Este deveria ter sido o meu terceiro casamento. Pelo menos, era assim que as coisas deveriam ter acontecido. O vestido branco parecia o figurino de uma peça trágica que eu era obrigada a representar repetidas vezes. Meu noivo, Damião Ávila, estava ao meu lado, mas sua mão segurava o braço de Evelyn Bastos, a sua "amiga frágil".
De repente, diante de todos, Damião começou a guiar Evelyn para longe do altar, a afastando dos convidados e de mim. Mas desta vez foi diferente, pois ele voltou, me empurrou à força para dentro do carro e me levou até uma clareira isolada, onde me prendeu a uma árvore. E Evelyn, já sem nenhum traço de fragilidade, estalou um tapa contra o meu rosto. Logo depois, Damião, o homem que havia jurado me proteger, descarregou sua violência em mim, golpe após golpe, apenas porque eu havia desagradado Evelyn.
Fui deixada ali, amarrada, sangrando e sozinha sob a tempestade. Não era a primeira vez que sofria algo assim. Um ano antes, no próprio dia do casamento, Evelyn já tinha me atacado, e Damião preferiu acolhê-la enquanto eu sangrava. Seis meses depois, ela provocou um "acidente" que queimou a mim e à minha melhor amiga, e Damião, para satisfazer os caprichos dela, quebrou o punho da minha amiga e depois destruiu a minha mão de pintora. Minha carreira terminou naquele instante.
Abandonada no meio da floresta, tremia de frio, à beira de perder os sentidos. Não! Eu não podia morrer ali! Precisava ficar acordada! Mordi meu próprio lábio com força, a dor me trazendo de volta. Meus pais, a empresa da minha família... era por eles que eu precisava resistir.
Quando abri os olhos novamente, estava em um hospital, com minha mãe ao meu lado. A garganta ardia, mas eu sabia que precisava fazer uma ligação. Com esforço, disquei o número internacional que carregava na memória havia anos e murmurei com a voz rouca e frágil: "É Alana Mendes. Aceito o casamento. As condições são que todos os bens da minha família sejam transferidos para suas contas, para proteção. E você nos tire do país."
......
Este deveria ter sido o meu terceiro casamento. Pelo menos, era assim que as coisas deveriam ter acontecido. O vestido branco parecia o figurino de uma peça trágica que eu era obrigada a representar repetidas vezes.
Meu noivo, Damião Ávila, estava ao meu lado, mas sua mão, que deveria segurar a minha, segurava o braço de Evelyn Bastos.
"Não consigo respirar, Damião", Evelyn disse ofegante, com o rosto pálido. "Todo mundo está olhando. Ela está olhando."
Ela estava se referindo a mim.
Damião se voltou para mim, o rosto bonito contorcido numa mistura familiar de irritação e paciência falsa. "Alana, só por um instante. Preciso tirá-la daqui. Ela está tendo mais uma crise de pânico."
Era o roteiro de sempre. Antes que eu pudesse protestar, ele já conduzia Evelyn para longe do altar, a afastando dos convidados, para longe de mim.
Mas desta vez foi diferente, pois ele voltou. O carro parou ao meu lado enquanto eu permanecia congelada nos degraus da igreja.
"Entre", ordenou ele.
Ao ver que eu não me movi, ele agarrou meu braço com força, cravando os dedos na minha pele, e me empurrou para o banco do passageiro. Um rasgo suave cortou a seda do meu vestido.
Dirigimos por horas que pareceram uma eternidade, deixando a cidade para trás, até que a estrada virou apenas uma trilha de terra cercada por mata fechada. Por fim, ele estacionou o carro numa clareira isolada.
"O que você está fazendo, Damião?", perguntei, minha voz trêmula.
"A Evelyn precisa se acalmar", disse ele, frio. "E você precisa aprender o seu lugar."
Ele saiu do carro, o contornou e me puxou para fora, com uma corda em sua outra mão.
"Não tente lutar comigo, Alana", avisou ele.
Ele me empurrou contra um grande carvalho e amarrou meus pulsos ao tronco, apertando a corda com força. A casca áspera arranhava minhas costas através do tecido delicado do vestido.
Minutos depois, outro carro chegou. Evelyn surgiu, seu rosto agora sem a palidez anterior, estampando um sorriso cruel.
Ela se aproximou e me deu um tapa que queimou a pele.
"Isso foi divertido", disse ela, sacudindo a mão. "Mas meu pulso doeu. Sou delicada demais para isso."
Ela se virou para Damião, com um beicinho. "Damião, meu amor, minha mão dói. Você pode fazer isso por mim, por favor?"
