Eu tirei uma estagiária da lista de indicados a um prêmio por roubar a pesquisa da minha falecida irmã. Meu marido, Caio, ficou furioso. Ele escolheu defendê-la, não a mim.
Sua raiva se tornou violenta. Ele destruiu o trabalho da minha vida - a cura para o Alzheimer - e depois me empurrou com tanta força que perdi nosso filho.
Ele me chamou de "exagerada" enquanto eu sangrava no chão.
Então ele me trancou em nossa casa, uma prisioneira, forçando-me a assinar a transferência das minhas patentes para a amante dele, a mulher que levou minha irmã ao suicídio. Ele achou que tinha me quebrado, que eu era dele para controlar.
Mas quando ele tentou me humilhar da forma mais depravada que se possa imaginar, eu vi minha chance. Eu me joguei da janela do segundo andar.
Enquanto eu jazia quebrada no chão, vendo-o correr para o lado da amante, fiz uma promessa. Minha vingança estava apenas começando.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Ayla Tavares:
Minha mão tremeu ao riscar o nome de Amanda Rangel da lista de indicados ao prêmio. Foi um ato simples, uma decisão enraizada na justiça, mas que estilhaçou meu mundo.
"Dra. Tavares, tem certeza?" Minha assistente, Mariana, perguntou. Sua voz era cautelosa, hesitante.
"Sim, Mariana. Absoluta." Minha própria voz era firme, embora um pavor gelado já estivesse se formando no meu estômago. A decisão estava tomada. Amanda Rangel não receberia o prestigioso prêmio 'Jovem Inovador em Neurociência'. Não enquanto eu estivesse aqui.
Amanda, uma jovem estagiária, tentou reivindicar uma pesquisa que não era dela. Uma pesquisa que pertencia à minha irmã. O trabalho de Júlia. Júlia, que se foi.
Os ecos de sua risada, de seu brilhantismo, assombravam meu laboratório. Este prêmio, este reconhecimento, não era apenas sobre ética profissional. Era sobre honrar os mortos. Era sobre Júlia.
Meu marido, Caio Mendes, soube da notícia. Ele invadiu meu escritório, seu rosto uma máscara de fúria cuidadosamente construída. "Ayla, que diabos você fez?" ele exigiu, sua voz um rosnado baixo que sempre prometia problemas.
Eu me mantive firme, meu jaleco parecendo um escudo. "Eu fiz o que era certo, Caio. Amanda roubou os dados da Júlia. Ela manipulou seu caminho até essa indicação."
Seus olhos, geralmente tão quentes e cheios de adoração, tornaram-se frios, afiados. "Certo? Certo para quem? Você acha que isso é certo, destruir a carreira de uma jovem?"
Ele se aproximou, invadindo meu espaço. Sua mão disparou, não para me bater, mas para agarrar meu braço. Seu aperto era como um torno, cravando-se na minha carne. A dor explodiu, uma linha aguda e branca subindo pelo meu braço.
"Me solta, Caio!" eu gritei, tentando me afastar. Ele segurou mais forte. A raiva em seus olhos era crua, aterrorizante.
"Você acha que pode simplesmente fazer o que quiser, Ayla?" ele sussurrou, seu rosto a centímetros do meu. Seu hálito era quente na minha bochecha. "Você se acha acima das consequências?"
Meu braço latejava. A intensidade de seu aperto era chocante. Meu marido, o homem que havia prometido me amar, estava me machucando. Fisicamente.
Então, tão rápido quanto começou, a pressão aliviou. Sua mão deslizou do meu braço para o meu ombro, uma aparência de ternura. Ele apertou suavemente, seu polegar acariciando minha pele. "Você está bem, querida? Você parece pálida."
Sua voz era suave, tingida de preocupação, um contraste gritante com a raiva que acabara de torcer suas feições. Era uma performance ensaiada, uma forma cruel de me fazer duvidar da minha sanidade.
Eu o encarei, meu coração batendo forte. "Você acabou de me machucar," consegui dizer, as palavras presas na garganta.
Ele franziu a testa, um retrato de confusão inocente. "Machucar você? Ayla, não seja exagerada. Eu estava simplesmente tentando te acalmar. Você estava ficando histérica."
Minha mente girou. Histérica? Eu estava apenas constatando um fato, protegendo o legado da minha irmã. Mas suas palavras plantaram uma pequena semente de dúvida. Eu estava exagerando?
