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A Substituta Perfeita

A Substituta Perfeita

Autor:: Zhen Xiang
Gênero: Moderno
Sofia, jovem enóloga de 22 anos, casou-se com Ricardo, um magnata dez anos mais velho. A vida era luxuosa. Ela sentia-se a mais sortuda, numa bolha de aparente perfeição. Mas quando o pai, seu pilar, adoeceu gravemente, Ricardo, convenientemente numa "viagem de negócios" em Lisboa, tornou-se incomunicável. Naquela noite, sozinha, Sofia perdeu o pai. O choque gelou-a. No dia seguinte, uma foto do telemóvel da melhor amiga revelou a verdade: Ricardo abraça Clara, sua tia, em Lisboa. A dor da perda e traição a aniquila. Ricardo volta, alheio, e assina os documentos de divórcio e consentimento para interrupção de gravidez que ela apresenta. Ele nem lê. No escritório secreto dele, a verdade devasta Sofia: ele a casara por sua semelhança com Clara, sua obsessão. Sofia era apenas uma substituta, um instrumento, uma sombra para um amor doentio. A manipulação brutal a sufoca. Mas à dor deu lugar uma fria resolução. Ela decide não trazer uma criança a este mundo de mentiras. Com os documentos assinados, Sofia corta todos os laços e parte para Portugal, em busca de uma vida livre da farsa e da dor.

Introdução

Sofia, jovem enóloga de 22 anos, casou-se com Ricardo, um magnata dez anos mais velho. A vida era luxuosa. Ela sentia-se a mais sortuda, numa bolha de aparente perfeição.

Mas quando o pai, seu pilar, adoeceu gravemente, Ricardo, convenientemente numa "viagem de negócios" em Lisboa, tornou-se incomunicável. Naquela noite, sozinha, Sofia perdeu o pai. O choque gelou-a.

No dia seguinte, uma foto do telemóvel da melhor amiga revelou a verdade: Ricardo abraça Clara, sua tia, em Lisboa. A dor da perda e traição a aniquila. Ricardo volta, alheio, e assina os documentos de divórcio e consentimento para interrupção de gravidez que ela apresenta. Ele nem lê.

No escritório secreto dele, a verdade devasta Sofia: ele a casara por sua semelhança com Clara, sua obsessão. Sofia era apenas uma substituta, um instrumento, uma sombra para um amor doentio. A manipulação brutal a sufoca.

Mas à dor deu lugar uma fria resolução. Ela decide não trazer uma criança a este mundo de mentiras. Com os documentos assinados, Sofia corta todos os laços e parte para Portugal, em busca de uma vida livre da farsa e da dor.

Capítulo 1

Sofia tinha vinte e dois anos quando casou com Ricardo. Ele, um empresário do setor imobiliário de São Paulo, dez anos mais velho, parecia o príncipe encantado. A vida era um carrossel de presentes caros, jantares em restaurantes da moda e viagens luxuosas. Sofia, recém-formada em Enologia, sentia-se a mulher mais sortuda do mundo, envolvida numa bolha de aparente perfeição. Ricardo era atencioso, carinhoso, o marido que toda mulher sonharia ter. Ela amava-o, ou pensava que amava. Mal sabia ela que a perfeição era uma fachada bem construída.

Três anos passaram voando, num piscar de olhos. A rotina do casal era invejável, mas algo no fundo inquietava Sofia, uma sombra que ela não conseguia nomear. Então, a vida real bateu à porta com força. O pai de Sofia, seu pilar, seu confidente, adoeceu gravemente. Sofia ligou para Ricardo, desesperada. Uma, duas, dez, noventa e nove vezes. O telefone chamava, chamava, e caía na caixa postal. Ele estava numa "viagem de negócios urgente" a Lisboa, incomunicável. Sofia sentiu um frio na espinha, um abandono que gelava mais que qualquer inverno. Seu pai faleceu naquela noite, e ela estava sozinha.

