Para escapar do legado trágico da minha mãe famosa, escondi minha identidade e me tornei uma estudante de cinema comum e esquecível. Me apaixonei perdidamente por Heitor McCall, o playboy da faculdade, acreditando que nosso amor era real.
Mas ele estava apenas me usando. Eu era um escudo humano, uma isca para proteger o verdadeiro objeto de seu afeto: a frágil "it-girl" do campus, Karina.
Ele permitiu que me intimidassem e me sequestrassem. Ele roubou meu filme de conclusão de curso - um tributo à memória da minha mãe - e o deu para Karina reivindicar como seu. Quando tentei lutar, ele destruiu meu trabalho, meu passado, tudo.
Na formatura, minha ex-colega de quarto projetou um vídeo para todo o auditório, me rotulando como uma garota de programa de luxo que dormia com homens poderosos.
"Ela é uma vergonha!", ela gritou, enquanto a multidão se voltava contra mim.
Caminhei calmamente até o pódio, minha voz cortando o barulho. "Você está acusando uma Zamora de ser interesseira?"
Deixei o nome pairar no ar antes de desferir o golpe final. "Eu não subo a escada. Eu sou a escada."
Capítulo 1
Ponto de Vista de Elara Zamora:
Ele me usou como um escudo, e eu fui cega demais para ver. Esse pensamento me atravessou, uma dor que me rasgava por dentro. Era um eco doloroso da própria tragédia da minha mãe. Sua beleza, sua fama, tornaram-se sua ruína. A atenção implacável da mídia, um perseguidor que assombrava cada movimento seu, tudo isso estilhaçou sua mente antes de roubar sua vida. Jurei que nunca deixaria isso acontecer comigo.
Fiz dezoito anos e desapareci. O império de mídia da minha família não significava nada para mim naquela época. Usei maquiagem, uma máscara cuidadosa, para apagar minhas feições, para borrar minhas bordas. Tornei-me esquecível. Apenas mais uma estudante de cinema na USP, anônima e segura. Por dois anos, funcionou. Dois anos de paz.
Então veio a noite no barzinho. Minha colega de quarto, Joelma, estava rindo alto demais. Alguns caras, agressivos demais, a encurralaram. O instinto tomou conta. Eu me meti, uma garota comum com uma voz feroz. Eles me empurraram, com força. Cambaleei para trás, perdi o equilíbrio.
Caí em braços fortes. Olhei para cima. Heitor McCall. Ele era um turbilhão de cabelos escuros e olhos penetrantes, o tipo de beleza que roubava o fôlego. Ele olhou para mim, um brilho de algo desconhecido em seu olhar. Ele murmurou meu nome, apenas um sopro. Eu congelei. Ele sabia?
Ele não sabia. Não de verdade.
Ele se colocou entre nós e os homens agressivos. Sua voz era baixa, letal. Os homens empalideceram, recuando. Eles sabiam quem ele era e se dispersaram. Heitor McCall, o notório playboy, herdeiro de uma fortuna recente sobre a qual todos falavam, mas ninguém entendia. Sua imprudência era lendária. Assim como seu charme. E sua fila interminável de fãs apaixonadas.
Eu senti, uma atração, uma faísca perigosa. Eu odiei. Odiei sentir qualquer coisa que me tornasse visível. Mas ele estava lá, uma âncora repentina. Eu sabia que estava caindo.
Tentei chamar sua atenção. Bilhetinhos, um café favorito, um livro que achei que ele gostaria. Minhas tentativas eram desajeitadas, um contraste gritante com o glamour sem esforço das garotas que geralmente o cercavam. Seus amigos riam de mim. Me xingavam.
Então, um dia, ele pegou o café. Ele olhou para mim, um leve sorriso nos lábios. "Puro", ele disse, "sempre puro". Meu coração martelou. Ele falou comigo, flertou, às vezes. Eu estava perdida. Eu o amava. Parecia tão puro, tão real.
Finalmente reuni toda a minha coragem. "Eu... eu gosto de você, Heitor." As palavras foram um sussurro. Eu esperava uma risada, uma dispensa. Ele era Heitor McCall. Eu não era ninguém.
