Perdi minha perna salvando meu marido, Ricardo. Minha carreira no balé acabou, mas minha mãe, em seu leito de morte, havia garantido um transplante de coração perfeito para minha irmã, Júlia. Nós tínhamos esperança.
Então Ricardo entregou o coração dela. Ele e sua amante o trocaram por um acordo de negócios.
Júlia morreu.
Quando o confrontei no hospital, ele me empurrou contra a parede. A queda não só estilhaçou meu mundo; ela me fez abortar o bebê que eu nem sabia que carregava.
Em uma única noite, ele tirou minha irmã e meu filho.
Enquanto eu sangrava no chão, olhei para o homem por quem um dia sacrifiquei tudo e fiz uma promessa.
"Você vai se arrepender disso pelo resto da sua vida."
Eu me divorciei e desapareci.
Um ano e meio depois, ele me encontrou, um homem destruído implorando por perdão.
Eu o olhei nos olhos e dei minha resposta final.
"Não há segundas chances para um assassinato."
Capítulo 1
Ponto de Vista: Helena
Eu queria ter morrido no lugar dela. Desejei isso no momento em que Ricardo me disse que o coração tinha sumido, arrancado para outra pessoa, deixando Júlia para murchar. Minha respiração ficou presa na garganta, um som áspero e desesperado que mal reconheci como meu. Tropecei para frente, minha prótese arrastando um pouco, o chão frio e estéril do hospital uma zombaria cruel da minha esperança estilhaçada.
"Ricardo, por favor," engasguei, minha voz rouca, já em frangalhos por horas de choro e súplicas. Minhas mãos, tremendo incontrolavelmente, alcançaram o paletó de seu terno da Ricardo Almeida. "Você tem que pegá-lo de volta. Você me prometeu. Você prometeu à Júlia."
Ele olhou para mim, seus olhos, geralmente tão afiados e calculistas, agora nublados por uma dureza desconhecida. Ele se afastou, seu movimento sutil, mas firme, cortando a última conexão física entre nós. O ar ao seu redor parecia mais frio que a noite de janeiro lá fora.
"Helena, já passamos por isso," ele disse, seu tom gélido, desprovido de qualquer emoção genuína. Era o mesmo tom que ele usava ao descartar uma aquisição fracassada. "Está feito. O coração não está mais disponível. Não há mais nada a fazer."
Minha cabeça pendeu para trás como se ele tivesse me esbofeteado. "Nada mais a fazer?" Minha voz subiu, rachando de incredulidade. "Aquele coração era para a Júlia! O último presente da minha mãe! Ela arranjou tudo antes de morrer, Ricardo! Era uma combinação perfeita!"
Ele suspirou, um longo e impaciente suspiro que fez meu sangue gelar. "Helena, controle-se. Esse drama todo é deselegante." Ele olhou ao redor do corredor deserto do hospital, como se temesse que alguém pudesse testemunhar meu colapso. "Foi uma doação direcionada para um paciente em estado crítico. Essas coisas acontecem."
"Essas coisas acontecem?" repeti, as palavras um gosto amargo na minha boca. Minha mãe, minha mãe altruísta e amorosa, passou seus últimos dias garantindo que Júlia vivesse. Ela encontrou um doador, garantiu a compatibilidade, orquestrou tudo, mesmo de seu leito de morte. Este coração não era apenas uma maravilha médica; era um testamento do amor moribundo de uma mãe.
"Não era apenas 'um coração', Ricardo!" gritei, minha voz ecoando pelas paredes silenciosas. "Era o último desejo da mamãe! O legado dela! Ela fez isso pela Júlia, por nós!"
Passei por ele, meu coração martelando contra minhas costelas, uma batida desesperada de desgraça iminente. Eu tinha que chegar ao administrador do hospital, aos médicos, a qualquer um que quisesse ouvir. Isso não podia estar acontecendo. Isso não podia ser o fim. Mas Ricardo agarrou meu braço, seu aperto como ferro.
"Onde você pensa que vai?" ele exigiu, sua voz baixa e ameaçadora.
"Consertar isso!" rosnei, tentando arrancar meu braço. "Vou fazê-los devolver! A Júlia precisa dele, Ricardo! Ela está morrendo!"
