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A babá do CEO - A filha perdida

A babá do CEO - A filha perdida

Autor:: Yana _ Shadow
Gênero: Bilionários
O rigoroso e frio CEO Gabriel Welsch não se importava com mais nada além da sua filha; entretanto, tudo em sua vida mudou quando o destino colocou uma mulher desesperada em seu caminho. - Onde você pensa que vai? - Gabriel a indagou. A porta do elevador privativo se abriu em um espaço com cores brancas, decoradas com quadros e espelhos que deixavam o amplo escritório mais sofisticado. Naquele instante, as bochechas de Vivian arderam, sua pele enrubesceu ao ver o homem que sentava atrás da enorme mesa. - Me desculpe! - Ela continuou parada, tentando lidar com a vergonha. - Como eu saio daqui? - Com isso! - Gabriel exibiu o cartão de acesso e jogou na mesa. - O que faz na minha empresa? -Eu vim para a entrevista de babá, mas... - depois desse fiasco, ela parou de falar. Não era só o fato de estar na sala do dono da empresa, ela estava sem graça por lembrar da forma que tratou Gabriel poucos minutos antes da entrevista. - Qual o seu nome? - A expressão impassível do CEO a esquadrinhou. - Viviane! - respondeu em voz baixa. Gabriel rabiscou numa folha e a fuzilou com o olhar. Naquele momento, ela viu que a sua chance de encontrar a filha estava perdida". Vivian só queria entrar na empresa onde o seu ex-marido trabalhava como advogado. Tudo o que ela desejava era encontrar o ex que levou a bebê enquanto ela estava em coma. Apesar do sofrimento, Viviane estava disposta a fazer de tudo para encontrar a filha.

Capítulo 1 Você quebrou a sua promessa

Viviane Bernardi Müller era uma professora que amava o seu trabalho. Apesar de viver cercada por crianças, sempre adiou o sonho de ter filhos. Seu marido sempre dizia que precisavam se estabilizar financeiramente.

Aos vinte e sete anos, já tinha comprado sua casa e finalmente, ela conseguiu mobiliar os cômodos amplos.

O seu marido era um advogado renomado comprometido com o trabalho. Raramente, Pietro chegava a tempo do jantar. Na maioria das vezes, Viviane costumava fazer suas refeições sozinha e logo em seguida, ela ia dormir.

Quando chegava mais cedo, ela sempre o servia. Ficava feliz por ver o esposo em casa. Contudo, essas raras noites acabavam em discussão.

- O que há de mal nisso?

- Ainda não estamos prontos para ter filhos.

- Temos reservas financeiras e ambos trabalhamos.

- Você sabe que eu quero trocar o meu carro, - esbravejou ele. Deixou os talheres cair ao lado do prato. - Além disso, eu usei as nossas economias para comprar ternos novos. Meu chefe detesta quando os empregados andam mal vestidos.

- Você mexeu no nosso dinheiro sem me consultar?

- É o meu dinheiro! - O punho apertado bateu na mesa. - Perdi a fome. Essa comida é horrível! - Pietro jogou o prato no chão.

Resignada, Viviane pegou a pá e a vassoura para limpar a sujeira no chão da cozinha. Segurou firme no balcão da ilha branca quando sentiu uma leve tontura.

O homem egocêntrico, com quem se casou, não dava a mínima para saber como foi o seu dia e nem mesmo a presenteava ou a levava para jantar.

Pietro nem sempre foi tão rude, nos primeiros anos sempre fazia de tudo para agradar à esposa. Sentada na cadeira, ela chegou a conclusão de que sua vida era mais feliz quando ambos moravam num apartamento pequeno onde havia apenas uma geladeira, uma cama e um fogão.

A chama do relacionamento esfriava à medida que seu esposo crescia na empresa. De um simples estagiário, ele passou a ser um dos membros das reuniões do conselho de um dos mais poderosos CEO de redes de hotéis. Pietro costumava se gabar, sempre dizia a todos que era o braço direito do diretor-executivo da Welsch Corporation.

...

Pouco antes de chegar no quarto, a mulher de cabelos claros subiu as escadas devagar. Estava com receio de ter outra vertigem e cair. Vivian pensou que se contasse a novidade, o marido ficaria mais feliz, mas sua empolgação se desfez ao espiar pela porta entreaberta.

