Thalassia, 1482
"Ao Nobre Reino de Thalassia,
Com saudações e respeito a vossa majestosa corte, escrevo-lhes humildemente em busca de uma aliança que não apenas unirá nossos reinos, mas também promoverá um futuro de prosperidade e harmonia para ambos os nossos povos.
Em meio aos desafios e perigos que cercam nossos mundos, é com grande convicção que procuro encontrar uma parceira de nobre linhagem que compartilhe dos mesmos valores, aspirações e visão para o nosso futuro.
Acredito firmemente que esta aliança, forjada pelo comprometimento, trará inúmeros benefícios para nossos reinos. Com o intuito de tornar este encontro o mais justo e transparente possível, convido todas as princesas solteiras de Thalassia a se reunirem em um grandioso baile em nosso palácio, onde poderemos nos conhecer pessoalmente e descobrir afinidades que irão além de fronteiras e sangues reais.
Este evento será uma celebração de união e uma oportunidade de estabelecer uma ligação que transcenderá gerações. Além do potencial para uma aliança sólida e duradoura entre nossos reinos, a princesa escolhida terá o privilégio de governar ao meu lado, compartilhando o peso das responsabilidades e alegrias de liderar nossos povos. Juntos, poderemos promover a paz, a justiça e a prosperidade em toda a terra que governamos.
Nossos reinos têm muito a oferecer um ao outro, desde nossos recursos naturais até nossa cultura rica e diversificada. Através desta união, poderemos fortalecer nossas economias, ampliar nossas alianças comerciais e promover o intercâmbio cultural que enriquecerá nossos povos.
Assim, faço este pedido com o coração aberto e a esperança de um futuro brilhante para nossos reinos. Convido todas as princesas de Thalassia a considerarem esta oportunidade de unir-se a mim e ao Reino de Kingswood para construir um futuro repleto de amor, compreensão e prosperidade.
Que a paz e a benevolência guiem nossos passos enquanto buscamos um novo capítulo em nossas histórias.
Com respeito e gratidão, Príncipe Tyler Harrington
Reino de Kingswood"
Há algum tempo, eu desisti de me importar com o que era estranho viver naquele enorme castelo. Todos me diziam que eu deveria ser grata por ser retirada da obscuridade e trazida para o esplendor da realeza.
Aos dez anos, fui confundida com a princesa Penélope e levada ao castelo para que o rei decidisse o meu destino. Passei alguns dias nas masmorras, perdida em desespero por não compreender o que estava acontecendo. Era como se eu não existisse para ninguém ali, uma sombra de mim mesma.
Quando finalmente lembraram da minha existência, eu estava quase definhando de fome e sede. Minha pele e ossos eram tudo o que restava, e minha vontade de lutar pela vida já não existia.
"Levem-na para a sala de banhos e peçam ao médico que avalie se ela ainda é útil."
A voz que proferiu essas palavras permaneceu anônima para mim, mas ainda assim, agradeci mentalmente. Talvez alguém se lembrasse de que eu estava lá, dentro daqueles muros.
Passei por um exame minucioso e fiquei sob a tutela de algumas criadas por cinco dias, aprendendo as habilidades necessárias para a minha permanência ali. No entanto, havia algo que me distinguia delas.
Minha vestimenta.
Fui forçada a usar uma túnica preta e uma máscara que ocultava o meu rosto, deixando apenas os olhos de fora. Diziam que eu era repulsiva demais para ser vista, e qualquer tentativa de remover a máscara resultaria em morte.
As memórias daquela transformação se encaixaram quando finalmente conheci a verdadeira princesa Penélope. Ficou claro que eu não tinha nenhuma semelhança com ela, e entendi que era melhor me esconder nas sombras da minha túnica do que ofender a princesa com minha presença.
Conforme me tornei a sua criada pessoal, fui instruída a absorver cada detalhe sobre ela, incluindo idiomas e habilidades. Tornou-se minha tarefa sentar, vestir-me e agir como ela. Assisti às aulas das sombras, esforçando-me para não interferir em sua educação, mesmo que eu enfrentasse grandes desafios.
De tempos em tempos eu era questionada sobre meus conhecimentos e toda vez que eu errava, era punida com severidade.
Esses tempos foram fundamentais para moldar quem eu era.
A sombra da princesa.
Agora, aos vinte e um anos, meu maior desejo é escapar deste castelo e de minhas obrigações, mas simultaneamente, o medo do desconhecido me prende aqui. Minha aparência é um segredo guardado, e todos ao meu redor me encaram com aversão e desprezo.
