Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > A Trégua Dos Nossos Corações
A Trégua Dos Nossos Corações

A Trégua Dos Nossos Corações

Autor:: schaanafockink
Gênero: Romance
Duas jovens advogadas, Charlotte Blake e Isabella Fairchild, são estrelas ascendentes em um dos mais prestigiados escritórios de advocacia de Nova York - brilhantes, determinadas e absolutamente incompatíveis. Quando são designadas para liderar juntas um dos casos mais estratégicos da firma, o que era apenas antipatia vira uma batalha silenciosa, marcada por sarcasmos precisos, disputas de ego e uma tensão que ninguém mais ousa comentar... mas todos percebem.

Capítulo 1 1

Charlotte Blake sabia exatamente duas coisas sobre Isabella Fairchild: que ela era irritantemente perfeita e que provavelmente dormia com o Código Civil debaixo do travesseiro. Era a única explicação plausível para aquela expressão de serenidade meticulosamente ensaiada - como se nada neste mundo pudesse arranhar o verniz impecável de seu batom nude.

Charlie a observava do outro lado da sala de reuniões, fingindo conferir um contrato enquanto na verdade calculava quantas formas existiam de não esganar alguém em plena manhã de segunda-feira.

O escritório ficava no trigésimo andar de um arranha-céu em Midtown, todo com paredes de vidro e linhas minimalistas. Ali, os sorrisos eram tão afiados quanto os sapatos italianos, e qualquer demonstração de fraqueza era assunto para boatos antes do primeiro café.

- Você vai ficar encarando a Fairchild ou vai finalmente admitir que ela te intimida? - Maya, a analista de compliance, surgiu ao lado dela com uma xícara de chá fumegante.

- Intimidar? - Charlie ergueu uma sobrancelha, sarcástica. - Só acho fascinante como uma pessoa pode ser tão... contida. Quase como um robô britânico programado pra me irritar.

- Ou pra te vencer - provocou Maya, sorrindo como quem sabe demais.

Charlie revirou os olhos e voltou a fingir atenção nos papéis. Mas por dentro, o sangue pulsava de frustração. Desde que chegara à firma dois anos antes, ninguém conseguira abalá-la. Até Isabella Fairchild surgir com seus tailleurs elegantes e sua voz baixa que soava como uma acusação disfarçada de polidez.

Do outro lado da sala, Isabella assinava documentos com movimentos calculados. Cada gesto parecia coreografado: virar a página, deslizar a caneta, erguer o queixo milimetricamente. Não havia nada espontâneo naquela mulher. Era como se tivesse nascido para comandar salas assim - e, claro, fazer Charlotte parecer a australiana destemperada que todos imaginavam.

Quando o sócio Ethan Ramirez entrou, a conversa cessou como se alguém tivesse apertado o botão de mudo. Ele lançou um olhar de expectativa para os presentes e pigarreou.

- Bom dia. Sei que todos estão ansiosos pelos desdobramentos do caso Davenport. Antes disso, alguns ajustes de equipe.

Charlie sentiu o estômago contrair. Ajustes de equipe sempre significavam problemas. Ou promoções. Ou ambos.

- Quero que saibam que reconheço o trabalho excepcional de cada um aqui - continuou Ramirez, com aquele tom paternal que só aumentava o suspense. - Mas, em especial, duas associadas têm se destacado de forma notável.

Por um instante, Isabella levantou os olhos e encontrou os de Charlie. Foi só um segundo - mas o suficiente para um silêncio elétrico se instalar entre elas.

Charlie não desviou. Se Isabella queria guerra de olhares, que assim fosse.

- Fairchild e Blake - anunciou Ramirez enfim. - Ambas têm mostrado competência e resultados consistentes.

Charlie ouviu Maya conter um "uau" ao seu lado. Isabella apenas inclinou levemente a cabeça, como se aquilo fosse esperado.

- Dito isso - Ramirez continuou -, ainda não tomamos nenhuma decisão sobre quem vai liderar a próxima fase do caso.

Charlie inspirou fundo, tentando não demonstrar a pontada de decepção.

- Mas fiquem tranquilos - acrescentou o sócio, o sorriso enigmático. - Até lá, sugiro que cada uma continue atuando com o profissionalismo de sempre.

E com isso, a reunião terminou. Tão rápido quanto começara.

Enquanto os colegas dispersavam, Charlie recolheu seus papéis e atravessou a sala, determinada a sair antes que Isabella decidisse despejar algum comentário passivo-agressivo. Mas, claro, o universo não lhe faria tal gentileza.

