Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > LGBT+ > A Vida Paralela Dele
A Vida Paralela Dele

A Vida Paralela Dele

Autor:: Nikolos Bussini
Gênero: LGBT+
O cheiro de desinfetante ainda estava em mim quando cheguei para uma visita domiciliar. Recebi uma paciente desesperada, dizendo que sua filha estava mal e ela não podia sair de casa devido a uma gravidez de risco. Mal sabia eu que a casa daquela mulher guardava um segredo que explodiria minha vida em pedaços. Ao entrar, vi fotos de família: uma mulher, uma menina e... ele. Ricardo. Meu marido. Fotos dele sorrindo, abraçando aquela mulher, segurando a menina no colo. Meu coração afundou, sufocado por uma verdade que eu não queria enxergar. E então a menina correu, os mesmos olhos castanhos dele. "Mamãe, o papai chegou!" A voz infantil soou como um trovão. Olhei para a porta dos fundos e lá estava ele, Ricardo, meu marido, vindo do quintal com um saco de carvão, com a barba por fazer, com um ar caseiro que eu nunca via. Ele não estava na Ásia. Ele estava ali. O saco de carvão caiu de suas mãos. Seu rosto empalideceu. "Maria? O que... o que você está fazendo aqui?" A menina apontou para mim: "Papai, é a tia má que você falou?" Eu era a vilã. A dor era física. Ele me viu ali, testemunha de sua farsa. Tudo o que construímos era uma mentira. Percebi que não era apenas um caso, era uma vida paralela, uma família inteira, enquanto eu vivia na cegueira, bancando sua farsa. A raiva me deu força. Não havia mais volta. Eu, que era médica e curava, agora precisava curar a mim mesma, ou destruir o que me destruía. Essa guerra estava apenas começando.

Introdução

O cheiro de desinfetante ainda estava em mim quando cheguei para uma visita domiciliar.

Recebi uma paciente desesperada, dizendo que sua filha estava mal e ela não podia sair de casa devido a uma gravidez de risco.

Mal sabia eu que a casa daquela mulher guardava um segredo que explodiria minha vida em pedaços.

Ao entrar, vi fotos de família: uma mulher, uma menina e... ele.

Ricardo. Meu marido.

Fotos dele sorrindo, abraçando aquela mulher, segurando a menina no colo.

Meu coração afundou, sufocado por uma verdade que eu não queria enxergar.

E então a menina correu, os mesmos olhos castanhos dele.

"Mamãe, o papai chegou!"

A voz infantil soou como um trovão.

Olhei para a porta dos fundos e lá estava ele, Ricardo, meu marido, vindo do quintal com um saco de carvão, com a barba por fazer, com um ar caseiro que eu nunca via.

Ele não estava na Ásia. Ele estava ali.

O saco de carvão caiu de suas mãos.

Seu rosto empalideceu.

"Maria? O que... o que você está fazendo aqui?"

A menina apontou para mim: "Papai, é a tia má que você falou?"

Eu era a vilã.

A dor era física.

Ele me viu ali, testemunha de sua farsa.

Tudo o que construímos era uma mentira.

Percebi que não era apenas um caso, era uma vida paralela, uma família inteira, enquanto eu vivia na cegueira, bancando sua farsa.

A raiva me deu força.

Não havia mais volta.

Eu, que era médica e curava, agora precisava curar a mim mesma, ou destruir o que me destruía.

Essa guerra estava apenas começando.

Capítulo 1

O cheiro de desinfetante da clínica ainda estava nas minhas roupas enquanto eu dirigia pelas ruas tranquilas de um bairro que eu não conhecia. O GPS indicava uma casa de classe média, com um pequeno jardim na frente. A paciente, uma tal de Sofia, tinha ligado mais cedo, desesperada, dizendo que a filha de cinco anos, a pequena Laura, estava com uma febre que não cedia e que ela não conseguia sair de casa por causa da sua gravidez de risco.

Como a clínica popular onde eu trabalho estava fechada no fim de semana, e ela parecia genuinamente aflita, senti pena e concordei em fazer uma visita domiciliar, levando os medicamentos necessários.

Meu marido, Ricardo, era piloto comercial. Isso significava que eu passava muitos fins de semana como este, sozinha. Ele estava em um voo longo, segundo me disse, para a Ásia. Uma viagem de cinco dias. A casa era exatamente como eu imaginava, com brinquedos espalhados pela grama e uma bicicleta rosa encostada na varanda. Toquei a campainha e esperei.

