A cirurgia tinha acabado, e a dor em meu ventre era um eco surdo da dor em meu coração.
Eu estava sozinha, no que deveria ser nosso aniversário de três anos de casamento.
Foi então que vi.
Uma foto postada por um dos melhores amigos de Gabriel.
Ele estava sorrindo, com o braço ao redor de Mariana, sua ex-namorada de infância, em um restaurante caro.
"Celebrando com os de sempre", dizia a legenda.
Meu coração se partiu em mais um pedaço.
Eu não fazia parte dos "de sempre".
Eu era a esposa que acabara de perder nosso filho, um filho que ele sequer sabia que existia.
Liguei para ele desesperadamente, mas ele estava "em uma reunião importante", enquanto eu vivia o inferno sozinha.
Ele chegou em casa tarde, cheirando a perfume feminino que não era o meu.
"Nossa, que cara é essa, Lívia? Aconteceu alguma coisa?"
Aquele cinismo me fez querer gritar.
Decidi que era hora de virar o jogo.
Aceitei uma proposta de trabalho em Portugal, para meses no exterior.
No dia da festa de lançamento da nova empresa "ArchiTech Solutions" , ele me queria ao lado dele.
Eu era a esposa, mas para os outros, Mariana era a parceira.
Eles se beijaram na frente de todos.
Meu telefone tocou.
Era a mãe dele, Sônia.
"Lívia, onde você se meteu? O Gabriel está te procurando! Você tem que voltar aqui e consertar essa bagunça que você criou!"
Eu finalmente tive a clareza.
"Não há nada para consertar, Sônia.
E diga ao seu filho para parar de me procurar.
Ele está ocupado demais beijando a sócia dele."
Cheguei em Lisboa, liguei meu celular e ele explodiu com as notícias.
O escândalo era enorme, e a família dele tentava me pintar como a vilã.
Eu finalmente respondi a ele: "Não há nada para consertar, Gabriel.
Não existe mais bebê.
Assim como não existe mais casamento.
Assine os papéis."
Bloqueei o número dele.
Bloqueei o número de Sônia, e senti a liberdade em cada célula do meu corpo.
Eu estava em um novo continente, em uma nova vida.
O passado era apenas um eco distante.
Estava livre.
A cirurgia para a curetagem após o aborto espontâneo tinha acabado, e já era noite. A dor em meu ventre era um eco surdo da dor em meu coração. Eu estava sozinha.
Lá fora, a tempestade que castigou a cidade o dia todo havia se transformado em uma garoa fina. Meu celular estava na mesinha de cabeceira, e eu lutei contra a tontura da anestesia para pegá-lo.
Hoje era nosso aniversário de casamento. Três anos.
Eu havia planejado uma surpresa para Gabriel. Agora, a única surpresa era o vazio que tomava conta de mim.
Abri as redes sociais, um hábito estúpido para preencher o silêncio. Foi quando vi. Uma foto postada por um dos melhores amigos de Gabriel.
Nela, Gabriel sorria, o braço ao redor dos ombros de Mariana, sua ex-namorada de infância. Estavam em um restaurante caro, cercados por amigos, um brinde no ar. A legenda era curta, mas dizia tudo: "Celebrando com os de sempre".
Meu coração, que eu achava que não podia doer mais, se partiu em mais um pedaço.
Eu não fazia parte dos "de sempre".
Eu era a esposa. A que estava em casa, se recuperando de ter perdido nosso filho. Um filho que ele nem sabia que existiu.
Enviei uma mensagem para ele, um teste final para a minha sanidade.
"Onde você está?"
A resposta veio quase imediatamente, fria e distante.
"Jantar de negócios. Não me espere acordada."
Jantar de negócios.
Olhei novamente para a foto. O sorriso dele, a intimidade com Mariana. Aquilo não era um jantar de negócios. Era a vida dele, a vida real da qual eu nunca fiz parte.
Um sorriso amargo e sem humor surgiu em meus lábios. Eu me senti patética. A arquiteta talentosa, a esposa perfeita, uma grande farsa.
Lembrei-me da manhã, da dor aguda, do sangue. Liguei para Gabriel desesperadamente, mas ele não atendeu. "Estou em uma reunião importante, Lívia, não posso falar agora", ele disse em uma mensagem de texto antes de desligar.
Fui para o hospital sozinha. Enfrentei os médicos, os formulários, o procedimento, tudo sozinha. E enquanto eu perdia nosso bebê, ele estava "em uma reunião importante".
Agora eu sabia que reunião era essa.
Ele chegou em casa tarde da noite, cantarolando baixo, cheirando a vinho caro e um perfume feminino que não era o meu.
Ele me viu na cama, pálida, e sua expressão mudou para uma de leve irritação.
"Nossa, que cara é essa, Lívia? Aconteceu alguma coisa?"
Sua completa ignorância sobre a minha realidade era a prova final. Ele não fazia ideia do que eu tinha passado. Ele não se importava.
