Sofia Teixeira, uma estudante talentosa, acorda em um pesadelo.
Após um acidente de carro, ela se vê no corpo da vilã de um romance que lia, Sofia Oliveira.
Uma festa drogada, e nos olhos de Leonardo Mendes, o herói, apenas desprezo.
Sua nova vida é um turbilhão de armadilhas.
Bianca, a falsa irmã, e a tia Valéria não dão trégua, com sabotagens e acusações.
Desde roubo de joias até falsas quedas e rumores vis de aborto e ligações criminosas, a reputação de Sofia é destruída.
Leo, seu carrasco na vida real, parece odiá-la com todas as forças, uma dor que a consome.
Mas, ironicamente, ele é o "Escritor das Sombras" e a "Artesã das Gerais", um admirador secreto de sua arte e alma.
Como pode um homem desprezá-la tão abertamente e admirá-la tão profundamente?
Presa em um corpo que não é seu, e em uma teia de mentiras e injustiças, Sofia se sente isolada e mal compreendida.
Será que a vilã está condenada a um fim trágico?
Ou será que Sofia, com sua coragem e talento inegáveis, vai desmascarar a farsa de Bianca e encontrar seu próprio caminho?
Chegou a hora de reescrever o destino, mesmo que o Capitão Mendes demore a entender a verdade.
Sofia Teixeira acordou com a cabeça latejando, uma cacofonia de música alta e conversas animadas agredindo seus ouvidos.
Luzes coloridas piscavam, cegando-a momentaneamente.
O cheiro forte de álcool e perfumes caros pairava no ar.
Ela tentou se levantar de onde quer que estivesse – um sofá macio demais – mas suas pernas fraquejaram.
"Onde estou?", ela murmurou, a voz rouca e estranha.
Seu corpo parecia pesado, desconectado.
Ela olhou para as próprias mãos – unhas longas, pintadas de um vermelho vibrante. Não eram suas unhas.
Pânico começou a borbulhar em seu peito.
Isso não era um sonho. O acidente... ela se lembrava do carro vindo em sua direção, da dor excruciante.
E agora estava aqui, neste corpo desconhecido, em uma festa que parecia saída de uma revista de fofocas.
Ela precisava sair, entender o que estava acontecendo.
Com esforço, ficou de pé, cambaleando. Alguém esbarrou nela, quase a derrubando.
"Olha por onde anda, sua desajeitada!", uma voz feminina e irritada soou.
Sofia nem registrou. Seus olhos varreram o ambiente, procurando uma saída, uma explicação.
Foi então que o viu.
Um homem alto, de terno impecável, expressão séria, observando-a com uma mistura de irritação e... desprezo?
Ele parecia familiar. Terrivelmente familiar.
Leonardo Mendes. O mocinho do romance que ela estava lendo antes do acidente. O capitão incorruptível.
E se ele era o mocinho... ela só podia ser...
A ficha caiu com a força de um soco no estômago.
Ela estava no corpo de Sofia Oliveira, a vilã coadjuvante. A alpinista social, a interesseira, a que sempre se dava mal no final.
A bebida que Bianca, a "irmã" boazinha, lhe dera mais cedo... devia estar adulterada.
Seu corpo, ainda sob o efeito da substância, moveu-se por instinto.
Ela tropeçou, e para não cair de cara na elegante piscina que ficava perigosamente perto, agarrou-se à primeira coisa sólida que encontrou.
O braço de Leonardo Mendes.
Ele a segurou com firmeza, impedindo a queda, mas seu rosto se contorceu em uma carranca.
"Você está bem?", ele perguntou, a voz fria como gelo.
Sofia, ainda grogue, em vez de se afastar, agarrou-se a ele com mais força, o corpo mole contra o dele, a cabeça aninhando-se em seu peito por um instante.
Um suspiro escapou dos lábios da "vilã".
Leo enrijeceu, o nojo evidente em seus olhos.
"Me solte, sua...". Ele parecia procurar a palavra certa. "Atrevida."
Ele a empurrou com força contida, mas o suficiente para que ela cambaleasse para trás, quase perdendo o equilíbrio novamente.
A humilhação queimou o rosto de Sofia – a verdadeira Sofia, presa naquele corpo.
Ela recuperou um pouco da compostura, as memórias da Sofia original, a vilã, inundando sua mente. A péssima reputação, as tentativas patéticas de sedução, o desprezo de todos.
"Desculpe," ela conseguiu dizer, a voz ainda trêmula. "Eu... eu não me senti bem."
Tentou se afastar, mas seus olhos captaram um brilho no chão. Uma pequena nota de cem reais, provavelmente caída de sua bolsa ridícula durante o tropeço.
No seu mundo, cem reais fariam uma diferença enorme para sua família.
Instintivamente, ela se abaixou para pegar, mas Leo foi mais rápido.
Ele pegou a nota, o olhar ainda mais carregado de desprezo.
"Perdeu alguma coisa?", ele perguntou, sarcástico.
Sofia sentiu o rosto queimar. Ela queria explicar, dizer que não era o que ele estava pensando, mas as palavras não saíam.
Ele estendeu a nota para ela, mas de uma forma que a obrigou a se inclinar, quase tocando seus dedos nos dele.