Seus olhos encontraram os meus. "Ok", ele disse. Apenas "Ok". Então ele acrescentou: "Mas você tem que aceitar o pacote completo. Tudo que vem comigo." Eu estava tão feliz, tão tola. Eu não me importava com o que era o "pacote". Eu só o queria.
"Sim", eu disse, sem pensar duas vezes. Prometi a ele tudo. Prometi a ele a mim mesma.
O "pacote" chegou rápido. O bullying começou. Ameaças anônimas, mensagens de ódio. Eu era a garota sem graça, aquela que não pertencia. Eu aguentei, por ele. Pensei que era apenas o preço de amar alguém como Heitor. Então veio o sequestro. Foi aterrorizante. Fiquei machucada, abalada. Heitor me encontrou. Ele me abraçou, sussurrou palavras de conforto. Em seus braços, a dor desapareceu. Parecia um pequeno preço a pagar por seu amor.
Então eu o vi. Não comigo. Com ela. Karina Barros. A "it-girl" do campus. Ela parecia frágil, seus olhos arregalados de medo. Heitor era um homem diferente com ela. Sua raiva, sua proteção, era crua, furiosa. Tentei falar com ele, perguntar o que estava acontecendo. Ele passou por mim como se eu não estivesse lá.
Encontrei um dos ex-amigos de Heitor, um cara que parecia abatido. Ele me contou a verdade. Karina já havia sido atacada antes. Heitor se sentia responsável. Ele me usou. Minha aparência comum era um escudo. "Você é só uma isca", o amigo cuspiu, sua voz amarga. "Ele precisava de alguém esquecível para atrair o perigo."
Aquilo me atingiu, frio e duro. Sua condição: "aceitar o pacote completo". Não era sobre amor. Era sobre ela. O fantasma da minha mãe sussurrou em meu ouvido. Eu era uma vítima novamente, mas desta vez, era meu coração que estava partido.
A chuva começou, uma chuva fria de outono. Saí para a chuva, meu rímel escorrendo pelo rosto, lavando a aparência comum cuidadosamente construída. O disfarce se foi. Eu simplesmente não me importava mais. Quando cheguei ao meu dormitório, Heitor estava esperando. Seus olhos se arregalaram, fixando-se no meu rosto. A chuva havia feito seu trabalho. Ele me viu, finalmente.
Ponto de Vista de Elara Zamora:
Heitor ficou parado ali, olhando para o meu rosto, uma carranca confusa franzindo suas sobrancelhas. A chuva havia removido meu disfarce cuidadoso, deixando minhas verdadeiras feições expostas. Eu me senti nua, vulnerável. Ele olhou para as manchas de rímel, as linhas borradas da minha maquiagem desbotada.
"O que é isso?", ele perguntou, a voz áspera. "Algum tipo de... maquiagem dramática?" Ele realmente riu, um som curto e desdenhoso. Foi como uma ferida nova.
Eu queria gritar. Queria contar tudo a ele. Queria que ele me visse, me visse de verdade. Eu já tinha tentado, antes. Lembro-me de uma noite, pensei em mostrar a ele uma foto do meu eu verdadeiro, aquele que o mundo conhecia antes de eu fugir. Mas Karina ligou, uma crise de pânico, e ele saiu correndo, me deixando sozinha com meus planos esquecidos e uma sensação de afundamento.
Ele sempre a escolhia. Sempre.
"Você me ama, Heitor?", perguntei, as palavras quietas e firmes, embora meu interior estivesse tremendo. Era isso. A pergunta final.
Ele pareceu surpreso. Então sorriu, aquele sorriso fácil e charmoso que costumava me derreter. "Claro que me importo com você, Elara", disse ele, como se fosse óbvio. "Você é importante para mim." Importante. Não amada. As palavras pairaram no ar, frias e vazias.
Um arrepio percorreu meu corpo, começando no meu coração e se espalhando até as pontas dos meus dedos. Meu amor, meu amor desesperado e tolo, tinha sido uma ferramenta. Um escudo para sua preciosa Karina. Toda a dor, todo o medo, foi por nada. Eu me senti morta por dentro.