- Charlotte - chamou Isabella, a voz suave e firme ao mesmo tempo.

Charlie parou, fechando os olhos por um instante antes de se virar.

- Sim?

- Só queria dizer... - Isabella ajeitou a alça da bolsa no ombro, o rosto inexpressivo. - Não importa o que decidam sobre o caso. Eu não estou aqui para fazer amigos.

Charlie arqueou uma sobrancelha.

- Ótimo. Eu também não.

Por um segundo, algo quase parecido com um sorriso surgiu nos lábios de Isabella. Mas foi tão rápido que Charlie pensou ter imaginado.

- Então estamos de acordo - disse Isabella, e saiu.

Charlie ficou olhando a porta se fechar atrás dela, o coração batendo mais rápido do que gostaria de admitir.

Ela odiava Isabella Fairchild.

Odiava o jeito calculado. O tom de voz. O fato de ser tão absurdamente competente.

Mas, principalmente, odiava a parte de si mesma que reconhecia naquela mulher. A parte que também era ambiciosa, impiedosa e solitária.

Suspirou, passando a mão pelo coque que já começava a se desfazer.

Talvez Maya tivesse razão. Talvez Isabella a intimidasse, sim. Mas se havia algo que Charlotte Blake sabia fazer, era transformar intimidação em combustível.

E naquele momento, ela jurou a si mesma que, custasse o que custasse, seria a última a piscar.

Charlie caminhou até seu minúsculo escritório no fim do corredor, onde a janela oferecia uma vista parcial do Chrysler Building - e onde ela guardava um pequeno estoque de barras de proteína e paciência limitada. Largou a pasta sobre a mesa e deixou o corpo cair na cadeira, respirando fundo.

O dia mal tinha começado e ela já sentia aquela familiar pontada de adrenalina que sempre surgia depois de qualquer interação com Isabella. Era irritante. Era previsível. Era quase... estimulante.

Ela se odiava por isso.

Do outro lado da parede, Isabella acomodava seus próprios documentos em pastas etiquetadas. Tudo nela era organizado até a obsessão: prazos, metas, aparências. Quando terminou, olhou ao redor do escritório impecável. Nenhum detalhe fora do lugar. Nenhuma distração.

E mesmo assim, sua mente insistia em vagar para a expressão de Charlotte no momento em que o nome dela fora mencionado por Ramirez. O breve relance de expectativa, seguido pelo esforço mal disfarçado de manter o semblante frio.

Isabella apertou a ponte do nariz, irritada consigo mesma por ter notado aquilo.

Ela não tinha tempo para análises emocionais de colegas. Muito menos de Charlotte Blake.

Mas era impossível ignorar a maneira como aquela mulher parecia feita de tempestade: cabelos sempre prestes a se soltar do coque, a risada que surgia no meio de um argumento feroz, a determinação quase infantil de não demonstrar fraqueza.

Era... exaustivo. E levemente fascinante.

Ela suspirou e abriu o notebook. Na tela, uma lista de compromissos do dia: revisões de contratos, uma teleconferência com o cliente britânico do caso Davenport e uma apresentação interna para os sócios juniores. Tudo sob controle, tudo previsível - exceto a presença constante de Charlotte, pairando na sua rotina como uma ameaça que Isabella não sabia nomear.

Enquanto isso, Charlie forçava o foco em seu próprio monitor. Tinha prometido a si mesma que aquela semana seria produtiva. Que não importava o que Isabella fizesse, ela não permitiria que seus nervos ficassem em frangalhos.

Mas as lembranças da reunião insistiam em retornar: a voz baixa, a postura composta, aquele meio sorriso que parecia saber de algo que ninguém mais sabia.

Droga.

Ela ergueu a caneca de café, agora frio, e se obrigou a dar um gole. Precisava lembrar quem era. De onde viera. Que não chegara ali por acaso.

Na parede atrás de sua mesa, uma pequena fotografia mostrava o mar de Bondi Beach, em Sydney. Quando tudo ficava pesado, ela olhava aquela imagem e lembrava o que a trouxera até Nova York: a ambição pura e simples de provar - primeiro ao pai, depois a si mesma - que era capaz de qualquer coisa.

E nada, nem mesmo Isabella Fairchild, a faria duvidar disso.