Penélope diz que sou sortuda, mas eu realmente não compartilho dessa visão.
"KAYLA!!!!!" Eu me levantei da poltrona, colocando o livro que estava em minhas mãos na mesa ao lado.
"Estou aqui, Alteza?" A estonteante morena estava sentada em frente à penteadeira, selecionando o colar para o almoço com seu pai.
"Arrume o meu cabelo. Não sei quanto tempo ainda vou demorar para escolher o colar. Seja rápida. Tenho assuntos importantes para discutir com meu pai." Seus olhos castanhos me observaram pelo espelho.
"Claro, Senhorita." Peguei a escova e passei delicadamente pelos seus cabelos sedosos, tão castanhos quanto a terra molhada. Sempre me impressionava com tudo o que essa garota tinha, mesmo que ela mesma parecesse insatisfeita.
"Cuidado, criada, você está me machucando." Ela reclamou, embora as cerdas mal roçassem seus fios.
"Peço desculpas, Alteza." Continuei a pentear seus cabelos, mal tocando as cerdas nele, esperando para concluir meu trabalho.
Fiz duas tranças laterais e amarrei a parte de trás em um coque, envolvendo-o com as tranças. Após adorná-lo com algumas pérolas, afastei-me, observando meu reflexo sombrio no espelho.
"Hmm, está aceitável." Ela se virou para mim. "Você precisa aprender novas técnicas para realçar ainda mais a minha beleza. Haverá mudanças em breve por aqui." Concordei, sem tentar descobrir mais detalhes. Mudanças sempre traziam mais fardos para a minha vida.
Penélope se levantou e dirigiu-se a outro espelho, alisando o vestido rosa que usava. Após avaliar-se de todos os ângulos, virou-se novamente para mim.
"Vamos, Kayla." Concordei com um aceno e segui-a a uma distância respeitosa.
Quando entramos no salão onde o rei estava, uma imensa mesa estava posta para o almoço. Todos os melhores pratos do reino estavam dispostos ali, e minha boca se encheu d'água ao ver a comida.
Empurrei a cadeira para a princesa e aguardei até que ela me dispensasse para ficar próxima à parede, atenta a qualquer necessidade.
"Então, papai, o que tem a me dizer?" Percebi a princesa se inclinar ainda mais em direção ao pai.
"Bem, nós sempre soubemos que este dia chegaria, minha querida, e Kingwood nos apresentou uma proposta." Meus olhos se arregalaram, e vi a princesa se aproximar ainda mais.
"Que proposta?" Ela quase gritou.
"Eles querem conhecê-la. Vão sediar um baile e convidar as princesas mais notáveis dos reinos vizinhos, visando um possível casamento com o príncipe herdeiro."
"Princesas notáveis?" Vi as mãos da princesa se fecharem em um gesto de raiva e frustração. "Eu sou mais que uma simples princesa notável, papai. Não há ninguém melhor do que eu em todo o reino. Como eles podem me tratar assim?" Seus punhos bateram na mesa, e o rei os segurou suavemente.
"Eles não a conhecem, querida. Não têm noção da joia preciosa que estão prestes a descobrir. Assim que o príncipe a contemplar, ele não terá interesse em nenhuma outra."
Essas palavras pareceram acalmar a fúria crescente na princesa.
"Tem razão." Ela retomou a comer alguns itens em seu prato e brincou com outros. Era um comportamento que eu já conhecia bem. "Quando devo partir?" Ela começou a questionar, e vi o rei se ajeitar em sua cadeira.
"Estou aguardando um relatório sobre o príncipe para entender melhor o que devemos esperar. Não colocarei sua vida em perigo desnecessário."
"Pode haver perigo?" O rei não respondeu, apenas me lançou um olhar diferente antes de voltar a encarar a filha.
"Não se preocupe, querida. Tenho tudo sob controle. Vamos unir nossos reinos da melhor maneira possível."
A resposta pareceu acalmar a princesa, que continuou a comer antes de me chamar para retirar seu prato.
"Sinta-se à vontade para desfrutar do que sobrou, Kayla." Meus olhos se fixaram nela. "Eu sei que os criados geralmente não têm permissão para desfrutar das iguarias que temos, mas vou ser generosa e permitir que coma o que restou da minha refeição." Aceitei a oferta. Quando ela estava de bom humor, ocasionalmente me permitia vivenciar um pouco do mundo da realeza.
