O som de copos quebrando ecoou como um estrondo. O barulho de vidros se espatifando ressou no exato momento em que eu deixava a bandeja com a louça suja na pia, no susto senti o coração disparar. Saí correndo da cozinha para ver o que tinha acontecido.
No meio da lanchonete, um completo caos, cacos dos copos e xicaras estavam espalhados pelo chão, alguns clientes olhavam, divertidos, para a cena. Luana, a moça nova, tinha derrubado uma bandeja. Mas não apenas isso - pelo que pude entender, ela havia esbarrado e derrubado uma bandeja cheia de xícaras de café em cima de um homem. E não era um dos clientes regulares. Era um cara de terno e gravata, do tipo que você sabe que é caro só de olhar. O homem, que parecia furioso, começou a gritar com a coitada.
- Ei, não precisa gritar assim, foi um acidente - intervi, me colocando no meio. A menina era mais nova que eu e tinha começado há apenas uma semana.
- Essa infeliz não olha por onde anda! - ele falou, quase rosnando. Minha chefe saiu correndo de trás do balcão.
- Luana, vai lá dentro e pega a pá e o rodo - falei para ela, que tremia. A ideia era tirá-la dali. Acidentes aconteciam. Eu mesma já tinha derrubado algumas bandejas quando comecei a trabalhar. Até entendia a raiva de ter café derramado na roupa, mas também não precisava exagerar.
- Me desculpe, senhor. É que a menina é nova, e sabe como são esses jovens hoje em dia, tudo desastrado - disse minha chefe.
Neide queria amenizar a situação só porque o cara parecia ter dinheiro. Caso contrário, ela nem sairia de trás do balcão.
- Isso não é desculpa para contratar gente incompetente - ele respondeu com rispidez.
Comecei a ficar com raiva do cara, mesmo ele tendo sido a vítima nesse caso. Mas eu estava com fome, já passava das duas da tarde. Eu tinha entrado às seis, e minha chefe só me deixava tirar a pausa do almoço depois desse horário, quando o movimento diminuía. Tudo porque ela não gostava de atender os clientes. Queria ficar apenas no caixa, recebendo o dinheiro e já tinha uma pessoa que ficava lá, então ela não fazia nada. Mas, para se desculpar com esse cara, saiu de trás do balcão rapidinho.
- Mil desculpas, senhor - ela repetiu, intimidada pela presença dele.
- Desculpas? Acha que suas desculpas servem pra quê? Essa incompetente arruinou um terno que custa mais do que o salário miserável que vocês devem ganhar aqui.
- Olha aqui - sim, eu estava apontando o dedo para ele. Eu não sabia quem era o homem, mas não podia admitir que falasse assim com as pessoas. Nesses momentos, eu esquecia que devia ficar de boca fechada. - Foi um acidente, acontece. Já pedimos desculpas, mas o senhor não aceita e ainda vem aqui gritar, ser arrogante, agir como um louco...
- Quem você pensa que é para falar assim comigo?! - ele disse, ainda mais irritado. Eu podia ver uma veia pulsando em sua testa.
- Alguém que não vai abaixar a cabeça só porque recebe menos do que esse terno ridículo que o senhor está usando - falei sem elevar o tom de voz, porque não queria me rebaixar ao mesmo descontrole que ele.
Ele era uns bons quinze centímetros mais alto, cabelos um pouco longos, barba cheia e meio desleixada. Se apoiava numa bengala. Os olhos, que naquele momento transbordavam ódio, eram castanhos claros, quase verdes. Seria um homem bonito, se não tivesse aquela carranca no rosto.
- Quer saber? Isso aqui não vale a pena. Dá pra ver, pelo tipo de gente que trabalha aqui, que esse lugar devia fechar as portas - disse ele, virando de costas e saindo da lanchonete em direção a um carro grande, estacionado do outro lado da rua.
Luana voltou com o rodo e a pá, começando a limpar o chão, enquanto as pessoas murmuravam sobre o que tinha acontecido.
- Você ficou louca, menina? De destratar um cliente como ele? Tem noção do que fez? Alguém como ele pode acabar com esse lugar em cinco minutos. Você está demitida!
Neide tinha me puxado pelo braço para um canto mais afastado para os clientes não ouvirem.
- Demitida? Mas eu não fiz nada! Só não ia deixar aquele cara falar daquele jeito. - Tentei me defender.
- Você não entende nada mesmo, né? Some daqui e não precisa voltar.