Ele simplesmente apertou mais, seus olhos cravados nos meus. "Não há nada para consertar. O coração está sendo preparado para o receptor neste exato momento. Qualquer interferência adicional só causará problemas para você. E para mim."
Suas palavras foram um golpe físico, pior que qualquer soco. Meu corpo cedeu, a luta se esvaindo de meus membros. Eu o encarei, encarei de verdade, como se o visse pela primeira vez. O homem que eu amei, o homem com quem me casei, o homem por quem sacrifiquei minha perna, minha carreira, meu futuro inteiro. Ele estava ali, impassível, um estranho.
"Você realmente não se importa, não é?" sussurrei, minha voz quase inaudível. "Você não se importa que a Júlia esteja morrendo. Você não se importa que o último desejo da minha mãe esteja sendo profanado. Você nunca se importou conosco, não é?"
Um lampejo de algo - irritação? culpa? - cruzou seu rosto, rapidamente substituído por sua máscara usual de desdém. "Não seja ridícula, Helena. Eu me importo com você. Mas essa... essa obsessão com sua irmã não é saudável. E, francamente, você está ficando histérica."
Histérica. Essa palavra, tantas vezes usada para descartar as emoções válidas de uma mulher, parecia um ferro em brasa. Lembrou-me de inúmeras outras vezes em que ele menosprezou meus sentimentos, distorcendo minha realidade até que eu questionasse minha própria sanidade. Gaslighting, eles chamavam. Eu chamava de uma morte lenta e agonizante do meu espírito.
"Não é saudável?" Eu ri, um som quebrado e sem humor. "Minha irmãzinha está deitada naquele quarto, se apagando, e você chama minha preocupação de não saudável? Que tipo de monstro você é?"
Antes que ele pudesse responder, uma voz familiar e melosa ronronou atrás dele. "Está tudo bem, querido? Você sabe como fico estressada quando as coisas não estão correndo bem."
Bruna. Claro.
Ela emergiu das sombras, seu cabelo loiro perfeitamente penteado brilhando sob as luzes do hospital, seu vestido de grife impecável. Ela se movia com uma graça sem esforço que zombava do meu próprio corpo quebrado. Ela passou o braço pelo de Ricardo, seu olhar varrendo-me com uma pena desdenhosa que fez meu estômago revirar.
"Helena," ela disse, seu sorriso não alcançando seus olhos. "Você parece... mal. Você deveria ir para casa e descansar. Nós cuidaremos de tudo aqui."
"Vocês cuidarão de tudo?" cuspi, meu olhar alternando entre ela e Ricardo. "O que exatamente vocês estão cuidando, Bruna? Estão arranjando o roubo de mais corações para sua 'prima doente'?"
O aperto de Ricardo em meu braço se intensificou dolorosamente, mas Bruna apenas riu, um som leve e tilintante. "Helena, querida, não seja tão dramática. É uma simples e infeliz confusão. Essas coisas acontecem em procedimentos médicos apressados."
"Confusão?" Eu arranquei meu braço, o movimento súbito causando uma dor aguda e lancinante no meu lado. Ignorei. "Você chama de confusão quando manipula meu marido para desviar um coração destinado à minha irmã moribunda? Você chama isso de confusão?"
Os olhos de Ricardo brilharam. "Helena, já chega! Você passou dos limites!" Ele deu um passo em minha direção, a mão levantada.
Eu recuei, não por medo, mas pela pura e ardente fúria que me consumia. O homem que eu amava estava prestes a me bater, para protegê-la. A percepção me atingiu como um maremoto. Todo o sacrifício, toda a devoção, todo o gaslighting. Tinha acabado.
"Você quer me bater, Ricardo?" desafiei, minha voz tremendo. "Vá em frente! Faça! Porque nada que você faça poderia me machucar mais do que o que você já fez!"
Ele congelou, a mão pairando no ar. Bruna, sempre a atriz, encostou-se em seu ombro, um soluço suave escapando de seus lábios. "Ricardo, não. Ela está claramente louca. Não deixe que ela o provoque. Pense na sua imagem."
Sua imagem. Era tudo o que importava para ele.
