No corredor silencioso da mansão Montclair, Lysandra passava nervosamente os dedos, levemente trêmulos, sobre a seda do vestido azul-celeste que seu marido dissera combinar com seus olhos lilases. Uma centelha de esperança e alegria dançava em seu peito. Hoje anunciaria ao marido que completou a fórmula que daria a eles o tão esperado herdeiro.
Antes, porém, Dyana pedira para vê-la no quarto. "Temos que conversar, irmãzinha", dissera com uma voz que soava estranhamente tensa pelo telefone interno. Lysandra não hesitara. Mesmo após o casamento, a ligação entre ela e sua gêmea bivitelina permanecia forte. Além do mais, nos últimos tempos, desde a morte da avó e toda a tragédia com Logan Montclair, marido de Dyana, sua irmã parecia irritadiça e inconstante.
A porta do quarto de casada de Dyana – agora de viúva – estava entreaberta. Lysandra empurrou a madeira pesada.
- Dy? Está tudo bem? - questionou empurrando a madeira pesada ao não obter resposta.
No quarto, um espetáculo de púrpura e ouro, refletindo os gostos ostensivos da irmã, viu Dyana de pé junto à lareira apagada, de costas. Vestia um penhoar de seda cor de vinho que caía como um riacho escuro sobre seu corpo esguio.
- Entre e feche a porta - comandou com frieza.
- O que houve? - perguntou após fechar a porta.
Dyana se virou lentamente, mantendo as mãos escondidas nas largas mangas do penhoar. Seus olhos dourados, que normalmente cintilavam de doçura, estavam frios. Um sorriso fino, desprovido de calor, esticou-se em seus lábios pintados de vermelho.
- Hoje, finalmente, posso ser eu mesma e capturar o que é meu de direito.
Lysandra franziu a testa, confusa.
- Dy, seja direta. Preciso contar uma coisa ao Hunter, é importante...
- Ah, sim. O importante anúncio - Dyana deu um passo para mais perto da irmã. - Você fabricou uma fórmula nova e acha que com ela dará um herdeiro ao Hunter, não é?
- Como você...?
- Fofocas correm rápido, irmãzinha. Mas vamos ser realistas - iniciou lançando com veneno puro: - Uma ômega recessiva, frágil, inútil é incapaz de gerar. Todos sabem que você é estéril como o deserto. Hunter só te suporta porque você é a herdeira da casa Dubois. Ele ri de suas tentativas, sabia? Ri da sua esperança patética.
A maldade e desprezo de Dyana atingiram Lysandra como um tapa.
- Dy, por que está falando assim comigo? O que te fiz? - de repente entendeu a amargura da irmã. - Se é pelo Logan... Sei que foi horrível, que ele era um monstro, mas nós o detivemos. Estamos seguros agora. Eu, Hunter e você conse...
- Você e Hunter - Dyana a interrompeu, o sorriso retorcido de desgosto. - Sempre você na frente. Você escolhendo primeiro. Você ficando com ele. Você herdando a porcaria da casa e todo dinheiro Dubois por cinco minutos malditos! Você, você, VOCÊ!
O último "você" foi um grito rouco que reverberou nas paredes. Das mangas do roupão, a mão direita de Dyana surgiu. Não estava vazia. O cabo de prata trabalhada de um punhal cintilou junto da lâmina, curta e afiadíssima.
Lysandra congelou. Seu cérebro recusava-se a processar o que via. Era um pesadelo. Tinha de ser.
- Dy... não tem graça - murmurrou trêmula, dando um passo para trás.
- Graça? - Dyana riu, um som seco e sem alegria. - Irmãzinha ingênua. Isso não é uma brincadeira. É o fim. O seu fim.
E então, com um movimento brutal, Dyana fechou a distância entre elas e enterrou a lâmina no abdômen de Lysandra.
A dor foi uma explosão de agonia que arrancou um grito abafado de Lysandra quando Dyana puxou o punhal. Dobrou-se para frente, as mãos instintivamente cobrindo o local da ferida, os dedos empapando com o líquido quente e vermelho.
- Po-por quê? - Arfou, os olhos arregalados de pavor e incompreensão fixos no rosto feliz da irmã.
Suas pernas falharam e Lysandra caiu de joelhos no tapete espesso, uma mancha úmida e quente se espalhando pelo vestido. A dor corroía suas entranhas, enquanto tentava, inutilmente, conter o fluxo do sangramento.