Era muita injustiça. Mas eu conhecia a mulher e sabia que ela era irredutível. Então tirei o avental, peguei minhas coisas e saí.
Antes da confusão, eu tinha visto Aninha do outro lado da rua, acenando animada. Parecia muito feliz, e eu imaginava que tivesse uma boa notícia - e eu estava precisando de algo bom.
Quando saí, Aninha estava na porta. Com certeza tinha visto tudo e se aproximou para entender o que tinha acontecido.
- Vamos - falei, puxando-a pelo braço para longe da lanchonete.
- Meu Deus, o que aconteceu ali? Que cara grosso! Tá bom que eu ia ficar puta se derramassem café em mim, mas falar daquele jeito?
- A Neide me demitiu.
- O quê? Aquela vaca fez o quê?
- Pois é. Disse que eu não devia ter falado daquele jeito com um "cliente importante".
- Cliente importante? Nunca vi aquele cara por aqui! Como ela sabe que ele é importante? Pode ser só um idiota metido a besta.
- Dinheiro. O cara cheirava a dinheiro. E isso, pra ela, já é o suficiente.
- Não fica assim. Tenho uma notícia que vai te animar! A Tia Cleide me ligou para avisar que te indicou para uma vaga de babá. E adivinha onde? No condomínio Rio das Flores!
- Sério?
- Seríssimo! Você vai precisar dormir na casa, mas não é exploração. Tem registro e tudo. O salário é mais de dez mil. Você não vai pagar aluguel e ainda vai conseguir juntar dinheiro. Dá até pra contratar um detetive - Aninha falava empolgada, como se eu já tivesse conseguido o emprego. Mas eu estava desconfiada. O salário era bom demais para ser verdade. Tinha alguma coisa errada.
- Tudo isso pra um emprego de babá?
- São três crianças. Parece que eles tiveram problemas com as outras babás. É pra um cara ricaço, tipo muito rico, dono de uma mega fazenda de produção de leite. Ele é viúvo, vive viajando a trabalho. Os três filhos ficam em casa e precisam de uma babá. A tia disse que a mais velha tem uns nove anos e é um menino bem difícil. As babás vivem fugindo de lá. O salário é esse mesmo. Tem plano de saúde, alimentação feita na casa... A tia garantiu que não é exploração. Acho que até ligou para outra babá que trabalhou lá. O problema realmente são as crianças.
- Tá... Mas se ninguém aguenta, por que vocês acham que eu vou conseguir?
- Porque você é perfeita! Brincadeira. Porque você tem cursos, já trabalhou em escola e como babá. É um poço de amor e paciência. E, o mais importante, cresceu em um abrigo. Sofia, a gente cresceu ao lado de todo tipo de criança. Você se dava bem com todos, até com o esquisito do Paulo. Então a tia te recomendou porque achou que você é mais do que competente.
- O Paulo não era esquisito... Mas eu entendi. Vou falar com a tia. Mas, pelo que você disse, pode ser que eu também saia correndo de lá.
- Duvido! E tem outra coisa: eles estão com urgência. Então você tem uma entrevista marcada às cinco.
- Como é?! E você me fala isso agora? Nem aceitei ir!
- Eu sei, mas a tia achou melhor já deixar agendado. E agora que aquela megera que nem te dava horário de almoço te demitiu, você pode correr pra casa e se arrumar. É uma oportunidade excelente. E você vai poder realizar os itens da sua lista.
Pensei um pouco. Era realmente um bom dinheiro, mas muita responsabilidade cuidar dos filhos dos outros, ainda mais de crianças que, pelo que entendi, tinham perdido a mãe e o pai vivia fora. Minha experiência de babá tinha durado uns quatro meses e foi antes de eu mudar de cidade. Eu cuidava de uma menininha fofa de três anos enquanto os pais trabalhavam. Não imaginava como seria cuidar de três.
- Eu vou. Até porque agora não tenho muita escolha. Tem o endereço?
- Tenho! Vou te mandar por mensagem.
Corri para a pensão. Ainda não eram três horas e todo mundo estava fora trabalhando, então pude tomar um banho caprichado pra tirar o cheiro de fritura. Eu tinha um cabelão cacheado que ia até o meio das costas, que consegui lavar e secar com tempo.
