Meu marido, Davi Moura, e eu éramos o casal perfeito do mundo da tecnologia. Ele era o CEO carismático do império que construímos juntos, e eu, o gênio recluso, a força invisível por trás do nosso sucesso. Nossa história de amor era uma obra-prima de relações públicas que todos adoravam.
Então, descobri que a verdade era algo muito mais podre. Ele não estava apenas tendo um caso com uma modelo e influenciadora com milhões de seguidores chamada Yasmin.
A parceria perfeita era uma mentira. Enquanto ele segurava minha mão na Roda Rico, estava simultaneamente em seu outro celular, rolando o último post da Yasmin no Instagram. Eu o vi autorizar uma doação pública gigantesca em nome dela e depois postar um comentário para milhares verem: "É claro que eu amo mais a Yasmin."
O golpe final veio como uma mensagem de um número desconhecido. Era a foto de um exame de ultrassom. Yasmin estava grávida de um filho dele.
Uma promessa que fiz a ele anos atrás, da qual ele tinha rido, ecoou em minha mente como uma profecia.
"Eu nunca vou tolerar traição. Se você me trair, eu vou desaparecer da sua vida para sempre. Você nunca vai me encontrar."
Então, eu fiz uma ligação.
Ativei um protocolo para apagar minha identidade permanentemente, para me tornar um fantasma.
No nosso aniversário, deixei para ele uma caixa de presente lindamente embrulhada. Dentro estavam os papéis do divórcio assinados.
Desta vez, eu estava cumprindo minha promessa.
Capítulo 1
"Tem certeza de que deseja prosseguir, Sra. Soares? Uma vez que este processo comece, ele é irreversível. Sua identidade digital e física será permanentemente apagada. Para o mundo, Júlia Soares deixará de existir."
A voz do outro lado da linha segura era calma, profissional e desprovida de emoção. Era um serviço para fantasmas, para pessoas que queriam se tornar fantasmas.
Júlia Soares estava na sala de estar branca e estéril de sua cobertura, olhando para a cidade cintilante lá embaixo. Seu reflexo a encarava de volta do vidro que ia do chão ao teto - uma mulher com olhos aguçados e inteligentes, um rosto que já estampou capas de revistas, mas uma alma que se sentia oca.
"Sim", disse ela, sua voz um sussurro baixo e firme. "Tenho certeza. Apague tudo."
"Confirmação recebida. O protocolo será iniciado em vinte e um dias. Nós a notificaremos após a conclusão. Todos os pagamentos pendentes foram processados. Desejamos a você tudo de bom em sua nova vida, seja quem for que você escolha ser."
A linha ficou muda.
Júlia não se moveu. Ela simplesmente ficou ali enquanto os últimos raios do pôr do sol pintavam o céu em tons de laranja e roxo. Então, com uma calma assustadoramente metódica, ela pegou seu notebook. Comprou um voo só de ida para uma cidadezinha litorânea esquecida no outro lado do país, um lugar onde ninguém conhecia seu nome.
Uma televisão montada na parede piscou e começou a exibir a maior notícia da tarde. Era uma coletiva de imprensa da MouraTec, o império de tecnologia que ela construiu do zero ao lado de seu marido, Davi Moura.
Na tela, Davi estava em um pódio, um visionário carismático em um terno perfeitamente cortado. Ele ergueu uma joia, um colar feito de um metal raro e iridescente, com um diamante no centro que parecia capturar a luz de mil estrelas. Era uma obra-prima de tecnologia e arte, uma fusão de elementos que ela mesma havia concebido.
"Isto", anunciou Davi, sua voz ressoando com sinceridade ensaiada, "é o auge da nossa nova linha de tecnologia de luxo. Nós o chamamos de 'O Júlia'."
A multidão de repórteres explodiu em um frenesi de flashes de câmeras e perguntas gritadas. O colar se tornou uma sensação instantânea, virando tendência mundial em minutos. A narrativa era irresistível.