"Você precisa consertar isso, Ayla," ele continuou, sua voz firme, mas aparentemente razoável. "Dê esse prêmio para a Amanda. Peça desculpas a ela. Ela já passou por muita coisa."
"Pedir desculpas?" Minha voz se elevou. "Caio, ela levou minha irmã ao suicídio! Ela usou sua campanha de cyberbullying para atormentar a Júlia, e depois roubou a pesquisa dela! Como você pode me pedir para recompensar isso?"
Seu rosto endureceu novamente. "Você não tem provas, Ayla. Apenas sua dor e suas acusações. Amanda é a vítima aqui. Uma jovem tentando vencer em um mundo difícil."
"Provas? Eu vi as mensagens! A Júlia me mostrou! Os boatos fabricados, o assédio constante online, as ameaças! E os dados... Caio, era o sequenciamento genético para o Alzheimer de início precoce. A Júlia estava tão perto de uma descoberta." Minha voz falhou ao dizer o nome dela.
Ele suspirou, um som longo e exasperado. "Júlia tinha problemas, Ayla. Você sabe disso. Ela era instável. Amanda foi apenas um bode expiatório conveniente."
"Instável? Ela era brilhante! E Amanda explorou suas vulnerabilidades, Caio! Você sabe o que a Amanda fez." Minha mente relembrou trechos de conversas, telefonemas abafados que Caio havia atendido, olhares estranhos que ele me lançou quando o nome de Júlia surgia. Uma onda fria me percorreu. Não. Não podia ser.
"O que você está insinuando?" A voz de Caio baixou, gelada. "Você está me acusando agora?"
Meu estômago se contraiu. "Ela roubou os dados da Júlia, Caio. Os dados que poderiam ajudar milhões. Os dados que poderiam ter ajudado sua própria mãe."
Uma nuvem escura pairou sobre seu rosto. Seus olhos se estreitaram em fendas. "Mencione minha mãe de novo, Ayla, e você vai se arrepender."
Ele deu um passo para trás, seu olhar varrendo meu laboratório. Demorou-se nas telas dos computadores exibindo meses, anos, da minha pesquisa meticulosa. A cura para o Alzheimer de início precoce, o trabalho da minha vida.
"Se você me pressionar nisso, Ayla," ele disse, sua voz perigosamente suave, "eu prometo que você vai perder tudo. Sua pesquisa. Seus dados. Tudo pelo que você trabalhou, vai desaparecer."
Meu sangue gelou. "Você não ousaria," sussurrei, minha voz quase inaudível.
Ele pegou o celular, seu polegar movendo-se rapidamente. Uma projeção apareceu imediatamente na grande tela do laboratório. Era uma transmissão ao vivo da minha sala de servidores, as luzes piscando dos meus dados de pesquisa. Uma barra de progresso vermelha, rotulada "Exclusão em Andamento", já estava se arrastando pela tela.
O pânico arranhou minha garganta. "Não! Caio, pare com isso! Por favor! São anos de trabalho! É a cura, Caio! É a única esperança para tantos!"
Ele ignorou meus apelos, seus olhos fixos na tela, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "É isso que acontece, Ayla, quando você me desafia. Quando você escolhe as ilusões de uma garota morta em vez da minha família. Em vez da minha Amanda."
Minha respiração falhou. "Sua Amanda? O que você quer dizer com 'sua Amanda'?" As palavras tinham gosto de cinzas. Uma percepção doentia estava surgindo em mim.
"Ela é especial, Ayla," ele disse, seu olhar se desviando para os dados sendo apagados, depois de volta para mim, cheio de desprezo. "Ela entende de lealdade. Diferente de algumas pessoas."
"Lealdade? Eu te dei tudo, Caio! Minha juventude, meu amor, a devoção de toda a minha vida! Eu coloquei seu capital de risco neste laboratório, trabalhei incansavelmente por nós!" Minha voz rachou com a dor crua da traição.
Ele zombou. "Você acha que é a única que pode ser leal? Você acha que é insubstituível?" Seus olhos voltaram para a barra de progresso. "O tempo está correndo, Ayla. Paramos isso, ou você perde seu precioso trabalho?"
Minha mente corria, dividida. As imagens de Júlia, de sua própria mãe, passaram pela minha cabeça. A ideia daquela cura, perdida para sempre, foi um golpe físico. Eu não podia deixar acontecer. Não podia.
"Pare com isso," engasguei, as palavras com gosto de veneno. "Pare a exclusão."