Coloquei minha melhor roupa: um vestido social preto com gola padre e mangas ¾. Tinha detalhes de botões dourados em forma de abelha, um verdadeiro achado de brechó. Ficava ótimo no corpo, nem muito largo, nem muito justo, ideal para uma entrevista. Eu não tinha muita coisa, já que morava em um quarto de pensão. Meu sonho era morar sozinha num cantinho só meu, mas meu salário na lanchonete mal dava pra comer. Quem dirá pagar aluguel.
Pedi um carro de aplicativo. Rio Claro do Sul era uma cidade pequena, então a corrida não ia sair cara. No caminho, o carro passou pela rua da lanchonete, fiquei agradecida porque nunca mais iria encontrar aquele cliente novamente.
Meu nome é Sofia Valente, tenho 20 anos e cresci em um abrigo para menores. Quando tinha três anos, minha mãe deu entrada num hospital passando muito mal. Infelizmente, era tarde demais: estava com um quadro avançado de pneumonia e acabou falecendo. Como não encontraram nenhum parente ou documentos, fui enviada para casas de acolhimento. Passei por diversos abrigos até completar 18 anos.
Não fui adotada. Já tinha três anos, era meio doentinha e subnutrida, vivia indo ao médico. Quando fiquei melhor, já era uma criança de sete anos, então minhas chances eram poucas.
Mas não me sinto triste com a minha história. Conheci pessoas que cuidaram de mim, fiz amizades, convivi com muitas crianças que tinham histórias ainda mais difíceis e precisavam de um ombro amigo. Quando chegou a hora de sair para o mundo, foi muito difícil, mas eu tinha planos e objetivos. Foquei em correr atrás deles.
Um desses objetivos era descobrir mais sobre minha mãe, saber quem ela era, se tinha alguma família. No meu registro, não constava nome de pai, apenas o dela e dos meus avós - que nunca foram encontrados.
Foi por isso que vim para a pequena cidade de Rio Claro do Sul, onde supostamente tudo começou, já que foi aqui que minha mãe morreu. Vim morar numa pensão com Ana, minha irmã de coração, que cresceu comigo no abrigo. Consegui um emprego numa lanchonete, passei no vestibular e comecei a investigar o destino da minha mãe, mais de vinte anos depois.
Se esse novo emprego der certo, com o salário poderei finalmente pagar um bom detetive e começar a entender minha própria história.
Quando cheguei ao lugar, quase dei meia-volta. Era uma mansão enorme dentro de um condomínio fechado. Eu nunca tinha visto de perto uma casa tão grande. Não sabia nem como andar numa casa daquelas. Normalmente, eu era uma pessoa otimista e resolvida com meu passado e o fato de ter crescido em um abrigo. Fui cuidada, tive cama, comida e consegui estudar. Tinha vontade de correr atrás dos meus sonhos. Mas, em alguns momentos, como esse, eu sentia o abismo que me separava do resto da sociedade. Eu não conhecia muita coisa, só a cidade onde ficava o abrigo e Rio Claro do Sul.
Não tinha história de pai e mãe para contar. E agora, ali, talvez eu nem soubesse o que responder para a pessoa que faria a entrevista. Imaginava se ela iria querer alguém como eu dentro daquela casa.
Depois de me identificar na portaria, um segurança me levou até a casa, que, de perto, era ainda mais bonita, com um jardim lindo, cheio de flores coloridas enfeitando a entrada.
Fui recebida por uma mulher mais velha, vestida de forma elegante, que sorriu simpática e disse que me levaria até o escritório.
- Meu nome é Márcia, sou a secretária pessoal do doutor Eduardo. Você foi muito bem recomendada.
Fiquei feliz. Imaginei que tia Cleide devia ter vendido bem meu peixe, então provavelmente eles já sabiam alguma coisa sobre mim. Fiquei mais tranquila, mas, mesmo assim, senti que começava a suar por baixo do vestido.
- O doutor Eduardo vai conduzir a entrevista. Ele vai explicar quais serão suas funções e querer saber sobre você. Pode falar tudo sem medo. Ele pode parecer um pouco rigoroso, mas não é uma má pessoa. Não se deixe intimidar - disse Márcia, com um sorriso tranquilizador, o que, infelizmente, não adiantou muito.
Ela abriu as portas de um escritório e me pediu para entrar. Era um lugar que eu só tinha visto em filmes, com quadros de arte nas paredes, móveis de madeira escura e maciça, estantes cheias de livros que iam do chão ao teto e uma janela enorme com vista para os fundos da casa, onde pude ver árvores e uma piscina.
