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A Verdade Oculta Numa Pasta

A Verdade Oculta Numa Pasta

Autor:: Dorothy
Gênero: Moderno
Por três anos, eu acreditei que tinha o casamento perfeito com meu marido, Guilherme, e um laço inquebrável com minha melhor amiga, Carla. Essa ilusão se despedaçou quando encontrei um vídeo escondido no nosso notebook, guardado numa pasta chamada "Lembranças". O vídeo mostrava os dois juntos num quarto de hotel, se beijando, seus corpos entrelaçados. Ouvi meu marido prometer à minha melhor amiga que nunca me amaria de verdade, que eu era apenas uma responsabilidade que ele tinha que carregar. Ele era o homem que jurou que nunca me trairia. Ela era a mulher que um dia salvou minha vida. O relacionamento inteiro deles, a falsa implicância, tudo não passava de uma encenação elaborada para esconder o caso bem debaixo do meu nariz. Mas quando ele me deixou soluçando no chão para correr até ela depois de um falso acidente de carro, algo dentro de mim finalmente quebrou. Eu os encontrei abraçados, e com o som do meu tapa estalando em seu rosto chocado, eu fiz uma nova promessa. "Vamos nos divorciar."

Capítulo 1

Por três anos, eu acreditei que tinha o casamento perfeito com meu marido, Guilherme, e um laço inquebrável com minha melhor amiga, Carla.

Essa ilusão se despedaçou quando encontrei um vídeo escondido no nosso notebook, guardado numa pasta chamada "Lembranças".

O vídeo mostrava os dois juntos num quarto de hotel, se beijando, seus corpos entrelaçados. Ouvi meu marido prometer à minha melhor amiga que nunca me amaria de verdade, que eu era apenas uma responsabilidade que ele tinha que carregar.

Ele era o homem que jurou que nunca me trairia. Ela era a mulher que um dia salvou minha vida. O relacionamento inteiro deles, a falsa implicância, tudo não passava de uma encenação elaborada para esconder o caso bem debaixo do meu nariz.

Mas quando ele me deixou soluçando no chão para correr até ela depois de um falso acidente de carro, algo dentro de mim finalmente quebrou.

Eu os encontrei abraçados, e com o som do meu tapa estalando em seu rosto chocado, eu fiz uma nova promessa.

"Vamos nos divorciar."

Capítulo 1

PONTO DE VISTA DE BRUNA:

O arrepio gelado que percorreu meus ossos não tinha nada a ver com o ar-condicionado. Meu corpo tremia sem parar, um tremor que começava no fundo da minha alma e se espalhava até a ponta dos meus dedos e meu queixo. Eu me abracei, mas não adiantou nada. O frio estava dentro de mim. Estava em toda parte.

Eu me obriguei a assistir de novo. A tela brilhante do meu notebook, o nosso notebook de casa, me mostrava o impensável. Era um vídeo, escondido numa pasta que eu não deveria encontrar, uma pasta com o simples nome de "Lembranças". Minhas próprias lembranças estavam sendo reduzidas a cinzas a cada segundo daquela gravação.

Guilherme, meu marido, entrou no quarto. Era o quarto deles, não o nosso. Um quarto de hotel, ou talvez algum outro lugar. Carla, minha melhor amiga, já estava lá. Ela ergueu o olhar, um sorriso se abrindo em seu rosto que agora eu reconhecia como doentiamente íntimo.

"Demorou, hein?", Carla ronronou.

Guilherme riu, um som baixo que antes me dava borboletas no estômago, mas que agora o revirava com bile. "Não podia dar na cara, né? Você sabe como a Bruna é." Ele piscou. Uma piscadela para ela, não para mim.

Minha respiração falhou. Ele sempre interpretou o papel tão bem.

Carla revirou os olhos, mas seu olhar permaneceu nele, possessivo e faminto. "Ela é tão ingênua. Você realmente acha que ela não desconfiaria de nada, mesmo depois de todo esse tempo?"

Guilherme deu de ombros, aproximando-se. "Ela confia na gente. Confia em você." Ele estendeu a mão, traçando a linha do braço de Carla. "Chega de falar disso. Vem cá."

