O meu telemóvel tocou. Era o meu marido, Pedro.
Estava sentada no chão frio da cozinha, ao lado do corpo imóvel da minha mãe.
Causa da morte: envenenamento por monóxido de carbono. Acidental.
Mas eu sabia a verdade. A minha mãe não se matou. Ela foi assassinada pelo meu sogro, Afonso, o homem que todos viam como um pilar da comunidade.
Pedro queria que eu fosse para a casa deles, a casa do assassino da minha mãe, arrastando o nome dela na lama, chamando a minha dor de "drama" e usando a nossa filha para me manipular.
A sua voz, outrora familiar, soava distante, submissa ao pai, que se ria da minha face, ciente de uma verdade que só a mim parecia óbvia: ele era um criminoso.
Não fazia sentido. Porquê? Como? Como é que um homem tão respeitado podia ser um assassino?
Bloqueei o número dele. Depois o da minha sogra. E finalmente, o de Afonso.
Eles pensavam que eu era fraca. Que ia chorar num canto e aceitar a "tragédia".
Estavam enganados. A minha mãe deu-me esta casa. Deu-me a vida. E eu ia usar as duas coisas para a vingar.
A justiça por Helena começava agora.
O meu telemóvel tocou. Era o meu marido, Pedro.
Eu estava sentada no chão frio da cozinha, ao lado do corpo imóvel da minha mãe.
O cheiro a gás ainda pairava no ar, mas as janelas já estavam abertas.
Eu não atendi a chamada.
Em vez disso, olhei para a certidão de óbito sobre a mesa. Causa da morte: envenenamento por monóxido de carbono. Acidental.
Um acidente. Foi isso que a polícia disse.
Mas eu sabia a verdade. A minha mãe não se matou. Ela foi assassinada.
E o assassino era o meu sogro, o homem que todos viam como um pilar da comunidade, Afonso.
O telemóvel parou de tocar e depois vibrou com uma mensagem.
"Catarina, atende. Onde estás? A Sofia não para de chorar. Precisa de ti."
Sofia. A minha filha.
Senti uma dor no peito. A minha filha de três anos estava com o pai, na casa dos avós. A casa do homem que matou a minha mãe.
Eu tinha de a tirar de lá.
Mas como? Eu não tinha provas. Apenas uma conversa que ouvi por acaso, uma ameaça velada de Afonso à minha mãe há duas semanas.
"Se não convenceres a Catarina a entregar a casa, vais arrepender-te, Helena."
A casa. A única coisa que a minha mãe me deixou. Uma casa modesta, mas era nossa. Afonso queria-a para o seu filho mais novo, o irmão de Pedro.
A minha mãe recusou. E agora estava morta.
O telemóvel tocou outra vez. Desta vez, atendi. A voz de Pedro estava cheia de impaciência.
"Finalmente! O que se passa contigo? Estou a tentar ligar-te há uma hora! A Sofia está com febre, a chamar por ti, e tu não atendes?"
"A minha mãe morreu, Pedro."
Houve um silêncio do outro lado. Apenas por um segundo.
"O quê? Como assim? O que aconteceu?"
A sua voz não tinha o choque que eu esperava. Tinha uma cautela, um distanciamento.
"Fuga de gás. Foi o que disseram."
"Meu Deus, Catarina. Sinto muito. Onde estás? Vou já para aí."
Antes que eu pudesse responder, ouvi a voz de Afonso ao fundo, alta e autoritária.
"Pedro! Onde vais? A tua filha está doente! A tua mulher é adulta, sabe cuidar de si. A prioridade é a Sofia!"
Depois, a voz de Pedro, submissa.
"Pai, a mãe da Catarina..."
"Eu sei! É uma tragédia, mas a vida continua. A nossa neta precisa de nós. A Catarina que venha para cá. Aqui está segura e podemos cuidar dela e da Sofia juntos."
Senti o sangue gelar. Ir para a casa dele? Nunca.
"Catarina," disse Pedro, de volta ao telefone, a sua voz agora firme, repetindo as palavras do pai. "O meu pai tem razão. A Sofia precisa de mim. Vem para cá. Enfrentamos isto juntos, como uma família."
Família. A palavra soou como um insulto.
"Não," disse eu, a minha voz surpreendentemente calma. "Eu fico aqui. Com a minha mãe."
"Não sejas teimosa! Não há nada que possas fazer aí! A Sofia está a arder em febre!"
Ele estava a usar a minha filha contra mim. Como sempre.
"Então cuida da tua filha, Pedro."
Desliguei.