Ele olhou para ela, e a expressão de preocupação profunda que jamais demonstrou para mim apareceu em seu rosto. "Claro, Evelyn. Tudo por você."
Olhei nos olhos do homem que amei, que jurou me proteger, mas não vi nada além de frieza e dever para outra mulher.
"Isso é por ter deixado a Evelyn nervosa", disse ele, com calma.
Então ele me bateu com sua palma aberta, não uma vez ou duas, mas dez vezes.
Minha cabeça balançava, o mundo ficou embaçado e senti o gosto metálico do sangue.
Finalmente, ele parou e respirou pesado, parecendo satisfeito.
Minha cabeça pendia, e meu lindo vestido de noiva estava sujo de terra e sangue.
Toda resistência havia me abandonado e meus olhos estavam vazios - eu estava derrotada.
Damião estendeu a mão e limpou, com o polegar, um filete de sangue do canto da minha boca. O gesto grotescamente terno me enojou.
"Você sabe como ela é frágil, Alana", murmurou ele. "O pai dela foi meu mentor. Eu devo tudo a ela."
Se endireitando, ele avisou: "Volto para te buscar mais tarde. Assim que Evelyn se acalmar."
Ele pegou Evelyn nos braços e a colocou no banco do passageiro com cuidado. Enquanto se afastavam, ela olhou por cima do ombro e me deu um aceno vitorioso.
No momento em que sumiram de vista, uma onda de náusea e raiva me atingiu. Tossi, e um jato de sangue manchou meu vestido branco.
Lembrei-me da primeira tentativa de casamento, um ano atrás, quando estávamos no altar, cercados de familiares e amigos.
De repente, Evelyn, uma das convidadas, gritou, avançou sobre mim, rasgou meu véu e arranhou meu rosto com unhas afiadas. Damião correu até ela, a envolvendo em seus braços e murmurando palavras de conforto, enquanto meu sangue escorria e eu mal conseguia respirar. Acabei no hospital com arranhões tão profundos que quase deixaram marcas permanentes. O médico disse que eu tinha sorte. Sorte? Eu não sentia nada disso.
Seis meses depois, tentamos um casamento mais discreto, algo íntimo e privado. Mas Evelyn, sempre calculista, "acidentalmente" tropeçou enquanto carregava uma chaleira de água fervente, mirando em mim. Clara, minha melhor amiga, me empurrou e acabou queimando o braço. Evelyn gritou de dor ao receber alguns respingos, e Damião, ignorando a gravidade do ferimento de Clara e meu desespero, decidiu puni-la por "agredir" Evelyn - quebrou o pulso dela bem diante dos meus olhos, enquanto eu implorava para que parasse.
Como se isso não fosse suficiente, para acalmar Evelyn, ele ainda "acidentalmente" bateu a porta do carro na minha mão direita, minha mão de pintar, a mesma que me havia tornado uma das artistas mais promissoras da minha geração. Minha carreira acabou naquele dia.
Foi naquele dia que finalmente tomei uma decisão: queria terminar o noivado.
Ele se ajoelhou diante de meus pais e de mim, lágrimas escorrendo pelo rosto, implorando por outra chance. "Eu juro, Alana, isso nunca mais vai acontecer. Eu te amo tanto."
Olhei para ele, para aquele teatro perfeito, tão convincente, e percebi que tudo era mentira. Uma risada amarga escapou dos meus lábios, quase sem querer.
Agora, sozinha na mata, o frio se infiltrava nos meus ossos, cortando como lâminas. A chuva caiu forte, gelada, ensopando meu vestido rasgado e grudando meus cabelos na minha face.
Eu tremia sem conseguir controlar meu corpo, e minhas bordas de visão começaram a escurecer. A consciência estava se esvaindo.
Não! Eu não podia morrer ali! Precisava ficar acordada! Precisava viver!
Mordi meu próprio lábio com força, a dor me trazendo de volta.
Meus pais, a ideia de eles me encontrando assim... e o que Damião faria com a empresa da minha família se eu morresse... Era isso que me mantinha firme, mas a dor era intensa, pulsando em cada parte do corpo, e meu corpo cedia lentamente.
Meus olhos se fecharam.
A próxima sensação não foi de frio, mas de calor: uma agulha perfurando meu braço.
Aquecida e seca, abri os olhos lentamente em um hospital. O teto era branco, e o cheiro de antisséptico dominava o ambiente.
Tentei me mexer, mas meu corpo protestou com dor.