Outro riso ecoou no quarto, um riso familiar, masculino, que vinha da porta que levava ao banheiro privativo do quarto.
Lysandra moveu a cabeça. A visão começava a escurecer, mas reconheceu a figura que se apoiava no batente, os braços cruzados sobre o peito musculoso do uniforme de capitão da guarda: Hunter, o homem que escolheu como seu companheiro um ano antes.
- Hunter... - o nome saiu em uma súplica de esperança. - Ajuda... ela me... ela...
Hunter Renaud se aproximou dela, ignorou a mão sangrando que buscava a sua, e a empurrou com o pé, fazendo-a cair de costas no chão. Seus olhos verdes, que outrora a fitavam com amor, agora a observavam como se examinasse um inseto insignificante.
- Ah, minha doce e inútil Lysandra - disse ele, a voz mansa e doce. - Sempre tão lenta para entender.
Ele caminhou até Dyana, que ainda segurava o punhal ensanguentado. Em vez de arrancá-lo dela, Hunter colou seus lábios ao dela, abraçando-a e beijando com paixão. Diante dos olhar estarrecido de Lysandra, o beijou encerrou-se e Dyana aninhou-se nos braços dele, um sorriso triunfante e lascivo em seus lábios.
- Você... vocês...
- Somos amantes, querida - Hunter anunciou sem vergonha pela traição. - Há muito, muito tempo. Desde antes do nosso ridículo casamento arranjado.
- Mas... você me aceitou... - Lysandra gemeu, uma nova dor, mais profunda que a física, rasgando seu peito.
- Aceitei a herdeira da casa Dubois - ele corrigiu glacial. - Aceitei o caminho mais fácil para o dinheiro e o status. Mas meu coração... - ele beijou os lábios de Dyana rapidamente -, sempre foi dela. Sempre. Ela me dará filhos fortes, alfas dignos. Você? - Ele fez uma expressão de desprezo. - Não passa de uma ômega recessiva estéril que nem mesmo para me dar herdeiros serviu.
Dyana olhou para baixo, para a irmã moribunda, e sua expressão era de pura raiva.
- Você tirou tudo de mim, Lysa. Hunter. Minha posição. Meu orgulho. Me condenou a um casamento com aquele animal que nem me tocava. Tudo por cinco minutos! - Seu tom de voz aumentou, carregado de êxtase. - Mas olhe só. No final, eu fiquei com tudo. Com o homem. Com a fortuna do velho Montclair, que nós tomamos graças ao seu veneno caseiro. E, em breve, terei a fortuna da nossa família também. - Estendeu o punhal para Hunter.
Ele o pegou, os olhos se voltando para o corpo caído de Lysandra.
- Adeus, Lysandra. Sua utilidade acabou. Agora, a verdadeira herdeira Dubois e eu podemos começar nossa vida. Sem sua presença inútil atrapalhando nosso amor.
Antes que Lysandra pudesse sequer processar a monstruosidade daquela sentença, Hunter se abaixou e desferiu um segundo golpe. Preciso. Profundo. Girando a lâmina e deixando-a fincada logo abaixo do coração dela.
O grito que saiu de Lysandra não foi humano. Foi o som de uma alma sendo despedaçada, de um mundo inteiro desmoronando. Tentou mover-se, escapar, mas o corpo tornou-se lento pesado, a dor um mar escuro que a puxava para baixo.
Seus olhos lilases, turvos e cheios de lágrimas, fitaram os dois vultos acima dela. Hunter e Dyana, de mãos dadas, mãos sujas com o sangue dela. Eles riam. Riam alto, um som íntimo e compartilhado de conquista e felicidade. E se beijavam e acariciavam, alheios a dor dupla dela.
A traição envolveu Lysandra. Tinha gosto de cobre em sua língua e queimava sua retina, gravando para a eternidade sua ingenuidade. Ela, que dera tudo pela irmã. Que confiara no marido. Que ajudara a matar um homem – um monstro, pensava ela – para protegê-los. Tudo por amor. Tudo por lealdade.
E, em troca, foi apunhalada por ambos.
O frio se espalhava de dentro para fora. A escuridão crescia, convidativa. Um último fogo, um derradeiro carvão em brasa de ódio, acendeu-se no que restava de sua consciência, quando seu olhar encontrou a lua cheia, atravessando a janela e iluminando sua figura ensanguentada no chão.
Observou o ser através das portas de acesso a varanda, impassível, a testemunha silenciosa da traição final.
