Meu noivo e minha irmã adotiva me incriminaram por incendiar nossa casa de praia em Angra dos Reis. Eles me declararam louca e usaram uma procuração falsificada para me trancar em uma clínica particular por quatro anos.
Enquanto eu era drogada, torturada e sistematicamente destruída, eles roubaram minha empresa, minha reputação e minha vida.
Quando finalmente fui liberada, eles estavam diante de mim, esbanjando a riqueza que haviam roubado. Karina, minha irmã, usava até o anel de noivado da minha mãe, um troféu cintilante em seu dedo.
Eles viram uma casca vazia e dócil, não a mulher que passou cada momento acordada planejando meticulosamente a ruína deles. Eles pensaram que tinham apagado o fogo.
Em uma festa para celebrar a vitória deles, Karina ergueu uma coleira de cachorro cravejada de strass barato.
"Use isto", ela sussurrou, "e você pode ter o relógio da sua mãe de volta."
Eu caí de joelhos e lati. Eles pensaram que era minha humilhação final e esmagadora; foi o começo do fim deles.
Capítulo 1
Os gritos do meu noivo foram o som mais doce que eu já ouvi enquanto a casa de praia em Angra explodia atrás de mim, pintando o céu noturno com um brilho laranja brutal.
O calor lambia minhas costas, mas parecia uma carícia comparado ao gelo em minhas veias. Eduardo Medeiros cambaleou para a areia, seu terno caro chamuscado, seu rosto contorcido em uma máscara de incredulidade e dor. Karina Klein, minha irmã adotiva, estava logo atrás dele, seu vestido de grife rasgado, seu cabelo loiro perfeito soltando fumaça nas pontas. Eles pareciam criaturas de um pesadelo e, pela primeira vez em anos, eu me senti desperta.
Os convidados, que antes riam e brindavam com taças de champanhe, eram uma dispersão frenética de sombras contra o inferno. Seus gritos se misturavam ao rugido do fogo, uma sinfonia de caos que combinava perfeitamente com meu humor. Eduardo olhou para mim, seus olhos arregalados com um terror que era quase cômico.
"Cris! O que você fez?", ele gritou, sua voz rouca.
Eu o observei, minha respiração saindo em golfadas curtas e regulares. O ar salgado encheu meus pulmões, carregando o cheiro de madeira queimada e arrependimento. Eu o amei. Eu dei tudo a ele.
"O que eu tinha que fazer", eu disse, minha voz mal um sussurro, mas que cortou o barulho.
Ele deu um passo em minha direção, depois outro, suas mãos se estendendo como se para me agarrar. Seu rosto era uma confusão distorcida, o medo lutando com a raiva.
"Você está louca! Você queimou tudo!", ele acusou, apontando um dedo trêmulo para o fogo violento. As chamas iluminavam seu pânico, tornando suas feições bonitas em algo feio.
Karina finalmente encontrou sua voz, um som agudo e penetrante que me irritou os nervos. "Ela está doente, Duda! Ela precisa de ajuda! Sempre precisou!" Suas palavras estavam carregadas de uma falsa preocupação que reconheci imediatamente. Era o mesmo tom que ela usava quando queria algo para si mesma, envolto em uma camada açucarada de falsa simpatia.
Meus olhos se estreitaram, o calor do fogo fazendo pouco para aquecer a frieza que se instalara profundamente dentro de mim. Meu coração martelava, não de medo, mas de uma sensação feroz e emocionante de libertação. Esta era a abertura que eu precisava. Este era o começo do fim deles.
Eduardo, sempre o manipulador, já estava mudando de marcha, seu medo rapidamente substituído por uma raiva calculada. "Ela está instável! Um perigo para si mesma e para os outros!", ele gritou, virando-se para os convidados horrorizados, alguns dos quais estavam pegando seus celulares, prontos para gravar o espetáculo. "Ela teve um surto! Um episódio psicótico completo!"
As sirenes de emergência começaram a soar à distância, uma trilha sonora adequada para a destruição. Eduardo viu sua oportunidade, seus olhos brilhando com uma luz familiar e predatória. Ele gesticulou descontroladamente para a mansão em chamas, depois de volta para mim, a imagem de um noivo perturbado tentando proteger a sociedade de sua noiva desequilibrada.
