Meu casamento de cinco anos com Arthur era uma jaula dourada, após a morte do meu amado Leo, eu vivia como uma morta-viva, presa a um contrato de negócios.
Pensei que a liberdade estava ao meu alcance quando Arthur, em sua pressa, assinou nossos papéis do divórcio.
Mas Letícia, sua ex-amante e obsessão, me atacou com fúria cega, certa de que eu estava grávida e tentando "prender" Arthur, resultando em um trauma que meu corpo jamais esqueceria.
Internada, a verdade veio à tona: Letícia havia tentado me matar, e pior, Arthur a defendeu, justificando sua violência com um amor "que consome tudo".
Essa frieza me destruiu, mas também me libertou.
Decidida a recomeçar, mesmo que fosse buscando um fantasma para me agarrar, procurei um substituto de Leo na Cidade do Sul.
Mas a vida tinha seus próprios planos, incluindo um reencontro brutal com Arthur e Letícia, e uma revelação sobre o homem que prometeu ser meu novo começo.'
A mão de Arthur pegou o guardanapo de linho, seus movimentos eram elegantes e medidos, como sempre. Ele se inclinou sobre a mesa e limpou um canto da minha boca com uma delicadeza que parecia ensaiada.
"Tem um pouco de molho aí", ele disse, sua voz era baixa e sem emoção, a mesma voz que ele usava em reuniões de negócios.
"Obrigada", eu respondi, forçando um pequeno sorriso.
Nós nos olhamos por um segundo. Nos seus olhos não havia calor, apenas o reflexo das velas caras na nossa mesa de jantar. Nos últimos cinco anos, cada jantar era assim, uma performance de um casal perfeito para uma plateia invisível. Nossos talheres de prata batiam suavemente na porcelana fina, o único som no vasto salão de jantar. A intimidade era uma formalidade, um ato coreografado que ambos executávamos com precisão.
Depois do jantar, ele foi para o seu escritório e eu subi para o meu quarto. Os quartos eram separados, claro. Passei pelo espelho do corredor, a mulher que me encarava era linda, vestida com roupas de grife, mas seus olhos estavam vazios. A casa inteira parecia um mausoléu, frio e silencioso, um invólucro para um casamento morto.
Entrei no meu quarto e tranquei a porta. O alívio foi imediato. Finalmente, eu podia parar de atuar. Fui até a gaveta da minha penteadeira e tirei uma pasta de couro. Dentro dela, estavam os papéis do divórcio, já preenchidos e esperando apenas pela assinatura dele. Ao lado dos papéis, havia uma pequena foto gasta pelo tempo, um jovem sorrindo sob o sol, seus olhos cheios de vida. Leo.
Meu peito se apertou. Eu estava fazendo isso por ele, e por mim. Eu precisava ser livre. O desejo de acabar com tudo isso era uma chama constante dentro de mim, me dando forças para continuar.
Nosso casamento foi um acordo, um contrato de cinco anos para unir nossas famílias de negócios. Quando nos casamos, ambos tínhamos outras pessoas. Eu tinha Leo, o amor da minha vida. Arthur tinha Letícia, sua paixão de infância. O acordo era simples: seríamos o casal modelo em público, mas em particular, nossas vidas e corações pertenciam a outros. O contrato estipulava que após cinco anos, se nenhum herdeiro fosse produzido, o casamento seria dissolvido, e eu receberia uma compensação generosa. Ninguém jamais esperava que nos apaixonássemos, e não o fizemos. Mas o destino foi cruel, Leo morreu em um acidente de carro um ano depois do meu casamento, e eu fiquei presa neste limbo dourado.
O som do telefone de Arthur tocando no andar de baixo me tirou dos meus pensamentos. Ouvi sua voz, agora cheia de uma urgência que ele nunca usava comigo.
"O que aconteceu? Ela está bem? Estou indo agora mesmo."
Ouvi seus passos apressados no corredor. Ele estava indo para a porta. Eu peguei a pasta e desci as escadas correndo.
"Arthur, espere", chamei.
Ele parou com a mão na maçaneta, já vestindo o casaco, a impaciência clara em seu rosto. "Estou com pressa, Elisa. É a Letícia, ela está no hospital."
"Eu sei, só preciso que você assine uma coisa. É para a empresa, um documento urgente", eu disse, estendendo a pasta e uma caneta. Mantive meu rosto neutro, escondendo a batida acelerada do meu coração.
Ele nem olhou. Sua mente estava em outro lugar, com outra pessoa. Ele pegou a caneta, rabiscou sua assinatura no local que eu apontei e me devolveu a pasta. "Preciso ir."
Ele saiu batendo a porta. Eu fiquei ali, parada na entrada, com os papéis do divórcio assinados na minha mão. Um sorriso amargo tocou meus lábios. Ele nem sabia que tinha acabado de assinar sua própria liberdade, e a minha.
Voltei para o meu quarto e peguei meu telefone. Disquei o número do meu advogado.
"Ele assinou", eu disse, minha voz firme. "Podemos iniciar o processo. Quero que tudo esteja finalizado o mais rápido possível."
Depois de desligar, fui até a janela e olhei para a cidade iluminada. Eu não sentia nada, nem alegria, nem tristeza. Apenas um vasto vazio e a determinação de preenchê-lo. Eu já tinha um plano. Eu iria para a Cidade do Sul. Anos atrás, eu vi um artigo sobre um jovem pintor de lá, um artista de rua que se parecia assustadoramente com Leo. Ele seria meu ponto de partida. Eu não estava procurando por amor, não mais. Eu estava procurando por um substituto, uma sombra para me agarrar. Era um pensamento doentio, eu sabia, mas era a única coisa que me mantinha de pé. A dor da perda de Leo era uma ferida que nunca cicatrizou, e eu estava desesperada por qualquer tipo de alívio, mesmo que fosse uma ilusão.