Os lábios ressequidos de Lysandra se moveram, sem som. Depois, um sussurro escapou, carregado de toda a sua dor, de toda a sua humilhação, de toda a sua raiva:
- Deusa... da Lua... Veja... isso... Peço... Justiça... Por favor... Me dê... uma chance de... Vingança...
A escuridão a envolveu completamente, doce e absoluta...
E então, uma explosão de luz branca a puxou... enrolou... aqueceu... e soltou...
Num sobressalto, Lysandra ofegou, um puxão brusco de ar enchendo os pulmões que não estavam mais moribundos. Seus olhos se abriram, arregalados, invadidos por uma luz suave de tarde, não pela noite e nem pela penumbra opressiva do quarto da morte.
Ela estava sentada? Sim! Sentada em uma das cadeiras da sala de jantar da casa de sua família. Diante dela, uma mesa de carvalho polido. Sobre a mesa, duas fotos: Em uma, a foto sorridente e orgulhosa de Hunter Renaud, usando o impecável uniforme. Na outra, a imagem séria e intensa de Logan Montclair.
Exatamente como um ano antes...
- Lysandra, querida - a voz de seu pai soou como um eco de um sonho distante, carregada de preocupação paternal -, a escolha é importante, eu sei. Mas não pode demorar mais. Hunter ou Logan? Quem você escolhe como companheiro?
A pergunta, a situação, o local. Estava de volta ao dia em que ela e Dyana escolheram seus companheiros...?!
O mundo era feito de sensações desconexas e brutais. O tecido suave do vestido amarelo aquecia sua pele, uma sensação tão real que parecia impossível ter, segundos atrás, sentido o corpo esfriar contra a seda ensanguentada do traje azul-celeste.
O rosto preocupado e amoroso de seu pai, Maurice Dubois, aproximou-se do seu. As sobrancelhas embranquecidas franzidas, os olhos dourados – idênticos aos de Dyana -, carregados de preocupação genuína pela demora da resposta.
- Querida, está bem? Ficou pálida de repente.
A voz dele ecoou na sala de jantar como se viesse de um túnel. Lysandra sentiu as mãos trêmulas sobre o colo. Ela as cerrou com força, sentindo as unhas cravarem-se nas palmas. A dor pontual, familiar, foi uma âncora. Era real. Estava Viva!
"A Deusa da Lua ouviu minhas preces...", concluiu sorrindo aliviada ao não encontrar nenhum corte ou mancha em sua roupa e nem sentir a dor atravessando-a.
Os olhos lilases, ainda turvos pelo choque, percorreram a cena com a percepção aguçada pelo trauma. Tudo estava exatamente como na primeira vez. As fotografias sobre a mesa. A luz da tarde entrando pelas altas janelas... E então, seu olhar pousou em Dyana ao seu lado.
Um calafrio percorreu seu corpo, mas disfarçou voltando o olhar para as fotos a espera de sua escolha. O que logo se mostrou um erro. Assim que viu o sorriso de Hunter, seu estômago deu voltas. Teve de inspirar e expirar várias vezes para controlar o pânico que se alastrava como fogo gélido por sua pele.
Na primeira vida, declarou e apaixonada o nome de Hunter, e o mundo seguira seu curso rumo a traição que acabou na morte dela.
- Entendo o nervosismo - disse Maurice esfregando uma mão nas costas da filha. - É apenas pela tradição - comentou risonho. - Todos sabem que seu companheiro é o capitão Hunter.
- Não!
Lysandra levou a mão à garganta, estranhando a voz diferente e esganiçada. Mas logo percebeu que não foi ela que expôs o que carregava agora no coração. Arrastando a cadeira no assoalho de madeira, abruptamente, Dyana estava em pé, as mãos espalmadas no tampo.
- Eu escolho o Hunter - declarou Dyana, ansiosa e trêmula.
Fitou a irmã envolvida por uma nova onda de surpresa. Aquela reação e pedido não tinham ocorrido na primeira vez.
O olhar de Dyana não estava fixo nas fotos, nem no pai estarrecido pela interrupção. Estava fixo em Lysandra. Intenso, raivoso e glacial. Era o mesmo olhar que sustentara ao cravar o punhal nela, reconheceu sentindo uma dúvida crescer em seu peito:
Dyana também voltara?
- Dyana, isso é... inapropriado - Maurice balbuciou atônito. - A tradição, o direito de primogenitura...
- Sou mais nova por malditos cinco minutos - ela gritou, deixando o pai pasmo, mas não Lysandra que já ouvira aquela queixa quando a irmã a matou na covardia.