Naquela noite fui acordada por um dos soldados do castelo. O rei solicitava minha presença imediatamente.
Segui o soldado quase correndo pelos corredores do castelo e parei em frente ao rei em sua sala de reuniões. Ele andava de um lado a outro com algumas folhas na mão.
"Sente-se Kayla." falou seco e fiz o que ele mandou. "Você sabe que sua vida me pertence, não sabe?" fiz que sim com a cabeça. "Cuidei de você a vida toda e agora preciso que pague o que fiz." me assustei com suas palavras duras.
"Pagar, majestade? Pagar como?" meus pelos estavam arrepiados e meu coração disparado.
"Leia isso." ele me entregou os papeis que segurava de forma bruta.
Tentei amparar as folhas para que elas não caíssem no chão.
Meus olhos corriam rápidos pelas linhas ali descritas, uma após outra me deixavam com a sensação de que minha alma estava sendo jogada na fogueira.
"Esse é o príncipe com o qual o senhor quer casar a princesa?" falei tremendo e ele me olhou sério.
"Não, eu não vou tolerar que esse sádico toque em um fio de cabelo da minha filha, mas não posso deixar de enviar alguém para o tal baile." ele se encostou na mesa e me analisou. "Você irá no lugar dela."
"EU?!" pulei da cadeira assustada. "Mas majestade, e ... e se ele..." perdi a fala com as informações contidas naquele relatório.
Ali, naquelas folhas, existia uma lista de supostas crueldades e defeitos do pretendente da princesa e eu teria que lidar com cada um deles.
"Eu não estou lhe dando uma escola, Kayla. Você vai para honrar seu reino. Se tudo der certo, em uma semana você voltará para casa e esqueceremos que tudo isso aconteceu." meus olhos se encheram de água.
"Majestade, mas isso é suicídio. E se ele fizer comigo qualquer uma dessas coisas descritas aqui?" mostrei a carta e o rei estreitou os olhos em minha direção.
"Acha que sua vida é melhor do que a de minha filha? Acha que devo mandá-la para enfrentar esse homem e seu reino? ACHA QUE É ALGUÉM TÃO VALIOSA ASSIM PARA MIM?" Seus olhos agora estavam tão perto dos meus que parei de respirar para não incomodar o rei.
"Não, senhor." abaixei a cabeça sabendo que aquele seria me destino e que não haveria uma forma de lutar contra ele.
"Fico feliz que entendeu o seu lugar aqui. Eu lhe dei um teto, lhe mantive viva mesmo depois da sua infâmia necessidade de se parecer com a minha filha, chegou a hora de você nos pagar essa benção que lhe demos." as lágrimas já corriam por meu rosto e segurei meu soluço para que o rei não o ouvisse. "Se prepare para partir amanhã. Me mande um relatório assim que chegar ao reino de Kingswood e me diga tudo que encontrar por lá. Cada detalhe, Kayla."
"Sim, majestade."
"Agora saía. Arrume suas coisas até a hora do almoço. Sua carruagem sairá a 1 pm, não se atrase." confirmei e sai a passos lentos da sala fechando a porta.
Comecei a correr pelo corredor com meus olhos vertendo mais água do que nunca. As folhas ainda permaneciam em minha mão e as amassei com toda a força que tive. Aquilo era tão injusto.
Eu não entendia a necessidade de ter que me passar pela princesa nem por um mísero segundo. O rei poderia apenas rejeitar o pedido, ou fingir que não existia princesa alguma.
Entrei em meu quarto e joguei as folhas na lareira. Eu sentia um ódio tão grande crescer em meu peito, que me sufocava.
Após jogar as folhas na lareira, eu me sentei à beira da cama, encarando o chão com olhos inchados de lágrimas. A raiva queimava dentro de mim, mas eu sabia que não podia contestar as ordens do rei. Ele era o soberano, e minha vida realmente lhe pertencia, como ele havia enfatizado.
Abri o pequeno baú que continham todos os meus vestidos pretos e as máscaras que cobriam meu rosto, com certeza aquela não seria a postura que o rei gostaria que eu parecesse, então teria que conversar com a princesa para que ela decidisse o que eu deveria usar na minha temporada dentro do castelo de Kingswood.
Com o amanhecer do dia, todo o castelo estava em uma grande corrida para o despertar do rei e da princesa. Os criados corriam de um lado a outro e transformavam cada tarefa em uma dança perfeita.
Após o fim do café da manhã, solicitei uma audiência com o rei e esperei por um tempo considerável até que ele me recebesse.