No dia seguinte, com o coração em pedaços e os olhos inchados de chorar, Sofia recebeu uma mensagem de Letícia, sua melhor amiga. Era uma foto. Ricardo, sorridente, abraçava uma mulher em Lisboa. O choque paralisou Sofia. A mulher na foto não era uma desconhecida. Era Clara, sua tia, irmã mais nova de sua mãe. A tia que vivia em Lisboa e que Ricardo mal mencionava. A dor da perda do pai misturou-se à dor aguda da traição, uma combinação devastadora que a deixou sem ar.

Ricardo voltou de Lisboa dois dias depois, o rosto compungido, mas os olhos evasivos. Minimizou sua ausência, disse que os negócios o prenderam, que sentia muito pela perda dela. Ofereceu um ombro para ela chorar, prometeu cuidar de tudo. Sofia, entorpecida pela dor e pela desconfiança, mal conseguia encará-lo. As palavras dele soavam falsas, ensaiadas. Ela via agora as rachaduras na fachada perfeita.

Com uma frieza que nem ela sabia possuir, Sofia colocou dois documentos na frente de Ricardo. Um acordo de divórcio e um termo de consentimento para interrupção de gravidez. Ela descobrira a gravidez dias antes da morte do pai, uma notícia que, em outras circunstâncias, seria de alegria. Agora, era apenas mais um nó em sua garganta. Ricardo, apressado para um compromisso, ansioso para encerrar o assunto da "tristeza" dela, assinou tudo sem ler, com um aceno de cabeça condescendente. "Claro, meu amor, o que precisar."

Ele ainda falava sobre o futuro, sobre como superariam juntos aquela fase difícil, sobre o filho que teriam. Sofia ouvia em silêncio, o estômago revirado. O filho. O filho que ele queria. A cegueira dele era quase cômica, se não fosse trágica. Ele não fazia ideia do que acabara de assinar.

O telefone de Ricardo tocou. Era Clara. A voz dele mudou, tornou-se suave, íntima. "Clara, você já está no Brasil? Que ótima notícia! Onde você está? Estou indo te encontrar." Ele desligou, deu um beijo rápido na testa de Sofia e saiu, deixando-a sozinha com os papéis assinados e a certeza esmagadora da traição. A prioridade dele era clara. Sempre fora.

Sofia sentiu uma urgência em saber mais, em entender a dimensão do engano. Lembrou-se de um escritório que Ricardo mantinha trancado em casa, um lugar que ele dizia ser para "trabalho confidencial". Com um grampo de cabelo, conseguiu abrir a porta. O que encontrou lá dentro foi um soco no estômago.

O escritório não era de trabalho. Era um santuário. Paredes cobertas de fotos de Clara. Clara jovem, Clara sorrindo, Clara em viagens. Caixas e caixas de cartas de amor trocadas entre Ricardo e Clara, detalhando um relacionamento longo e apaixonado. E o pior: um diário. O diário de Ricardo.

Com as mãos trêmulas, Sofia abriu o diário. As palavras saltavam das páginas, cruéis, calculistas. Ricardo confessava sua obsessão por Clara, seu amor nunca superado. E o plano. O plano de casar-se com Sofia, a sobrinha incrivelmente parecida com Clara, para tê-la por perto, como uma substituta. O plano de ter um filho com Sofia, um filho que se assemelhasse a Clara, uma forma doentia de perpetuar seu amor perdido.

Sofia sentiu o chão sumir. Ela não era amada. Ela era uma peça, um instrumento, uma sombra. A dor era tão intensa que quase a sufocou. O casamento, os presentes, as palavras de carinho, tudo era uma mentira. Uma farsa cruel. Aquele filho, que crescia em seu ventre, era fruto dessa manipulação, desse engano.

Com uma resolução fria, Sofia pegou os papéis que Ricardo assinara. O divórcio. O consentimento para a interrupção da gravidez. Olhou para o relatório do laboratório confirmando a gestação. A decisão já estava tomada, mas agora, era cimentada pelo horror da descoberta. Ela não traria uma criança a este mundo de mentiras.

No dia seguinte, Sofia foi à clínica. A dor física do procedimento não se comparava à dor emocional que a consumia. Ela estava se livrando não apenas de uma gravidez indesejada, mas de um passado construído sobre falsidades. Estava cortando o último laço com Ricardo, com a vida que ele planejara para ela.