Meu estômago despencou. Eu sabia o que estava por vir. Eu já tinha visto uma vez, e agora, me forçar a assistir de novo parecia uma forma perversa de autotortura. Meus olhos ficaram turvos, mas eu não ousei desviar o olhar. Eu tinha que ver tudo. Cada detalhe horripilante.

Carla não hesitou. Ela jogou os braços ao redor dele, puxando-o para um beijo. Um beijo longo, profundo, inegável. Era um beijo que pertencia a amantes, a pessoas que compartilhavam uma história, um futuro. Um beijo que nunca foi feito para eu ver. Aquilo espremeu o ar dos meus pulmões.

A tela continuou a tocar, mostrando-me coisas que nenhuma esposa jamais deveria testemunhar. Coisas com meu marido. Coisas com minha melhor amiga. A imagem me atingiu, crua e brutal. Foi como assistir meu mundo inteiro se estilhaçar em um milhão de pedaços, cada um perfurando minha pele.

A dor era tão profunda, tão avassaladora, que parecia que minha própria essência estava sendo arrancada. Meus joelhos cederam. Eu desabei no chão gelado do banheiro, o notebook ainda brilhando com a traição deles na minha frente. Eu queria gritar, mas nenhum som saía. Era uma implosão silenciosa e agonizante.

Por que eu me sentia tão culpada? Por que essa dor parecia um castigo por algum pecado desconhecido que eu cometi? Era doentio, distorcido e absolutamente sufocante.

Lembrei-me da primeira vez que apresentei Guilherme a Carla, anos atrás. Éramos tão jovens, tão cheios de esperança. Eu estava tão apaixonada por ele e tão orgulhosa da minha melhor amiga.

"Guilherme, esta é a Carla. Minha alma gêmea. Minha irmã", eu disse, radiante, entrelaçando nossos braços. "Carla, este é o Guilherme. O cara certo."

Carla sorriu, um sorriso pequeno e contido. Na época, atribuí isso à sua timidez habitual com pessoas novas.

"Vocês dois precisam se dar bem", eu disse a Guilherme mais tarde naquela noite, com a cabeça em seu peito. "A Carla é a pessoa mais importante da minha vida, depois de você. Ela é meu porto seguro. Você precisa conquistá-la."

Ele beijou minha testa, suave e reconfortante. "Qualquer coisa por você, meu amor. Vou encantá-la, não se preocupe." Ele parecia tão genuíno. Tão comprometido.

No dia seguinte, durante o primeiro encontro real deles, notei um brilho nos olhos de Guilherme quando ele viu Carla pela primeira vez. Um vazio momentâneo, rapidamente substituído por seu sorriso charmoso de sempre. "É um prazer finalmente conhecê-la, Carla", ele disse, estendendo a mão.

Carla ignorou sua mão estendida. Seus olhos, geralmente quentes e brilhantes quando olhavam para mim, estavam frios, quase hostis, enquanto se fixavam em Guilherme. "Ouvi falar muito de você", ela zombou, sua voz com um tom que eu nunca tinha ouvido antes. "Só trate de tratar a Bruna direito. Ela merece o melhor, e se você aprontar com ela, vai se arrepender."

Eu me encolhi, minhas bochechas queimando. "Carla!", sussurrei, mortificada.

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, Carla pegou minha bebida da mesa. Sem uma palavra, ela jogou o conteúdo - um coquetel vermelho vivo - na camisa branca impecável do Guilherme. "Opa. Minha mão escorregou", disse ela, com um sorriso falso no rosto. Então ela me puxou pelo braço. "Vem, Bru. Vamos sair de perto desse tipo."

No corredor, ela se virou para mim, seus olhos em chamas. "Bruna, você está falando sério sobre ele? Ele é problema. Eu sinto. Você precisa ter muito cuidado."

Eu fiquei tão confusa. Por que ela estava agindo assim? Guilherme era tudo que eu sempre quis. Eu sempre valorizei o jeito protetor e feroz de Carla, mas aquilo parecia diferente. Parecia um ataque.

O vídeo no notebook me trouxe de volta ao presente. Carla olhava para Guilherme, seus olhos arregalados e sérios após o abraço. "Promete pra mim", ela sussurrou, a voz rouca de emoção. "Promete que nunca vai amá-la de verdade. Promete que sempre vai voltar pra mim. Que eu sou a única."

