Fui demitida.
Assim, do nada, sem motivo, depois de ser a designer principal, depois de ter uma coleção de sucesso.
Lucas, meu chefe, meu benfeitor, meu amante secreto, havia me dispensado.
Ele estava limpando o terreno para Mariana, seu primeiro amor, que acabara de retornar ao Brasil.
Peguei os papéis da demissão, assinei em silêncio, sem drama, sem lágrimas.
Eu era a amante obediente, aceitando ser descartada como uma peça de roupa velha.
Mas a humilhação não parou por aí.
Quando fui limpar minha mesa, vi Lucas na entrada do prédio, abrindo a porta do carro para Mariana, a "lua branca" dele.
Ele a olhava com uma ternura que eu nunca recebi.
Dias depois, o anúncio: "Lucas e Mariana planejam oficializar a união em breve."
Enquanto meu mundo desmoronava, eu descobri que estava grávida.
Fiquei doente, tonta, com náuseas, mas ele só acreditou que eu tinha um resfriado.
Ele estava cego pela "perfeição" dela.
Gisela, a melhor amiga de Mariana, me humilhou publicamente, jogou café em mim e me deu um tapa.
Lucas me defendeu? Não, ele defendeu Gisela, dizendo que ela "não tinha má intenção".
Ele me disse:
"Mariana é muito importante para mim. Não quero que nada a aborreça."
E quando Mariana, como uma cobra, fingiu um desmaio na minha frente, Lucas me acusou, me humilhou, na frente de todos.
Meu coração de tola apaixonada se quebrou.
Eu tinha sido um canário na gaiola dourada dele, obediente e discreta.
Mas naquele dia, Sofia, a otária, morreu.
E em seu lugar nasceu uma mulher disposta a lutar.
Eu prometi dar a eles um presente de casamento inesquecível.
E o jogo, finalmente, ia virar.
A gerente de Recursos Humanos me entregou a carta de demissão com as mãos tremendo um pouco.
"Sofia, a empresa está passando por uma reestruturação. Agradecemos sua contribuição, mas seu cargo foi eliminado."
Eu olhei para o papel em sua mão e depois para o rosto dela, que evitava meu olhar.
"Reestruturação?"
Minha voz saiu calma, sem nenhuma emoção.
Eu era a designer principal da marca, a coleção que lancei no mês passado foi um sucesso de vendas, esgotando em todas as lojas. A empresa não tinha motivos para me demitir.
A gerente forçou um sorriso.
"Sim, são decisões da diretoria."
Eu sabia que ninguém na diretoria ousaria me demitir.
Havia apenas uma pessoa nesta empresa com poder para fazer isso.
Lucas.
Meu chefe, meu benfeitor e, até três anos atrás, meu amante secreto.
Entendi tudo no mesmo instante.
Peguei o celular e abri o portal de notícias, a manchete principal estava estampada em letras garrafais.
"A famosa influenciadora digital Mariana retorna ao Brasil após anos no exterior."
A foto mostrava uma mulher de beleza estonteante, sorrindo para a câmera no aeroporto, cercada por repórteres.
Mariana.
O primeiro amor de Lucas, a mulher que ele nunca esqueceu.
Ele me demitiu no mesmo dia em que ela voltou.
Ele estava limpando o terreno, me afastando para dar segurança a ela.
Senti um frio percorrer meu corpo, mas meu rosto permaneceu impassível.
"Entendi," eu disse, pegando a carta. "Onde eu assino?"
A gerente de RH pareceu surpresa com a minha calma, ela esperava lágrimas, um escândalo, talvez.
Mas eu não daria a ela, nem a ele, essa satisfação.
Assinei os papéis em silêncio, minha mão firme.
Ele estava me descartando como uma peça de roupa velha para receber sua amada.
E eu, como a amante obediente que sempre fui, aceitei meu destino sem reclamar.
Pelo menos por enquanto.
Comecei a arrumar minhas coisas na mesa, guardando tudo com uma calma que não sentia por dentro.
Cada objeto trazia uma lembrança.
Os cadernos de esboço, cheios de ideias que ele elogiava. As canetas especiais que ele me deu de presente.
Minha mesa ficava em um canto privilegiado do andar de design, com uma enorme janela de vidro.
Quando Lucas me promoveu a designer principal, ele disse: "Quero esta mesa para você, Sofia. Assim, da minha sala, posso abrir as cortinas e ver você trabalhando."
Sua sala ficava no andar de cima, exatamente em frente à minha janela.
E por três anos, ele fez exatamente isso. Às vezes, no meio de uma reunião, eu levantava os olhos e o via lá, me observando, com um leve sorriso nos lábios.
Era a nossa comunicação secreta.
Agora, esse privilégio tinha se tornado uma maldição.
Terminei de colocar minhas coisas em uma caixa e me dirigi ao elevador, sem olhar para trás.
Quando as portas do elevador se abriram no térreo, eu o vi.
Lucas estava parado na entrada do prédio, segurando a porta do carro aberta para uma mulher.
Era Mariana.
Ela era ainda mais bonita pessoalmente, com um sorriso que parecia iluminar o ambiente.
O "primeiro amor" dele. A "lua branca" em seu coração, como as revistas de fofoca gostavam de dizer.
Lucas a olhava com uma ternura que eu nunca tinha recebido.
Seus olhos, geralmente tão frios e calculistas, estavam cheios de adoração.
Ele disse algo que a fez rir, e o som da risada dela chegou até mim, claro e melodioso.
Para ele, Mariana era a perfeição, a mulher ideal.
E eu? Eu era apenas a substituta, a amante que o aqueceu enquanto a verdadeira rainha estava fora.
Agora que ela voltou, meu tempo acabou.