"O que é agora, criada." me disse com impaciência.
"Majestade, não posso arrumar minhas coisas para ir..." não consegui concluir minha frase.
"E POR QUE NÃO?" Ele me deu um tapa no rosto e me desequilibrei caindo ao chão.
"Porque não posso aparecer assim na presença d príncipe. Todos os meus vestidos são pretos." falei não chão, sem olhar para o rei.
Ele caminhou a minha volta e chamou um criado.
"Tragam a dama de companhia de Penélope aqui, agora!" o homem saiu correndo. "Levante-se, criada." fiz o que ele pediu sem encará-lo.
A mulher baixinha, com quem eu adorava conversar, entrou na sala correndo e fez uma reverência ao rei, parando ao meu lado.
"Chamou, majestade?" seu lindo vestido azul roçou o meu, e me senti mais confortável com sua presença.
"Kayla irá em uma missão em nome da princesa Penélope. Arrume três baús com roupas e acessórios que minha filha usaria. Somente peças que Penélope não teria vergonha alguma de usar." os lábios da mulher se desencostaram e ela apenas confirmou com a cabeça. "Transforme Kayla em uma princesa até o meio-dia. Sua carruagem sai às 1 pm. Agora vão."
Clarissa me arrastou para fora da sala com as mãos tão frias quanto a minha. Ela não me perguntou nada, apenas me arrastou até seu quarto e me sentou na penteadeira me fazendo abaixar o capuz e remover a máscara.
Seus olhos ficaram assombrados assim que os fiz, mas novamente ela não disse nada. Fazia anos que eu não me olhava no espelho, mas quando o fiz fiquei da mesma forma que Clarissa. Minha imagem traía o reino. Eu era extremamente parecida com Penélope.
A dama de companhia da princesa, correu até a porta e a trancou voltando-se para mim.
"Oh minha menina, que destino terrível." não disse nada. " Vou separar tudo o que vossa alteza usaria em um lugar desses e quais cores usar em cada ocasião." confirmei com a cabeça.
"Você não pode ir comigo?" os olhos dela brilharam. "Eu adoraria, mas acredito que a princesa já deve estar irritada o bastante por perdê-la." confirmei com a cabeça e fiquei aprendendo tudo o que a senhorita Clarissa tinha a me mostrar.
Os minutos pareciam correr, e meu coração seguia pelo mesmo caminho. Desde que o rei revelou a minha missão, meu coração se encontrava em sobressaltos.
Assim que tudo estava pronto, coloquei minha capa negra por cima do vestido verde que Clarissa me fez colocar.
"Coloque a máscara novamente, só a tire quando estiver chegando ao castelo de Kingswood." confirmei com a cabeça. "Que todos os Deuses tenham piedade de você, querida." A abracei com carinho e saí do quarto indo em direção a entrada do castelo.
A alguns passos do meu destino, ouvi a voz melodiosa de Penélope me chamar.
"Kayla..." sua entonação, ao contrário do que eu imaginava, estava mais ressentida. " Pelo visto conseguiu o que sempre quis." levantei a cabeça para olhá-la. "Acha que nunca percebi a sua inveja?" respirei fundo, "Não se esqueça do teu lugar aqui dentro, criada. Porque é apenas isso que você é. Não demore a despachar o príncipe, não quero ter que ir buscá-la pelos cabelos." ela me deu uma última olhada e se virou em sua pose altiva, voltando para dentro do castelo.
Continuei meu caminho e cheguei a entrada do castelo, onde uma carruagem real me esperava, com todos os seus adornos. Uma mulher que eu nunca tinha visto, sorriu para mim e veio em minha direção.
"Alteza, é uma honra acompanhá-la a esse evento." Concordei com a cabeça, entende o que o rei não tinha contado nada sobre quem eu era a ela.
Entramos na carruagem com a mulher falando sem parar.
"Sou a Lady Isobel Fairchild."
"É um prazer."
Quando a carruagem finalmente parou, senti um arrepio percorrer minha espinha. Olhei pela janela e vi as enormes torres do castelo de Kingswood se erguendo majestosamente diante de mim. O castelo era ainda mais imponente do que eu imaginava, com suas paredes de pedra cinza e jardins exuberantes que cercavam a entrada principal.
Foram um dia e uma noite dentro daquela carruagem remoendo o que aconteceria quando eu chegasse ali.
Lady Isobel Fairchild, minha dama de companhia, se virou para mim com um sorriso caloroso. Seus olhos azuis brilhavam com curiosidade.