- Claro que vou, meu docinho! - disse ele ao telefone. - Comprei aquela joia que você queria!

Pietro fez uma pausa longa e sentou-se na cama sem saber que a esposa ouvia a conversa pela fresta da porta.

- Já arrumou as suas malas? - perguntou em voz baixa. - Vamos passar uma semana em Los Angeles, - mencionou ele, animado. - Agora me manda aquelas fotos! Preciso dos seus nudes para matar a saudade.

A dor transbordava pelos olhos de esmeralda de Vivian. Aquele era o real motivo de seu casamento ter esfriado. Ela passou a mão na barriga e de repente a porta se abriu.

- O que está fazendo?

- Na, nada! - Ela gaguejou. Vivian se esforçou para controlar as pernas trêmulas. - Quem estava no telefone?

- Meu chefe, - ele a olhou de soslaio. - Vou viajar na próxima segunda, reunião de negócios nos Estados Unidos.

- Pensei que estivesse falando com uma mulher.

Ele saiu da cama e se agigantou diante dela, impedindo que Vivian passasse. Tomando coragem, ela o confrontou:

- Era a sua amante?

- Não mude de assunto! Você estava escutando atrás da porta?

Slapt! A palma da mão aberta chocou contra o rosto anguloso de Vivian. Pietro já havia perdido controle duas vezes, mas disse que não voltaria a fazer isso.

- Você quebrou a sua promessa!

- Ora, sua vagabunda, - segurou-a pelos cabelos.

Ele jogou Vivian sobre a cama. Abriu a fivela do cinto, retirou da cintura e em seguida, dobrou o couro em dois.

- Por favor, não! - Ela ergueu as mãos para se defender. - Estou grávida!

- O quê? - O cinto caiu de sua mão.

Vivian fitou a expressão impassível e achou que o seu marido mudaria diante da situação delicada.

- Dá um jeito nisso! - Apontou para a barriga de Vivian.

- Não pode fazer isso comigo, estou esperando um filho seu...

- Já te disse milhares de vezes que eu não quero!

Pietro foi até o guarda-roupa e pegou um dos seus blazers pretos. Vestiu e saiu batendo a porta com força.

Sem saber o que fazer, Vivian abraçou o travesseiro mais forte que podia e deixou que as lágrimas molhassem a fronha com estampas floridas.

...

Durante a madrugada, ela sentiu o colchão afundando. Tinha um leve cheiro de bebida destilada no homem de cabelos negros. Os fios lisos de Pietro, que caiam ao lado da testa, estavam molhados.

Ele se apossou de sua boca, beijando-a e sugando seus lábios com força. Olhando para o teto, Viviane mal teve forças para lutar contra o homem musculoso que se colocou sobre ela e a pressionou sobre a cama. Ela balançou as pernas e bateu nas costas dele, ficou tonta quando Pietro socou o seu queixo. Sua vista estava completamente embaçada, ela apenas sentia o peso do homem que se movia bruscamente de cima para baixo sem nem ao menos tirar a roupa. O quadril de Pietro colocava força ao empurrar mais fundo.

- Por favor, pare! - A voz mirrada de Vivian implorou. - Está me machucando! - Apertou os braços do marido.

- Cala essa boca, sua frígida!

Colocando a palma da mão em seus lábios, Pietro sufocou o choro de Vivian. Apoiando em seus pés, ele aumentou a intensidade e cadência de seus quadris, indo mais fundo e mexendo mais rápido do que podia.

Ela se debateu, movimentando as pernas enquanto as mãos de Pietro apertavam o seu pescoço, estava quase sem ar. Vivian arranhou os braços do homem que grunhiu ao ir mais fundo e depois, sair. As lágrimas desciam pelo canto dos olhos, estava dolorida quando ele finalmente urrou e soltou o seu pescoço.

Viviane começou a tossir, mal tinha forças para se levantar.

- Gostou, amorzinho? - Pietro arfou e continuou em cima dela.

- Sai de cima de mim, - disse depois de buscar o ar.