Um arrepio percorreu seu corpo, uma mistura de constrangimento e uma estranha, indesejada, faísca.
Sofia recuou como se tivesse levado um choque elétrico, arrancando a nota da mão dele.
"Com licença," ela murmurou, virando-se para fugir daquela situação humilhante.
Mal deu dois passos quando uma voz alegre e um pouco alta demais soou atrás dela.
"Leo! O que está acontecendo aqui? Pegando a Cinderela antes da meia-noite?"
Gabriel "Biel", o colega extrovertido de Leo, aproximou-se com um sorriso zombeteiro.
Leo lançou um olhar fulminante para Biel antes de responder, a voz controlada.
"Nada. Apenas ajudando a senhorita a não cair na piscina."
Ele fez questão de não usar o nome dela, como se até isso fosse demais.
Biel olhou de Leo para Sofia, depois de volta para Leo, o sorriso aumentando. "Sei."
Sofia aproveitou a distração para escapar, misturando-se à multidão, o coração batendo descontroladamente.
Ela precisava encontrar Bianca. Precisava entender a extensão da armadilha.
Enquanto isso, Leo e Biel se afastavam da festa.
"Você não vem para a comunidade da Dona Mercedes comigo e com o Rodrigo?", perguntou Biel, curioso. "Achei que o Coronel Oliveira tinha pedido para você dar uma olhada na filha 'perdida' antes de trazê-la para a mansão."
Leo suspirou, a irritação ainda evidente. "Sim, esse era o plano. Rodrigo deve estar me esperando no carro."
A viagem até a comunidade onde a "Sofia original" cresceu foi tensa. Rodrigo Noronha, o ex-noivo da vilã, não fazia questão de esconder seu desprezo.
"Não sei por que o Coronel insiste nisso, Leo. Aquela mulher é um desastre. Ainda bem que me livrei daquele noivado."
Leo não respondeu, seus pensamentos ainda na cena da piscina. A forma como ela o agarrou, o olhar vidrado... vulgar.
Chegaram à pequena casa de Dona Mercedes. A mulher simples abriu a porta, os olhos arregalados de preocupação.
"Capitão Mendes! Senhor Noronha! Aconteceu alguma coisa com a minha Sofia?"
Então, ela viu Sofia saindo do carro de Leo, pálida, mas inteira.
"Minha filha! Graças a Deus!", Dona Mercedes correu para abraçá-la, lágrimas nos olhos. "Fiquei tão preocupada! Soube que aquele traste do Zé da Esquina andou te rondando de novo, querendo te levar pra vida!"
Sofia, a nova Sofia, sentiu um aperto no coração. Essa mulher a amava de verdade.
Dona Mercedes puxou Sofia para dentro, sussurrando com urgência.
"Minha filha, agora que você vai pra casa dos ricos, tem que se garantir! Homem rico é escorregadio. Trouxe isso pra você."
Ela tirou da bolsa um pequeno patuá colorido e alguns incensos com embalagens chamativas.
"Esse aqui é o patuá do amor, forte que só! E esse incenso é o 'chama homem'. Usa tudo, minha filha! Agarra um bom partido, tipo esse Capitão aí. Bonito, rico, importante. Não deixa escapar!"
Do lado de fora, escondidos pela janela entreaberta, Leo e Rodrigo ouviram fragmentos da conversa.
"...patuá... incenso... agarrar um homem de posses... Capitão..."
Leo sentiu o estômago revirar. Então era isso. A vulgaridade, a tentativa de sedução... tudo fazia parte de um plano.
Rodrigo soltou uma risada de escárnio. "Eu não disse? Alpinista social da pior espécie. E ainda usa essas simpatias ridículas. Que nojo!"
Ele se virou, decidido. "Quer saber, Leo? Eu não vou acompanhar essa mulher até a mansão. Tenho coisas mais importantes para fazer do que servir de motorista para uma golpista."
Ele se afastou, deixando Leo sozinho com a responsabilidade.
Leo cerrou os punhos. Sentia um desprezo profundo por aquela mulher, mas tinha dado sua palavra ao Coronel Oliveira.
Ele suspirou, resignado, e esperou Sofia se despedir da mãe adotiva.
A viagem de volta para a área nobre do Rio foi silenciosa e carregada.
Leo quebrou o silêncio, a voz dura. "Senhorita Oliveira, espero que na casa de seus pais biológicos você demonstre um comportamento mais... adequado. Certas... artimanhas... não serão toleradas."
Sofia, que já se sentia um lixo, apenas assentiu, olhando pela janela. Ela sabia exatamente a que ele se referia. A conversa da mãe, o patuá. Que ótima primeira, ou melhor, segunda impressão.
Ela se encolheu no canto do carro, tentando manter a maior distância possível dele.
O cansaço do dia, a confusão da transmigração, o efeito residual da droga e a tensão emocional a venceram.
Sofia adormeceu.
E, inconscientemente, sua cabeça tombou para o lado, apoiando-se levemente no ombro de Leonardo Mendes.
Leo sentiu o contato e seu corpo inteiro retesou. Ele olhou para o rosto adormecido dela, tão perto. Os cílios longos roçando a pele macia, os lábios entreabertos.
Uma onda de calor indesejado o percorreu, misturada com uma repulsa ainda maior.