"Eu tentei ajudá-la! Tentei conseguir tratamento para ela!", ele gritou, sua voz quebrando com emoção fingida. "Mas ela se recusou! Agora olhe o que ela fez!"
Meu olhar varreu os rostos na multidão. Incredulidade, medo, pena. Nenhum deles, nem um único, viu a verdade. Eles só viram a filha do Grupo Novaes, cercada por chamas, parecendo completamente descontrolada. Eu os deixei. Era tudo parte do plano.
Quando os paramédicos e a polícia chegaram, Eduardo já estava lá, interpretando a vítima enlutada. Ele segurava Karina perto, sussurrando freneticamente em seu ouvido. Ela assentiu, seus olhos arregalados e marejados, uma imagem perfeita de choque inocente.
"Ela tem lutado há muito tempo", disse Eduardo aos policiais, sua voz pingando de tristeza. "Trauma profundo. Meu coração se parte por ela, de verdade. Mas ela precisa de ajuda profissional. Cuidado imediato e intensivo."
Ele tirou uma pilha de papéis do bolso interno, milagrosamente intocados pelo fogo. "Eu tenho a procuração. Ela assinou, logo antes de... antes das coisas piorarem de verdade. Ela confiou em mim para fazer o que era melhor para ela."
Ele passou os documentos para o policial perplexo, que olhou para eles, depois para mim. Meu nome, Cristina Novaes, estava claramente visível nos papéis. O policial olhou de volta para Eduardo, depois para meu rosto inexpressivo. Eu não ofereci resistência, nenhuma explicação. Apenas um olhar vago.
Eles me escoltaram para longe, não com algemas, mas com um aperto gentil e firme em meus braços, como uma criança sendo levada para o castigo. O mundo se turvou ao meu redor, as luzes piscantes dos veículos de emergência, os sussurros abafados dos espectadores, o olhar pesaroso de Eduardo. Era uma performance, e eu estava desempenhando meu papel perfeitamente.
Meu "tratamento" começou quase imediatamente. A clínica de "bem-estar" era uma instituição particular, escondida no meio da mata, longe de olhares curiosos. Eles a chamavam de santuário, um lugar de cura. Era uma prisão. Uma gaiola dourada onde eles sistematicamente arrancaram tudo o que me fazia ser Cristina Novaes.
Os primeiros meses foram uma névoa de sedativos, sessões de terapia forçadas e um ataque implacável à minha mente. Eles me disseram que eu estava quebrada, que minhas memórias eram delírios, que minha raiva era um sintoma da minha doença. Eles tentaram reescrever meu passado, me fazer acreditar que Eduardo e Karina eram meus salvadores, não meus algozes.
Mas no fundo, uma brasa minúscula e inflexível ainda brilhava. Era a memória da traição deles, dos olhos frios de Eduardo quando ele me disse que nunca me amou, do sorriso de Karina quando ela confessou ter roubado tudo o que eu mais prezava. Essa brasa era a minha verdade, e queimava mais forte a cada humilhação, a cada mentira.
Quatro anos. Quatro anos de silêncio, de sorrisos forçados, de aprender a interpretar o papel da paciente obediente. Quatro anos de planejamento. Quatro anos aprimorando o monstro que eles pensavam estar criando.
Quando o dia da minha alta finalmente chegou, eu saí como um fantasma do meu antigo eu. Minhas roupas pendiam frouxas em meu corpo, minha pele estava pálida e meus olhos, antes brilhantes de ambição e alegria, agora estavam opacos, desprovidos de qualquer emoção discernível. Eu parecia dócil, quebrada. Exatamente o que eles queriam ver.
Eduardo e Karina estavam me esperando, seus rostos cuidadosamente compostos em expressões de alívio e ternura. Eles estavam ao lado de um sedã preto elegante, um emblema da vida que haviam roubado de mim. Eduardo, parecendo ainda mais polido e arrogante do que eu me lembrava. Karina, irradiando uma satisfação presunçosa que mal se preocupava em esconder.
"Cris, querida", disse Eduardo, dando um passo à frente, com os braços abertos. Suas palavras eram uma melodia enjoativamente doce de engano. "Estamos tão felizes que você voltou. Sentimos sua falta."
Ofereci a ele um sorriso pequeno e vago, um gesto aperfeiçoado de uma mulher despojada de sua vontade. Não retribuí seu abraço, apenas fiquei ali, deixando-o dar tapinhas desajeitados em meu ombro.
