A minha empresa, a InovaTech, era o trabalho da minha vida, construída do zero com meu namorado, Caio, ao longo de dez anos. Éramos namorados da faculdade, um casal de ouro, e nosso maior negócio, um contrato de 250 milhões de reais com a Apex Capital, estava finalmente sendo fechado.
Então, uma onda súbita de náusea me atingiu e eu desmaiei, apenas para acordar em um hospital. Quando voltei ao escritório, meu cartão de acesso foi negado, meu acesso revogado, e minha foto, vandalizada com um "X", estava no lixo.
Karina Schmidt, uma jovem estagiária que Caio havia contratado, estava sentada na minha mesa, agindo como a nova Diretora de Operações. Ela anunciou em voz alta que "pessoal não essencial" deveria se manter afastado, olhando diretamente para mim. Caio, o homem que me prometeu o mundo, ficou ao lado, seu rosto frio e indiferente. Ele ignorou minha gravidez, chamando-a de distração, e me colocou em licença obrigatória.
Vi um tubo do batom vermelho vivo de Karina na mesa de Caio, o mesmo tom que eu tinha visto no colarinho dele. As peças se encaixaram: as noites tardias, os "jantares de negócios", sua súbita obsessão pelo celular - era tudo mentira. Eles estavam planejando isso há meses.
O homem que eu amava se foi, substituído por um estranho. Mas eu não os deixaria levar tudo. Eu disse a Caio que estava indo embora, mas não sem minha parte inteira da empresa, avaliada pelo preço pós-financiamento da Apex. Também o lembrei de que o algoritmo principal, aquele em que a Apex estava investindo, estava patenteado apenas em meu nome.
Saí, pegando meu celular para ligar para a única pessoa que eu nunca pensei que ligaria: Heitor Janson, meu rival mais feroz.
Capítulo 1
"É o Heitor Janson?"
Um momento de silêncio do outro lado da linha, depois uma voz suave e grave respondeu. "Ele mesmo. Com quem eu falo?"
"Beatriz Moraes."
O silêncio se estendeu ainda mais desta vez, denso de perguntas não feitas. Eu podia imaginá-lo em seu escritório de canto, aquele com a vista panorâmica da cidade, provavelmente franzindo a testa para o celular. Éramos rivais. Sua empresa, a Nexus Dinâmica, tinha sido nossa concorrente mais acirrada nos últimos três anos. Nós não fazíamos ligações amigáveis.
"Beatriz Moraes", ele repetiu lentamente, o som do meu nome uma pergunta em si. "Devo dizer, isso é inesperado."
"Eu sei", eu disse, minha voz firme, não traindo nada do caos dentro de mim. "Estou ligando com uma proposta de negócios. Quero levar o acordo da Apex Capital para você."
A respiração presa do outro lado da linha foi minha primeira pequena vitória. "O acordo da Apex? Pensei que estava fechado com você e o Caio. Com... a sua empresa."
"As coisas mudaram", afirmei secamente.
"Mudaram como?", ele pressionou, seus instintos de CEO entrando em ação. "Bia, o que está acontecendo? Isso é sobre o Caio?"
Sua franqueza me surpreendeu. "Isso é sobre negócios, Heitor. É uma oportunidade de duzentos e cinquenta milhões de reais. Eu construí a arquitetura, eu tenho o relacionamento com a Apex. Eles investiram em mim, não no nome da empresa. Eu posso levar para a Nexus."
"Todo mundo neste mercado sabe que você construiu essa empresa do zero", ele disse, seu tom mudando de desconfiança para algo mais suave. "Eu te vi em conferências. Você trabalha o dobro de qualquer um na sala, e é duas vezes mais inteligente."
Ele fez uma pausa. "Lembro de ouvir sobre os primeiros dias. Você e o Caio vivendo de Miojo, programando na garagem. Você colocou sua herança nos custos dos servidores quando ele não conseguiu pagar a folha."
Eu me encolhi. Ele sabia demais.
"Também ouvi dizer que houve algum problema hoje", ele continuou, sua voz cuidadosa. "Que você foi... demitida."
Um choque frio percorreu meu corpo. "Como você ouviu isso?"
"A notícia corre rápido quando envolve a melhor arquiteta de software do mercado sendo expulsa da própria empresa na véspera de uma grande rodada de financiamento", ele respondeu, um toque de raiva em sua voz em meu nome.