"Sabe de uma coisa?" eu disse, minha voz perigosamente calma agora. "Eu cansei. Cansei de você, Ricardo. Cansei deste casamento. Eu quero o divórcio."
As palavras pairaram no ar, pesadas e finais. Os olhos de Ricardo se arregalaram, um lampejo de choque genuíno finalmente quebrando sua fachada arrogante.
"Divórcio?" ele zombou, mas havia um tremor em sua voz. "Não seja absurda. Você está apenas chateada. Vá para casa, Helena. Durma um pouco."
"Não," afirmei, minha determinação se solidificando a cada batida dolorosa do meu coração. "Isso não é algo que vou 'superar com o sono'. Acabou. Você a escolheu. Você escolheu uma estranha em vez da Júlia. Em vez de mim. E eu não posso viver com isso."
Ele me encarou, depois soltou uma risada curta e sem humor. "Você acha que pode simplesmente ir embora? Depois de tudo? Depois do que eu fiz por você?" Ele gesticulou vagamente para minha prótese. "Quem você acha que pagou por isso? Quem ficou ao seu lado quando sua carreira de dança acabou?"
Suas palavras, destinadas a ferir, apenas alimentaram o fogo gelado em minhas veias. "Você ficou ao meu lado por culpa, Ricardo! Não por amor! E eu salvei sua vida! Perdi minha perna salvando sua vida! Não se atreva a agir como se eu lhe devesse alguma coisa!"
De repente, uma onda de tontura me atingiu, a dor aguda no meu lado se intensificou, uma dor visceral se espalhando pelo meu abdômen. Eu balancei, agarrando meu estômago.
Bruna, aproveitando o momento, deu um passo à frente, sua voz pingando falsa preocupação. "Helena, por favor. Você está fazendo uma cena. Você só está piorando as coisas para si mesma agora. Você precisa se acalmar." Seus olhos, no entanto, continham um brilho triunfante. "Você não entende? O coração já está em cirurgia. A vida da minha amiga depende disso. Você não gostaria de ser responsável por outra morte, gostaria?"
Suas palavras, ditas com tanta casualidade, foram uma faca se retorcendo em minhas entranhas. Outra morte? Ela via a morte potencial de Júlia como um mero inconveniente, um dano colateral em seus joguinhos mesquinhos.
Ricardo, seu rosto ainda pálido com minha declaração de divórcio, finalmente saiu de seu torpor. "Helena, eu já te disse, o coração se foi. Já está sendo usado. Você precisa ir embora." Ele deu um passo em minha direção, seu olhar endurecido novamente. "Agora."
Minha visão embaçou. A dor no meu abdômen pulsava, um ritmo nauseante. Eu tropecei para trás, minha prótese prendendo na beirada de um tapete. Caí, com força, o impacto sacudindo todo o meu corpo.
"Júlia," ofeguei, o nome uma oração desesperada. "Júlia... por favor, Ricardo..."
Ele não se moveu. Ele ficou ali, formidável e inflexível, Bruna agarrada ao seu braço, um olhar presunçoso no rosto. A imagem deles, unidos em sua crueldade, gravou-se em minha consciência.
"Vamos, querido," Bruna ronronou, puxando Ricardo em direção aos elevadores. "Os médicos precisam se concentrar. Isso realmente não está ajudando ninguém."
Enquanto se viravam para sair, Bruna olhou para trás, um sorriso malicioso brincando em seus lábios. Seus olhos continham uma mensagem arrepiante: Você perdeu. Ele é meu.
"Não!" gritei, um som gutural arrancado da minha alma. Eu me arrastei para cima, ignorando a dor latejante, ignorando a forma como minha prótese protestava a cada movimento. "Ricardo! Júlia! Por favor! Não façam isso!"
Eu me lancei para frente, tentando agarrá-lo, mas minha perna cedeu. Caí novamente, minhas mãos raspando no chão frio e duro. Meus apelos desesperados se dissolveram em soluços quebrados. Eu assisti, impotente, enquanto as portas do elevador se fechavam, levando Ricardo e Bruna, selando o destino de Júlia. Fui deixada sozinha, sangrando, quebrada e totalmente consumida pelo desespero.