- Qualquer dia, eu quebro esse seu pescocinho. - Jogou-se ao lado de Vivian. - Você precisa se livrar desse bebê. - deitou-se de lado, dando-lhe as costas.

Com a mão na barriga, Viviane esperou até que o Pietro adormecesse para fugir daquela casa e começar uma nova vida. Estava com quinze semanas de gestação quando o marido a violentou.

No banheiro, ela notou um sangramento leve e não pensou duas vezes antes de arrumar uma bolsa e pegar um táxi para o hospital onde fazia o seu acompanhamento pré-natal.

Por sorte, chegou a tempo de ser socorrida. Após ser medicada, ela esticou-se na cama do hospital e acariciou a barriga. Olhando para as gotas do soro que caiam vagarosamente e corriam pelos tubos até sua veia, ela repousou.

- Filha, - sussurrou a voz suave. - Acorde!

- Que faz aqui, mamãe? - Questionou sonolenta.

- Seu marido viajou a negócios e pediu que eu tomasse conta de você.

Respirando aliviada, Vivian abriu os olhos até se acostumar com a luz halógena. Sem Pietro por perto, ela poderia sair de casa com mais tranquilidade.

Depois de alguns dias internada, ela retornou a casa num bairro de classe média alta em Alphaville. Ao sair do carro, ela escutou pacientemente sua mãe que insistia que ela deveria esperar o marido voltar antes de tomar uma decisão tão precipitada.

- Não posso, mamãe!

Subiu as escadas e foi direto para o quarto no segundo piso. Ele tem uma amante.

- Ora, isso não é o fim do mundo, querida! - disse a voz tranquila.

A senhora com mechas grisalhas, e com o rosto marcado pelo tempo, seguia a filha enquanto a aconselhava:

- O seu pai também tinha amantes e isso não destruiu nosso casamento.

- Não posso aceitar isso!

Irredutível, Vivian abriu a mala preta que já estava sobre a cama. Ela estava disposta a recomeçar a vida. Imaginou que sua vida seria bem diferente se Pietro não soubesse de seu paradeiro.

Otávia repetia que a filha estava cometendo um erro terrível. Vivian prometeu que assim que se instalasse, ela avisaria a mãe. Com um nó na garganta, ela deixou para trás tudo o que conquistou nos últimos anos.

Após dirigir por quase seis horas, ela se hospedou em um hotel e fez uma refeição num restaurante no mesmo local. Ela já tinha se desfeito do antigo celular e comprado um novo no meio do caminho.

Viviane fitou o prato de frango com verduras e arroz e saboreou sua refeição, não parava de tocar seu ventre. Ela observou ao redor inspecionando o ambiente.

Os seus olhos pararam num homem elegante, que alterava a voz com o garçom. Com um sotaque pesado, ele reclamava da refeição.

- Why're you staring at me? - O olhar inquisidor do homem rude se concentrou no rosto assustado de Vivian. - Por que está me encarando? - Indagou em português, num tom mais grosseiro.

Negando com a cabeça, ela desviou o olhar para o prato. Já tinha problemas suficientes, não queria mais um.

- Minhas desculpas pelo erro do garçom, senhor Welsch! - O gerente do estabelecimento pediu com voz suave. - Ele é um funcionário novo e acabou trocando os pedidos.

- Deveria contratar funcionários mais competentes.

- Sim, senhor!

Após meia hora, ela estava terminando de comer a sobremesa quando o garçom limpou a garganta e lhe entregou uma flor vermelha com um cartão escrito: "Forgive me!". Atrás do cartão tinha o número de telefone e a assinatura de Gabe.

Ela conhecia bem aquele tipo. Pietro sempre fazia o mesmo quando a tratava mal. O seu coração não tinha mais espaço para lidar com homens brutos que não sabiam amar.

Viviane usou o cartão de crédito para pagar a conta e jogou a flor e o cartão de apresentação do homem estranho no lixo antes de sair do restaurante.

Capítulo 2 Onde está a minha filha

O calor daquela cidade era sufocante. O ar condicionado do quarto só ventilava. Naquele dia, segundo o recepcionista, não tinha outro quarto disponível.