Dyana baixou os olhos, num gesto que outrora Lysandra interpretaria como timidez, mas que agora reconhecia como teatro puro. Quando os ergueu novamente, estavam brilhando com lágrimas que, no entanto, eram convincentes.
- Eu sei que não é meu lugar. Eu sei que Lys é a mais velha... a herdeira... mas não posso calar o que sinto - choramingou, lágrimas grossas deslizando por sua face. - Amo Hunter Renaud. Desde sempre. E... acho que ele também sente algo por mim. Ser forçada a vê-lo com outra... mesmo que seja minha irmã... morrerei. - Lysandra segurou a vontade de bater palmas pela atuação, deixando Dyana continuar sua lamúria. - Imploro por um gesto de amor e misericórdia. Deixe-me escolher primeiro. Deixe-me ter Hunter.
Maurice olhou para Lysandra, a expressão corroída em um conflito de tradição e amor paternal.
- Lysandra, o que diz?
Antes que pudesse responder, novamente, Dyana tomou o controle, agarrando as mãos de Lysandra e puxando-as para junto do peito.
- Lysa, sempre foi tão boa... Sei que será feliz com o senhor Montclair. Eu... eu... - Ela fez uma pausa dramática, sustentando a voz sofrida. - Não sobreviveria... Por favor...
Dyana fitava-a com um brilho de desafio mal escondido sob as lágrimas. "Vai, irmãzinha inútil", aquele olhar parecia dizer. "Fique com o monstro".
Lysandra respirou fundo. Se Dyana tivesse feito isso na primeira vez, teria deixado Hunter para ela, mesmo magoando os próprios sentimentos. Mas não era mais a menina doce e confiante de antes. Era um fantasma em busca de vingança. Assim como tinha quase certeza que Dyana também retornara e estava determinada a mudar o que aconteceu na primeira vez.
Nisso concordavam.
Levantou-se, para ficar na mesma altura do olhar de Dyana, mesmo tendo dez centímetros a menos que a irmã, e dar a resposta que ela e o pai de ambas esperavam.
- Pai, Dyana está certa: o amor não deve ser uma disputa. Menos ainda entre irmãs que se amam e se cuidam - iniciou carregada da falsidade da qual foi vítima. Voltou-se para a irmã, e sorriu, disfarçando seu enojo. - Se ama Hunter tanto assim, a ponto de quebrar a tradição por ele... - Fez uma pausa, deixando a acusação pairar. - Pedirei a Deusa da Lua que tenham a união que merecem.
Maurice arregalou os olhos.
- Lysandra, não precisa tomar essa decisão... Sempre foi apaixonada por Hunter!
- Coisas da infância, pai - minimizou, um sorriso triste e deliberadamente frágil tocando seus lábios. Um toque de teatro para combinar com o da irmã. - Dyana claramente sofre mais e não quero ser a causa da infelicidade dela.
- Isso significa que ficará com Logan Montclair - o pai a recordou. - Tem certeza?
Olhou a foto de Logan Montclair. O homem sério, cabelo e olhos escuros. O monstro. A fera. O homem que matou o pai e a avó dela... E que ela ajudara a matar.
Não o queria. Óbvio. Mas na Ilha Ísiflora, no mundo em geral, uma mulher sozinha, ainda mais ômega, era alvo fácil para predadores. E, para seu azar, somente dois alfas eram dignos da casa Dubois. Um ela escolheu na primeira vida e acabou morta pelas mãos dele. O outro...
Um sorriso lento, tão estranho e deslocado na face suave, tocou os lábios de Lysandra. Não era um sorriso de doçura. Era o primeiro broto de algo gélido e determinado que nascia das cinzas de seu coração humilhado e apunhalado. Um plano para mudar seu destino e de pessoas que amava. Mas, para isso, precisaria de um aliado forte e feroz.
A pergunta do pai pairou no ar, carregada do destino de duas vidas: uma que ela vivera e outra que ela estava prestes a reescrever...
- Escolho o senhor Montclair.
Um silêncio espesso caiu sobre a sala. Dyana parecia triunfante, mas também levemente desconfiada. A rendição de Lysandra fora rápida demais.
- Lysa... tem certeza? Logan Montclair é um desconhecido. Vive isolado naquela mansão no penhasco... dizem coisas estranhas sobre ele e os parentes...