Ele sorriu, um sorriso triunfante e arrepiante. Ele tocou no celular, e a barra vermelha desapareceu. A tela voltou a exibir um servidor normal. "Boa menina," ele ronronou, como se eu fosse um animal de estimação.
Senti uma onda súbita de tontura, meu estômago se revirando. Uma cãibra aguda atravessou meu baixo-ventre. Eu balancei, agarrando minha barriga. "Eu... não estou me sentindo bem."
Ele acenou com a mão, desdenhoso. "Nervos, Ayla. Você vai ficar bem. Agora, sobre aquele prêmio para a Amanda..."
Ele não esperou por minha resposta. Já estava saindo do laboratório, o celular pressionado contra a orelha, sem dúvida fazendo arranjos para o retorno triunfante de Amanda.
No dia seguinte, Amanda Rangel estava no palco, banhada pelo brilho dos holofotes, aceitando o prêmio 'Jovem Inovador'. Caio estava orgulhosamente ao seu lado, o braço em volta da cintura dela, sorrindo para as câmeras. Eu assistia do fundo do auditório, meu coração uma dor oca.
Ele então anunciou que Amanda se juntaria ao meu laboratório como pesquisadora principal, graças a um "novo e generoso investimento". Aplausos irromperam. A multidão não tinha a menor ideia do assassinato silencioso que havia ocorrido bem debaixo de seus narizes.
Mais tarde, na recepção comemorativa, Caio e Amanda eram inseparáveis. Ele sussurrava em seu ouvido, ria de suas piadas, suas mãos possessivamente em suas costas. Pareciam um casal. Uma percepção doentia e distorcida se instalou no meu estômago. Isso não era apenas sobre os dados de Júlia. Era sobre eles.
Amanda encontrou meu olhar do outro lado da sala. Ela segurava um canapé meio comido, prestes a dar outra mordida. Seu olhar continha um brilho triunfante e malicioso. Então, quase imperceptivelmente, ela "acidentalmente" deixou o canapé cair. Ele pousou precisamente em um drive de dados que eu havia deixado em uma mesa próxima, um que continha todas as minhas descobertas preliminares, uma espécie de backup - ou assim eu pensava.
Um pavor gelado me percorreu. Tentei abrir caminho pela multidão, mas era densa demais. Meu celular vibrou. Era Mariana. Sua voz estava frenética. "Dra. Tavares! O drive de backup... foi apagado! Completamente! Tudo se foi!"
A sala girou. Minha visão embaçou. Uma dor lancinante rasgou meu abdômen, muito pior do que qualquer coisa antes. Eu tropecei, agarrando-me a um garçom que passava.
"Amanda Rangel!" gritei, minha voz crua, quebrando. "Sua vadia manipuladora! Você destruiu tudo!"
Caio, ouvindo a comoção, correu, puxando Amanda protetoramente para seus braços. "O que é isso, Ayla? Qual é o seu problema agora?" Seus olhos ardiam de fúria, seu braço um escudo ao redor de Amanda.
"Ela destruiu minha pesquisa, Caio! Ela acabou de apagar o último dos meus dados!" Apontei um dedo trêmulo para Amanda.
Amanda, aninhada no abraço de Caio, olhou para ele, seus olhos arregalados e inocentes, lágrimas brotando. "Eu... eu não sei do que ela está falando, Caio. Eu só deixei cair um canapé. Ela sempre foi tão má comigo."
O olhar de Caio endureceu, voltando-se para mim. "Ayla, chega! Isso é ridículo. Você está fazendo uma cena." Ele se virou para um segurança. "Acompanhe minha esposa para fora, por favor. Ela claramente não está bem."
"Não estou bem?" Minha raiva aumentou, sobrepujando a dor. "Você quer ver o que é não estar bem, Caio? Quer ver o que acontece quando você protege uma assassina? Uma trapaceira?"
Eu avancei, movida por uma raiva primal, minha mão conectando-se com sua bochecha com um tapa retumbante. O som ecoou pelo silêncio atordoado da sala.
Sua cabeça virou para trás. Por um momento, ele simplesmente me encarou, seus olhos arregalados de choque. Então um sorriso lento e aterrorizante se espalhou por seu rosto.
"Então é assim," ele disse, sua voz baixa, ameaçadora. "Você quer jogar sujo, Ayla? Tudo bem. Mas você não vai gostar das consequências." Ele se virou para Amanda, cuja mão agora agarrava seu peito. "Amanda, você está bem, querida? Minha pobre menina, olhe o que ela fez com você."