"Alana? Oh, querida, você acordou!" Era a voz da minha mãe, embargada de lágrimas. Ela correu até a minha cama, seu rosto misturando alívio e preocupação.
"Nunca mais me assuste assim", ela disse, soluçando e segurando minha mão com força. "Se algo acontecer com você, eu não consigo viver, Alana. Não consigo."
Apertei sua mão com dificuldade. Minha garganta ardia, como se estivesse em brasa.
"Mãe", murmurei. "Meu celular."
Falar era um esforço doloroso. Engoli com dificuldade, sentindo cada palavra cortando minha garganta.
Ela, com os olhos marejados, pegou o celular da mesa de cabeceira e me entregou.
Minhas mãos tremiam, mas não vacilei e disquei o número internacional que guardava na memória há tempos.
A voz calma e firme de Léo, o irmão mais novo de Frederico Guedes, soou do outro lado da linha: "Alô?"
"É Alana Mendes", eu disse, com a voz rouca e frágil. "Eu aceito o casamento."
Houve uma pausa do outro lado.
"As condições são...", acrescentei, controlando a dor. "Que todos os bens da minha família sejam transferidos para suas contas, para proteção. E você nos tire do país."
"Combinado", respondeu ele, firme e seguro. "Então, o casamento será em três dias. Eu cuidarei de tudo."
"Mais uma coisa", acrescentei, um alívio estranho me percorrendo. "Preciso que venha me buscar pessoalmente."
"Estarei aí."
A ligação terminou e, quando ergui os olhos, encontrei o olhar da minha mãe fixo em mim. Havia esperança misturada com medo em seus olhos.
"Outro casamento?", ela murmurou, quase sem voz. "Alana, tem certeza de que vai dar certo desta vez?"
Me limitei a assentir, exausta demais para explicar qualquer coisa. Além disso, ainda não havia revelado todo o plano para ela.
Nesse instante, a porta do quarto se abriu.
Damião surgiu ali, segurando um buquê com meus lírios preferidos.
Meu coração disparou e um pavor gelado tomou conta de mim - ele não podia estar ali, não agora!
Olhei desesperada para minha mãe, que entendeu no mesmo momento e se posicionou entre mim e a porta, como se quisesse me proteger.
"Ele não pode descobrir meu casamento", pensei, com o pânico crescendo. "Se descobrir, nunca vai me deixar partir. Vai me prender a ele para sempre. Esse era o seu modo de amar."
Damião entrou mais um passo no quarto, seus os olhos carregados de uma tristeza encenada, e disse com voz macia, quase suplicante: "Alana, minha querida, preciso te pedir algo."
Meu corpo ficou rígido, enquanto o encarava.
"Evelyn e eu... vamos nos casar. Amanhã."
As palavras me atingiram como uma pancada no estômago.
"Mas é só fachada", ele continuou apressado, notando minha expressão. "O terapeuta dela sugeriu. É uma forma de dar segurança a Evelyn, para que ela possa se recuperar. Depois, eu me divorcio e ficamos juntos. De verdade. Vou te dar tudo o que você sempre sonhou."
Seus olhos imploravam que eu acreditasse quando ele completou: "Eu só preciso que você esteja lá, Alana, como madrinha da Evelyn."
A ironia disso quase me fez rir. Madrinha? No casamento da mulher que me destruiu e do homem que deveria ser meu noivo?
Meu coração, já tão machucado, se contraiu de dor. Para ele, o que eu era? Um brinquedo descartável? Um animal de estimação que podia ser ferido e depois acalmado com promessas ocas?
Lembrei-me das palavras que tantas vezes ouvi dele: "Alana, você é o meu mundo, minha única."
Mentira! Uma raiva quente percorreu minhas veias, e peguei o copo de água da mesa de cabeceira, arremessando contra ele.
"Saia daqui!"
Ele desviou com facilidade e o copo se espatifou contra a parede, espalhando estilhaços pelo chão.
"Alana, por favor, seja razoável", disse ele, irritantemente calmo, como se nada tivesse acontecido. "Haverá um casamento simples é amanhã. Vou mandar alguém te buscar. E a grande festa será na próxima semana."
Ele queria legitimar seu relacionamento com Evelyn enquanto me mantinha sob controle? Queria que o mundo visse que eu, sua verdadeira noiva, aprovava a união deles? Era a humilhação máxima.
"Vocês dois são doentes", esbravejei cuspindo, com a voz trêmula de ódio. "Você e ela são loucos. E eu não sou a cura de vocês."
Agarrei o travesseiro e joguei nele com toda a força.