"Chegamos, alteza", disse ela suavemente. "É hora de tirar a capa e a máscara. Não podemos parecer desleixadas com sua aparência, a senhorita tem que causar uma excelente impressão se quiser conquistar o príncipe."
Com dedos trêmulos, eu obedeci. Primeiro, a capa negra deslizou de meus ombros e, em seguida, a máscara que escondia meu rosto. A brisa fresca da tarde acariciou minha pele, e eu me senti vulnerável sem a proteção das minhas vestes escuras.
Lady Isobel estudou meu rosto por um momento, com certeza ela não sabia sobre a troca e estava apenas procurando qualquer imperfeição que pudesse ser corrigida antes da apresentação.
"Você está surpreendentemente perfeita, alteza", comentou ela, aparentemente satisfeita com o que via. "Nada que algumas horas de sono em uma cama confortável não lhe dê um animo." A mulher sorria para mim de forma calorosa e tentei sentir a mesma animação que ela, porém ela não sabia o que me aguardava atrás daqueles muros.
Eu sabia que a semelhança era a razão pela qual eu estava ali, mas a responsabilidade que pesava sobre meus ombros era esmagadora. Toda a farsa dependia do meu desempenho, e qualquer deslize poderia ter consequências terríveis.
Lady Isobel se inclinou para a frente e bateu na porta da carruagem, sinalizando que havíamos chegado.
"Está na hora de conhecermos o seu futuro em Kingswood, alteza", disse ela com determinação. "Lembre-se, você é a princesa Penélope de Thalassia, a princesa soberana. Nenhuma princesa aqui é tão bela quanto a senhorita."
Com essas palavras, a porta da carruagem se abriu, revelando o imenso pátio do castelo e os serviçais que esperavam para nos receber. Eu respirei fundo e me preparei para o desafio que estava prestes a enfrentar. Era hora de mergulhar completamente na farsa e desvendar os segredos do príncipe de Kingswood.
Aceitei a mão do chofer que me aguardava pacientemente e desci a pequena escada de dois degraus. Meus olhos pareciam registrar toda a magnitude daquele lugar que era muito maior do que qualquer coisa que eu esperasse.
"Senhorita Penélope Montgomery, Kingswood recebe sua presença com imensa alegria. Thalassia era imensamente aguardada nesta noite." sorri para o anfitrião do reino que nos recebia.
"Vou leve-las até vossos quartos, por favor, me acompanhem." olhei para Lady Fairchild que me incentivou a segui-lo e assim o fiz.
Andamos por vários minutos e me vi perdida na imensidão daquele lugar. Cada parede contava a história daquele reino e eu podia sentir as vibrações de poder que emanavam de cada quadro. Ali eu me sentia ainda mais insignificante e desajeitada.
"Postura, criança." minha dama de companhia encostou seu dedo em minha coluna me lembrando de quem eu era e o que representava.
"Entrem." A porta se abriu e senti o ar ser sugado para fora de meus pulmões.
Era o maior quarto que eu já tinha visto em minha vida. Até mesmo o quarto de Penélope pareceu insignificante perante aquilo ali.
"Espero que esteja do agrado da senhorita." concordei sem emitir uma única palavra. "O quarto de sua dama de companhia é aqui ao lado. " me virei para ambos que me olhavam de forma brilhante.
"Tudo bem, obrigada." eles saíram me deixando ali estática, apenas entendendo o que tudo aquilo ali significava para o reino.
Lady Isobel entrou no quarto após ter me deixado sozinha por alguns momentos. Ela carregava consigo uma série de vestidos deslumbrantes, cada um mais elegante do que o outro.
"É hora de começarmos os preparativos, alteza", disse ela com um sorriso encorajador. "Você precisa estar impecável para conhecer o príncipe Tyler."
Concordei com a cabeça, ainda me sentindo um pouco abalada pela grandiosidade do castelo e pela responsabilidade que recaía sobre mim. Enquanto eu me preparava para me tornar a princesa Penélope de Thalassia, Lady Isobel começou a selecionar cuidadosamente os trajes.
Ela escolheu um vestido deslumbrante de seda azul royal, adornado com detalhes em renda e pérolas. O vestido era espetacular, e eu mal podia acreditar que estava prestes a vesti-lo. Lady Isobel me ajudou a tirar as roupas que eu usava e, com habilidade, ajustou o vestido no meu corpo.