Amanda gemeu, seu corpo tremendo dramaticamente. "Meu coração... está acelerado. Sinto que vou desmaiar."
Caio a pegou sem esforço, embalando-a em seus braços. Ele me fuzilou por cima do ombro dela. "Isso é culpa sua, Ayla. Tudo isso."
Ele a carregou para fora, deixando-me de pé sozinha, em meio à multidão murmurante. A dor no meu abdômen se intensificou, uma agonia implacável e roedora. Minha visão nadou.
"Caio!" chamei, minha voz fraca, desesperada. "Caio, estou realmente com dor! Por favor!"
Ele parou nas portas duplas, virando a cabeça ligeiramente. "Ah, pare com o drama, Ayla," ele disse, sua voz plana, desprovida de emoção. "Você não está enganando ninguém. Você simplesmente não suporta que outra pessoa esteja recebendo atenção."
Então ele se foi, as portas se fechando atrás dele.
Eu desabei em uma cadeira próxima, meu corpo atormentado pela dor, um fluxo quente se espalhando entre minhas pernas. O chão frio e duro da realidade me atingiu. Isso não era mais apenas sobre Júlia. Era sobre mim. Minha vida. Meu futuro. E eu sabia, com uma certeza arrepiante, que tinha que lutar.
Ponto de Vista de Ayla Tavares:
O mundo girou, meu corpo uma marionete cujas cordas haviam sido subitamente cortadas. A dor, uma agonia ofuscante e avassaladora, me rasgou. Ouvi gritos abafados, meus próprios, talvez, ou de outra pessoa.
Então, escuridão.
Quando acordei, o mundo era branco. As luzes fluorescentes de um quarto de hospital zumbiam acima de mim. O ar cheirava a antisséptico e arrependimento.
Uma enfermeira de rosto gentil entrou apressada. "Dra. Tavares, você acordou! Como está se sentindo?"
Tentei falar, mas minha garganta estava seca, irritada. Uma dor surda irradiava do meu baixo-ventre. "O que... o que aconteceu?"
O sorriso da enfermeira vacilou. "Você teve um episódio grave, Dra. Tavares. Perdeu a consciência na gala. Estivemos monitorando você de perto." Ela verificou meu soro. "Há outra coisa que precisamos discutir."
"O que é?" Um novo medo, frio e agudo, perfurou a névoa da dor.
A enfermeira fez uma pausa, seu olhar suavizando. "Dra. Tavares, você estava grávida. De cerca de oito semanas."
Minha mente ficou em branco. Grávida? Fechei os olhos com força, uma onda de náusea me invadindo. Grávida. Um bebê. O bebê de Caio.
"Sinto muito, Dra. Tavares," ela continuou, sua voz gentil. "Fizemos tudo o que podíamos, mas... você teve um aborto espontâneo."
As palavras pairaram no ar, pesadas, sufocantes. Aborto espontâneo. A criança que eu nem sabia que tinha se foi. O mundo inclinou. Um choro rasgou através de mim, um lamento primal de dor e desespero.
"Você está bem, Dra. Tavares?" A enfermeira me olhou com preocupação. "Gostaria que eu ligasse para o seu marido? Ele ainda não apareceu."
Minhas lágrimas fluíram livremente, quentes e amargas. Meu marido. O homem que me empurrou, que descartou minha dor como teatro, que me deixou sangrando no chão para cuidar de sua amante. Ele era a razão.
"Não," engasguei, balançando a cabeça violentamente. "Não ligue para ele."
Ela assentiu, sentindo minha angústia. "Tudo bem. Apenas tente descansar. Você passou por muita coisa. Emocional e fisicamente."
Fechei os olhos, mas o sono não veio. Minha mente repassava os últimos dias, fragmentos de nossa vida juntos. Caio. O homem que um dia foi meu tudo.
Nos conhecemos na faculdade. Ele era ambicioso, charmoso, destinado à grandeza. Eu era apenas uma estudante de ciências de olhos brilhantes, sonhando em mudar o mundo. Ele me conquistou.
"Ayla, meu amor por você é eterno, sem limites. Sempre confiarei em você, sempre a protegerei." Ele sussurrou essas palavras para mim no dia do nosso casamento, seus olhos brilhando com o que eu pensei ser afeto genuíno.