O público adorava a história de Júlia Soares e Davi Moura. Era o conto de fadas definitivo do mundo da tecnologia. Ele era o CEO brilhante e self-made, o rosto da empresa. Ela era o gênio recluso da arquitetura, o coração e a bússola moral, a força invisível que preferia a tranquilidade de seu trabalho ao brilho dos holofotes. A história de amor deles era lendária, uma obra-prima de relações públicas cuidadosamente construída em que todos acreditavam.
A reportagem cortou para uma série de entrevistas com pessoas na rua.
"Davi Moura? Ele é o marido perfeito!", uma jovem se derramou. "Você soube que ele plantou um jardim inteiro de rosas brancas na mansão deles só porque a Júlia mencionou uma vez que gostava delas?"
O repórter seguiu em frente.
"Ouvi dizer que ele doou um rim para salvar a vida dela quando eram mais jovens!", exclamou um estudante universitário, com os olhos arregalados de admiração. "Isso é amor de verdade."
Todos os entrevistados tinham uma história, um trecho da grande narrativa romântica. O público consumia esses contos de devoção, nunca questionando sua autenticidade.
Júlia assistia à tela, um sorriso amargo e autodepreciativo tocando seus lábios. A verdade era algo muito mais podre. Ela tinha sido uma órfã, uma mulher que ansiava por estabilidade e lealdade acima de tudo. Sua beleza estonteante atraiu inúmeros pretendentes, mas o divórcio conturbado de seus pais a deixou profundamente cínica em relação ao amor. Ela havia rejeitado todos eles.
Então veio Davi. Ele a perseguiu por três anos implacáveis. Ele não era apenas persistente; era teatralmente devotado. Ele aprendeu suas paixões, apoiou seus sonhos arquitetônicos e, uma vez, durante uma escalada na Pedra do Baú, ele genuinamente arriscou sua vida para salvá-la de uma queda. Aquele ato de coragem altruísta finalmente quebrou suas defesas.
Mesmo depois de estarem juntos, ele continuou com seus grandes gestos. Ele a pediu em casamento nove vezes, cada tentativa mais elaborada que a anterior. Na décima vez, no aniversário do dia em que se conheceram, ela finalmente disse sim.
Mas ela havia feito uma promessa a ele, um voto que agora ecoava na sala vazia como uma profecia. "Eu serei leal a você, Davi", ela dissera, sua voz séria e clara. "Mas eu nunca vou tolerar traição. Se você me trair, eu vou desaparecer da sua vida para sempre. Você nunca vai me encontrar."
Ele tinha rido, puxando-a para seus braços, jurando por sua vida que nunca trairia a única mulher que ele já amou.
Aquela bela memória, que um dia foi a base de seu mundo, havia se estilhaçado em um milhão de pedaços afiados.
Três meses atrás, ela descobriu a verdade. Não foi apenas uma traição, mas duas, entrelaçadas da maneira mais dolorosa possível. Davi estava tendo um caso com uma modelo e influenciadora, uma mulher linda, mas amoral, chamada Yasmin Ferraz.
O amor, a lealdade, a parceria perfeita - era tudo uma mentira. Uma fachada pública construída sobre seus ideais roubados e o profundo engano dele.
Júlia soltou uma risada baixa e sem humor. Ela desligou a televisão, a imagem do rosto adorador de Davi queimando em sua mente. Ela caminhou até sua mesa minimalista, imprimiu os papéis do divórcio que havia preparado semanas antes e assinou seu nome com uma mão firme e inabalável.
A ironia era esmagadora. Sua promessa de muito tempo atrás era agora sua realidade. Ela ia desaparecer. Para sempre.
Ela colocou os documentos assinados dentro de uma elegante caixa de presente, do mesmo tipo que Davi usava para seus grandes presentes. Embrulhou-a cuidadosamente em papel prateado cintilante e amarrou com uma fita branca impecável.
Uma hora depois, Davi chegou em casa.
Ele a abraçou por trás, o queixo apoiado em seu ombro. "Desculpe o atraso, meu amor", ele murmurou, sua voz um ronronar baixo contra sua orelha. "A coletiva de imprensa se estendeu." Ele pressionou um beijo em sua têmpora e então apresentou o colar do evento. "Para você. A única e incomparável Júlia."