- Todas as famílias têm seus segredos, pai - Lysandra retrucou, pedindo em seguida: - Mas tenho uma condição. - Ela se virou para ele, e agora permitiu que a verdadeira emoção – o desespero protetor – entrasse em seus olhos. - A vovó Lucylle vem comigo.
- O quê?- A interjeição veio de Dyana. - Lysa, a vovó está doente! O clima no penhasco é severo, a solidão...
- Exatamente por estar doente - contra-atacou Lysandra sem olhar para a irmã. Seu olhar permaneceu fixo em Maurice. - Eu sou quem cuida dela. Conheço cada um dos seus remédios, cada um dos seus humores. Separar-nos agora seria cruel com ela e irresponsável comigo. Além do mais, será bom para o senhor Montclair mostrar à ilha que aceita não apenas uma esposa, mas também a ligação familiar que ela carrega. Demonstra a humanidade que declaram que ele não possui.
O argumento foi astuto. Atingiu o senso de status e reputação de Maurice. Ele coçou a barba, ponderando.
- E se ele recusar?- questionou Dyana, a máscara de preocupação rachando levemente ao redor dos olhos. - Ele valoriza a privacidade, tendo somente duas companhias naquele mausoléu... Pelo que escutei falar - ela complementou desviando o olhar.
- Então não há casamento - declarou resoluta, com uma tranquilidade final que não admitia discussão. - Essa é minha única condição.
- E ficará sozinha? - Dyana perguntou parecendo angustiada.
Lysandra presumiu que a única preocupação dela era que, na falta de outro pretendente, o pai mantivesse Hunter como companheiro da primogênita para garantir o futuro da casa Dubois.
- Aparecerá outro pretendente. Nem que eu tenha de sair da ilha para encontrar um - elaborou, se voltando para o pai determinada. - Não importa a resposta do senhor Montclair. Não quero atrapalhar o casamento de Dyana e Hunter.
Maurice olhou para a filha mais velha como se a estivesse vendo pela primeira vez. Havia uma força nova nela, uma resolução que nunca testemunhara. Isso, mais do que qualquer coisa, pareceu convencê-lo.
- Está bem - murmurou resignado. - Vou enviar a mensagem ao senhor Montclair. A escolha de Dyana por Hunter e a sua por Logan, junto com sua condição.
~*~
O cheiro e gosto do sangue era a primeira coisa que voltava. Metálico, quente, inundando sua boca e garganta. Depois, a dor. Um frio lancinante, profundo, crescendo no peito, enquanto a força se esvaía de seus membros. Por fim, os rostos: a satisfação cruel de Dyana, a frieza de Hunter ao cravar a espada em seu coração... e os olhos lilases de Lysandra, arregalados, mas sem surpresa.
Logan acordou com um sobressalto, um rugido engasgado rasgando sua garganta. Seu corpo se projetou para frente na cadeira de couro do escritório, garras retráteis rasgando os braços do móvel maciço como se fossem manteiga. A respiração vinha em arfadas longas e velozes, o coração martelando nas costelas como um tambor. O escritório, seu refúgio, pareceu estranho por um instante. A luz do fim de tarde entrava pela janela alta. Era a mesma luz do dia em que ele morrera, mas... Estava Vivo. O peito doía como se a lâmina ainda estivesse cravada, mas não havia ferida...
A porta do escritório abriu-se, fazendo-se se erguer de um salto, pronto para se defender dos inimigos que abrigou em sua casa. Mas logo se acalmou ao farejar o aroma salgado e fresco de mar característico de Kael, sua sombra mais leal.
- A cerimônia de escolha terminou e a noiva fez uma exigência... - anunciou Kael, parando de falar ao notar a agonia e inquietação de Logan, fechou a porta e parou a uma distância respeitosa, os olhos acinzentados varrendo o ambiente: a cadeira destruída, a respiração ofegante do chefe, o brilho vermelho ainda não totalmente dissipado nos olhos dele. - Teve uma crise?
- Aqueles malditos tentaram me matar! - urrou áspero. Seus caninos estavam prolongadas, pressionando o lábio inferior. Uma raiva fervente, bestial, ameaçava fazer sua pele se romper e a fera emergir ali mesmo, em pleno dia.
- De quem está falando? - Kael questionou acompanhando Logan andar de um lado para o outro como um predador enjaulado.
- Da Dyana, aquela mulher traiçoeira que aceitei como esposa, da irmã e cunhado dela que deixei entrar no meu lar em consideração ao luto deles.