Lembrei-me da vez em que meu laboratório pegou fogo, um fio defeituoso soltando faíscas. Ele correu para dentro, me tirando das chamas ele mesmo, um herói em todos os sentidos da palavra. Ele arriscou a própria vida pela minha.
Depois houve a bolsa de estudos. Eu quase a perdi, minha família lutando financeiramente. Ele silenciosamente pagou minhas dívidas, garantiu meu futuro, tudo sem que eu soubesse até muito mais tarde. "Você merece seguir seus sonhos, Ayla," ele disse, segurando minha mão. "Sempre."
O dia do nosso casamento. Seus votos, ecoando no grande salão. "Prometo te amar, te valorizar, construir uma família com você, Ayla. Para sempre."
Tudo aquilo tinha sido uma mentira? Cada palavra, cada gesto, cada momento compartilhado? Meu coração, já estilhaçado, se partiu ainda mais. O homem que eu amava, o pai da criança que acabei de perder, havia se tornado um monstro.
Uma batida suave interrompeu minhas memórias dolorosas. A porta rangeu ao abrir. Era Caio.
Ele parecia... abatido. Seu cabelo geralmente perfeito estava desgrenhado, seu terno amassado. Ele caminhou em direção à cama, sua expressão indecifrável.
"Ayla," ele disse, sua voz baixa, tingida com uma estranha mistura de preocupação e algo mais que eu não conseguia identificar. "Eu soube. Você está bem?"
Eu o encarei, meus olhos ardendo. Como ele podia perguntar isso?
"Caio," disse a enfermeira, dando um passo à frente, seu tom mais afiado do que antes. "A Dra. Tavares acabou de sofrer uma perda muito traumática. Um aborto espontâneo. Ela precisa de descanso e, francamente, precisa de apoio. Ela não deveria estar sozinha."
Caio pareceu surpreso, então seu olhar se voltou para mim, um lampejo de algo parecido com culpa em seus olhos. "Um aborto espontâneo?" ele repetiu, sua voz mal um sussurro.
Nesse momento, seu celular vibrou. Ele olhou para ele, e seu rosto endureceu instantaneamente. "Droga," ele murmurou. "Amanda está tendo outro ataque de pânico. Eu tenho que ir."
Ele se virou para sair. Meu sangue gelou. "Caio!" gritei, um apelo cru e desesperado rasgando minha garganta. "Caio, por favor! Meu estômago... o sangramento..."
Ele parou, olhando para trás, sua expressão impaciente. "Ayla, eu já disse, pare com o drama. Amanda precisa de mim. Você vai ficar bem. Apenas durma um pouco."
E então, ele se foi.
Ele saiu. De novo. Por ela. Enquanto eu estava aqui, sangrando, perdendo nosso filho.
Minha visão se estreitou. O mundo ficou preto.
Quando abri os olhos novamente, o quarto estava mal iluminado. Minha cabeça latejava. A dor no meu abdômen era uma dor surda agora, um lembrete constante do que foi perdido.
A médica, uma mulher mais velha e gentil, sentou-se ao lado da minha cama. Ela cruzou as mãos, sua expressão grave. "Dra. Tavares, tenho os resultados dos seus exames."
Meu coração batia forte. "O que é?"
"Você estava grávida, Ayla. Mas... também encontramos outra coisa durante o exame." Ela fez uma pausa, seu olhar encontrando o meu. "Você tem hematomas internos significativos. Especialmente ao redor do seu abdômen. Parece ser consistente com trauma por força contundente."
Trauma por força contundente. Caio me empurrando. O empurrão. Não foi apenas uma discussão. Foi violência. Foi abuso físico. E levou a isso.
"Também detectamos vestígios de um sedativo em seu sistema," a médica continuou, sua voz clínica, objetiva. "Um forte. O suficiente para deixá-la inconsciente, mas talvez não notado se você já estivesse angustiada."
Um sedativo? Minha mente girou. Amanda tinha feito algo? Ou Caio?
A médica suspirou. "Escute, Ayla. Sou médica, não detetive. Mas já vi o suficiente. Você precisa se cuidar. E precisa considerar seriamente o ambiente em que está. Isso não é saudável."
Suas palavras foram um banho de água fria, cortando minha dor e choque. Ele me manipulou. Me fez duvidar da minha sanidade. Me machucou fisicamente. E agora, eu havia perdido nosso bebê.
Uma raiva silenciosa começou a ferver sob minha dor. Isso não era mais apenas tristeza. Era fúria. Era uma determinação para sobreviver. E para fazê-lo pagar.