No corredor, alguns colegas conversavam em vozes baixas. Charlie captou apenas fragmentos - "as duas juntas", "vai ser um espetáculo", "alguém devia vender ingresso". Ela revirou os olhos e fechou a porta com um clique firme.

Se queriam um espetáculo, teriam.

Só não contassem com ela para fazer o papel de figurante.

De volta ao próprio escritório, Isabella digitava um e-mail de atualização para Ramirez quando a notificação de mensagem interna surgiu no canto da tela. Um convite para a reunião de alinhamento do caso Davenport, agendada para a sexta-feira seguinte.

O assunto era claro: Avaliação de Liderança - Fase Final.

Ela leu a linha duas vezes. Então, devagar, permitiu que o mais leve dos sorrisos surgisse.

Finalmente.

O jogo estava começando.

Capítulo 2 2

Isabella Fairchild não precisava de despertador. Seu corpo já tinha decorado a hora exata em que devia abrir os olhos, inspirar fundo e começar o dia. Cinco e meia da manhã. Ainda escuro lá fora. Ainda silencioso o bastante para que tudo parecesse, por alguns instantes, sob controle.

Levantou-se com um único movimento, prendeu o cabelo num rabo de cavalo alto e vestiu a legging preta que parecia uma armadura. Cada detalhe - da playlist motivacional que já ecoava nos fones de ouvido ao tênis perfeitamente alinhado ao lado da cama - era uma escolha deliberada. Porque disciplina era a única coisa que ninguém podia tirar dela.

Saiu do apartamento e desceu para a rua ainda fria de Manhattan. O ar gelado a recebeu com uma lufada cortante. Isabella fechou o casaco até o pescoço e começou a correr em direção ao East River, onde o sol começava a nascer por trás das pontes. Cada passada era uma forma de exorcizar pensamentos desnecessários. O pai ao telefone dizendo que esperava resultados. A voz de Ethan Ramirez repetindo que "talvez ela precisasse aprender a trabalhar em equipe". E, sobretudo, a imagem irritante de Charlotte Blake - toda opinião, sarcasmo e cabelos desalinhados - atravessando seus pensamentos como uma provocação constante.

Ela acelerou o ritmo, o fôlego ardendo nos pulmões. Não era hora de pensar em Charlotte. Nunca era hora de pensar nela.

Chegando à academia, foi recebida com um sorriso da recepcionista que parecia saber exatamente a rotina que a aguardava.

- Bom dia, Ms. Fairchild. Sala 3 está pronta.

Isabella agradeceu com um leve aceno e entrou no ambiente minimalista, onde as luzes suaves e o cheiro de eucalipto ajudavam a manter a ilusão de tranquilidade. Subiu na esteira, conectou os fones e aumentou o volume da música.

Os primeiros minutos de corrida indoor eram sempre os mais difíceis. Era como arrancar o peso da noite dos ombros. Mas logo, o mundo inteiro se reduzia ao som da respiração e do coração pulsando.

Ela adorava esse intervalo. O espaço entre quem esperavam que ela fosse e quem, de fato, era. Aqui, ninguém a julgava por querer vencer a qualquer custo. Ninguém a cobrava por sorrir ou agradar.

Quando terminou, o relógio marcava 7h45. Tinha exatamente quarenta minutos para tomar banho, trocar de roupa e chegar ao escritório. Isabella recolheu a toalha, inspirou fundo e sentiu o coração acalmar. Pelo menos por agora.

Do outro lado da cidade, Charlotte acordou com o despertador berrando uma música country qualquer que ela mesma escolhera numa noite de tequila e promessas de começar a vida saudável. Esfregou o rosto, tateou o criado-mudo em busca do celular e, por três segundos inteiros, considerou desligar tudo e dormir até terça-feira.

Em vez disso, suspirou e se arrastou até o banheiro. Ao se olhar no espelho, notou que o coque dormira junto com ela, solto em mechas preguiçosas. Parecia apropriado.

No caminho até a cozinha, desviou de uma prancha encostada na parede. A etiqueta ainda presa no bico dizia "Promessa de 2022". Charlie passou a mão sobre a madeira lisa e sentiu aquela pontada de saudade do mar, das manhãs em Bondi Beach, das horas em que a vida parecia mais simples. Aqui em Nova York, tudo era vidro, concreto e competição. O oceano ficava do outro lado do mundo.