Apoiei a cabeça no vidro frio da janela, olhando para as luzes da cidade que antes pareciam tão cheias de promessa. Minha cidade. Minha empresa. Meu sonho.
Ele estava certo. Eu tinha sacrificado tudo. Dez anos da minha vida, investidos em Caio Rocha e nossa startup, a InovaTech. Éramos namorados da faculdade, o casal de ouro que ia mudar o mundo juntos.
Nos conhecemos em um laboratório de Ciência da Computação, ambos movidos a cafeína e ambição. Ele era o líder carismático, o visionário. Eu era a força de trabalho, aquela que transformava suas grandes ideias em código elegante e funcional.
Construímos a InovaTech com minhas economias e o charme dele. Trabalhávamos dezoito horas por dia. Compartilhávamos pizza barata no chão do nosso pequeno escritório, sonhando com o dia em que nosso nome estaria em um arranha-céu.
Tudo parecia tão real, tão sólido. Nosso futuro.
Alguns meses atrás, quando a náusea começou, pensei que era apenas esgotamento. Mas não era. Era um pequeno tremor de uma nova vida. Nossa vida.
Eu estava grávida.
Quando contei a Caio, ele me levantou e me girou, seu rosto iluminado com uma alegria que eu não via há anos. "Um bebê, Bia! Nosso bebê! É isso. É tudo."
Estávamos em nosso apartamento, aquele que finalmente podíamos pagar após a rodada de semente. Segurei seu rosto em minhas mãos. "Caio, vamos nos casar. Vamos oficializar. Por nós, pelo bebê."
O sorriso em seu rosto não desapareceu, mas se contraiu. A luz em seus olhos piscou. Ele me colocou no chão gentilmente, suas mãos em meus ombros. Um longo e calculista silêncio se seguiu.
"Bia, meu bem, claro", ele disse finalmente, sua voz como seda. "Mas pense bem. O acordo da Apex é na próxima semana. Esta é a culminação de tudo pelo que trabalhamos. Duzentos e cinquenta milhões de reais. Isso vai nos fazer."
Ele gesticulou ao redor do apartamento, seus olhos brilhando com aquele fogo familiar. "Isso é só o começo. Depois que o acordo fechar, estaremos no topo do mundo. Podemos ter o casamento dos seus sonhos, comprar uma casa de verdade, dar tudo a este bebê."
Ele se inclinou, sua testa contra a minha. "Vamos só esperar. Não vamos nos distrair deste último empurrão. Depois que assinarmos aqueles papéis, sou todo seu. Somos todos seus. Eu prometo."
E como uma tola, cega por uma década de amor e história compartilhada, eu acreditei nele.
"Ok, Caio", eu sussurrei. "Depois do acordo."
O e-mail da Apex Capital chegou em uma terça-feira de manhã. Era uma confirmação simples. Eles amaram a demonstração final. O dinheiro foi aprovado. A assinatura oficial estava marcada para sexta-feira.
Eu li as palavras "Temos o prazer de prosseguir" e meu estômago revirou com uma onda de alegria e alívio tão intensa que tive que me segurar na beirada da minha mesa. Nós conseguimos. Depois de todo o sacrifício, todas as noites sem dormir, nós finalmente conseguimos.
A próxima coisa que soube foi que o mundo girou. Pontos pretos dançaram na minha visão. Lembro-me de tentar alcançar minha cadeira e errar.
Acordei em um quarto branco e estéril, o cheiro de antisséptico ardendo em minhas narinas. Uma enfermeira estava verificando meus sinais vitais. Ela me disse que eu havia desmaiado de exaustão e desidratação. Ela recomendou descanso.
Mas tudo em que eu conseguia pensar era na assinatura de sexta-feira. Agradeci, me vesti e peguei um táxi direto para o escritório, minha mente fervilhando de planos.
Entrei pelas portas de vidro da InovaTech, o logotipo que eu mesma desenhei brilhando na parede. Fui para a ala executiva, um sorriso no rosto, pronta para comemorar com Caio.
Meu cartão de acesso apitou em vermelho na porta da nossa seção. Acesso negado.
*Que estranho*, pensei. *Uma falha no sistema.*
Tentei de novo. Vermelho.
Senti uma pontada de inquietação. Peguei meu celular para entrar na rede interna da empresa. Minhas credenciais não foram reconhecidas. Minha conta de e-mail, minhas ferramentas de gerenciamento de projetos, meu acesso ao próprio código que eu havia escrito - tudo sumiu.