Dessa vez, ele não desviou. O objeto bateu em seu peito e deslizou para o chão sem impacto.
"Vai chegar para você um vestido lindo", ele disse, imperturbável. "Lilás, a sua cor favorita."
Ele deu alguns passos em minha direção. "Quando tudo terminar, eu vou compensar você. Juro que vou."
"Saia daqui!", gritei de novo, a voz rasgando minha garganta e ecoando pelos corredores do hospital.
Nas horas seguintes, meu quarto se transformou num palco para a peça doentia que eles encenavam - Evelyn e Damião apareciam juntos, quase diariamente, e se sentavam perto da minha cama, de mãos dadas, falando de seus planos e implorando para que eu aceitasse participar da cerimônia.
Evelyn fingia fragilidade, com os olhos cheios de uma inocência falsa. "Alana, por favor. Eu tenho tanto medo. Se você estivesse lá, eu teria mais segurança."
E logo encenava uma crise, levando a mão ao peito, arfando, como se fosse desmaiar.
As enfermeiras e pacientes me olhavam com reprovação e cochichavam: "Aquela pobre moça... E a noiva dele é tão cruel com ela."
Eu era a vilã da história que eles tinham inventado.
Durante uma visita, não aguentando mais, encarei Evelyn e disse, com a voz baixa e envenenada: "Espero que você morra."
Seu rosto se desfez em lágrimas instantâneas. "Eu não posso, Damião! Não consigo me casar com você se ela me odeia tanto! Vamos cancelar tudo!"
Então, ela saiu correndo do quarto, chorando alto.
Damião se virou para mim, seu rosto distorcido de raiva, e agarrou meus ombros com força.
"Por que você precisa ser tão difícil?", rugiu ele. "Não pode simplesmente aguentar por um tempo? Por mim?"
Com seus olhos selvagens e desesperados, ele continuou: "Estou fazendo isso por nós dois! Assim que ela melhorar, tudo volta ao normal, eu prometo!"
"E se ela nunca melhorar?", perguntei, fria.
Ele hesitou por um instante. "Ela vai. Ela tem que melhorar."
Eu estava cansada, cansada demais de lutar. "Vai atrás dela, Damião, antes que ela se jogue na frente de um carro e eu seja acusada pela morte dela."
Isso foi suficiente para ele me soltar e sair correndo, gritando o nome de Evelyn pelos corredores.
Olhei para a porta aberta, sentindo meu peito vazio, pesado.
Eu não suportava mais ficar ali, então, decidi pedir alta. Arrumei minhas poucas coisas, com minhas mãos firmes e uma determinação nova.
Enquanto caminhava pelo saguão do hospital, vi Damião, que estava parado próximo ao balcão de informações, sorridente, distribuindo pequenas caixas de lembrancinhas de casamento às enfermeiras.
"Parabéns pelo casamento, senhor Ávila!", disse uma delas, sorrindo.
Meu estômago gelou, e logo peguei o celular. Havia uma mensagem nova, de Evelyn.
Ela havia mandado uma foto: duas mãos entrelaçadas, cada uma exibindo uma aliança dourada.
Logo abaixo, outra imagem: a certidão de casamento oficial, datada daquele mesmo dia.
O casamento não seria amanhã, mas era hoje. Ele havia mentido mais uma vez!
Uma risada seca escapou dos meus lábios, e segurei firme a alça da minha mala de mão, os dedos tão tensos que quase perdi a cor.
Do outro lado do saguão, estava o homem que deveria ser meu marido, celebrando o casamento com outra.
Lembrei-me da mãe dele, rígida e sempre prática, o pressionando para apressar o matrimônio. "Casamento também é negócio, Damião. Uma fusão de famílias significa uma fusão de empresas."
Naquele dia, ele segurou minhas mãos com tanta ternura e fitou meus olhos com tanta devoção. "Não, mãe, vou me casar com a Alana porque a amo. Quero que tudo seja perfeito para nós dois. Dia vinte de maio, esse será o nosso dia."
Perguntei por que essa data, e ele apenas sorriu, enigmático. "Vai ser uma surpresa."
Eu esperei, acreditando como uma tola ingênua, mas no tão esperado dia, quem subiu ao altar com ele foi Evelyn Bastos.
Curiosamente, desta vez, a memória não trouxe dor, mas sim um estranho alívio.
Nesse momento, uma enfermeira passou diante de mim, mastigando com gosto um bombom delicado. "O senhor Ávila é mesmo generoso. São chocolates suíços personalizados. Imagine o preço."