A porta se abriu e uma mulher de aparência frágil, com uma barriga proeminente de gravidez, sorriu para mim. Era Sofia.

"Doutora Maria? Muito obrigada por vir. Eu estava tão preocupada."

"Não se preocupe, vamos ver o que a pequena tem."

Entrei na casa. O ambiente era acolhedor, cheio de fotos de família. Fotos de Sofia, da menina e de um homem. Um homem cujo rosto eu conhecia melhor do que o meu próprio. Era Ricardo. Meu marido. Em todas as fotos, ele sorria, abraçando Sofia, segurando a menina no colo, cortando um bolo de aniversário. O ar de repente ficou pesado, difícil de respirar. Meu coração começou a bater descontroladamente no peito.

"Aconteceu alguma coisa, doutora? Você está pálida."

Sofia me olhou, preocupada, sem ter a menor ideia da bomba que acabara de explodir dentro de mim. Eu não conseguia responder. Minha garganta travou. Olhei para uma foto na estante: Ricardo, a menina e Sofia na praia, construindo um castelo de areia. Ele parecia tão feliz, tão completo. Uma felicidade que eu nunca via em casa.

Nesse momento, uma menina de pijama de unicórnio desceu as escadas correndo. Ela tinha os olhos de Ricardo. Os mesmos olhos castanhos e expressivos.

"Mamãe, o papai chegou!"

A voz dela era doce e infantil, mas para mim soou como um trovão. E então, eu o vi. Ricardo entrou pela porta dos fundos, vindo do quintal, com um saco de carvão nas mãos, vestindo uma camiseta velha e bermudas. Ele estava com a barba por fazer, com um ar caseiro e relaxado que eu raramente via. Ele não estava na Ásia. Ele estava aqui, vivendo uma outra vida.

Ele me viu. O saco de carvão caiu de suas mãos, espalhando pó preto pelo chão limpo da cozinha. Seu rosto perdeu toda a cor. O sorriso que ele tinha se desfez, substituído por puro pânico.

"Maria? O que... o que você está fazendo aqui?"

A menina correu e abraçou as pernas dele.

"Papai, você demorou! A mamãe disse que a gente ia fazer churrasco hoje!"

Papai. A palavra ecoava na minha cabeça, ricocheteando nas paredes do meu crânio. Sofia olhou de Ricardo para mim, a confusão em seu rosto começando a se transformar em compreensão e medo.

"Ricardo, vocês se conhecem?", ela perguntou com a voz trêmula.

A menina olhou para mim com curiosidade e depois se escondeu atrás da perna de Ricardo, apontando um dedo na minha direção.

"Papai, é a tia má que você falou? A que não te deixa ficar com a gente sempre?"

Tia má. Fui reduzida a isso. A vilã na história de conto de fadas deles. A dor no meu peito era física, uma pressão esmagadora que me impedia de respirar. Eu me lembrei de todas as vezes que ele disse que me amava antes de uma "viagem longa". Lembrei-me da nossa conversa na semana passada, quando eu sugeri que tentássemos ter um filho e ele desconversou, dizendo que era melhor esperar, que sua carreira era muito instável. Agora eu sabia o porquê. Ele já tinha uma família. Estava construindo outra.

Senti o chão sumir sob meus pés. O mundo inteiro girava. Eu olhei para o rosto chocado de Ricardo, para a barriga de grávida de Sofia, para a menina que o chamava de pai. Eram anos de mentiras. Uma vida inteira de engano desmoronando na minha frente em uma sala de estar suburbana.

Não consegui dizer uma palavra. A maleta com os medicamentos caiu da minha mão, fazendo um barulho surdo no tapete. Eu me virei, tropeçando nos meus próprios pés, e corri para fora daquela casa. Corri sem olhar para trás, fugindo da cena de uma vida que não era minha, mas que destruiu a minha completamente. Entrei no carro, bati a porta e apoiei a cabeça no volante, enquanto as lágrimas que eu segurava finalmente começaram a rolar, quentes e amargas.

Capítulo 2

O caminho de volta para casa foi um borrão. Eu não sei como não bati o carro. Cada semáforo, cada esquina, trazia a imagem daquela cena de volta: Ricardo, com a camiseta suja de carvão, a menina agarrada em suas pernas, e Sofia, grávida, olhando para mim com uma mistura de medo e desafio.