Olhei para a médica, minha voz firme apesar do tremor. "Doutora," eu disse, "preciso fazer algumas ligações. E preciso sair daqui."
Eu não iria quebrar. Eu não o deixaria vencer.
Um aceno leve, quase imperceptível, passou entre nós. O olhar da médica era de quem entendia. "Cuide-se, Ayla," ela disse, antes de me deixar sozinha no quarto branco e estéril.
Mais tarde naquela noite, depois que as enfermeiras trocaram meu soro e verificaram meus sinais vitais, um Caio diferente apareceu. Ele estava impecavelmente vestido, um buquê dos meus lírios brancos favoritos na mão. Ele parecia o marido atencioso e dedicado que um dia foi.
"Ayla, meu amor," ele disse, sua voz suave, contrita. "Sinto muito, muito mesmo. Eu deveria ter estado aqui. Lamento de verdade ter te deixado." Ele se sentou ao meu lado, buscando minha mão.
Eu puxei minha mão, meu olhar inabalável. "Não me toque."
Sua expressão vacilou. "Ayla, por favor. Eu sei que errei. Mas a Amanda... ela estava mal. Você sabe como ela é sensível."
"Sensível?" Minha risada foi áspera, quebradiça. "Ela é uma sociopata manipuladora, Caio! E você é o protetor dela. Você a defende, você a permite, você acredita nela em vez de mim!"
Ele suspirou, passando a mão pelo cabelo. "Ayla, você não está pensando com clareza. Toda essa situação, com o prêmio, sua irmã... realmente te afetou. Você está imaginando coisas."
"Imaginando coisas?" repeti, minha voz se elevando. "Eu perdi nosso bebê, Caio! Nosso bebê! Porque você me empurrou! Porque você se importou mais com o ataque de pânico fabricado dela do que com a minha dor real! E você me fez duvidar da minha sanidade, dizendo que eu estava sendo exagerada!"
Seus olhos se arregalaram, fingindo choque. "Te empurrei? Ayla, eu mal te toquei! Você estava histérica! E você perdeu o bebê porque está estressada, não por algo que eu fiz. Não se atreva a me culpar por isso!" Sua voz estava cheia de uma autojustificação arrepiante. "E além do mais, podemos ter outro bebê. Quando você estiver pronta para ser uma boa mãe."
Meu coração virou gelo. Ele estava além da redenção. Não havia mais volta.
Eu queria gritar, protestar contra sua crueldade. Mas uma estranha calma se instalou sobre mim. Ele não valia minhas lágrimas. Ele não valia minha raiva. Ele simplesmente... se foi. O Caio que eu amava, o Caio com quem me casei, era um fantasma.
Minha mente voltou ao nosso começo. O jovem apaixonado que acreditava nos meus sonhos. A maneira como ele costumava me olhar, como se eu tivesse as estrelas nos olhos. A maneira como ele segurava minha mão, uma promessa silenciosa de para sempre. Ele era uma memória, uma mentira.
Ele mudou, Ayla. O pensamento ecoou em minha mente, nítido e inegável. Ele não é o homem com quem você se casou.
Eu tinha que sair. Tinha que acabar com isso.
Encontrei minha voz, calma, firme. "Caio," eu disse, "eu quero o divórcio."
Ele congelou, sua compostura cuidadosamente construída se quebrando. "Ayla, não seja ridícula. Você está apenas chateada."
"Não," eu disse, encontrando seu olhar de frente. "Não estou chateada. Eu cansei."
Ele fez um movimento para me tocar novamente, sua mão buscando a minha. Eu recuei como se estivesse queimada. "Não," avisei, minha voz fria.
Ele pareceu perplexo, depois com raiva. "O que é isso, Ayla? Algum tipo de jogo?"
Eu o ignorei, pegando o celular na mesa de cabeceira. Ele o havia deixado. Rolei pelos meus contatos. Eu sabia para quem ligar. Henrique Queiroz. Um homem que sempre foi gentil, sempre me respeitou, sempre viu meu valor.
Assim que encontrei seu número, uma batida suave veio da porta.
Ponto de Vista de Ayla Tavares:
Meu coração saltou, um lampejo de esperança em meio à desolação. Seria Henrique, de alguma forma sabendo que eu precisava dele? Ou Mariana, minha sempre leal assistente?
Virei a cabeça em direção à porta, uma súbita onda de adrenalina percorrendo meu corpo.