Minhas mãos se fecharam em punhos, batendo no chão inflexível. "Não! Não! NÃO!" A palavra rasgou através de mim, um grito primal de fúria e dor. Júlia. Minha doce Júlia. Eles a tiraram de mim.
Lutei para me levantar, meu corpo pesado, cada músculo gritando em protesto. Minha prótese parecia um peso morto. Tentei ajustar as tiras, tentando prendê-la, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Cada movimento era uma agonia, mas eu continuei. Eu tinha que chegar até a Júlia. Eu tinha que ir.
Assim que consegui me levantar, balançando precariamente, outra figura emergiu do mesmo elevador que Ricardo acabara de pegar. Era Bruna, sozinha desta vez. Ela caminhou em minha direção, seus saltos altos clicando suavemente no chão polido, um sorriso cruel gravado em seu rosto.
"Ainda aqui?" ela zombou, sua voz doce, mas cheia de veneno. "Pensei que você teria o bom senso de correr para casa e lamber suas feridas."
Eu a encarei, meus olhos ardendo com um ódio tão intenso que surpreendeu até a mim mesma. "Sua demônia. Sua demônia absoluta. Devolva aquele coração, Bruna. Estou te implorando. O que você quer? Dinheiro? Poder? Eu te dou qualquer coisa! Apenas me devolva o coração da Júlia!"
Ela riu, um som áspero e desagradável. "Ah, Helena. Você é tão ingênua. Você realmente acha que eu deixaria você ficar com ele? Depois de tudo isso?" Ela se inclinou, seu hálito quente em minha orelha, sua voz baixando para um sussurro. "Sabe, o engraçado é que o coração não era para minha prima. Foi um acordo de negócios. Um jogo de poder. Ricardo me devia um favor. E ele pagou."
O mundo girou. Meu sangue gelou, depois ferveu com uma fúria tão potente que ameaçou me consumir. Um acordo de negócios? A vida de Júlia, o último desejo de minha mãe, reduzido a uma transação?
"Você mente!" rugi, minha mão voando, conectando-se com sua bochecha com um baque doentio. A força do meu golpe a mandou para o chão, sua fachada cuidadosamente construída se estilhaçando.
Ela soltou um grito teatral, agarrando o rosto. "Sua vadia! Você realmente me bateu!"
Ponto de Vista: Helena
Bruna estava no chão, soluçando dramaticamente, a mão pressionada na bochecha, mas seus olhos, arregalados e venenosos, estavam fixos em mim. "Como você ousa! Você me agrediu! Vou mandar te prender!" ela gritou, sua voz ecoando no corredor deserto. "Só porque sua vida está desmoronando, você acha que pode atacar pessoas inocentes?"
"Inocentes?" cuspi, tremendo com uma raiva que sacudiu todo o meu corpo. "Você é tudo, menos inocente! Você condenou minha irmã à morte por um 'acordo de negócios'!"
Antes que eu pudesse dizer outra palavra, uma mão pesada pousou em meu ombro, me virando. Era Ricardo, seu rosto contorcido de fúria, seus olhos em chamas. Ele me empurrou com força, me fazendo tropeçar para trás, minha cabeça batendo contra a parede fria e dura. Uma dor aguda e ofuscante explodiu atrás dos meus olhos e, por um momento, o mundo se dissolveu em um caleidoscópio de luzes piscantes.
Eu ofeguei, agarrando minha cabeça, uma onda de náusea me invadindo. Vermelho. Havia vermelho na minha mão quando a afastei. Sangue. Minha visão turvou e me senti tonta, desorientada.
"Helena, que diabos há de errado com você?" Ricardo rugiu, sua voz carregada de nojo. "Bater na Bruna? Você enlouqueceu completamente? Ela estava tentando te ajudar!"
"Ajudar?" grasnei, a palavra uma piada amarga. Minha cabeça latejava, uma batida implacável de dor. "Ela estava se gabando! Ela me disse que era um acordo de negócios! Ela roubou o coração da Júlia por um acordo de negócios!"
Bruna, ainda choramingando no chão, conseguiu se sentar, seu olhar alternando entre Ricardo e eu, um brilho astuto em seus olhos. "Ela está mentindo, Ricardo," ela sussurrou, sua voz trêmula. "Ela só está tentando te virar contra mim. Ela sempre teve ciúmes."