A mão de Guilherme acariciou sua bochecha. Ele a olhou com uma intensidade que eu, tolamente, acreditava ser reservada apenas para mim. "Você sabe que é, meu bem. Sempre."

Meu peito arfou. Lágrimas, quentes e incontroláveis, escorreram pelo meu rosto, borrando a imagem nojenta na tela. Meu mundo estava desabando.

Um clique repentino na porta da frente.

Guilherme. Ele estava em casa.

Eu me apressei, atrapalhada com o notebook, fechando-o com força. O quarto estava escuro, exceto pela luz fraca do corredor. Eu nem tinha percebido que estava sentada no escuro.

"Bruna? Por que você está sentada no escuro? Você está bem?", a voz de Guilherme, familiar, mas agora estranha, cortou o silêncio.

Ele me encontrou ali, encolhida no chão do banheiro, meu rosto manchado de lágrimas. Ele se ajoelhou ao meu lado, a testa franzida com o que parecia ser preocupação genuína. "Meu bem, o que foi? O que aconteceu? Quem te machucou?"

Ele me puxou para seus braços. Seu toque, que antes era um conforto, agora parecia veneno contra minha pele. Ele acariciou meu cabelo, sua voz suave e calmante. "Me diga, princesa. Quem ousou chatear minha esposa? Vou fazer essa pessoa se arrepender. Vou fazê-la pagar."

Ele me abraçou mais forte, me balançando gentilmente, como se eu fosse uma criança pequena. "Não chore, meu amor. Eu estou aqui. Vou te proteger. Apenas me diga atrás de quem eu preciso ir."

Suas palavras, destinadas a me tranquilizar, ecoaram com uma ironia grotesca. Ele prometeu me vingar, alheio ao fato de que ele era o monstro, bem na minha frente.

Capítulo 2

PONTO DE VISTA DE BRUNA:

Seu cheiro familiar, uma mistura de seu perfume e do nosso amaciante de roupas, encheu minhas narinas enquanto ele me abraçava. Costumava ser reconfortante, um cheiro de lar e segurança. Agora, era uma dor aguda e cortante, um lembrete constante da traição que acabara de rasgar minha vida.

Eu me afastei um pouco, minha voz fina, quase um sussurro. "Guilherme", comecei, minha garganta apertada. "Você... você me ama?"

Ele me olhou, seus olhos arregalados e inocentes. "Claro que eu te amo, Bruna. Que tipo de pergunta é essa?"

Eu insisti, as palavras com gosto de cinzas na minha boca. "Você me ama, e só a mim? Você poderia amar outra pessoa enquanto está comigo?"

Seu corpo enrijeceu, apenas por um segundo, uma microexpressão de desconforto que eu não teria notado antes. Mas agora, aquilo gritava para mim. Ele se inclinou, beijando minha testa, depois meus lábios. "Não seja boba, meu bem. Claro que não. Você é minha esposa. Estamos casados há três anos. Por que está fazendo perguntas tão tolas?"

Ele segurou meu rosto entre as mãos, olhando para mim com uma intensidade ensaiada. "Nosso casamento, Bruna. Isso é prova suficiente, não é?"

Minha mente voltou ao início do nosso relacionamento. Os rumores começaram naquela época, sussurros sobre o olhar errante de Guilherme, sua reputação de mulherengo. Eu os ignorei, convencida de que eram apenas fofocas de gente invejosa.

Então, uma noite, recebi uma ligação frenética de Carla. "Bruna, acabei de ver o Guilherme com outra mulher! No Hotel Blue Tree Towers, quarto 302! Você tem que ir, agora!"

O pânico tomou conta de mim. Liguei de volta para ela, lágrimas escorrendo pelo meu rosto, mal conseguindo respirar. "Ele está me traindo! Carla, ele está me traindo!"

Corri para o hotel, meu coração batendo um ritmo frenético contra minhas costelas. Mas quando invadi o quarto 302, não encontrei Guilherme com outra mulher. Encontrei Carla, com a mão levantada, dando um tapa no rosto de Guilherme.

"Seu desgraçado!", ela gritou para ele. "Como você ousa tentar me subornar para ficar quieta! A Bruna merece saber que tipo de homem você é!"