Enquanto ele se movia para prendê-lo em seu pescoço, os olhos dela captaram uma leve mancha de batom rosa no colarinho de sua camisa branca. Não era o tom dela. Seu coração, já partido, sentiu uma nova e aguda rachadura.
"Ficou lindo em você", disse ele, dando um passo para trás para admirar seu trabalho, completamente alheio à tempestade que se formava dentro dela. "A mulher mais bonita do mundo, usando a joia que leva seu nome."
Seus olhos estavam avermelhados, mas sua voz era firme. "Eu também tenho um presente para você, Davi." Ela lhe entregou a caixa lindamente embrulhada. "Um presente de aniversário."
Ele sorriu radiante, o rosto iluminado por uma alegria genuína. "Você se lembrou." Ele começou a rasgar a fita.
"Espere", disse ela, sua voz o detendo. "Não abra agora."
Ele ergueu os olhos, confuso.
"Abra em três semanas", ela instruiu, seu olhar inabalável. "Prometa."
Ele hesitou por um momento, então seu sorriso fácil retornou. "Tudo bem. Daqui a três semanas, então. Uma surpresa para aguardar." Ele pegou um pequeno post-it da mesa, escreveu 'Não abrir por 21 dias!', e o colou de brincadeira na caixa. Ele beijou a mão dela, seu toque enviando uma corrente de gelo por suas veias.
Júlia o observou, uma dor silenciosa e oca no peito.
Espero que você fique realmente surpreso então, Davi, ela pensou.
Na manhã seguinte, Davi a acordou com um beijo gentil. "Sei que perdi nosso aniversário ontem por causa do trabalho", disse ele, a voz grossa de sono e arrependimento fingido. "Vamos a algum lugar hoje. Só nós dois. Que tal aquele novo restaurante estrelado, o 'Aurora'? Sei o quanto você ama o menu degustação deles."
Júlia sentiu uma onda de náusea. Aurora. O novo lugar favorito deles. Mas ela sabia que isso era parte da performance que teria que suportar pelas próximas três semanas. Ela deu de ombros, sem se comprometer.
Davi não esperou por uma resposta real. Ele já estava fora da cama, pegando roupas do armário, vibrando com uma energia que parecia totalmente falsa. "Eu reservei o lugar todo para a noite", acrescentou ele com um sorriso orgulhoso. "Só para nós."
No restaurante, ele era a imagem de um marido dedicado. Puxou a cadeira para ela, pediu seu champanhe favorito e discutiu cada prato com o chef que veio pessoalmente à mesa deles. Toda a equipe girava em torno deles, tratando-os como realeza. Ele segurou a mão dela sobre a toalha de linho branca, o polegar acariciando seus nós dos dedos, como se tivesse medo de que ela pudesse escapar a qualquer momento. A ironia era sufocante.
"A nós", disse ele, erguendo a taça. "Para sempre."
Eu já estou perdida, Davi, ela pensou, as palavras um grito silencioso em sua mente. Perdi meu rumo no dia em que te conheci.
A presença deles não passou despercebida, apesar do restaurante vazio. Um paparazzi, provavelmente avisado pela equipe de relações públicas de Davi, tirou algumas fotos deles pela janela. A manchete já estava se escrevendo: "Bilionário Davi Moura fecha restaurante estrelado para jantar de aniversário romântico com a esposa Júlia Soares." Uma adição perfeita ao seu conto de fadas perfeito.
Júlia forçou um sorriso e assentiu. Davi, sempre o showman, passou o braço pela cintura dela e a puxou para perto, sorrindo para a câmera que ele sabia que estava lá.
Após o prato principal, Júlia pediu licença. "Volto já", murmurou, precisando de um momento para respirar longe de sua performance sufocante.
No mármore frio do banheiro feminino, ela se apoiou na bancada, seu reflexo parecendo pálido e frágil. Discretamente, pegou o celular, seus dedos voando pela tela por uma curiosidade mórbida que não conseguia suprimir.
Ela encontrou o que procurava no perfil do Instagram de Yasmin Ferraz. A modelo havia postado há apenas uma hora. Era uma série de fotos profissionais dela, posando sedutoramente dentro daquele mesmo restaurante, o Aurora.