Bloqueei o número dele. Depois o da minha sogra. E finalmente, o de Afonso.
Olhei para a certidão de óbito outra vez. Acidental.
Uma raiva fria começou a crescer dentro de mim.
Eles pensavam que eu era fraca. Que me podiam manipular com a minha filha. Que eu ia chorar num canto e aceitar a "tragédia".
Estavam enganados.
A minha mãe deu-me esta casa. Deu-me a vida.
E eu ia usar as duas coisas para a vingar.
Dois dias depois, no funeral, a família Patterson apareceu em força.
Afonso, com o seu fato caro e expressão solene, veio direto a mim.
"Minha querida Catarina, as minhas mais profundas condolências. A Helena era uma mulher maravilhosa. Uma perda terrível."
Ele tentou abraçar-me.
Eu dei um passo atrás.
O seu sorriso vacilou por uma fração de segundo. Ele olhou-me nos olhos, e por um instante, vi algo duro e frio por trás da máscara de tristeza.
Pedro estava ao lado dele, segurando a mão da Sofia. A minha filha olhou para mim, os seus olhinhos confusos e tristes.
"Mamã?"
Ajoelhei-me e abracei-a com força. O seu cheiro, o calor do seu pequeno corpo, era a única coisa real neste pesadelo.
"Estou aqui, meu amor. A mamã está aqui."
"A avó Helena foi para o céu?" perguntou ela, a sua vozinha abafada no meu ombro.
"Sim, querida. Foi."
Pedro pousou a mão no meu ombro. "Catarina, vamos. Não é bom para ti ficares aqui sozinha. Vens connosco para casa."
"Esta é a minha casa," respondi, levantando-me e encarando-o.
A sua expressão endureceu. "A nossa casa é onde eu e a nossa filha estamos. Pára com este drama."
"Drama?" A palavra ecoou no silêncio do cemitério. "A minha mãe acabou de ser enterrada, e tu chamas a isto drama?"
Afonso interveio, a sua voz suave como óleo. "Pedro, calma. A Catarina está de luto. É natural. Querida, não te preocupes com nada. Nós cuidamos de tudo. Podes ficar na tua casa o tempo que precisares para processar. Mas sabe que as portas da nossa casa estarão sempre abertas."
Era uma armadilha. Uma oferta de paz que era, na verdade, uma forma de me controlar, de me manter sob a sua vigilância.
"Obrigada, Afonso. Mas eu sei cuidar de mim."
Depois do funeral, eles foram-se embora, levando a Sofia com eles. Prometeram trazê-la de volta no dia seguinte.
Eu não protestei. Precisava de tempo. Precisava de estar sozinha na casa.
Assim que a porta se fechou, comecei a minha busca.
A polícia tinha sido superficial. Uma fuga de gás num fogão antigo? Acidente. Caso encerrado.
Mas a minha mãe era meticulosa. Ela tinha pavor de acidentes domésticos. Verificava o gás todas as noites antes de dormir.
Fui para a cozinha. O fogão velho estava lá, um dinossauro de metal. A polícia tinha-o selado.
Ignorei-o. O meu alvo era outro.
O quarto da minha mãe.
Ela guardava tudo. Recibos, cartas, documentos. A sua vida estava em caixas de sapatos debaixo da cama.
Passei horas a vasculhar tudo. Pó e memórias.
Finalmente, numa caixa velha de biscoitos, encontrei.
Não era uma prova direta. Mas era um começo.
Era um pequeno gravador de voz. E um diário.
A minha mãe, da velha guarda, ainda escrevia um diário.
Abri na última entrada, datada do dia antes da sua morte.
A sua caligrafia, normalmente elegante, estava tremida, apressada.
"Afonso veio cá hoje. Sozinho. Ameaçou-me outra vez. Disse que se eu não convencer a Catarina, ele tem outras formas de resolver as coisas. Formas permanentes. Gravei a conversa. O gravador está no sítio seguro. Tenho medo, não por mim, mas pela minha filha."
O meu coração parou.
Gravei a conversa.
Onde estava o gravador? "O sítio seguro". O que era o sítio seguro dela?
Vasculhei o quarto todo outra vez. Nada.
A frustração queimava-me.
Então, lembrei-me. Uma história que ela me contava quando eu era pequena. Sobre o seu "tesouro secreto".
Corri para a sala de estar. Havia uma lareira antiga que nunca usávamos. Um dos tijolos estava ligeiramente solto.
Com os dedos a tremer, puxei-o.
Atrás dele, num pequeno buraco, estava o gravador.