Quando me viu parada ali, sorriu com gentileza e me estendeu um pedaço: "Pegue, é um dia de comemoração."
Não aceitei, apenas olhando.
Meu olhar voltou a Damião, que ria, encantado, sem perceber minha presença.
Então Evelyn surgiu ao lado, radiante em seu vestido branco simples, se esticou na ponta dos pés e depositou um beijo tímido na bochecha dele.
Ele passou o braço pela cintura dela com naturalidade, exibindo aquele sorriso carinhoso e tão convincente.
A chefe das enfermeiras se aproximou, curiosa. "E quando será a grande festa? Queremos ver a noiva deslumbrante no vestido."
Damião respondeu com segurança: "Na próxima semana. Será uma celebração enorme, transmitida para o mundo inteiro. Quero que todos saibam o quanto amo minha esposa."
Ele segurou a mão de Evelyn como se fosse o retrato perfeito do marido devotado.
Então, virei as costas e deixei o hospital.
Em casa, sobre a cama, o vestido lilás me esperava, o mesmo que ele havia escolhido para que eu usasse no casamento deles.
Imediatamente, o peguei e levei até a lareira para queimá-lo. Vi as chamas engolirem o vestido, transformando cada detalhe delicado em cinza escuro. Não chorei, nem sorri, apenas assistindo.
Logo depois, subi ao quarto e arrastei do fundo do armário uma caixa pesada. Dentro, estavam todos os presentes que ele já tinha me dado, embalados no mesmo papel azul profundo, salpicado de pequenas estrelas prateadas.
"Por que essa cor?", perguntei uma vez, passando os dedos pelo desenho.
Ele me beijou e respondeu: "Porque você é o meu céu, Alana. Meu tudo."
As lembranças vieram como um golpe no peito - olhos apaixonados, promessas doces, mãos quentes segurando as minhas... Tudo parecia uma vida que não era mais minha.
Levei a caixa até a lareira e atirei tudo no fogo. As chamas rugiram, consumindo não só os presentes, mas também a história que eles carregavam.
O passado virou cinza.
Peguei o celular e fiz duas ligações. A primeira para um corretor: "Quero vender a casa. Preciso que seja imediato."
A segunda foi para o jardineiro: "Arranque todas as hortênsias azuis. Cada uma. Não quero vê-las mais."
Damião tinha plantado aquelas flores com cuidado, sujando as mãos de terra. "São da cor dos seus olhos quando você sorri."
Eu não precisava mais daquelas flores, nem dele.
Quando tudo terminou, um cansaço pesado me dominou, deitei na cama vazia e adormeci num sono agitado.
Acordei com a estranha sensação de estar sendo observada. Uma mão percorria meu cabelo.
Abri os olhos num sobressalto.
Damião estava ali, inclinado sobre mim, com o rosto tão próximo que pude sentir o cheiro de champanhe caro em seu hálito.
O empurrei com força, arrastando meu corpo para o outro lado da cama.
"O que pensa que está fazendo aqui?", sibilei. "Você é um homem casado agora. Isso é absurdo."
Um aperto atravessou meu estômago ao perceber que ele ainda tinha uma chave da casa, então, fiz uma anotação mental para trocar as fechaduras ao amanhecer.
Damião se ergueu, fingindo mágoa. "Alana, não seja assim."
Ele estendeu a mão, tentando tocar meu cabelo de novo. "Só peço mais um pouco de paciência. Eu vou me divorciar dela, eu juro. E então você terá o casamento mais grandioso que já existiu."
Seus olhos brilhavam com a mesma intensidade de sempre. Uma atuação impecável!
"Você ficou ferida", disse ele baixinho. "Eu sei que ficou."
De repente, um grito atravessou a casa. "Damião! Onde você está? Você prometeu que não me deixaria!"
A voz era de Evelyn, que devia ter seguido seus passos e ouvido tudo.
Houve um silêncio breve, depois um pranto desesperado. "Se você voltar para ela, eu me mato! Faço isso agora mesmo!"
Escutamos a porta bater e, em seguida, o som dos pneus arrancando na rua.
Meus pais, despertados pelo barulho, entraram no quarto às pressas, viram as duas figuras correndo lá fora e depois olharam para mim, o rosto carregado de preocupação.
Eu estava exausta demais para qualquer explicação.
"Troquem as fechaduras", pedi, com a voz neutra.
Eles se entreolharam, inquietos, mas não questionaram, apenas se retirando em silêncio.
Puxei as cobertas até a cabeça e desejei, do fundo da alma, que o mundo simplesmente desaparecesse.