Karina interveio então, seu braço entrelaçado no dele, seu olhar varrendo-me com um ar possessivo. "Faz tanto tempo, mana", ela sussurrou, sua voz sacarina. "Estávamos tão preocupados com você."
Seus olhos piscaram para a minha mão, depois de volta para o meu rosto, um brilho triunfante neles. Em seu dedo anelar esquerdo, brilhando como uma estrela roubada, estava meu anel de noivado. Aquele que Eduardo me dera, aquele que fora passado por gerações de mulheres Novaes. Ela o usava como um troféu.
"Você parece muito melhor, Cris", continuou Karina, um leve sorriso de conhecimento brincando em seus lábios. "A clínica realmente fez maravilhas. Lembra de todos aqueles... surtos que você costumava ter? Toda aquela raiva?" Ela fez uma pausa, deixando a implicação pairar no ar. "Agora você está tão calma. Tão... controlável."
Meu olhar permaneceu fixo no anel, depois lentamente se ergueu para encontrar os olhos de Karina. Eu vi o triunfo, a vanglória, a certeza de sua vitória. Ela pensou que tinha vencido. Ambos pensaram. Eles pensaram que tinham apagado o fogo que haviam iniciado.
Olhei para Eduardo, depois para Karina, uma promessa silenciosa se formando nas profundezas da minha mente. Eles haviam levado tudo. Minha empresa, minha reputação, minha sanidade. Eles me retalharam e me deixaram para morrer. Mas eles se esqueceram de uma coisa. Uma fênix não morre nas chamas. Ela renasce delas.
Meu silêncio se estendeu, um vazio cuidadosamente construído que eles confundiram com submissão. Por dentro, uma tempestade se formava, fria e precisa. Cada insulto, cada hora de medicação forçada, cada lágrima que não pude derramar, havia sido meticulosamente catalogada, cada uma um combustível para o inferno que eu estava prestes a desencadear.
Eles queriam uma mulher quebrada. Eles tinham uma. Uma mulher quebrada com um plano tão intrincado, tão brutal, que faria a traição deles parecer uma brincadeira de criança. Este não era o fim do meu sofrimento; era o começo do deles. E eu, Cristina Novaes, estava pronta para conduzir a sinfonia de sua ruína.
"Eu só quero ir para casa", eu disse, minha voz suave, quase infantil. Era uma mentira. Eu queria ver o mundo deles queimar. E eu veria.
A viagem da clínica para o que costumava ser minha casa foi uma jornada lenta por uma paisagem de preocupação fabricada. Eduardo, sempre o showman, providenciou um sedã pequeno e surrado para me buscar. Era um contraste gritante com o elegante carro de luxo preto em que ele e Karina haviam chegado, que agora acelerava à nossa frente, deixando um rastro de fumaça e poeira.
"Achamos que seria melhor se você voltasse às coisas aos poucos, Cris", a voz de Karina, um xarope enjoativamente doce, flutuou da janela aberta do carro antes que ele se afastasse. "Muito luxo pode ser avassalador depois de... bem, você sabe." Ela piscou, um gesto que provavelmente achou conspiratório, mas que eu sabia ser pura malícia.
Observei o carro deles se afastando, um nó frio e duro se formando em meu estômago. A humilhação foi deliberada, uma mensagem clara: você não é nada agora.
O sedã fedia a cigarros velhos e a um desodorizador de ambiente fraco e enjoativo. Os assentos estavam rasgados, expondo espuma amarelada. Era um insulto deliberado, um símbolo do meu status reduzido. Eles queriam que eu sentisse cada centímetro disso. Encostei a cabeça na janela suja, deixando o mundo se turvar. Minha mente, no entanto, estava afiada como uma navalha. Quatro anos me ensinaram a suportar coisas muito piores do que um carro fedorento. Eles me ensinaram a transformar minha dor em arma.
Meus olhos seguiram o caminho do carro de luxo deles, um predador reluzente desaparecendo na colina. Eles provavelmente já estavam comemorando, brindando à sua esperteza, à sua vitória final. Eles não sabiam que o jogo tinha apenas começado.
O motorista, um homem corpulento com um pescoço grosso e uma verruga suspeita, resmungou: "Para onde, senhora?"
Virei-me da janela, desviando o olhar da silhueta desvanecente de sua riqueza. "Apenas siga o carro da frente", eu disse, minha voz plana, sem inflexão. "E uma parada rápida primeiro."