- Pode ir, Márcia. Depois eu te chamo.
Eu me distraí olhando ao redor e tomei um susto quando ele falou. Meus olhos foram direto para o homem sentado atrás da mesa, um homem de terno e gravata, com cabelos um pouco longos, quase chegando aos ombros, e uma barba um pouco grande e cheia, que parecia meio descuidada. Senti as pernas ficarem trêmulas.
- Vai ficar aí parada? Pode sentar - disse a mesma voz. Era ele.
O homem da lanchonete. O tal ricaço. O doutor Eduardo Santana. Era o mesmo que apontei o dedo e me fez ser demitida. Agora eu estava ali, fazendo uma entrevista para cuidar dos filhos dele.
Eu podia ouvir as gargalhadas do roterista da minha vida. Não era possível uma coisa dessas.
Nos encaramos por alguns segundos em silêncio, segundos nos quais cogitei ir embora. Mas eu não podia. Não tinha mais emprego, e aquela era uma boa oportunidade de ganhar mais, não apenas isso, de saber mais sobre a minha mãe.
Por isso, me obriguei a sentar na cadeira em frente à mesa, engolir minha revolta e olhar nos olhos daquele homem, rezando para que ele não me reconhecesse, o que até o momento não tinha acontecido, ele me viu de touca e uniforme, e eu sabia por experiência própria que o uniforme torna uma pessoa invisível.
- Prazer, meu nome é Sofia - Eu disse com um sorriso no rosto e estendi a mão para cumprimentá-lo em um gesto de simpatia, ele me olhou em dúvida e pensei que ia ficar igual uma idiota, mas por fim ele aceitou o cumprimento e para minha surpresa não era uma mão gelada de vilão de novela, ele tinha um aperto quente e macio.
- A Márcia disse que você foi muito bem recomendada, mas antes de falar sobre a vaga quero que você se apresente e fale das suas experiências ? - Ele disse me encarando sério, sem nenhum traço de simpatia no olhar.
- Claro, meu nome é Sofia Valente, tenho 20 anos, me mudei para Rio Claro do Sul vai fazer quase um ano, mês que vem começo a faculdade de Letras, tenho conhecimento em inglês intermediário, então posso ajudar as criança com as tarefas escolares. Já trabalhei como jovem aprendiz em uma escola por dois anos, onde pude conviver com diversas crianças e adolescentes, também trabalhei como babá de uma menininha de 3 anos, que infelizmento precisei sair, quando mudei de cidade. E claro também tenho cursos de primeiros socorros e fiz um curso de formação de babá profissional, com o objetivo de aprender a cuidar melhor das crianças.
- Seus outros empregadores falaram muito bem de você. A Márcia me convenceu a te dar uma chance. Mas tenho dúvidas se é qualificada para esse cargo. Tenho três filhos que não são fáceis e precisam de alguém responsável, com pulso firme, que seja capaz de cuidar do bem-estar deles. Você me parece muito jovem para isso, com pouca experiência. Mas, já que está aqui, quero que me diga, por que acha que é capaz de exercer essa função?
Senti um zumbido no ouvido. Queria gritar e jogar umas verdades na cara dele. Porém, eu não era burra. Mais uma vez, engoli a raiva e respondi com calma:
- Eu entendo sua preocupação. Afinal, são seus filhos. É muita responsabilidade. Sei que sou jovem, tenho apenas 21 anos e pareço inexperiente, mas sei lidar com diferentes tipos de comportamento infantil. Pouca coisa me assusta, na verdade.
Eu não sabia até onde ele conhecia minha história, mas, de fato, eu sabia lidar com crianças difíceis, não só por cuidar, mas por conviver com diversas delas.
- E por que devo acreditar nisso?
- Bem, para começo de conversa, o senhor me perguntou se eu achava que sou capaz de exercer essa função, e estou respondendo. Além do mais, eu também sou órfã. Sei o que é perder uma mãe. Cresci em um abrigo de menores, com diversas outras crianças e adolescentes, com problemas e histórias que provavelmente ninguém nessa casa imagina. Então, sim, pouca coisa me assusta.
Respondi com um tom mais desaforado do que pretendia, mas aquele homem estava me fazendo perder a paciência. Ele ficou um momento em silêncio, me encarando, como se processasse tudo o que eu havia dito. Mais uma vez percebi o quanto ele era bonito, mas sua expressão séria, sem calor humano, e o jeito frio de falar apagavam qualquer traço de beleza.