Enquanto ela trabalhava, começamos a conversar sobre o príncipe Tyler e sobre o que eu deveria esperar durante a apresentação. Lady Isobel me deu detalhes sobre a personalidade do príncipe, suas preferências e suas responsabilidades como governante de Kingswood.
"O príncipe Tyler é conhecido por ser um homem inteligente e astuto", explicou Lady Isobel. "Ele é apaixonado por arte e música, e aprecia a companhia de pessoas igualmente cultas. Portanto, certifique-se de demonstrar seu conhecimento e interesse nessas áreas." O único detalhe é que ela não tinha visto a carta que o rei me dera, que falava mais do que ela me dizia naquele momento.
Enquanto ela falava, ela começou a pentear e arrumar meu cabelo. Seus movimentos eram suaves e precisos, e eu me senti estranha por tamanho cuidado.
"Além disso, seja graciosa e confiante, mas não arrogante", continuou ela. "O príncipe valoriza a autenticidade e a sinceridade. Lembre-se de que você é uma princesa soberana, e isso deve ser refletido em sua postura."
Conforme Lady Isobel terminava de me arrumar, ela me entregou um espelho para que eu pudesse ver o resultado. O reflexo que vi era surpreendente. Eu parecia uma verdadeira princesa, digna de qualquer corte real. O vestido, o cabelo e até mesmo a maquiagem que ela havia aplicado realçavam minha semelhança com Penélope.
"Você está deslumbrante, alteza", disse Lady Isobel com um brilho nos olhos. "Tenho certeza de que o príncipe ficará impressionado."
Eu agradeci a ela sinceramente por sua ajuda, sabendo que minha aparência era crucial para o sucesso da missão. Lady Isobel me deu um sorriso caloroso e se curvou ligeiramente.
"Agora, é hora de irmos ao encontro do príncipe Tyler", disse ela com determinação. "Lembre-se de tudo o que conversamos."
Com um nó na garganta e o coração batendo forte, eu segui Lady Isobel para fora do quarto e em direção ao encontro que poderia mudar o curso da minha vida e do reino de Thalassia.
No grande salão vários rostos se viraram assim que meu nome foi anunciado. Desci as escadas devagar para não cair e abri caminho entre as pessoas que se aglomeravam por ali.
"Então essa é a famosa princesa de Thalassia?" ouvi alguém dizer em algum canto.
"Ela nem é tão bonita como dizem." outro sussurro foi jogado ao vento e adentrou como uma flecha em meu peito.
"Dizem que ela é tão terrível quanto o pai." os comentários maldosos não paravam e eu me sentia diminuída a cada passo que dava.
Lady Isobel chegou a mim poucos minutos depois e me trouxe um coquetel de fruta, o qual eu virei de uma vez, me arrependendo em seguida.
"Alteza, não faça isso." minha dama de companhia me repreendeu.
"Me desculpe, estou atordoada com os comentários e nervosa por estar aqui. Não irá se repetir." entreguei a taça a ela e respirei fundo e me coloquei na mesma posição que Penélope se colocaria.
"Sei que pode parecer difícil, mas não é seu primeiro baile. Já deveria estar acostumada. O poder desperta o pior nas pessoas." a olhei de lado e concordei com a cabeça, dando um leve sorriso.
"Obrigada por me acompanhar." a mulher sorriu para mim e fez uma reverencia.
"Eu que agradeço o convite. Sei que Lady Clarissa deve ter ficado nervosa, mas eu conheço Kingswood melhor do que ela." a mulher se gabou e confirmei com a cabeça.
Os minutos se passavam e mais e mais princesas chegavam aquele baile. Todas com a esperança de serem vistas pelo príncipes e conseguirem uma união rentável.
"Senhoras e senhores, peço um minuto da atenção de todos." Um homem alto, com uma roupa extravagante chamou a atenção. " É com grande alegria que a família real de Kingswood, recebe cada membro da realeza. Não podíamos estar mais satisfeitos com tão belas e qualificadas moças a disposição de nosso querido Príncipe Tyler e é com grande prazer que eu anuncio a chegada da família real." o ar ficou suspenso e todos pararam o que estavam fazendo para assistir aquele momento.
O rei e a rainha entraram e todos na sala fizeram uma reverência exagerada. Ambos agradeceram e segundos depois o príncipe apareceu, causando comoção a todos que estavam ali. Ele era alto, forte e tinha uma pose impecável, mas o que mais me chamou a atenção foram os olhos.
Aquele olhar que ele lançou a cada um naquele baile, me fez tremer de medo.