Pegou uma barra de proteína, mordeu sem entusiasmo e abriu a janela. O vento frio bateu em seu rosto como um lembrete de que estava viva - e de que precisava correr. Literalmente. Porque se quisesse chegar ao escritório antes de Isabella, teria que acelerar. E isso era questão de honra.

Tomou um gole de café frio, amarrou o tênis de qualquer jeito e saiu porta afora, rezando para que o destino não conspirasse contra ela naquele dia. Mas, claro, o destino adorava um pouco de ironia.

Charlie correu pelo Hudson River Park, esquivando-se de executivos, turistas e cachorros barulhentos. Cada passada ajudava a afastar as vozes na sua cabeça: o pai insistindo para que ela desistisse, a pressão no trabalho, a certeza de que Isabella era o padrão que ela nunca conseguiria atingir.

Quando chegou ao fim do percurso, respirava tão ofegante que precisou sentar em um banco frio por alguns segundos. O sol já se erguia sobre a cidade, dourando os prédios como um lembrete de que havia beleza até ali, no meio do concreto.

O celular vibrou no bolso. Uma notificação da firma: Reunião de alinhamento - hoje, 9h.

Charlie soltou um palavrão baixinho. Precisava correr para casa, tomar um banho decente e tentar parecer que tinha tudo sob controle - mesmo que o cabelo molhado entregasse o contrário.

O escritório parecia ainda mais silencioso quando Isabella chegou, pontual como sempre. Caminhou pelo corredor iluminado, sentindo o aroma de café fresco misturado ao cheiro de papel novo. Alguns colegas já se acomodavam em suas salas, mas ninguém ousava se aproximar. Ela gostava assim. Um espaço limpo, previsível, controlado.

Sentou-se à mesa, abriu o laptop e começou a revisar os documentos que pretendia usar na reunião. A estratégia estava clara: ela não permitiria que Charlotte Blake a distraísse com provocações baratas. Não hoje.

No fundo, sabia que Ramirez queria observar as duas juntas antes de bater o martelo sobre quem lideraria o caso. Era quase um teste. E Isabella não pretendia falhar.

O elevador abriu com um ding e Charlie entrou apressada, cabelos ainda úmidos do banho rápido que tomara depois da corrida. Quando passou pela recepção, viu que alguns rostos se viraram - curiosos, especulativos. Estava acostumada. Sempre fora assunto fácil: a advogada de fora, meio rebelde, meio brilhante demais para o gosto de alguns.

Abriu um sorriso rápido para Maya, que carregava uma pilha de contratos.

- Dormiu no escritório? - perguntou Charlie, tentando soar casual.

- Não. Mas se você continuar chegando assim atrasada, vai achar que eu moro aqui - retrucou Maya, com uma piscadela cúmplice.

Charlie riu e seguiu até sua sala. Pelo vidro, viu Isabella sentada, impecável como sempre, digitando algo com expressão concentrada. Parecia inabalável. Parecia perfeita. E por algum motivo que ela se recusava a admitir, aquela imagem a incomodava mais do que qualquer crítica.

Respirou fundo. Não importava o quanto Isabella parecesse inalcançável. Na hora certa, ela também perderia o equilíbrio. E Charlie estaria lá para ver.

Afinal, ninguém era tão perfeita assim.

Na sala de reuniões, Ramirez ajeitava papéis quando as duas chegaram quase ao mesmo tempo. Os olhares se cruzaram, como sempre. Um desafio silencioso. Uma promessa de guerra.

Charlie ergueu uma sobrancelha. Isabella manteve o rosto impassível.

O jogo tinha começado - e nenhuma das duas planejava perder.

Capítulo 3 3

O relógio da sala de reuniões piscava para as nove horas em ponto quando Ramirez finalmente olhou para as duas advogadas, que entravam na sala quase em sincronia - cada uma carregando uma pilha de documentos e um olhar que era ao mesmo tempo desafio e cálculo.

- Bom dia, Isabella. Charlotte. - Ele começou com uma voz calma, porém firme. - Vamos direto ao ponto. O caso Davenport não é apenas mais um processo. Tem repercussão internacional, uma complexidade que exige o melhor de vocês duas. Quero que trabalhem juntas.

As sobrancelhas de Isabella se ergueram em uma mistura de surpresa e desconforto. Charlotte, por sua vez, manteve um sorriso frio - daqueles que significam "vamos ver quem cai primeiro".

- Trabalhar juntas? - Isabella repetiu, a voz tingida de ceticismo. - Ramirez, você sabe o histórico entre nós. Não sei se isso é a melhor ideia.