O motorista resmungou algo sobre horários, mas eu apenas o encarei até que ele encontrou meu olhar, e então rapidamente desviou o dele. Ele se mexeu no assento, desconfortável. Bom.
"Preciso de um telefone", afirmei, minha voz calma, quase sem emoção. "Um pré-pago simples. Dinheiro para o plano de minutos. E quando chegarmos em casa, vou precisar que você guarde isso para mim." Peguei um livro de aparência inócua da minha bolsa de lona gasta. Era pesado, suas páginas presas juntas, escondendo um pequeno dispositivo plano.
Os olhos do motorista se arregalaram ligeiramente. Ele claramente esperava uma mulher quebrada e dócil, não alguém fazendo exigências. Ele hesitou, depois deu de ombros, provavelmente imaginando que quatro anos em um hospício significavam que eu era apenas excêntrica. "Claro, senhora. O que você disser." Ele parou em uma loja de conveniência, voltando alguns minutos depois com um celular pré-pago barato.
Peguei o telefone, meus dedos roçando o plástico frio. Esta era minha linha de vida, minha primeira conexão real de volta ao mundo. Parecia surpreendentemente poderoso. Coloquei o livro de volta na bolsa.
"Agora, sobre aquele item", eu disse, meu olhar fixo nele. "Quando chegarmos à casa, quero que você pegue aquele livro e o entregue em um endereço que lhe darei. Discretamente. Sem perguntas. Haverá um bônus substancial por sua discrição."
Ele ainda parecia desconfiado. "O que é isso?"
"É apenas um livro", respondi suavemente, um toque de algo frio em meus olhos. "Mas é valioso. E precisa ir para alguém que se importa com livros." Minhas palavras estavam carregadas de um significado oculto que só eu entendia. O 'livro' continha dados criptografados, uma chave digital.
Ele assentiu lentamente, a promessa de dinheiro extra superando sua suspeita. "Tudo bem, senhora. Entendido."
Continuamos a viagem em silêncio, o cheiro de ar viciado e minha fachada cuidadosamente construída de fragilidade preenchendo o espaço. Mas por dentro, eu já estava me movendo, já planejando. Minhas mãos, escondidas no meu colo, se apertavam com força, os nós dos dedos brancos.
Depois do que pareceu uma eternidade, paramos nos portões da propriedade Novaes. O carro de luxo já estava estacionado, brilhando sob o sol do final da tarde. Eduardo e Karina estavam na varanda, esperando, suas silhuetas emolduradas pela grandiosidade da casa que um dia chamei de lar.
"Pode me deixar aqui", eu disse ao motorista, entregando-lhe uma nota nítida de duzentos reais, muito mais do que a corrida. "O endereço para o livro será enviado por mensagem de texto em breve. E lembre-se da parte da discrição." Meus olhos o encararam, um aviso silencioso.
Ele assentiu, guardando o dinheiro rapidamente. "Entendido, senhora."
Saí do carro malcheiroso, o cascalho rangendo sob meus sapatos gastos. O contraste entre minha aparência surrada e o ambiente opulento era gritante, uma humilhação calculada para me lembrar de onde eu estava. Mas eles haviam calculado mal. Isso não era um lembrete da minha perda; era um testemunho da minha sobrevivência.
Enquanto o sedã se afastava, senti o celular pré-pago vibrar no meu bolso. Uma mensagem. Era Dante.
"Situação. Onde você está?"
Parei, deixando o vento brincar com os poucos fios de cabelo que escaparam do meu coque apressado. Meus olhos varreram a mansão, depois pousaram em Eduardo e Karina, ainda me observando da varanda. Eles pareciam abutres, esperando pacientemente por sua presa.
Digitei uma resposta rápida, meus dedos surpreendentemente firmes.
"Acabei de chegar. O show vai começar."
Um momento depois, sua resposta veio.
"Quando?"
Olhei para o sol poente, depois de volta para a casa, um sorriso sombrio brincando em meus lábios.
"Quando a lua estiver alta. Esta noite, eles se lembrarão do que roubaram."
Eu sabia que Dante entendia. Ele sempre entendia. Foi ele quem viu através da minha fachada quebrada na instituição, quem reconheceu o fogo sob as cinzas. Foi ele quem me ajudou a forjar este novo eu, esta arma. Juntos, planejamos meticulosamente cada passo desta vingança.