- Meu filho mais velho, Davi, tem 9 anos, e os gêmeos Arthur e Alice, têm cinco. Eu viajo muito a trabalho. Preciso de alguém de confiança que garanta que eles estão estudando, cumprindo a agenda e evoluindo. Todas as pessoas que trabalham para mim são de confiança e me avisariam de imediato se vissem alguma coisa errada.
Entendi o tom de ameaça, e pensei se valia a pena continuar insistindo, mais uma vez coloquei meu lado racional para funcionar, eu precisava daquele emprego, pelo menos até achar outro, foquei nas contas que tinha para pagar.
- Podemos fazer um teste de uma semana e o senhor pode observar se a minha interação com as crianças vai funcionar - Eu disse em de forma conciliatória, usando mais uma vez meu sorriso simpático para tentar quebrar aquela muralha de gelo.
Por um instante percebi que me olhou de forma estranha, e pensei que tinha me reconhecido, mas ele se recuperou rápido, e para minha surpresa disse.
- Tudo bem, vamos fazer uma semana de teste, vou viajar pelos próximos 3 dias, a Márcia vai observar de perto sua performance e me informar.
Ele pegou o celular e mandou uma mensagem, em menos de um minuto, a secretária entrou no escritório.
-Vamos fazer um teste de uma semana, vou precisar viajar agora a tarde, então você fica responsável pela apresentação com as crianças e acompanhar esse processo, quero que me atualize de qualquer problema.
- Claro, doutor.
E assim estava encerrada a entrevista, Eduardo Santana se levantou e foi embora me deixando com a Márcia, ele não explicou muitas coisas e nem estaria presente quando eu fosse apresentada para as crianças, achei estranho, mas não comentei nada. Pelo menos eu tinha uma semana de teste para conseguir conquistar as crianças.
- Se eu soubesse que você ia trabalhar com o mesmo cara da lanchonete, nem tinha falado nada - Disse Aninha enquanto me ajudava a arrumar minhas coisas.
Ela ficou indignada e falou que eu deveria desistir, mas expliquei que agora ia até o fim, mesmo porque ele tinha me reconhecido.
Eu dividia meu quarto na pensão com mais duas meninas. Era um quartinho com uma beliche e uma cama. Por sorteio e meu azar fiquei com a beliche de baixo, sozinha, e ainda tinha que aguentar o rangido da cama cada vez que Renata se mexia no sono. Além disso, o quarto era uma bagunça, já que as duas não eram muito fãs de organização.
Arrumei minhas coisas em uma mochila e algumas sacolas: roupas, calçados, uns cadernos e três livros. Era tudo o que eu podia ter, já que não tinha onde guardar nada. Meu sonho era, um dia, ter minha própria casa. Um canto só meu, onde eu pudesse decorar do meu jeito e ter minhas coisas.
Ainda passei na lanchonete para cobrar os dias trabalhados da minha ex-chefe. Era um trabalho sem registro, então era tudo o que eu podia cobrar da Neide, que pagou de má vontade mas pagou, pelo menos.
Fazer esse teste de me mudar era um risco, eu sabia. Se não desse certo, eu estaria na rua e sem emprego. Mas a tia e Ana garantiram que eu teria onde ficar, e que eu arrumaria fácil outro trabalho. Assim, só com uma mochila e algumas sacolas, fui para a mansão iniciar meu novo trabalho.
Márcia me recebeu na porta novamente. Tinha uma série de orientações para me passar e precisava apresentar os outros funcionários da casa.
- As crianças estão com a avó, mãe do Eduardo. Mês que vem voltam às aulas, então ela está levando eles para aproveitar um pouco as férias. Ela volta à noite e quer te conhecer também - disse Márcia, enquanto me guiava pela casa.
A casa era maior do que eu imaginava. Eu tinha visto apenas o escritório e a sala, mas havia muito mais, uma sala de jogos, outro escritório... No andar de cima, havia sete quartos. Um deles seria o meu, que ficava ao lado do das crianças. Davi tinha um quarto só dele, e os gêmeos ficavam em outro. Eu nunca tinha visto um quarto tão grande para uma pessoa só, e tentava disfarçar o quanto tudo aquilo era novidade.
Do lado de fora, havia uma área com piscina coberta e aquecida e outra piscina descoberta ao lado de um espaço de festas. Quando voltamos para a cozinha, eu já estava zonza de tanta informação e era capaz de me perder naquela mansão.