Quando entrei no nosso apartamento, o silêncio me atingiu como um soco. Era a nossa casa. Ou pelo menos, eu achava que era. Tudo parecia uma mentira. O porta-retrato na mesinha de centro, com uma foto nossa do casamento, sorrindo como dois idiotas. A caneca dele na cozinha, com o emblema da companhia aérea. Cada objeto era uma testemunha silenciosa da farsa que era a minha vida.

Fui até o nosso quarto, o closet que dividíamos. Abri a gaveta dele, a que ele guardava "documentos de viagem". Remexi tudo, com uma fúria que eu não sabia que possuía. E então eu encontrei. Uma pequena pasta azul. Dentro, não havia passaportes ou vistos. Havia uma certidão de nascimento. Laura Mendes. Nascida há cinco anos. Nome da mãe: Sofia Mendes. Nome do pai: Ricardo Almeida. O mesmo sobrenome dele. Ele a registrou.

Meu corpo inteiro tremia. Não era um caso. Não era um erro. Era uma família. Uma família planejada e oficializada pelas costas da esposa. Vasculhei mais fundo e achei um recibo de uma joalheria. Um anel de noivado. Comprado há seis anos, um ano antes do nosso casamento. Ele a pediu em casamento antes de me pedir. Eu era a outra. Eu era a amante oficializada com um papel.

A dor se transformou em uma raiva cega. Peguei a primeira coisa que vi, um vaso de cristal que ele me deu no nosso aniversário.

"Você disse que era da sua avó!", eu gritei para o vazio.

Arremessei o vaso contra a parede. Ele se estilhaçou em mil pedaços, assim como a minha vida. O som ecoou pelo apartamento silencioso. Eu caí de joelhos no chão, no meio dos cacos, e chorei. Chorei por minha ingenuidade, por cada "eu te amo" que acreditei, por cada noite que passei sozinha esperando por ele. Soluçava tão alto que minha garganta doía, um som animal de pura agonia.

Foi nesse estado que ele me encontrou. Ouvi a chave na porta. Meu corpo congelou. Ele entrou, ainda com a mesma roupa, o rosto pálido e os olhos arregalados de quem foi pego. Ele viu os cacos de vidro, me viu no chão. A primeira coisa que ele fez não foi me perguntar se eu estava bem. Foi tentar mentir.

"Maria, calma. Eu posso explicar. Não é o que você está pensando."

Levantei a cabeça, o rosto molhado de lágrimas, mas os olhos queimando de ódio.

"Não é o que eu estou pensando?", minha voz saiu rouca, quase um sussurro. "Eu vi, Ricardo. Eu vi sua outra casa. Sua outra mulher. Sua filha."

Ele se aproximou lentamente, com as mãos levantadas, como se estivesse tentando acalmar um animal selvagem.

"Deixa eu limpar isso, você vai se machucar."

"Fique longe de mim!", eu gritei, me arrastando para trás, para longe dele. Levantei-me, trêmula, e apontei para a pasta azul jogada na cama. "Você a registrou, Ricardo. Você deu seu nome a ela. Que parte disso não é o que eu estou pensando?"

Ele olhou para a pasta e seu rosto caiu. A máscara de calma se quebrou. Ele não tinha mais como negar. Ele apenas ficou lá, parado, o silêncio dele era a confissão mais alta e clara que eu poderia ouvir.

"Há quanto tempo, Ricardo?", perguntei, a voz carregada de um veneno que eu não sabia que possuía. "Há quanto tempo você me faz de idiota?"

Ele não respondeu. Apenas me olhava com aqueles olhos que um dia eu amei, agora cheios de culpa e covardia.

"Você me prometeu um futuro! Você me prometeu uma família! Enquanto isso, você já tinha uma! Você me usou! Usou meu amor, meu dinheiro, minha vida, para bancar sua farsa!"

"Maria, por favor..."

"Não diga meu nome! Você não tem esse direito. Nunca mais."

A raiva me deu uma força que eu não sabia que tinha. Eu olhei para o homem na minha frente e não vi o marido que eu amava. Vi um estranho. Um mentiroso. Um monstro. E naquele momento, em meio aos destroços do nosso casamento, eu soube que a dor era só o começo. A guerra estava apenas começando.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022