Depois de passar dias procurando, ela encontrou uma casa para alugar na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Os aluguéis eram bem mais baratos que na Zona Sul.

A casa não era muito grande, mas parecia bastante confortável. A residência tinha apenas um quarto, cozinha americana e um banheiro. Do lado de fora, havia uma pequena varanda com telhas resinadas marrons e uma estrada de pedrinhas estreitas que levavam até o pequeno portão de madeira no meio do muro baixo.

Naquela mesma semana, Vivian recebeu os móveis que comprou pela internet. Não tinha muito luxo, mas era o suficiente para reconstruir a sua vida.

...

Ao longo dos meses, Viviane caminhava pelas manhãs e algumas vezes, saía para se socializar com a vizinhança. Em pouco tempo, todos já a conheciam como a professora paulista. Isso a ajudou a conseguir alguns serviços como professora particular.

Para explicar a gestação sem o pai, ela dizia para todos que o marido faleceu num acidente e que por isso, ela se mudou para o Rio de Janeiro, na esperança de recomeçar.

Tudo funcionava como o esperado, durante o exame, Viviane recebeu a notícia de que estava esperando uma menina. A médica lhe informou que dentro de três semanas, sua filha nasceria.

Durante a tarde, ela lia um romance enquanto estava em sua cadeira de balanço. A brisa aliviava o calor de sua pele. Ela sorriu quando encerrou mais um capítulo e entrou para atender o celular. Era a terceira vez que o número estranho ligava.

- Alô!

- Onde você está, amorzinho?

Vivian deixou o celular cair quando reconheceu a voz. Não tinha a mínima ideia de como Pietro conseguiu seu número. Com dificuldade, ela se agachou para pegar o aparelho telefônico com a tela rachada.

- O que você quer? - Tentou mostrar superioridade.

- Só quero conversar...

- Sua amante não está te dando atenção? - indagou a voz irônica.

- Não seja estúpida! - vociferou.

- Quero o divórcio!

- Eu vou te encontrar, amorzinho.

Encerrando a ligação, Vivian controlou a respiração. Estava suando frio e com o coração agitado. Ainda tinha pesadelos com a noite em que Pietro a violentou.

- O monstro não vai nos encontrar, - ela olhou para a barriga, - amanhã, a mamãe vai à delegacia e tudo vai ficar bem, - alisou o ventre redondo.

...

Mesmo depois de abrir um Boletim de Ocorrência, ela ainda não se sentia insegura. Pietro era um advogado esperto e saberia como escapar de qualquer situação.

Se convencendo de que ele nunca descobriria o seu paradeiro, Viviane continuou com sua rotina. Caminhava pela manhã e dava as aulas durante a tarde.

No final de semana, ela decidiu fazer compras. Viviane queria deixar a geladeira cheia para descansar nas primeiras semanas de seu resguardo.

Durante o percurso, ela vislumbrou o veículo preto através do espelho do retrovisor.

Negando com a cabeça, ela abandonou aqueles pensamentos sombrios e deixou o carro no estacionamento do supermercado.

Dentro do estabelecimento, ela fazia suas compras tranquilamente. Aproveitou para pegar mais fraldas descartáveis, lenços umedecidos, alcool e algodão. Logo teria sua nenê nos braços e curtiria a dádiva de ser mãe.

Com o auxílio do empacotador, Vivia foi até o local onde o carro estava. Desativou o alarme e abriu o porta-malas para organizar as bolsas de compras.

- Acho que esqueci meu celular no balcão do caixa.

- Eu pego para a senhora!

O rapaz correu e atravessou a porta automática. Distraída, Viviane não viu a pessoa encapuzada que estendeu a mão.

- Não faz nenhuma gracinha. - Deu um tapa em sua orelha deixando-a tonta. - Passa logo as chaves do carro, vadia!

As chaves e a carteira caíram de sua mão.

- Calma, - pediu, exasperada.

- Passa logo essa merda, - o assaltante exigiu.

Vivian abaixou-se para pegar os seus pertences quando ouviu o grito desesperado do empacotador. Ela tentou correr do assaltante, mas o estampido foi a última coisa que ouviu antes de mergulhar na escuridão e bater a barriga contra o chão do estacionamento.

...