Márcia me apresentou a cozinheira Carmem, que trabalhava na casa há vários anos e a faxineira Tânia, que era nova na casa.
Tânia e Carmem me cumprimentaram com simpatia. Pareciam pessoas boas e alegres. Almoçamos juntas, com as duas falando sem parar, sobre as fofocas da vizinhança e de como as crianças eram arteiras.
- Eles são boas crianças. Sofreram muito com a morte da dona Melissa, e o Doutor Eduardo nunca mais foi mesmo, vive viajando a trabalho, ele não consegue ficar mais que dois dias aqui com os filhos - disse Carmem, que trabalhava na casa desde o casamento de Eduardo e Melissa, e era, depois de Márcia, quem mais conhecia a história da família.
Márcia olhou feio para Carmem, que mudou de assunto, percebi que havia coisas que elas não queriam comentar muito, como, por exemplo, como foi o acidente que matou Melissa. Como Eduardo usava uma bengala, minha intuição dizia que ele também esteve no acidente. Mas era uma informação íntima demais para perguntar no primeiro dia.
Márcia me passou a agenda das crianças. Pela manhã, todos iam para a escola no mesmo horário, e eu os acompanharia junto com o motorista. Após as aulas, os gêmeos tinham aula de natação, Davi fazia judô e Alice ainda tinha aula de balé três vezes por semana. Os meninos também faziam caratê. Alguém naquela casa gostava bastante de lutas. Provavelmente o pai.
Parecia uma rotina exaustiva, e minha função era levá-los, cuidar dos materiais, dos uniformes e garantir que tudo acontecesse como um relógio.
Na minha escala, já estavam determinadas as noites em que eu ficaria fora por causa da faculdade. Pela manhã, enquanto as crianças estivessem na escola, aquele seria meu momento de folga, a menos que houvesse algo urgente relacionado a elas.
Passei a tarde arrumando meu quarto. Era uma suíte, com banheiro só para mim. Pela primeira vez, eu podia deixar meus produtos de beleza no banheiro sem medo de alguém pegá-los. Eu sabia que não podia me apegar a esses detalhes, já que aquela casa não era minha e eu nem sabia se ficaria muito tempo no emprego. Mas alguns sentimentos eram inevitáveis.
No quarto, havia um quadro de camurça. Foi lá que pendurei minha lista. Sempre deixava à vista para lembrar dos meus objetivos e não me perder. A lista tinha dez metas:
1. Não me perder no meio do caminho
2. Guardar dinheiro para comprar uma casa
3. Descobrir quem é minha família
4. Estudar
5. Ter uma biblioteca
6. Aprender francês
7. Viajar o mundo
8. Escrever um livro
9. Fazer um cruzeiro
10. Subir o Monte Roraima
Ao lado da lista, colei fotos de diversos lugares do mundo: a Torre Eiffel, Notre-Dame, cachoeiras, o Cristo Redentor... Gostava de lembrar que o mundo era grande, que havia muitas coisas lá fora para eu descobrir.
Antes das seis da tarde, as crianças chegaram com a avó e uma mulher que, sem dúvida alguma, era irmã de Eduardo, os dois eram muito parecidos.
- Essa é a Sofia. Ela está em período de teste para o cargo de babá das crianças. O doutor Eduardo já fez a entrevista, junto comigo também. - Márcia me apresentou.
- Ela não é muito nova? - A mãe de Eduardo me olhou de um jeito estranho, me avaliando de cima a baixo, numa clara demonstração de desprezo. Se com o filho eu tive coragem para falar, com ela perdi a capacidade de pensar. Meu instinto gritava para eu correr na direção contrária. Aquela mulher não prestava.
- Olá, meu nome é Fabiana, sou irmã do Eduardo. Prazer. Só não se assuste com os pestinhas - disse a mulher, simpática, estendendo a mão.
Os gêmeos me cumprimentaram, mas Davi ficou de lado, olhando desconfiado. Márcia foi conversar a sós com a senhora, provavelmente tentando convencê-la de que eu merecia o emprego.
- Não liga para a minha mãe. Ela é assim mesmo - disse Fabiana. Gostei dela logo de cara.
Depois de alguns minutos, as mulheres voltaram. Fabiana e dona Sandra foram embora sem jantar, alegando que tinham um compromisso. Agora éramos só eu e as crianças, já que o pai estava fora mais uma vez.