Um programador júnior, um garoto chamado Léo que eu havia orientado pessoalmente, passou por mim. "Léo, ei. Pode me deixar entrar? Meu cartão não está funcionando."
Ele olhou para mim, depois para a porta, o rosto pálido. Ele evitou meu olhar. "Uh, Bia... acho que não posso."
Foi quando eu vi. Ao lado da porta havia uma grande lixeira de plástico. Saindo do topo estava o canto de uma foto emoldurada. Minha foto. Era uma foto minha e do Caio da nossa formatura da faculdade, nossos braços um sobre o outro, sorrindo como idiotas. Alguém tinha pego um marcador preto e desenhado um 'X' grosso e irregular sobre o meu rosto.
Meu coração parou.
Através da parede de vidro do meu escritório, *meu* escritório, eu podia ver alguém sentado na minha mesa. Era Karina Schmidt, a estagiária de marketing que Caio havia contratado alguns meses atrás. Ela era jovem, ambiciosa e sempre usava vestidos um pouco justos demais para um ambiente profissional.
Ela estava reclinada na minha cadeira, os pés apoiados na minha mesa, falando ao telefone como se fosse a dona do lugar.
Ela me viu olhando. Um sorriso lento e venenoso se espalhou por seu rosto. Ela levantou a mão, fazendo um gesto para a segurança.
"Conforme minha nova diretriz como Diretora de Operações", ela anunciou em voz alta para todo o escritório de plano aberto, sua voz escorrendo autoridade artificial, "todo o pessoal não essencial deve permanecer afastado da ala executiva. Temos um grande acordo para fechar e não podemos nos dar ao luxo de ter distrações."
Ela olhou diretamente para mim. "Isso inclui ex-funcionários que aparecem sem avisar."
Ex-funcionária? Diretora de Operações? Minha mente não conseguia processar as palavras. Isso tinha que ser uma piada. Uma pegadinha doentia e distorcida.
Passei furiosa pelo leitor de cartão inútil e abri a porta do escritório de Caio. Ele estava de pé perto da janela, olhando para a cidade.
"Caio, que porra está acontecendo?", exigi, minha voz tremendo. "Por que a Karina está na minha mesa? Por que meu acesso foi revogado? Eu estava no hospital, eu desmaiei."
Ele se virou lentamente, seu rosto uma máscara de fria indiferença. "A diretriz da Karina agora é política da empresa. Precisamos ser mais profissionais, mais eficientes. Ela tem experiência de uma empresa maior."
"Experiência? Ela é uma estagiária de vinte e dois anos!", retruquei, a raiva finalmente fervendo. "Eu construí este lugar! E as minhas coisas? No lixo?"
Respirei fundo, tentando me acalmar pelo bem do bebê. "Caio, estou grávida. O médico disse que preciso pegar leve. Eu desmaiei por causa do estresse e da gravidez."
Ele acenou com uma mão desdenhosa, sua impaciência um golpe físico. "Todo mundo fica doente, Bia. As pessoas engravidam todos os dias e continuam fazendo seu trabalho. Não se pode esperar que a equipe desacelere por sua causa."
A crueldade de suas palavras sugou o ar dos meus pulmões. O homem que me abraçou e me prometeu o mundo apenas alguns dias atrás estava me olhando como se eu fosse uma estranha. Um inconveniente.
Um nó frio e duro se formou na minha barriga, uma sensação muito pior do que qualquer enjoo matinal. Era a percepção arrepiante de que isso não era uma pegadinha.
Isso era um golpe.
Assim que eu estava prestes a falar, Karina entrou no escritório de Caio, um arquivo na mão. Ela nem sequer olhou para mim.
"Caio, querido", ela ronronou, colocando a mão no braço dele. "Finalizei a nova política do plano de melhoria de desempenho. É importante termos uma abordagem clara e de tolerância zero para o baixo desempenho, especialmente agora."
Seus olhos piscaram para mim, um brilho de triunfo neles. "Não queremos ninguém atrasando a equipe."
Ela sorriu docemente, uma expressão sacarina e venenosa. "Bia, tenho certeza que você entende. É para o bem da empresa. Simplesmente não podemos ter pessoas tirando folgas não programadas, alegando que 'desmaiaram'. Isso cria um mau precedente."
"Um precedente?", repeti, minha voz perigosamente baixa. "Eu desmaiei porque estou carregando o filho do seu chefe, um fato que eu estava tentando manter privado. Um fato que agora é protegido pelas leis trabalhistas sobre as quais você claramente não sabe nada."