Guilherme parecia humilhado, segurando a bochecha avermelhada. Carla se virou para mim, seus olhos cheios de fúria justa. "Ele tentou me pagar, Bruna. Disse que me pagaria para guardar seus segredinhos sujos. Ele achou que eu te trairia."

"Eu ia... eu ia te contar", Guilherme gaguejou, evitando meu olhar. "Foi um erro. Um momento de fraqueza. Prometo que não vai acontecer de novo."

Carla zombou. "Um erro? Você chama tentar dormir com a melhor amiga da sua namorada de 'erro'?" Ela o fuzilou com o olhar. "E Bruna, você realmente acha que eu, sua melhor amiga, tentaria roubar seu namorado? Você me conhece melhor do que isso."

Senti uma onda de vergonha, uma culpa avassaladora. Eu duvidei deles, duvidei da minha melhor amiga e do meu namorado. Pedi desculpas profusamente a ambos. A partir de então, fui extremamente cuidadosa em mostrar a eles o quanto confiava neles, o quanto precisava dos dois na minha vida.

Guilherme muitas vezes brincava comigo sobre isso depois, me chamando de sua "dramatiquinha", sua "ciumentinha". Ele dizia: "Sinceramente, se não fosse por você, eu nem olharia para a Carla. Ela dá muito trabalho." E eu, sentindo-me tola por minhas suspeitas anteriores, sempre corria para o seu lado, acalmando-o e defendendo Carla. "Ela só se preocupa comigo, Guilherme. É só isso."

Meus pensamentos foram arrancados de volta para o vídeo atual. Guilherme estava afastando Carla, seu rosto sombrio. "Não, Carla. Não podemos continuar fazendo isso. Eu não posso. Vou me casar em três dias. Isso tem que parar. Não podemos mais nos ver."

O rosto de Carla se desfez. Ela se jogou para frente, envolvendo-o com os braços, desesperada. "Não! Por favor, Guilherme. Só mais uma vez. Por favor."

Um arrepio gelado percorreu minha espinha. Três dias antes do nosso casamento. Eu me lembrava daquela semana. Eu estava tão estressada, tão sobrecarregada com os detalhes de última hora, que tive uma febre altíssima. Fiquei de cama, mal conseguindo levantar a cabeça, incapaz de falar com Guilherme ou Carla. Ambos estavam inacessíveis, seus telefones desligados ou caindo direto na caixa postal.

Minha colega de trabalho me viu sofrendo e, com uma piscadela de quem sabe das coisas, disse: "Cuidado, Bruna. É por isso que dizem: vigie seu marido, sua casa e sua melhor amiga."

Eu estava tão fraca, tão febril, mas ainda consegui dar uma risada fraca. "Não seja ridícula, Sara. A Carla nunca me trairia. Ela praticamente salvou minha vida uma vez."

Mas agora, a imagem na tela, o apelo desesperado de Carla, a aceitação sombria nos olhos de Guilherme... Tudo fazia um sentido horrível e doentio.

Capítulo 3

PONTO DE VISTA DE BRUNA:

Minhas bochechas pareciam em carne viva, ardendo como se alguém tivesse me esbofeteado repetidamente. Meu mundo cuidadosamente construído, erguido sobre alicerces de confiança e lealdade, estava se desfazendo em pó.

Guilherme estava ocupado na cozinha, cantarolando baixinho enquanto limpava os pratos do jantar. Ele se movia pelo nosso pequeno apartamento, arrumando as coisas, garantindo que tudo estivesse em seu lugar. Ele sempre fazia isso, um ritual silencioso após nossas refeições, um testemunho de sua natureza aparentemente atenciosa.

"Guilherme", chamei, minha voz ainda rouca de tanto chorar. "Me conta de novo sobre seu primeiro amor."

Ele parou, um prato na mão, e se virou para me olhar. Uma leve carranca franziu sua testa, mas rapidamente se suavizou em um sorriso gentil. "Por que, amor? Está se sentindo nostálgica?"

Eu me lembrava de sua história. Ele me contou como sua primeira namorada o traiu, como a traição o deixou quebrado. Ele jurou então que nunca faria ninguém que amasse passar por aquela dor. "Eu aprendi minha lição, Bruna", ele disse, com os olhos sérios. "Eu nunca, jamais, te trairia assim." Eu acreditei nele, total e completamente. Eu me agarrei àquela promessa como a uma tábua de salvação.