A legenda dizia: "Meu namorado é o melhor! Eu disse a ele que amava este lugar, então ele comprou o restaurante inteiro para mim! Sou ou não sou a garota mais sortuda do mundo? #MelhorNamorado #Mimada"
A mão de Júlia ficou dormente. Este restaurante. Aquele que Davi lhe dissera ser um novo "investimento imobiliário" para a empresa. Era um presente para sua amante.
A seção de comentários do post explodiu com elogios bajuladores.
"Mentira! Você tá inventando!", dizia um comentário, mas foi rapidamente soterrado.
"Mostra a prova!"
Yasmin claramente havia antecipado isso, fixando sua própria resposta no topo. Era uma foto de uma escritura de imóvel impecável, segurada em suas mãos perfeitamente cuidadas. O nome do proprietário estava claramente visível, embora borrado para seus seguidores. "Viram? Agora acreditam?", ela havia escrito.
O chat entrou em erupção.
"MEU DEUS! Seu namorado é mais rico que o Davi Moura!"
"O Davi Moura só dá joias para a esposa. O seu te dá um restaurante inteiro! Isso sim é amor de verdade!"
De repente, uma notificação apareceu na tela. Um novo comentário surgiu, instantaneamente fixado no topo. Era de um nome de usuário que ela reconheceu com um baque nauseante: 'Amo_Yasmin'.
O comentário em negrito dizia para todos verem: "É claro que eu amo mais a Yasmin."
O post mergulhou no caos. Os seguidores foram à loucura, gritando sobre o namorado misterioso e insanamente rico.
Yasmin respondeu ao comentário com uma série de emojis de coração, uma volta da vitória presunçosa e satisfeita.
A mão de Júlia tremeu. Ela olhou da tela do celular, de volta para a sala de jantar onde Davi estava sentado. Ele ainda estava olhando para o próprio celular, um sorriso fraco e indulgente nos lábios, seus olhos cheios de uma familiaridade doentia.
Era ele. Ele era o 'Amo_Yasmin'.
Ele estava sentado lá fora, interpretando o papel do marido perfeito, enquanto declarava publicamente seu amor por outra mulher.
Júlia sentiu algo dentro dela se estilhaçar completamente. Uma dor aguda e física rasgou seu peito e, por um longo momento, ela não conseguiu respirar.
Uma onda de tontura a atingiu. Júlia pressionou a mão no peito, tentando forçar o ar para dentro dos pulmões. A dor era tão intensa que parecia que seu coração estava sendo fisicamente arrancado.
Davi finalmente ergueu os olhos quando ela tropeçou de volta à mesa, sua expressão mudando de indulgência para alarme. "Júlia? O que foi?" Ele estava ao seu lado em um instante, suas mãos pairando sobre seus ombros, o rosto uma máscara de preocupação.
"Você está bem? Seu peito dói?", ele perguntou, a voz carregada de pânico.
Como você pode me perguntar isso?, ela pensou, uma risada histérica borbulhando em sua garganta. Como você pode sentar aí, professando seu amor por outra mulher, e depois fingir se importar tanto comigo?
Ela se forçou a respirar lenta e tremulamente. "Não é nada", mentiu, a voz tensa. "Só uma cãibra."
Ele não pareceu convencido, mas a ajudou a se levantar. "Vamos para casa. Você precisa descansar."
O caminho de volta foi um borrão de gentilezas forçadas. Davi tentou fazer piadas, preencher o silêncio sufocante no carro, mas Júlia apenas olhava pela janela, as ruas vibrantes da cidade parecendo cinzentas e sem vida.
"Eu fiz algo de errado?", ele finalmente perguntou, a voz suave e cautelosa.
"Não", disse ela, o tom neutro. "Eu só estava pensando em uma série que assisti hoje."
Ele relaxou visivelmente. "Ah, é? Sobre o que era?"
"Era sobre um homem que tinha dois amores", disse ela, os olhos fixos nos prédios que passavam. "Ele dizia à esposa que a amava, mas secretamente amava outra pessoa. Ele achava que poderia esconder isso para sempre." Ela se virou para olhá-lo, o olhar penetrante. "Davi, você faria isso comigo?"