Consegui um sorriso fino e frágil. "Então terminamos." Minha voz estava surpreendentemente forte. "Não posso estar em um relacionamento onde sou apenas 'importante'."
Ele me encarou, o queixo caindo uma fração. "Terminamos? Do que você está falando?"
Eu não respondi. Não olhei para trás. Apenas me virei e fui embora, deixando-o parado na chuva. Assim que fiquei sozinha no meu quarto, as lágrimas finalmente vieram, quentes e furiosas, uma torrente de toda a dor que eu havia guardado.
No dia seguinte, pintei meu rosto de volta ao comum, embora minhas mãos tremessem. Eu tinha que terminar minhas provas. Quando a última acabou, saí do corredor e me deparei com uma comoção estranha. Um grupo de estudantes estava de joelhos. Eram os que me intimidaram por estar com Heitor. Ele estava de pé sobre eles, irradiando poder.
Ele me viu e se aproximou, uma mão possessiva em meu braço. "Eles não vão mais te incomodar", anunciou ele, uma satisfação áspera em sua voz. "Eu os fiz pagar."
Meu sangue gelou. "E por que você fez isso?", perguntei, puxando meu braço. "Você não fez isso antes, quando eles realmente me machucaram."
Ele parecia genuinamente perplexo. "O que você quer dizer?", ele perguntou, como se minha dor fosse um conceito abstrato. Lembrei-me de sua fúria quando Karina estava chateada, sua calma indiferença ao meu próprio sofrimento. Ele só se importava com seu próprio senso de justiça, sua própria necessidade de proteger.
"Você só se importa com você mesmo", eu disse, minha voz monótona.
Seus amigos, que apareceram de repente, começaram a intervir. "Elara, não seja ingrata", um deles zombou. "Heitor acabou de te vingar." Outros estudantes murmuraram em concordância. "Ele é um cara legal, você deveria apreciá-lo."
"Ingrata?" Apertei minhas mãos até que minhas unhas cravassem em minhas palmas. "É porque não sou bonita o suficiente? Não sou rica o suficiente? É por isso que você acha que não mereço um relacionamento igualitário?" Minha voz falhou com a raiva reprimida. "Não vou aceitar um amor que não seja real. Não vou aceitar ser um peão."
Virei-me, pronta para sair, mas ele me alcançou. "Elara, espere!"
Então, uma nova voz cortou o ar. "Heitor! Minha festa começa em breve. Você vem?" Karina. Ela estava lá, linda e frágil, um farol.
Eu parei. Outra cena constrangedora era a última coisa que eu precisava. Talvez ir à festa dela apenas tornasse mais fácil para ele me esquecer. Concordei em ir. Apenas para desaparecer, uma última vez.
Ponto de Vista de Elara Zamora:
A festa pulsava com música e risadas, um borrão de rostos. Sentei-me em um canto, com uma bebida na mão, sentindo-me mais invisível do que nunca. Eles estavam jogando algum jogo bobo. Verdade ou Desafio, eu acho. Minha mente continuava repetindo as palavras de Heitor. Importante. Não amada.
O jogo ficou mais barulhento. Alguém tinha que cumprir um desafio. Um beijo. Um beijo longo e embaraçoso. A multidão começou a gritar nomes. Meu nome. E o de Karina. A escolha coube a Heitor. Ele tinha que escolher. Minha respiração ficou presa.
O rosto de Karina estava pálido. Ela parecia apavorada, seus olhos se movendo de Heitor para mim. O sorriso habitual de Heitor havia desaparecido. Sua expressão era tensa, indecifrável. A sala ficou em silêncio, esperando.
Ele me escolheu.
Uma onda de humilhação me invadiu. A sala explodiu em aplausos, mas parecia uma risada de zombaria. O cara que tinha que me beijar, um atleta barulhento, gemeu. "Eca, sério, Heitor? Ela?" Ele olhou para o meu rosto comum com nojo. "Não vou fazer isso. Prefiro pagar a prenda."
Suas palavras me atingiram como um golpe físico. A vergonha era sufocante. Meu anonimato cuidadosamente construído havia sido rasgado, não pela beleza, mas pelo escárnio. Levantei-me, minha cadeira raspando ruidosamente no chão. Todos os olhos na sala estavam em mim.