"De acordo com os registros da empresa, você faltou a uma pré-reunião crítica esta manhã sem notificação", disse Karina, seu tom mudando para uma formalidade fria. "Isso é uma violação clara. Caio e eu tivemos que tomar uma decisão disciplinar."
"Você está me disciplinando por uma emergência médica?", eu ri, um som áspero e quebrado. "Por desmaiar de enjoo matinal? Meu Deus, que audácia."
Olhei diretamente para Caio, ignorando-a. "Você não pode estar falando sério. Diga-me que você não está deixando essa... estagiária... falar comigo desse jeito."
"Eu sou a fundadora desta empresa!", eu disse, minha voz se elevando. "Meu nome está nos papéis de incorporação originais. Eu escrevi o algoritmo principal em que a Apex está investindo duzentos e cinquenta milhões de reais. Essa 'nova política' não é apenas ridícula, é ilegal."
O rosto de Karina se desfez. Ela se virou para Caio, seu lábio inferior tremendo. "Caio... ela está gritando comigo. Eu só estava tentando fazer meu trabalho."
O rosto de Caio endureceu. Ele se colocou na frente de Karina, protegendo-a como se eu fosse algum tipo de monstro.
"Chega, Bia", ele rosnou.
Ele me olhou nos olhos, os seus frios e vazios. "Esta foi minha decisão. A Karina está certa. Precisamos ser uma máquina bem lubrificada e, francamente, você não tem dado conta do recado há semanas."
Minha mandíbula caiu. "Não tenho dado conta? Eu tenho trabalhado vinte horas por dia, eu garanti sozinha a apresentação final com a Apex enquanto você estava 'fazendo networking' com ela!"
"Seu desempenho vem caindo", ele disse, sua voz como gelo. "A equipe tem te coberto. Você está emotiva, está distraída. Esta manhã foi a gota d'água."
Ele respirou fundo, estufando o peito. "Estamos te colocando em licença obrigatória. Para o seu próprio bem. Nós cuidaremos da assinatura com a Apex."
Ele queria que eu pedisse desculpas. Ele realmente ficou ali, depois de arrancar o trabalho da minha vida de mim, e esperava que eu implorasse.
Meu olhar se desviou de seu rosto, um rosto que eu amei por uma década, para o canto de sua mesa. E foi quando eu vi. Escondido atrás de seu monitor, quase fora de vista, estava um tubo de batom caro, vermelho vivo.
Eu o reconheci imediatamente. Era o mesmo tom que Karina estava usando agora. O mesmo tom que eu tinha visto manchado no colarinho da camisa do Caio na semana passada, que ele culpou em um abraço desajeitado de uma cliente.
As peças do quebra-cabeça, aquelas que eu vinha ignorando deliberadamente por meses, se encaixaram com uma clareza nauseante. As noites tardias, os 'jantares de negócios', sua súbita obsessão pelo celular.
Era tudo mentira. Tudo.
Uma risada amarga e histérica borbulhou do meu peito. O absurdo de tudo aquilo era sufocante. Dez anos de amor e trabalho, apagados por um caso barato e um tubo de batom.
Não havia mais nada a dizer. O homem que eu conhecia se foi, substituído por este estranho de olhos vazios.
Endireitei os ombros, o choque se cristalizando em uma determinação fria e dura.
"Você está certo, Caio", eu disse, minha voz calma e clara. "Eu estou indo embora."
Olhei de seu rosto atordoado para o de Karina, presunçoso.
"Mas você está enganado sobre uma coisa. Isso não é uma licença. É uma compra da minha parte. Você vai me pagar minha parte inteira da empresa, avaliada pelo preço pós-financiamento da Apex."
Dei um passo mais perto, minha voz baixando para um sussurro que ele não podia ignorar. "Você tem vinte e quatro horas para transferir o dinheiro, ou meu advogado entrará em contato. E a propósito, a propriedade intelectual do algoritmo principal? Está patenteada. Apenas no meu nome."
Observei a cor sumir de seu rosto. O sorriso presunçoso de Karina vacilou.
"Divirta-se fechando esse acordo sem o produto", eu disse, virando as costas para eles.
Saí do escritório dele, da ala executiva, e não olhei para trás.
A primeira coisa que fiz quando saí foi pegar meu celular. Meus dedos voaram pela tela, discando um número que eu nunca pensei que ligaria.