- Com todo o respeito, senhor, você não está casado com ninguém - Kael falou com a paciência de quem explica o óbvio. - O contrato de casamento com Lysandra Dubois só será assinado na próxima semana. Caso concorde com os termos dela - salientou.
- Enlouqueceu? Casei com Dyana ano passado... - disse, a voz enfraquecendo ao notar a falta de um corte no pescoço de Kael. - O que aconteceu com a ferida?
- Ferida? - estranhou Kael, se segurando para não recuar quando Logan, sempre avesso a aproximações, agarrou seus ombros e vistoriou seu rosto.
- A que causaram em você no começo da semana, quando visitamos a fábrica - explicou, falando mais para si mesmo que para o amigo e segurança pessoal. - Por isso não estava no almoço que a maldita da minha esposa me convenceu a participar - falou, olhando enfurecido para a porta. - Onde eles estão? Dyana e aqueles malditos que tentaram me matar.
Kael segurou o chefe antes que saísse sem rumo pela mansão.
- Senhor, não me machuquei na semana passada e não estivemos na fábrica - comentou calmo temendo que a maldição estivesse corroendo a sanidade do patrão. - Tampouco está casado, ainda. Estou aqui justamente para informar que o mensageiro de Maurice Dubois acabou de sair. Lysandra Dubois o escolheu como companheiro. Mas exigi que aceite a avó dela morando com vocês.
O ar saiu dos pulmões de Logan como se ele tivesse levado um soco. Piscou, confuso, as memórias colidindo com a informação.
- O quê? Não. Isso... não está certo - contestou, abanando a cabeça para afastar a informação que colidia com o que lembrava. - Me casei com Dyana... Estamos juntos há um ano... Lysandra... Ajudou no meu assassinato.
Kael permaneceu imóvel. Uma leve ruga apareceu entre suas sobrancelhas.
- Até ontem, você nem sabia qual das irmãs seria designada como sua companheira. Foi um pesadelo. Provavelmente o estresse do último pedido de seu avô e da sua condição.
- Não foi um pesadelo, Kael! - a voz de Logan explodiu. - Foi real. Vivi um ano inteiro! Dyana era minha esposa no papel, mas partilhava a cama com Hunter. Lysandra... estava sempre por perto, com aquele seu cheiro... - Respirou fundo, em busca de foco. - Eles me envenenaram. Colocaram algo na minha comida ou bebida. E Hunter cravou a espada no meu coração! Eu senti a vida se esvaindo... Ela me olhou nos olhos enquanto eu morria... E, de repente, estava aqui!
Kael observou a fúria agonizada de seu líder. Nenhum homem conseguia inventar tantos detalhes, tanta dor visceral. Mas a lógica era inflexível.
- Logan, pense. Se isso tivesse acontecido, estaria morto. Eu estaria cuidando do seu funeral, não do seu casamento. É impossível.
- Sei que é impossível! - rugiu Logan, as garras cravando-se nas palmas das mãos, enchendo o ar com o cheiro de sangue. - Mas foi real. Tão real quanto você diante de mim agora.
- Talvez sejam fragmentos da maldição. Pressentimentos. Alucinações induzidas pelo estresse do retorno e da obrigação do casamento - Kael começou, cauteloso. - O vínculo com a lua e com o ciclo da vida e da morte é profundo na sua linhagem. Pode ser um eco de um futuro que poderia ter sido, se as escolhas fossem outras. A noiva seria Dyana, mas é Lysandra.
Logan fechou os olhos, a tensão escapando de seus ombros em um fluxo lento.
- Pode ser - admitiu, a voz baixando e as garras recuando. - Pode ser isso. Mas o sentimento... a certeza da traição... não se dissipa.
- E o que pretende fazer com essa 'certeza'? - Kael perguntou pragmático. - Lysandra Dubois o escolheu. Não Dyana. Mas apresentou uma condição: a avó doente, Lucylle Sage, deve vir morar na mansão com ela. Vai aceitar essa noiva e a exigência dela?
Logan voltou-se para a janela. Lá embaixo, as luzes da vila começavam a cintilar, inocentes. Lysandra. A loba em pele de cordeirinha que, em seu "sonho" ou "premonição", estava no epicentro da sua queda. O rosto dela foi o último que vira antes da escuridão... e agora ela estava vindo para ser esposa dele?
Um sorriso lento, sem nenhum calor, ergueu um canto da boca de Logan. O brilho vermelho, que quase se apagara, reacendeu no fundo de seus olhos, não mais de raiva, mas predatório. A Fera dentro dele rosnava, alerta e sedenta.