Ricardo olhou para mim, seus olhos se estreitando em suspeita. "Ciúmes? De quê, Helena? Da preocupação dela com meus parceiros de negócios? Ou você está apenas com raiva por não poder mais controlar tudo?"
"Minha irmã está morrendo, Ricardo!" gritei, as palavras rasgando minha garganta crua. "Ela precisa daquele coração! Minha mãe, nossa mãe, arranjou! Foi uma doação direcionada! Uma combinação perfeita! Como você pôde deixá-los levá-lo?"
Ele jogou as mãos para o ar em exasperação. "Helena, eu já te disse! Foi um mal-entendido! O primo da Bruna estava em estado crítico, uma emergência de última hora. O que eu deveria fazer? Deixá-lo morrer?"
"O primo dela?" Eu ri, um som áspero e quebrado que machucou minha cabeça dolorida. "Ela acabou de admitir que não era para o primo dela! Foi um acordo de negócios, seu tolo! Um jogo de poder!"
Bruna soltou outro pequeno soluço. "Ricardo, por favor, não dê ouvidos a ela. Ela está desequilibrada. Ela sempre me odiou."
Ele ignorou Bruna, seu olhar fixo em mim, frio e implacável. "Sabe de uma coisa, Helena? Você mudou. Você costumava ser tão doce, tão compreensiva. Agora você é apenas uma megera amarga e vingativa. Não é à toa que sua mãe sempre se preocupou tanto com você."
Suas palavras perfuraram a dor, cortando mais fundo do que qualquer golpe físico. Minha mãe. Ele ousava falar dela, de suas preocupações, como se soubesse algo sobre seu amor, sobre seus sacrifícios. Eu cambaleei para frente, passando por ele, determinada a chegar ao quarto de Júlia, a vê-la uma última vez antes que fosse tarde demais.
Mas Bruna, sempre atenta, levantou-se e bloqueou meu caminho. "Ah, não, você não vai. Você não vai causar mais problemas. Os médicos já têm o suficiente com que lidar." Ela colocou as mãos no meu peito, me empurrando para trás. "Pense na Júlia, Helena. Você quer que os últimos momentos dela sejam preenchidos com suas acusações feias?"
"Não se atreva a pronunciar o nome dela!" gritei, minha voz mal um sussurro, grossa de lágrimas e do gosto metálico amargo de sangue na minha boca. "Você não tem o direito de usar a Júlia para me manipular! Aquele coração era a última chance dela! Minha mãe arranjou. Minha mãe, que nos amava mais do que tudo, desistiu de sua própria chance de vida para garantir isso para a Júlia!"
Tropecei novamente, minha prótese cedendo sob o tremor súbito que percorreu meu corpo. Caí de joelhos, sem fôlego, meu lado queimando com uma dor intensa e agonizante. Agarrei meu estômago, um pensamento horrível florescendo em minha mente. Não. Isso não. Agora não.
Ricardo, vendo meu sofrimento, parou, um lampejo de preocupação cruzando seu rosto. Mas foi rapidamente substituído por irritação. "Helena, pare com essa farsa. Levante-se. Você está fazendo uma cena."
"Não vou sair até ver a Júlia," ofeguei, as palavras quase inaudíveis. "E você, seu monstro, vai se arrepender disso. Eu juro, você vai se arrepender disso pelo resto da sua vida."
"Arrepender do quê?" ele zombou, sua paciência claramente no fim. "De ser leal aos meus parceiros de negócios? De salvar uma vida que não era 'sua' para salvar? Você está sendo dramática, Helena. Como sempre."
"Você quer drama?" sibilei, forçando-me a olhá-lo nos olhos, apesar da dor embaçando minha visão. "Você quer drama? Tudo bem. Espero que aproveite sua nova vida, Ricardo. Porque você e eu acabamos. De verdade. Estou me divorciando de você. E vou levar tudo o que é meu."
Seu rosto ficou branco. "Você não pode estar falando sério."
"Ah, estou falando sério," sussurrei, uma determinação arrepiante se solidificando em meu coração. "Mais séria do que nunca. Você tirou a vida da minha irmã. Você tirou o último presente da minha mãe. Agora estou pegando a minha de volta."