Acordei na manhã seguinte com os raios de sol entrando pela janela. Pela primeira vez em anos, senti uma centelha de esperança. Tive um sonho bom, um sonho com um futuro que eu mesma escolheria. Levantei-me, tomei um banho demorado e vesti um vestido leve e casual. A liberdade estava tão perto que eu quase podia tocá-la.
Desci as escadas e encontrei a casa em um estado de comoção incomum. A porta da frente estava aberta, e vozes enchiam o ar geralmente silencioso. Arthur estava de volta. E ele não estava sozinho.
Ele estava no meio da sala de estar, e ao seu lado, com a mão possessivamente em seu braço, estava Letícia. Ela usava um pijama de seda rosa e parecia pálida, mas seus olhos brilhavam com um triunfo mal disfarçado. Atrás deles, um grupo de empregados carregava malas e caixas.
"Elisa", Arthur me chamou quando me viu. Seu rosto mostrava um traço de cansaço, mas também de alívio. "Letícia teve um pequeno susto ontem à noite. O médico disse que ela precisa de repouso absoluto. Ela vai ficar aqui por um tempo."
Ele disse isso como se fosse a coisa mais natural do mundo, trazer sua amante para a casa que ele dividia com sua esposa.
Letícia me deu um sorriso fraco e condescendente. "Espero não incomodar."
"Claro que não", Arthur disse rapidamente, antes que eu pudesse responder. Ele se virou para mim, sua expressão se tornando mais formal. "Eu sei que isso é repentino. Como compensação, você pode escolher qualquer carro da garagem. Ou uma joia. O que você quiser."
Eu olhei para ele, para a oferta descarada de me comprar, de me pagar para aceitar essa humilhação. A antiga Elisa teria aceitado em silêncio. Mas a nova Elisa, a mulher com os papéis do divórcio assinados em seu quarto, não iria.
"Não preciso de compensação, Arthur", eu disse calmamente, minha voz surpreendentemente firme. "A casa é grande o suficiente." Eu olhei para Letícia. "Seja bem-vinda."
Minha calma pareceu desconcertá-lo. Ele esperava lágrimas, ou uma briga. Ele não esperava essa aceitação fria. Ele me estudou por um momento, uma ruga de confusão se formando entre suas sobrancelhas. Ele não fazia ideia do que estava por vir.
Letícia, por outro lado, pareceu irritada com a minha falta de reação. Ela se aproximou de mim, seu sorriso doce se tornando mais afiado. "Você é tão compreensiva, Elisa. É por isso que Arthur te admira tanto. Você sempre sabe o seu lugar."
A provocação era clara. Ela queria uma reação, queria me ver desmoronar. Eu apenas a encarei com a mesma expressão polida e contida que aperfeiçoei ao longo de cinco anos.
"Estou feliz que Arthur tenha alguém para cuidar dele", eu respondi, e me virei para sair da sala.
"Arthur, querido", a voz chorosa de Letícia o chamou. "Minha cabeça dói. Você pode ficar comigo um pouco?"
"Claro, meu bem", ele respondeu instantaneamente, sua atenção totalmente voltada para ela.
Eu não olhei para trás. Subi as escadas e fui para o meu quarto. Ignorei-os completamente e comecei a arrumar minha mala. Eu não precisava de muito, apenas o essencial. O resto, as roupas de grife, as joias, tudo o que pertencia a "Sra. Patterson", eu deixaria para trás. Eu estava focada, meu objetivo claro na minha mente.
Mais tarde, enquanto eu passava pelo corredor, ouvi vozes vindas do quarto de Arthur. A porta estava entreaberta.
"...mas eu quero você, Arthur. Agora", Letícia dizia, sua voz manhosa.
Houve uma pausa. Então, a voz de Arthur, mais baixa e séria. "Letícia, nós conversamos sobre isso. Eu sou um homem casado. Enquanto eu estiver casado com Elisa, não posso."
Eu parei, surpresa. Apesar de tudo, ele mantinha uma linha de respeito ao nosso contrato. Era uma honra vazia, mas ainda assim, uma honra. Isso não mudava nada, mas era... interessante.
Continuei meu caminho. Alguns minutos depois, a porta do meu quarto se abriu. Era Arthur. Seus olhos percorreram o quarto e pousaram na minha mala semi-aberta na cama.
"Você vai a algum lugar?", ele perguntou, a confusão em seu rosto se aprofundando.
"Apenas uma pequena viagem de fim de semana. Visitar uma amiga", menti suavemente. "Preciso de um pouco de ar fresco."
Ele pareceu aceitar a resposta. Ele se aproximou de mim, seu olhar intenso. Ele parecia diferente, quase vulnerável. Ele estendeu a mão e tocou meu rosto.
"Eu preciso de você, Elisa", ele sussurrou, e o significado por trás de suas palavras era inconfundível. Ele estava pedindo a intimidade que nosso contrato permitia, a que ele tinha acabado de negar a Letícia.
Eu o encarei, a confusão agora era minha. O que ele estava fazendo? Eu pensei no que ouvi. Ele a rejeitou por causa do nosso casamento, e agora ele estava vindo até mim?
"Eu ouvi você e Letícia", eu disse diretamente, sem rodeios.
Ele não pareceu envergonhado. Ele apenas assentiu. "Ela vai ter que esperar. Você é minha esposa." Ele se inclinou, sua boca perto da minha orelha. "Vamos?"