- Exato - Charlotte acrescentou, cruzando os braços, a postura tão desafiadora quanto o olhar. - Estamos numa firma, não num colégio primário. Se quer que isso funcione, terá que ser porque somos profissionais.

Ramirez deu um leve sorriso, quase como quem sabia que estava colocando as peças no tabuleiro para um jogo mais complexo.

- Isso, justamente por isso. Quero ver como vocês lidam com isso. O que está em jogo aqui é mais do que o caso. É a confiança. Vocês podem ser estrelas, mas só uma liderará a equipe.

As palavras pairaram no ar, carregadas de significado. A tensão era palpável.

Enquanto Ramirez explicava os detalhes do caso, Isabella mal conseguia tirar os olhos de Charlotte. Não que gostasse da rival, mas havia algo naquela determinação que a incomodava - um fogo que ela tentava apagar com profissionalismo e regras.

Charlotte parecia igualmente desconfortável, mas escondia com um sorriso cortante, enquanto anotava tudo em seu bloco de notas.

Após a reunião, as duas saíram quase ao mesmo tempo da sala, o corredor um palco para um duelo silencioso.

- Então, vamos tentar não explodir tudo na primeira semana? - Isabella falou, a voz baixa, uma mistura de ironia e desafio.

- Só se você prometer não tentar me atropelar - Charlie respondeu, com aquele sorriso que podia ser tanto um convite quanto uma ameaça.

Ambas sabiam que aquilo não seria fácil, mas também sabiam que nada na vida delas jamais foi.

Mais tarde naquela tarde, Charlie caminhava pelas ruas de Tribeca, a pasta cheia de documentos debaixo do braço. Estava atrasada para um café com Maya, que insistia em tentar fazer a advogada rebelde se soltar um pouco.

Passou por vitrines reluzentes e cafés lotados, sentindo o peso da cidade pulsando ao redor. Nova York não era só concreto e pressa; era também aquele espaço onde as pessoas corriam contra o tempo para se reinventar - ou se esconder.

Chegando ao café, viu Maya já esperando, acenando animada.

- Você está um pouco mais zen hoje - Maya comentou, puxando uma cadeira.

- O que não significa que não queira matar alguém - Charlie retrucou com um sorriso.

As duas riram, compartilhando aquele raro momento de leveza.

- Tem novidades sobre o caso? - Maya perguntou, mexendo no cappuccino.

- Ramirez quer que Isabella e eu trabalhemos juntas - Charlie respondeu, franzindo a testa. - Se isso funcionar, uma de nós vai liderar. Se não... bom, vai ser um desastre digno de ser contado em conferência.

Maya riu, mas não deixou de perceber a tensão na voz da amiga.

- Aposto que vai dar bom. Vocês são fogo e gelo - disse, brincando.

- Mais fogo do que gelo - Charlie admitiu, olhando pela janela, como se visse ali um futuro incerto, mas desafiador.

Enquanto isso, Isabella preparava-se para uma noite de estudos e revisão no apartamento impecável que mantinha em Upper East Side. Ela organizava documentos com a precisão de um cirurgião, quando seu telefone vibrou com uma mensagem inesperada.

Era Charlie.

"Encontro no café às 17h? Prometo não te atropelar - muito."

Isabella sorriu, o telefone na mão congelado por um segundo. Depois respondeu:

"Só se você prometer não reclamar do meu horário britânico."

Ela não sabia exatamente por que aceitou. Talvez fosse curiosidade, talvez fosse aquele equilíbrio estranho que só Charlotte conseguia trazer à sua vida.

No café, o clima era diferente. Nada de formalidades ou tensões jurídicas. Apenas duas mulheres tentando entender a outra, entre goles de café e piadas secas.

- Então, a senhora "rata de academia" - começou Charlie, mexendo no café - o que te faz gostar tanto de correr até o ponto de parecer um trem desgovernado?

- É o único momento do dia em que sinto que controlo algo - Isabella respondeu, com um sorriso tímido, que logo foi substituído por uma expressão mais séria. - E você? A surfista perdida em NY?

Charlie riu, pegando uma mecha de cabelo que teimava em cair no rosto.

- O mar me lembra que existe algo além do concreto e dos escritórios - disse. - Aqui, a gente corre pra não afundar. Lá, eu surfava para me sentir livre.

Por um instante, houve uma trégua na batalha silenciosa entre as duas.