Eles pensaram que me transformaram em uma boneca obediente. Eles pensaram que extinguiram meu espírito. Mas eles apenas me deram tempo. Tempo para curar, tempo para aprender, tempo para planejar. Eles me deram uma nova vida, construída sobre uma base de pura e inalterada fúria. E agora, eles pagariam por cada momento dela.
Caminhei em direção à casa, com a cabeça erguida, meu rosto uma máscara de resignação cansada. Este era o meu palco. E esta noite, eu os faria desejar que tivessem me deixado queimar.
As grandes portas duplas da propriedade Novaes se erguiam diante de mim, polidas até um brilho espelhado, refletindo as brasas moribundas do pôr do sol. Este não era mais meu lar; era um museu de grandeza roubada, um monumento ao engano deles. Eu as empurrei, a madeira pesada gemendo em protesto, um som que ecoava a dor em meu peito.
Uma agitação de funcionários, vestidos com uniformes impecáveis, passou apressada, seus rostos uma mistura de curiosidade e desdém. Seus olhares demoraram em minhas roupas gastas, minha pele pálida. Antes, eles teriam corrido para me cumprimentar, para oferecer ajuda. Agora, eles me tratavam como um fantasma, um espectro indesejado assombrando as vidas luxuosas de seus novos empregadores. Uma jovem empregada, não mais velha do que eu quando herdei a casa, esbarrou em mim e murmurou um "Olha por onde anda" sem um pingo de reconhecimento. O desprezo deles era palpável, uma humilhação sutil cuidadosamente orquestrada por Eduardo e Karina.
Eduardo me encontrou no hall de entrada cavernoso, seu sorriso largo, mas artificial. Karina estava ao lado dele, o braço entrelaçado no dele, uma postura de posse presunçosa. "Cris, você conseguiu!", exclamou Eduardo, sua voz muito alta, muito alegre. Ele gesticulou vagamente para o ambiente opulento. "Bem-vinda de volta. Ou, sabe, a um lar. Seu novo lar."
Karina interveio: "Achamos que você gostaria de um lugar tranquilo, mana. Um lugar onde você possa, sabe, se recuperar sem muito alarde." Seus olhos brilhavam com falsa preocupação. "Colocamos você na casa de hóspedes. É pitoresca, privada. Perfeita para você agora."
A casa de hóspedes. Era uma relíquia dilapidada no extremo da propriedade, mal usada mesmo quando eu era criança. Um lugar para coisas esquecidas. Outra farpa deliberada. Giovanna Matarazzo, a sombra de Karina, emergiu da sala de estar, uma taça de champanhe na mão. Ela usava um sorriso que combinava perfeitamente com o de Karina.
"É como a Ka disse", Giovanna arrastou as palavras, sua voz pingando de falsa doçura. "Você realmente precisa de um ambiente calmo. Lembra como você era, Cris? Tão... intensa." Ela enfatizou a palavra, fazendo-a soar como uma doença mental.
Eduardo deu um passo à frente, pegando meu braço, um gesto que pareceu possessivo e condescendente. "Estamos fazendo isso para o seu próprio bem, Cris. Depois de... Angra. Só queremos que você esteja segura. E bem." Ele apertou meu braço, seus dedos cravando em minha carne. "Sabe, os médicos disseram que você ainda tem alguns problemas de raiva para resolver. Estamos aqui para ajudar."
Assenti lentamente, meu rosto inexpressivo, meus olhos vagos. "Eu entendo", sussurrei, minha voz quase inaudível. "Obrigada, Duda. Ka. Gio." Minha submissão pareceu agradá-los. O aperto de Eduardo em meu braço afrouxou ligeiramente, um sorriso satisfeito brincando em seus lábios. Karina apertou o braço dele triunfantemente.
"Boa menina", disse Karina, dando um tapinha no meu ombro, como se eu fosse um animal de estimação. "Agora, por que você não vai se instalar? Teremos uma pequena reunião mais tarde, nada muito cansativo, mas você pode se juntar a nós se se sentir à vontade." Seus olhos me desafiaram a recusar.
Afastei-me, meus movimentos lentos e deliberados. "Vou tentar", murmurei, meu olhar fixo no chão. Virei-me para sair, mas Eduardo parou na minha frente, bloqueando meu caminho.