Antes que ele pudesse responder, a dor insuportável em meu abdômen se intensificou, uma cãibra aguda e lancinante que me dobrou. Gritei, um som cru, animal, agarrando meu estômago com as duas mãos. Minha cabeça girou e minha visão afunilou.
Ricardo, seu rosto ainda pálido com minha declaração, recuou um pouco, um lampejo de alarme genuíno em seus olhos. "Helena, o que foi?" ele exigiu, dando um passo hesitante para frente.
Mas eu estava além da fala. Meu corpo estava atormentado pela agonia, um calor aterrorizante se espalhando entre minhas pernas. O sangue. Havia mais sangue. Um terror gelado me dominou, mais frio que qualquer ódio.
"O que há de errado com ela?" Bruna choramingou, sua voz tingida de impaciência mal disfarçada. "Ela é sempre tão dramática. Apenas a ignore, Ricardo. Temos coisas mais importantes a fazer."
Ricardo hesitou, olhando entre mim e Bruna. Por um momento, um fragmento do antigo Ricardo, aquele que ocasionalmente mostrava preocupação, pareceu surgir. Mas foi passageiro. Seu olhar endureceu novamente.
"Helena, se você está tentando me manipular com alguma cena elaborada, não vai funcionar," ele avisou, sua voz fria. "Esta é sua última chance. Vá para casa. Agora. Ou não espere que eu vá te procurar quando você perceber que cometeu um erro terrível."
Minha respiração falhou. Ele achava que eu estava fingindo. Ele achava que eu estava fingindo essa dor excruciante, esse calor úmido e aterrorizante se espalhando sob mim. Ele achava que eu manipularia a morte do meu filho.
"Erro?" engasguei, uma risada amarga borbulhando através da minha dor. "O único erro que cometi foi te amar. E agora, estou pagando por isso. Todos nós estamos."
Fechei os olhos, a dor sobrepujando tudo. Eu podia ouvir os passos de Ricardo se afastando, a risadinha triunfante de Bruna, o zumbido distante da maquinaria do hospital. Um pavor frio se instalou sobre mim, uma premonição de perda irreversível. Não era apenas a Júlia que eu estava perdendo. Era tudo.
Ponto de Vista: Helena
A ligação veio no meio da noite, cortando o fino véu de inconsciência que eu consegui arrancar após horas de choro inconsolável. Minha mão desajeitada procurou o telefone, meu coração já um tambor frenético contra minhas costelas. O pavor, frio e pesado, tinha sido meu companheiro constante desde a traição de Ricardo.
"Senhorita Carpenter?" Uma voz sombria do outro lado, formal e estéril, confirmou meus piores medos. "Aqui é o Dr. Evans do Hospital Sírio-Libanês. Estou ligando para informar... perdemos a Júlia."
O mundo girou. O telefone escorregou de meus dedos dormentes, caindo no chão. "Não," sussurrei, o som arrancado da parte mais profunda da minha alma. "Não, não, não." Não podia ser verdade. Simplesmente não podia. Júlia, minha brilhante e esperançosa Júlia, não podia ter partido. Ela deveria viver. Ela tinha tanta vida pela frente.
Minhas pernas cederam. Caí no chão, o azulejo frio pressionando minha bochecha, espelhando o frio que havia tomado meu âmago. Meus pulmões queimavam, o ar se recusando a entrar ou sair. Arranhei minha garganta, desesperada por uma respiração, mas era como tentar respirar debaixo d'água. Sufocamento. Era o que parecia. Não apenas físico, mas espiritual.
A culpa, crua e corrosiva, me rasgou. A culpa é toda sua, Helena. Eu deveria ter lutado mais. Eu deveria ter encontrado outro jeito. Eu nunca deveria ter confiado em Ricardo. O rosto da minha mãe brilhou diante dos meus olhos, seu sorriso gentil, seu olhar amoroso. Eu te decepcionei, mãe. Eu decepcionei a Júlia.