"Nada," minha voz saiu rouca, vazia. "Só estou cansada."
"Ah," ele disse, aliviado, tirando o paletó. "O dia foi uma loucura. Fechamos um grande negócio. Você ficaria orgulhosa."
Ele se aproximou para me beijar, mas eu virei o rosto. O cheiro do perfume de Mariana estava impregnado nele.
Ele franziu a testa, confuso com a minha rejeição.
"O que foi? É o nosso aniversário, e você está assim?"
"Como foi o jantar de negócios?" perguntei, minha voz perigosamente calma.
"Foi ótimo, já te disse. Um sucesso." Ele mentiu sem sequer piscar.
Eu apenas o encarei, o silêncio se estendendo entre nós. Pela primeira vez, eu não via o empresário carismático que todos admiravam. Eu via um estranho, um mentiroso. E eu sabia, naquele momento, que meu casamento havia acabado.
Na manhã seguinte, agi como se nada tivesse acontecido. Levantei, tomei um banho e me vesti para o trabalho. Dentro de mim, um deserto gelado se formava, mas por fora, eu era a imagem da normalidade.
O presente de aniversário que eu havia comprado para Gabriel, um relógio caro que ele queria há meses, continuava na gaveta. Eu o peguei e, sem pensar duas vezes, joguei-o na lata de lixo da cozinha, por baixo das cascas de frutas e borra de café.
Gabriel saiu do quarto, bocejando.
"Bom dia, amor. Dormiu bem?"
"Sim," menti.
Ele olhou para a minha roupa de trabalho. "Você vai para o escritório hoje? Pensei que poderíamos passar o dia juntos, comemorar."
"Tenho uma reunião importante," respondi, usando suas próprias palavras contra ele.
Ele pareceu desapontado, mas não insistiu. Seu foco mudou rapidamente.
"Ah, sobre ontem à noite... eu sei que você ficou chateada. Eu comprei um presente para você, mas acabei perdendo na confusão do restaurante. Era um anel lindo."
Um anel.
A imagem de outra foto, que vi na noite anterior enquanto rolava o feed sem rumo, veio à minha mente. Uma foto postada pela própria Mariana. Ela mostrava sua mão em primeiro plano, exibindo um anel de diamante delicado, com a legenda: "O começo de um novo sonho".
A peça final do quebra-cabeça se encaixou com uma clareza dolorosa. O presente "perdido" não estava perdido. Estava na mão de outra mulher.
"Que pena," eu disse, a voz sem emoção. "Não se preocupe com isso."
Ele pareceu aliviado por eu ter aceitado a mentira tão facilmente. Ele era um manipulador, mas também era preguiçoso. Ele sempre escolhia o caminho mais fácil.
No escritório, mergulhei no trabalho como uma náufraga se agarrando a uma tábua. A arquitetura, com suas linhas claras e regras definidas, era o oposto do caos da minha vida pessoal.
Meu chefe, Sr. Almeida, me chamou em sua sala no meio da tarde.
"Lívia, tenho uma proposta para você."
Ele me ofereceu a liderança de um projeto novo e ambicioso, um complexo de luxo em Portugal. Seriam meses de trabalho no exterior, uma oportunidade de ouro para a minha carreira.
"Isso é incrível, Sr. Almeida. Eu..."
"Mas," ele me interrompeu, seu olhar se tornando mais pessoal. "É um grande compromisso. Vai exigir muito de você, uma mudança temporária. Você tem certeza de que seu marido vai concordar com isso? Ouvi dizer que ele também está começando um novo negócio."
A preocupação dele era genuína, mas a menção a Gabriel me fez endurecer. O mundo inteiro parecia saber mais da vida do meu marido do que eu.
"Meu marido vai me apoiar," eu disse com uma confiança que não sentia. "Eu aceito a proposta."
Naquele momento, meu telefone tocou. Era Gabriel. Atendi, colocando no viva-voz por algum motivo que nem eu entendia.
"Lívia, onde você guardou minhas abotoaduras da sorte? Não consigo achar em lugar nenhum."
Sua voz era a de um menino mimado, não de um empresário de sucesso.
"Na caixa de cima do seu armário, Gabriel. Onde sempre estiveram."
"Ah, ok. Ei, o que você vai fazer para o jantar? Estou pensando em chamar os rapazes para assistir ao jogo aqui."
Eu fiquei em silêncio por um momento, olhando para o meu chefe, que ouvia tudo com uma expressão neutra. Ele queria que eu liderasse um projeto internacional, e meu marido queria saber o que tinha para o jantar.
"Gabriel," eu disse, a voz fria como aço. "Eu não vou fazer o jantar. E, aliás, não volte para casa hoje."
Desliguei antes que ele pudesse responder.
Sr. Almeida levantou uma sobrancelha.
"Problemas no paraíso?"
"Você nem imagina," respondi, guardando o telefone. "Sobre Portugal... quando eu começo?"
A decisão estava tomada. Eu não era mais a esposa que esperava. Eu era a arquiteta que estava de partida.