"Espere", ele disse, sua voz caindo para um tom baixo e íntimo. Ele estendeu a mão, seus dedos traçando a linha da minha mandíbula, depois descendo para o meu pescoço. Um arrepio percorreu meu corpo, mas mantive meu rosto impassível. Seu toque era uma violação, um lembrete do que ele um dia fingiu sentir. Ele se inclinou mais perto, seu hálito quente contra minha orelha. "Podemos fazer as coisas funcionarem, Cris. Você e eu. Talvez não como eram, mas... uma parceria. Você ainda é bonita, do seu jeito."
Seus olhos me percorreram, um brilho de algo sombrio e transacional em suas profundezas. Ele tentou me puxar para mais perto, sua mão deslizando pelas minhas costas. Foi quando seus dedos roçaram o tecido cicatricial fresco e irregular que cruzava minha omoplata, uma lembrança da "terapia" na clínica.
Sua mão recuou como se estivesse queimada. O brilho de desejo desapareceu, substituído por uma expressão de pura repulsa. Seu rosto empalideceu e ele visivelmente estremeceu. "O que... o que é isso?", ele engasgou, sua voz carregada de nojo.
Permaneci em silêncio, meus olhos ainda distantes, mas uma pequena centelha de triunfo se acendeu dentro de mim. Ele estava enojado. Bom. Seu narcisismo não tolerava a imperfeição.
Karina, notando sua súbita retirada, deu um passo à frente, a testa franzida de curiosidade. "O que há de errado, Duda?"
Ele balançou a cabeça, desviando o olhar de mim, o rosto ainda pálido. "Não é nada. Apenas... a internação. Eles tentaram muitos tratamentos experimentais. Deixou-a... mudada." Ele estremeceu novamente, depois forçou um sorriso. "Mas ela vai se recuperar. Ela vai ficar bem."
Giovanna, sempre atenta ao drama, chamou da sala de estar. "Duda, querido! Volte, os fornecedores precisam da sua aprovação final para a pasta de trufas!"
Eduardo aproveitou a oportunidade para escapar. Ele me deu um último olhar desdenhoso, depois se virou e praticamente fugiu em direção a Giovanna. "Estou indo, Gio!", ele gritou de volta, sua voz recuperando seu charme praticado.
Eu o vi ir, o fantasma de seu toque ainda pairando em minha pele. Ele costumava me dizer que amava cada centímetro de mim, cada curva, cada sarda. Ele costumava traçar padrões em minha pele nua, sussurrando promessas de eternidade. Mentiras. Tudo. Ele sempre se sentiu repelido por qualquer coisa menos que perfeita, qualquer coisa quebrada, qualquer coisa que mostrasse as cicatrizes de uma luta. Ele só não tinha visto minhas cicatrizes ainda.
A dor daquela memória, tão vívida e fresca, ameaçou me sobrecarregar. Mas eu a empurrei para o fundo, para o poço da minha determinação. Eduardo e Karina jogaram um jogo perigoso, que me custou quatro anos da minha vida, o legado da minha família e quase minha alma. Eles esculpiram essas cicatrizes em minha carne e em meu espírito. Eles pensaram que me quebraram. Estavam errados. Eles apenas me afiaram.
Peguei o celular pré-pago.
"Mudança de planos. Amplificar a fase um. Alvo no Eduardo primeiro. Esta noite."
O telefone vibrou quase instantaneamente.
"Entendido. Detalhes?"
"Humilhação. Pública. Tudo o que ele valoriza. Quero que o mundo o veja como ele é. E então, quero que ele sinta o que eu senti."
Ouvi a risada estridente de Karina da sala de estar, seguida pela risada profunda de Eduardo. Eles pareciam tão felizes, tão seguros em suas vidas roubadas.
"Considere feito", dizia a mensagem de Dante. "Algo mais, minha rainha?"
Meus dedos pairaram sobre a tela. Fechei os olhos, imaginando o rosto de Eduardo, contorcido de nojo. Depois o de Karina, presunçoso e triunfante.
"Sim", digitei. "Certifique-se de que todos saibam que fui eu. Deixe-os ver o monstro que criaram."
Guardei o telefone, uma calma fria e predatória se instalando sobre mim. Eles queriam um show? Eu lhes daria um. E esta noite, a cortina se abriria para a queda deles.