O sol começava a se pôr quando elas saíram do café. Novamente, cada uma para seu lado, mas com algo novo no ar - uma promessa silenciosa de que, mesmo rivais, talvez fosse possível uma trégua.

A guerra estava só começando, mas a trégua, ainda que tênue, já mostrava sinais de vida.

Depois que Charlotte saiu do café, caminhou pelas ruas com o olhar meio perdido entre o brilho das vitrines e o ruído constante da cidade. Ela sabia que aquele convite de Isabella não era só para um café casual - era uma abertura, uma fissura na muralha que ambas construíam dia após dia.

Ela se permitiu um raro sorriso. Talvez, só talvez, pudesse haver algo além da rivalidade. Algo que, até então, ambas se recusavam a admitir.

Isabella, por sua vez, voltou para seu apartamento sentindo o peso da decisão que acabara de tomar. Encontrar Charlotte naquele café tinha sido inesperado, desconcertante e, de certa forma, revelador.

Ela nunca foi boa em demonstrar vulnerabilidade. Sempre foi a "profissional fria", a mulher que controla cada detalhe - no trabalho, na vida, até no corpo que treinava incansavelmente na academia. Mas sentiu, naquele instante, que a dinâmica com Charlotte poderia ser mais do que só competição.

Sentou-se na janela, observando as luzes da cidade piscando como pequenas estrelas urbanas, e refletiu sobre a complexidade daquela relação. Será que estava pronta para confiar? Ou, pelo menos, para não querer vencer a todo custo?

Na manhã seguinte, o escritório já fervilhava com rumores sobre a "nova parceria". Alguns colegas apostavam em Isabella; outros, em Charlotte. O café da manhã corporativo nunca foi tão interessante.

Isabella chegou cedo, como sempre, e sentou-se na sua mesa, abrindo o laptop com a precisão de quem já conhece a rotina. Mas, naquele dia, havia algo diferente no ar - um nervosismo sutil que ela não conseguia explicar.

Charlie apareceu minutos depois, com um café em uma mão e uma expressão que misturava cansaço e determinação. Passou por Isabella com um leve sorriso, que ela devolveu sem desviar o olhar.

Foi o suficiente para deixar os dois lados da firma atentos.

A reunião para definir os papéis no caso Davenport foi marcada para a tarde. Ramirez, o chefe, estava firme em sua decisão de colocar as duas juntas, apesar das diferenças.

- Vocês precisam aprender a confiar uma na outra - disse ele, olhando de um para o outro. - Se isso não acontecer, todo o trabalho pode ir por água abaixo.

Isabella e Charlotte trocaram olhares. Sabiam que não seria fácil. E que, no fundo, cada uma guardava segredos que poderiam ser usados como armas.

Naquele dia, após a reunião, as duas foram forçadas a passar horas juntas no escritório. Revisavam contratos, discutiam estratégias e, vez ou outra, a tensão se transformava em diálogos ácidos, recheados de sarcasmo e provocações sutis.

- Se essa cláusula for contestada, você sabe o que acontece? - Isabella perguntou, olhando para Charlotte. - Você vai precisar de mais do que charme para convencer o juiz.

- Charmosa e eficaz - Charlie respondeu, sorrindo. - Mas, ao contrário de você, sei que não preciso ser perfeita para vencer.

Isabella arqueou a sobrancelha, surpresa com a ousadia da colega.

- Perfeição é um fardo, Charlie. Tente não tropeçar nele.

Aquele breve momento de descontração revelou mais do que qualquer conversa séria. Ambas sabiam que estavam se estudando, tentando encontrar pontos frágeis e forças ocultas.

Quando a noite caiu, Isabella voltou para casa exausta. Sentou-se no sofá com uma taça de vinho e respirou fundo. Aquele jogo mental com Charlotte estava começando a mexer com ela mais do que gostaria de admitir.

Ela não sabia onde aquela parceria ia terminar - se em conflito, amizade ou algo mais complexo - mas sabia que, pela primeira vez em muito tempo, sentia-se viva.

Do outro lado da cidade, Charlie também não conseguia parar de pensar na conversa com Isabella. Aquela mulher meticulosa, cheia de regras e uma disciplina quase inumana, tinha um lado que raramente mostrava. E ela queria descobrir qual era.

O que quer que fosse que os próximos dias reservassem, Charlotte estava pronta para jogar.

Porque em Nova York, a guerra era diária. Mas a trégua podia ser uma armadilha - ou um recomeço.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022