A porta se abriu lentamente, revelando uma figura apoiada pesadamente no batente. Amanda Rangel. Seu rosto estava pálido, quase translúcido, seus olhos sombreados. Ela parecia frágil, genuinamente fraca.
"Caio, querido... eu não conseguia dormir sem você." Sua voz era um sussurro suave e trêmulo, como uma flor murcha buscando a luz do sol. "Posso entrar?"
O rosto de Caio, que estava congelado em uma máscara de raiva e confusão pela minha declaração de divórcio, suavizou-se instantaneamente. Seus olhos, momentos antes frios e distantes, agora se encheram de uma preocupação quase frenética.
Ele saltou da minha cabeceira, correndo para o lado de Amanda. "Amanda, meu amor! O que você está fazendo fora da cama? Você não deveria estar andando por aí. Você ainda não está bem."
Ele a envolveu com os braços, puxando-a para perto, um abraço terno que revirou meu estômago. Ele embalou sua bochecha, seu polegar acariciando suavemente sua têmpora. "Você me assustou, andando por aí assim."
A amargura subiu pela minha garganta. Seu amor por ela era tão palpável, tão consumidor. A mesma intensidade apaixonada que ele um dia reservou para mim. Era transferível. Replicável. Meu coração, já uma bagunça fraturada, sentiu um clique frio e final.
"Saiam," eu disse, minha voz plana, desprovida de emoção. "Vocês dois. Saiam do meu quarto."
Caio olhou para cima, seus olhos se estreitando. "Ayla, o que deu em você?"
Antes que ele pudesse continuar, uma figura apressada irrompeu pela porta, quase colidindo com Amanda. Era meu advogado, Dr. Fonseca, seu rosto corado, seu cabelo geralmente arrumado, desgrenhado.
"Dra. Tavares! Cheguei o mais rápido que pude!" ele ofegou, segurando uma pasta.
Caio e Amanda, surpresos com a súbita intrusão, recuaram. Amanda gemeu, pressionando-se ainda mais contra o lado de Caio.
Eu me levantei, arrancando o soro com um movimento rápido e decisivo. Uma pequena gota de sangue brotou na minha pele, mas eu a ignorei. Balancei minhas pernas para fora da cama, plantando meus pés descalços firmemente no chão frio. Cada passo era um testemunho da minha resolução.
"Dr. Fonseca," eu disse, minha voz mais clara agora, mais forte. "Os papéis, por favor."
Ele rapidamente me entregou uma pasta grossa. Continha a petição de divórcio e outra coisa - um documento delineando um acordo de investimento substancial.
"Caio," eu disse, meu olhar inabalável enquanto encontrava seus olhos. "Você me deve isso. O capital de risco inicial que você investiu no meu laboratório. Você me prometeu dez milhões de reais adicionais em financiamento para os ensaios da Fase III, lembra? Considere este seu pagamento final."
Amanda ofegou, seu rosto pálido ficando ainda mais branco. "Dez milhões? Para o laboratório dela? Caio, você não pode!" Sua voz era estridente, tingida de uma ganância desesperada.
Eu sorri, um sentimento oco e amargo. "Ah, a estagiária acha que sabe o valor de uma pesquisa neurológica inovadora, é? Ou são apenas os zeros que te excitam, Amanda?" Meu olhar se voltou para Caio. "Não me diga que você não explicou a ela as complexidades da terapia de alvo avançada. Ou talvez ela esteja muito ocupada aprendendo a manipular homens para entender a ciência de verdade."
A testa de Caio franziu-se ligeiramente enquanto ele olhava para Amanda. Seus olhos, geralmente tão calculistas, agora estavam arregalados com uma avareza quase infantil, perdendo completamente o insulto.
Amanda, aparentemente alheia, agarrou-se a Caio. "Caio, ela está tentando se aproveitar de você! Ela é gananciosa! Ela sempre teve ciúmes de mim!" Lágrimas brotaram em seus olhos. "Ela quer me arruinar! E agora ela quer te arruinar também!"
Então, com um suspiro dramático, ela agarrou o peito. "Meu coração! Está começando de novo! Não consigo respirar! Ah, Caio, acho que vou desmaiar!" Ela balançou precariamente, seus olhos revirando. "É demais. O estresse. Não aguento! Acho que vou pular da janela!"
O rosto de Caio escureceu instantaneamente. Seu lampejo anterior de aborrecimento desapareceu, substituído por uma preocupação furiosa. Ele firmou Amanda, murmurando garantias. Então, seus olhos, ardendo de raiva, se voltaram para mim.