Capítulo 2

Sofia recuperou-se fisicamente em poucos dias, mas a dor no peito persistia. Ela escondeu de Ricardo o procedimento, as olheiras fundas e a palidez eram atribuídas ao luto pelo pai. Ele, alheio, continuava seu teatro de marido preocupado.

Um dia, Sofia começou a empacotar os presentes caros que Ricardo lhe dera. Joias, bolsas de grife, roupas de alta costura. Colocou tudo em caixas. Ricardo a encontrou no closet, cercada pelas evidências de sua "generosidade".

"O que está fazendo, meu amor?" ele perguntou, a voz carregada de uma falsa preocupação.

"Vou doar tudo, Ricardo," ela respondeu, a voz neutra. "Depois da morte do papai, percebi que essas coisas não têm importância. Quero uma vida mais simples."

Ricardo pareceu aliviado. Talvez pensasse que a dor a estava tornando mais "espiritualizada".

"Que bom que pensa assim, querida. Mas não se preocupe, quando essa fase passar, comprarei tudo novo para você, ainda mais bonito."

Sofia apenas sorriu, um sorriso que não alcançou os olhos. A cegueira dele era impressionante. Ele não via nada além do próprio reflexo.

Ele tentou abraçá-la, falar sobre o futuro, sobre o "nosso filho". Sofia sentiu repulsa, mas manteve a compostura. O telefone dele tocou, interrompendo o momento. Era Clara, novamente.

"Alô, Clara? Sim, claro. Um almoço de boas-vindas? Ótima ideia!"

Ele desligou e virou-se para Sofia, animado. "Clara nos convidou para um almoço no sítio do Tio Afonso no fim de semana. Para comemorar a volta dela. Você vai, não é?"

Ele nem esperou a resposta, já assumindo que ela iria. A presença de Clara era mais importante que o luto recente de Sofia, mais importante que qualquer coisa.

Ricardo tentou justificar a animação. "Vai ser bom para você sair um pouco, se distrair."

Sofia permaneceu impassível. "Claro, Ricardo. Eu vou."

Ele sorriu, satisfeito. "Ótimo. Ah, e Clara mencionou que adoraria um vinho especial. Você, como enóloga, poderia escolher um bom rótulo para levarmos de presente. Algo que ela realmente goste."

Usá-la como intermediária. Que patético. Sofia assentiu, a amargura crescendo dentro dela.

No sábado, chegaram ao sítio do Tio Afonso. Clara estava radiante, conversando animadamente com os parentes. Quando viu Ricardo, seus olhos brilharam. Eles se abraçaram demoradamente. Tio Afonso apresentou Sofia.

"Ricardo, esta é sua esposa, Sofia?" Clara perguntou, com uma surpresa talvez ensaiada.

"Sim, Clara. Minha Sofia." Ricardo disse, com um orgulho que soou oco aos ouvidos de Sofia.

Sofia observou a interação entre os dois. As trocas de olhares, os sorrisos cúmplices, a química inegável. Era como se ela fosse uma espectadora de um filme antigo, um romance que nunca teve fim.

O vinho que Sofia escolhera, um raro exemplar português, foi entregue a Clara.

"Que maravilha, Ricardo! Você sempre teve um gosto impecável," Clara exclamou, ignorando Sofia.

"Foi Sofia quem escolheu," Ricardo disse, quase como uma reflexão tardia.

"Ah, sim? Que bom gosto," Clara comentou, com um sorriso rápido para Sofia, um sorriso que não escondia o desinteresse. Sofia respondeu com um leve aceno, pensando no quão irônico era aquele "bom gosto" dele.

Durante o almoço, a atenção de Ricardo era toda para Clara. Ele servia o prato dela, perguntava se ela precisava de algo, ria de suas piadas. Sofia, sentada ao lado, era praticamente invisível. Ele se lembrava dos pratos preferidos de Clara, das suas restrições alimentares, dos seus gostos. Coisas que, em três anos de casamento, ele nunca se dera ao trabalho de aprender sobre Sofia. A negligência era palpável, dolorosa. Sofia comia em silêncio, cada garfada um lembrete da sua insignificância para o homem ao seu lado. A mudança nele era evidente, ou talvez, ele apenas estivesse sendo quem realmente era, sem o disfarce.

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