Caminhei até o meio da sala, minhas mãos tremendo enquanto eu alcançava a barra do meu vestido. Era uma coisa barata e genérica, como tudo que eu usava para me esconder. Eu o rasguei, o tecido se partindo com um som agudo que cortou o silêncio. Continuei rasgando, desfiando-o até que não fosse nada além de trapos.
"Estou indo embora", eu disse, minha voz mortalmente calma. Meu peito parecia oco.
Heitor estava de repente ali, agarrando meu braço, seu rosto uma máscara de confusão. "O que foi isso, Elara? O que você está fazendo?"
"O que parece?", puxei meu braço. "Você fez sua escolha, Heitor. Você a protegeu. Você me usou. De novo."
"Eu fiz isso por Karina", ele insistiu, a voz tensa. "Ela estava tendo uma crise. Eu não podia submetê-la a isso. Era só um jogo."
"Um jogo?" Minha risada foi áspera. "É isso que eu sou para você? Um jogo? Uma peça descartável na sua pequena farsa?" Fiz uma pausa, forçando-me a olhá-lo nos olhos. "Se fosse Karina e outra garota, você ainda teria escolhido Karina para ser humilhada?"
Ele não respondeu. Seu silêncio foi a confissão mais alta. Ele a teria protegido, sempre. Ele teria sacrificado qualquer um, qualquer coisa, para mantê-la segura. Eu não era nada. Um pensamento fugaz, uma isca conveniente.
Uma certeza fria se instalou em meu coração. Ele não me via. Ele nunca tinha visto. Ele nunca veria. Eu tinha acabado. Completamente.
Arranquei meu braço e comecei a caminhar em direção à porta.
"Elara, se você sair por aquela porta, terminamos!" Sua voz era um grito desesperado atrás de mim.
Parei, apenas por um segundo. Um sorriso amargo tocou meus lábios. "A gente terminou no momento em que você disse 'importante' em vez de 'amor', Heitor", eu disse, sem me virar. Minha voz era quase um sussurro, mas estava cheia de finalidade.
Saí, sem olhar para trás. Ouvi-o chamar meu nome novamente, mas ele não me seguiu.
O ar da noite estava frio contra meu rosto manchado de lágrimas. Encontrei um parque tranquilo, as luzes da rua projetando longas sombras. Olhei para o meu reflexo em uma poça escura. O rosto comum me encarou de volta, um lembrete fantasmagórico da máscara que eu usava.
Os gritos da minha mãe ecoaram em minha mente. Os flashes das câmeras, os sussurros, o terror em seus olhos. Foi a minha beleza que a condenou. Minha beleza que quase me condenou. É por isso que me escondi. É por isso que fugi. Pensei que se eu me apagasse, poderia estar segura, poderia encontrar uma conexão real.
Mas mesmo escondida, mesmo comum, eu ainda era invisível para a única pessoa que eu desesperadamente queria que me visse. Era uma piada cruel. Esconder-se não protegeu meu coração. Apenas tornou mais fácil para ele quebrá-lo.
As lágrimas vieram novamente, soluços longos e convulsivos. Peguei meu celular, meus dedos tremendo enquanto eu rolava pelos meus contatos. Eu precisava da minha família. Eu precisava de casa. "Estou voltando", sussurrei ao telefone. "Eu quero ir para casa."
A formatura estava se aproximando. Eu estava indo embora. O legado da minha família significava que eu não precisava de um emprego. Os outros estudantes fofocavam sobre meu futuro, especulando sobre minhas "perspectivas ruins". Eles não tinham ideia.
Então veio o e-mail. Um prestigioso festival de cinema. Meu filme de conclusão de curso foi aceito. Meu documentário sobre minha mãe, meu tributo silencioso e pessoal. Um lampejo de orgulho, depois pavor. Eu tinha que ir. Eu tinha que ver. Era a história da minha mãe. Era a minha história.
No festival, eu a vi. Karina Barros. No palco. Aceitando um prêmio. Pelo meu filme.