Ele terminou de lavar a louça, limpou as bancadas e depois veio se sentar ao meu lado no sofá. Ele se inclinou, sua mão alcançando meu rosto, pronto para me beijar.

Mas a imagem de Carla, exigindo sua lealdade, brilhou em minha mente. "Promete que nunca vai amá-la de verdade. Promete que sempre vai voltar pra mim. Que eu sou a única." O apelo desesperado dela, a afirmação inabalável dele. Era um loop, tocando sem parar na minha cabeça.

Seu hálito, quente e com cheiro de menta do jantar, estava a centímetros do meu rosto. Meu estômago se contraiu. Uma onda de náusea me atingiu, violenta e inesperada. Eu saltei do sofá, passando por ele, e corri para o banheiro, mal conseguindo chegar ao vaso sanitário antes de começar a vomitar.

Eu vomitei, meu corpo convulsionando, até que apenas um ácido amargo subiu. Lágrimas, involuntárias e quentes, ardiam em meus olhos, misturando-se com o suor na minha testa. Meu corpo inteiro parecia fraco e violado.

Guilherme estava imediatamente ao meu lado, sua mão nas minhas costas. "Bruna? Você está bem? O que há de errado? Devo chamar um médico? Você está tão pálida." Sua voz estava cheia de preocupação.

Ele me levantou, seu braço em volta da minha cintura, sua outra mão pegando um casaco. "Vamos, vou te levar para o hospital. Você está tremendo." Ele começou a me guiar em direção à porta, pronto para me pegar no colo.

Nesse exato momento, meu telefone tocou.

A tela piscou: Carla Reis.

No passado, eu teria imediatamente entregado o telefone a Guilherme. "É a Carla, querido. Sua maior fã." Eu teria rido, um som genuinamente feliz. Eu sempre quis que eles se dessem bem, mesmo com sua falsa implicância.

Mas agora, eu apenas fiquei ali, observando-o. Estudando seu rosto. A preocupação em seus olhos havia desaparecido, substituída por um brilho de outra coisa. Algo ansioso. Algo quase em pânico.

Ele me deitou gentilmente na cama. Pegou o celular, seus olhos indo de mim para a tela e de volta. Ele parecia dividido, uma atuação que eu poderia ter acreditado uma vez.

"É a Carla", disse ele, com a voz hesitante. "Eu realmente preciso atender. Você sabe como ela é. Ela vai criar caso se eu não atender, e depois vai tentar te envolver nisso." Ele sempre foi tão bom em fazer parecer que estava me protegendo dela, de sua suposta irracionalidade.

Ele não esperou por minha resposta. Saiu do quarto, fechando a porta suavemente atrás de si.

O clique daquela porta se fechando selou meu entendimento. Ele não estava me protegendo. Estava protegendo eles. Ele era tão descarado, tão absolutamente confiante na minha ignorância. E eu era tão estúpida. Tão, tão estúpida.

Através da porta fina, eu ouvi. A voz de Carla, um gemido se transformando em um choro convulsivo. E então, o murmúrio calmante de Guilherme, sua voz baixa e reconfortante. "Shh, meu bem. Está tudo bem. Me diga o que aconteceu." Mais soluços. "Estou indo. Estou a caminho."

Alguns minutos depois, ele voltou ao quarto, um sorriso forçado no rosto. "Nossa, essa mulher é um desastre ambulante", ele resmungou, mas seus olhos, notei, tinham um brilho distinto. Um toque de excitação. Não de aborrecimento. "Diz que sofreu uma batidinha de carro. Dá pra acreditar?"

Ele balançou a cabeça, fingindo exasperação. "Sinceramente, Bruna, você escolhe as piores pessoas para serem suas amigas. Ela é um ímã de problemas. Mas eu tenho que ir. Ela está completamente fora de si." Ele pegou as chaves. "Eu volto assim que puder, ok? Descanse. Não se preocupe com nada."

Ele ainda teve a audácia de me chamar de "meu bem", de me dizer para não me preocupar. Meu marido, que acabara de prometer à sua amante que estava "a caminho". Minha melhor amiga, que estava fingindo uma batida de carro para roubar meu marido. Minha vida era uma piada.

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