhos caros, abandonei meus amigos barulhentos por jantares corporativos silenciosos. Eu me tornei uma versão pálida de mim mesmo, uma sombra que se moldava para caber ao lado dele, na esperança de que um dia ele olhasse para mim com o mesmo brilho nos olhos que ele tinha quando falava sobre seus negócios. Foi tudo em vão.

Enquanto eu olhava para aquelas fotos, uma por uma, a verdade me atingiu com a força de um soco no estômago, eu nunca tive uma chance. Não importava o quanto eu tentasse, o quanto eu me esforçasse ou o quanto eu mudasse, eu nunca seria Gabriel. Eu era apenas um substituto, um lugar-tenente conveniente até que o verdadeiro amor de sua vida estivesse disponível. Uma onda de desespero me invadiu, seguida por um vazio gelado, a dor era tão intensa que se transformou em uma ausência de sentimento. Eu fechei a caixa com cuidado, como se estivesse fechando um caixão.

Foi então que ouvi a porta da frente se abrir, Heitor havia chegado. Meu corpo inteiro ficou tenso, mas eu não me movi, continuei sentado no chão do closet, a caixa em meu colo. Ouvi seus passos no corredor e, em seguida, sua voz, baixa e suave, vindo do escritório. Ele estava no telefone. "Eu sei, eu também sinto sua falta", ele disse, e a ternura em sua voz era algo que eu nunca tinha ouvido em três anos. "Só mais um pouco de paciência, Gabriel. Eu te amo." Aquelas três palavras, ditas com uma sinceridade que cortava o ar, foram a pá de cal final, elas ecoaram na minha cabeça, matando qualquer resquício de esperança que ainda pudesse existir. Era o fim.

Levantei-me, minhas pernas pareciam fracas, mas meu rosto estava inexpressivo, eu não sentia mais nada, nem raiva, nem tristeza, apenas um vácuo. Caminhei até o escritório e parei na porta, Heitor ainda estava no telefone, de costas para mim. Ele me sentiu ali e se virou, seu rosto mudando de ternura para a frieza habitual ao me ver. "Preciso desligar", ele disse apressadamente para Gabriel e encerrou a chamada. "O que foi, Leo?", ele perguntou, o tom já impaciente. Eu olhei diretamente em seus olhos, sem piscar. "Eu quero o divórcio, Heitor."

Capítulo 2

No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ligar para um advogado, a voz do outro lado da linha era profissional e distante, exatamente o que eu precisava. Enquanto ele falava sobre partilha de bens e procedimentos legais, minha mente vagava pela casa, cada objeto um lembrete de uma vida que não era minha. Eu não queria nada, nem os móveis caros, nem os carros na garagem, eu só queria minha liberdade, minha identidade de volta. Assinar os primeiros papéis foi como respirar ar puro depois de anos submerso.

Era o começo do fim, e pela primeira vez em muito tempo, eu senti uma faísca de esperança.

Enquanto arrumava uma pequena mala com algumas roupas, não pude deixar de pensar em tudo que eu havia desistido por Heitor. Minha vaga em uma escola de culinária em Paris, meu apartamento bagunçado e feliz no centro da cidade, meus domingos preguiçosos pintando telas que agora estavam guardadas, empoeiradas, no porão. Eu havia me tornado um especialista em vinhos para impressioná-lo, aprendi sobre o mercado de ações para ter assunto em seus jantares, cortei meu cabelo e mudei meu guarda-roupa, tudo para ser o "marido troféu" perfeito para o grande empresário Heitor Almeida. E por quê? Por migalhas de atenção que ele jogava na minha direção quando estava de bom humor. A amargura subiu pela minha garganta.

Naquela noite, eu fiz algo que não fazia há anos, liguei para meus antigos amigos. "Leo! Pensei que você tinha sido abduzido por alienígenas ricos!", a voz de Carla soou no telefone, alta e cheia de vida. Fomos a um bar no centro, um lugar barulhento, com música ao vivo e pessoas rindo alto, o tipo de lugar que Heitor desprezava. Eu bebi mais do que devia, dancei de um jeito desengonçado e ri até minha barriga doer. Pela primeira vez em anos, eu me senti como eu mesmo, o Leo de antes, o Leo que não precisava de aprovação para existir. A sensação era libertadora, como tirar um par de sapatos apertados depois de uma longa caminhada.

Estávamos no meio de uma rodada de shots quando senti um arrepio na nuca, virei-me e meu coração parou. Heitor estava ali, parado perto da entrada, e ao seu lado, Gabriel. Gabriel parecia exatamente como nas fotos, delicado e etéreo, olhando para o ambiente com um claro desconforto. Heitor, por outro lado, me encarava com uma expressão indecifrável, seus olhos frios passando por mim, pela minha camisa colorida, pelo meu cabelo já um pouco mais comprido e bagunçado. A alegria que eu sentia evaporou instantaneamente, substituída por uma tensão palpável.

Heitor se aproximou, Gabriel o seguindo como uma sombra. Meus amigos ficaram em silêncio. "Leo", ele disse, sua voz um contraste gritante com a música alta. "Não sabia que você frequentava esse tipo de lugar." Não era uma pergunta, era um julgamento. O desprezo em seu tom era tão claro que eu podia senti-lo fisicamente. "Bem, eu costumava", respondi, tentando manter minha voz firme. "Estou apenas revisitando velhos hábitos." Gabriel olhou para mim de cima a baixo, um pequeno sorriso presunçoso em seus lábios.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, a situação saiu do controle. Gabriel, talvez por ciúmes ou por pura maldade, deu um passo à frente. "Então é esse o seu verdadeiro eu? Tão vulgar", ele cuspiu as palavras. A ofensa me pegou de surpresa, mas o que veio a seguir foi ainda pior. Num movimento rápido, ele pegou o copo de bebida da minha mão e jogou o líquido no meu rosto. O álcool ardeu em meus olhos e, no segundo seguinte, ele me empurrou com força. Eu perdi o equilíbrio e caí para trás, batendo a cabeça com força na beirada de uma mesa. A última coisa que vi antes de tudo escurecer foi o rosto de Heitor, não com preocupação, mas com uma irritação fria, como se eu fosse um incômodo que ele precisava resolver.

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