Um ódio ardente por Ricardo, um fogo venenoso e consumidor, acendeu-se em meu peito. Ele tinha feito isso. Ele havia assassinado minha irmã. Ele havia tirado a vida dela com sua indiferença cruel, sua arrogância egoísta. Ele havia roubado o coração, mas havia arrancado o meu no processo. Ele não era apenas um marido; ele era um assassino. Eu nunca o perdoaria. Eu nunca esqueceria.
O mundo ficou preto.
Os dias seguintes se transformaram em uma névoa indistinguível de luto e dor. Meu corpo se movia no piloto automático, uma casca oca guiada pelo instinto. Encontrei-me ao lado do túmulo de Júlia, a terra recém-revolvida uma ferida aberta em meu coração. Dois túmulos, lado a lado. O da minha mãe, e agora o da Júlia. Parecia errado, totalmente errado, uma vida tão jovem ser enterrada.
Eu encarei sua lápide, a foto sorridente de Júlia, vibrante e cheia de vida, seus olhos brilhando com sonhos. Ela tinha apenas dezesseis anos. Dezesseis. Ela queria viajar pelo mundo, cantar, dançar como sua irmã mais velha. Agora, ela se foi. Vítima das circunstâncias. Não. Vítima de traição.
"Sinto muito, minha pequena," sussurrei, minha voz rouca, crua de lágrimas não derramadas. "Eu tentei. Eu realmente tentei."
A capelã do hospital, uma mulher de rosto gentil com olhos tristes, aproximou-se de mim com cautela. "Helena," ela disse suavemente, sua voz cheia de compreensão gentil. "Eu só queria dizer o quanto sinto muito por sua perda. Fizemos tudo o que podíamos."
Ofereci uma risada amarga e sem humor. "Fizeram? Fizeram mesmo, padre? Ou apenas seguiram ordens?"
Seu olhar vacilou, um lampejo de desconforto cruzando seu rosto. "Às vezes," ela começou, depois parou, suas palavras presas na garganta. Ela simplesmente balançou a cabeça e se afastou, deixando-me sozinha com meus fantasmas.
O céu acima espelhava minha alma, uma tela pesada e cinzenta que ameaçava chuva. Uma rajada de vento frio bagunçou meu cabelo, trazendo consigo o cheiro de terra úmida e folhas morrendo. Alcancei o bolso do meu casaco, meus dedos se fechando em torno do pequeno pássaro de madeira primorosamente esculpido que Júlia me dera anos atrás. Era seu amuleto da sorte, ela dissera. Seu coração.
"Helena, você é a melhor irmã mais velha do mundo inteiro," a voz de Júlia, brilhante e clara, ecoou em minha memória. Estávamos sentadas perto da janela, observando a chuva, anos atrás. Ela tinha acabado de me ver chorar após um treino de balé particularmente exaustivo, minha prótese doendo. "Não se preocupe, você vai encontrar alguém que te veja, toda você, não apenas sua perna. Alguém que te ame completamente."
"Você acha, Juju?" eu havia perguntado, cética, enxugando minhas lágrimas.
Ela assentiu enfaticamente, seus olhos sérios. "Eu sei que sim. E quando você o encontrar, ele será o homem mais sortudo do mundo. Você merece toda a felicidade."
Suas palavras, antes um bálsamo reconfortante, agora pareciam uma ironia cruel. Eu acreditei nela. Acreditei que encontrei essa pessoa em Ricardo. Acreditei que meu amor, embora imperfeito, era verdadeiro. Acreditei que merecia a felicidade. E veja onde isso nos levou.
Apertei o pássaro de madeira na mão, as bordas afiadas cravando em minha palma. A chuva começou a cair, suave no início, depois mais forte, misturando-se com as lágrimas frescas que escorriam pelo meu rosto. Meu amor por Ricardo levara à morte de Júlia. Minha confiança nele custara tudo.
Limpei o rosto com as costas da mão, uma determinação fria e dura se instalando em meu coração. As lágrimas acabaram. O luto, embora sempre fizesse parte de mim, não me paralisaria mais. Ricardo havia tirado tudo, mas não levaria meu espírito. Ele não levaria minha vontade de lutar. Eu me divorciaria dele. Cortaria todos os laços. Ele fizera sua escolha. Agora, eu faria a minha. Ele não era meu marido. Ele era o assassino de Júlia. E ele pagaria.