"Ayla, que diabos você está fazendo com ela?" ele rosnou. "Você está tentando matá-la? Peça desculpas. Agora."
Uma sensação fria e morta se espalhou pelo meu peito. Pedir desculpas? Para essa cobra manipuladora? Pela primeira vez, não senti nada. Nenhuma dor, nenhuma raiva, apenas um vazio arrepiante.
"Desculpas aceitas," eu disse, minha voz desprovida de calor. Empurrei a pasta nas mãos de Caio. "Assine isso. Agora. E depois saia da minha vida." Meu único desejo era cortar todos os laços, estar livre dessa farsa tóxica.
Caio encarou os papéis, sua mandíbula tensa. "Você acha que pode me ameaçar, Ayla?"
"Ameaçar?" Peguei a pasta de volta. "Tudo bem. Se você não vai assinar, eu vou para a imprensa. Com todas as provas do plágio da Amanda. E da campanha de cyberbullying que levou ao suicídio da minha irmã. Tenho certeza de que a mídia adoraria saber sobre o magnata da tecnologia que acoberta uma assassina." Meu dedo pairou sobre um contato no meu celular - um jornalista em quem eu confiava.
Os olhos de Caio se arregalaram, um lampejo de medo genuíno em suas profundezas. Ele pegou os papéis de volta, seu olhar alternando entre a petição de divórcio e o acordo de investimento. Por um momento, sua fachada perfeita rachou.
Eu o observei, meu coração martelando. Era isso. O momento da verdade.
De repente, Amanda gritou, agarrando o peito novamente. "Meu coração! Está muito ruim desta vez! Caio, acho que estou morrendo!" Ela começou a hiperventilar, seu corpo convulsionando. "Não consigo respirar! Me ajude!"
O foco de Caio voltou para ela. Seu rosto se contorceu de pânico. "Amanda! Meu Deus!" Ele procurou uma caneta, seus olhos ainda fixos nela. Ele rabiscou sua assinatura em ambos os documentos com uma mão trêmula, mal olhando o que estava assinando. Ele então pegou Amanda nos braços. "Estou levando ela para a UTI!"
Ele me fuzilou uma última vez, sua voz um rosnado baixo e furioso. "Não se atreva a tocá-la, Ayla. Não se atreva."
Então, ele se foi, carregando Amanda para fora do quarto, deixando para trás o cheiro de seu perfume e o fedor de sua traição.
Entreguei os documentos assinados ao Dr. Fonseca. "Obrigada," eu disse, minha voz tremendo. Estava feito.
"Dra. Tavares," disse o Dr. Fonseca, sua expressão grave. "Tem certeza disso? Sobre o divórcio? E... sobre interromper sua gravidez?"
Meu sangue gelou. Ele sabia sobre o bebê. Eu não tinha contado a ninguém.
"Sim," sussurrei, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Tenho certeza. Não posso trazer uma criança para um mundo com um pai como ele. Uma criança que seria criada por um homem que protege uma assassina, uma criança cujo pai permitiria que sua amante destruísse o trabalho da vida de sua mãe." O pensamento por si só era insuportável. A pequena vida dentro de mim, perdida. Uma nova onda de dor me invadiu, mas estava misturada com resolução.
No dia seguinte, recebi alta do hospital. O primeiro lugar que fui foi meu laboratório. Meus dados. Minha pesquisa. Eu tinha que ver se algo poderia ser salvo.
O laboratório era um deserto estéril. Minha equipe, desmoralizada e derrotada, estava entre os servidores vazios e equipamentos quebrados. O canapé sujo de Amanda estava no chão, uma mancha zombeteira.
"Dra. Tavares!" Mariana correu até mim, seus olhos avermelhados. "Tudo se foi. Eles apagaram tudo. Tentamos recuperar, mas é completamente irrecuperável."
Meu coração afundou. Anos. Perdidos. Tudo.
Nesse momento, a porta se abriu com um estrondo. Amanda Rangel entrou saltitando, um sorriso brilhante e triunfante no rosto. Ela carregava uma bandeja de donuts e café.
"Bom dia, pessoal!" ela chilreou, sua voz enjoativamente doce. "O Caio disse que eu deveria trazer umas guloseimas para todo mundo que está trabalhando tanto! Está tão quieto aqui. Ah, a Dra. Tavares voltou?"