"Claro que não!", ele interrompeu, a voz aguda e defensiva. Ele estendeu a mão e pegou a dela, o aperto quase doloroso. "Júlia, você sabe que eu te amo. Só você. Eu nunca, jamais, te trairia."
Suas palavras, antes uma fonte de conforto, agora pareciam punhais. Cada sílaba era uma mentira, uma performance cuidadosamente elaborada.
Nesse momento, o outro celular dele, o que ele mantinha para o "trabalho", vibrou no console central. Ela acenou na direção dele. "É melhor atender."
Ele hesitou, depois o pegou. Sua expressão se contraiu enquanto ouvia a voz do outro lado. "Preciso ir", disse ele, encerrando a chamada abruptamente. "Uma emergência no escritório." Ele encostou o carro. "Vou pedir para um motorista te levar para casa."
Júlia assentiu silenciosamente e saiu do carro.
No momento em que o carro dele acelerou, ela chamou um táxi. "Siga aquele carro", disse ao motorista, a voz fria e firme.
O carro de Davi os levou a uma mansão particular nos arredores da cidade. Júlia observou de longe enquanto ele saía. A porta da frente da mansão se abriu e Yasmin Ferraz apareceu, vestida com uma fantasia de empregada ridiculamente curta.
Ela correu para Davi, jogando os braços ao redor de seu pescoço, e eles se beijaram, um beijo longo e apaixonado que fez o estômago de Júlia revirar.
"Sentiu minha falta?", Yasmin perguntou, a voz um ronronar brincalhão. "Tenho uma surpresa para você."
Os olhos de Davi escureceram com um olhar de pura luxúria que Júlia não via há anos. "Vim o mais rápido que pude", ele murmurou.
"Vamos ver a surpresa no carro", sussurrou Yasmin, puxando-o em direção ao veículo dele.
Eles entraram no banco de trás e, logo, o carro começou a balançar suavemente.
Júlia sentou-se no táxi, observando. Uma parte dela sabia, esperava por isso, mas ver com seus próprios olhos era um tipo diferente de dor. Era uma agonia crua e visceral que raspava sua alma de qualquer esperança remanescente.
Ela apertou o peito novamente, ofegando por ar enquanto lágrimas quentes escorriam por seu rosto. Ela se lembrou da primeira vez deles juntos. Ele tinha sido tão gentil, tão reverente. Ele insistiu em esperar até a noite de núpcias, dizendo que ela era preciosa demais, pura demais. Ele chorou naquela noite, abraçando-a, sussurrando que a amaria por toda a eternidade.
Ele a fez se sentir querida, única, como se ninguém mais no mundo pudesse amá-la como ele amava.
E foi ele quem estilhaçou tudo.
A motorista de táxi olhou para ela pelo retrovisor. "Homens são todos iguais", disse ela, a voz cheia de uma simpatia cansada. Ela passou uma caixa de lenços para Júlia. "Meu marido também tem uma por fora. A gente só tem que fingir que não vê. Perdoar. É mais fácil assim."
Júlia pegou um lenço, os nós dos dedos brancos enquanto cerrava o punho. "Não", sussurrou ela, a voz um som cru e quebrado. "Eu nunca vou perdoá-lo."
Ela repetiu as palavras, desta vez para si mesma, um voto solene e inquebrável. Nunca.
Quando chegou em casa, ela se moveu pela vasta e vazia cobertura como um robô. Juntou todos os presentes que Davi já lhe dera - as roupas, as bolsas, as joias, incluindo o recém-adquirido colar 'Júlia'.
Ela ligou para o administrador do prédio. "Quero vender todos esses itens", disse ela, a voz desprovida de emoção. "Doe o dinheiro para uma fundação para mulheres."
Em uma hora, tudo estava embalado e levado. Os armários estavam vazios, as caixas de joias, também.
Ela começou a fazer uma pequena mala com suas próprias coisas, os poucos itens que eram verdadeiramente seus.
De repente, a porta da frente se abriu com um estrondo. Davi estava lá, encharcado da chuva que começara a cair, o rosto pálido e furioso.
"Júlia! Por que você vendeu o colar?", ele exigiu, sua voz ecoando na sala nua e vazia.