Através das nuvens densas, ela tentou alcançar o berço da filha. Por mais que corresse, ela não alcançava.

A certa distância, ela viu a mãe pegando a bebê e sorrindo enquanto a embrulhava em seu colo. Em certo momento, Otávia entregou a neta para o homem comprido com um rosto sombrio.

- Não deixe ela com Pietro, mamãe! - Embora falasse em alto e bom som, ninguém a ouvia.

Vivian se esforçou para impedir a proximidade do ex-marido com a sua filha. Neste instante, o nevoeiro tomou conta do enorme corredor impedindo que ela avançasse.

- Eu disse que te encontraria, - a voz de Pietro ecoou. - Descanse em paz, amorzinho - ele sorriu e olhou para a mulher que não conseguia se mexer.

No fim daquele túnel, havia um uma luz forte acima do berço onde a criança chorava. Lutando contra o medo que a paralisia lhe causava, Viviane finalmente encontrou forças para sair do lugar. Correu desesperadamente até alcançar o berço vazio, a pequena Sofia não estava lá.

- NÃO! - Gritou.

Suas pálpebras moveram com dificuldade, forçando Viviane a abrir os olhos. O som dos aparelhos e vozes dos médicos entravam em seus ouvidos.

- Ela está se mexendo, doutor! - falou uma voz feminina. - Veja!

- Avise a mãe dela! - respondeu o tom másculo.

A têmpora de Vivian latejava, com os olhos semicerrados, ela observava as silhuetas embaçadas em torno da cama.

- Quero ver minha filha - falou pausadamente e tentou se sentar. - Eu preciso cuidar da minha bebê.

Era como se ela estivesse falando com fantasmas, pois ninguém respondia.

Em algum momento, a calma forçada se apossou de seu corpo após a picada da agulha. Vivian adormeceu e descansou por mais algumas horas enquanto os médicos a examinaram.

...

Na manhã seguinte, Viviane saiu da cama com ajuda da enfermeira que a levou numa cadeira de rodas até o banheiro. Depois da assepsia, ela tentou colocar os pés nos chão, mas teve dificuldades para caminhar. Ela continuou perguntando pela filha, mas a mulher pedia que aguardasse.

Depois do café da manhã, ela olhou para o noticiário que falava sobre o carnaval de 2022 e a pandemia que assolou o mundo.

As mãos trêmulas estavam perto de sua boca, não acreditava que dormiu por mais de dois anos longe da filha.

- Estou tão feliz, - disse Otávia ao cruzar a porta.

- Isso é verdade, mamãe? - Vivian acenou para a TV pendurada na parede.

- Infelizmente, esse doença ceifou milhões de vidas. - Otávia sentou-se na poltrona de couro ao lado da cama. - O seu pai morreu na primeira onda. Foi muito difícil lidar com tudo isso sozinha

Contendo o choro, Vivian olhou para a imagem das pessoas fantasiadas curtindo o carnaval como se nada tivesse acontecido. Embora não fosse próxima de seu pai, ela sentiu a dor da perda.

- Estamos em 2022? - Olhou para a Otávia.

- Sim, querida! Você ficou em coma por dois anos. O neurologista me disse que você é um milagre da ciência. Dr. Javier falou que se você fizer o tratamento corretamente e continuar com a fisioterapia, logo voltará a caminhar.

- Onde está a minha filha?

A senhora acariciou o dorso da mão com manchas senis, ponderando o que falaria.

- Onde está a Sofia?

- Não sei se esse é o nome dela, - sua voz perdeu-se num murmúrio.

- Pare de fazer rodeios, mamãe... - Vivian aumentou a voz, - Onde está a minha filha?

- Seu ex-marido a levou.

- Não, não, não!

Os braços agitaram na cama, Vivian arrancou os acessos dos braços e tentou pisar no chão. Sem forças para se manter em pé, seu corpo caiu no piso vinílico enquanto ela chorava, desesperada.

Capítulo 3 Saia da minha sala!

Nada foi tão fácil como Viviane esperava.

Nos primeiros dias, Vivian participava da fisioterapia e se esforçava para ir atrás de sua filha. Assim que recebeu alta do hospital, retornou a São Paulo e esperou uma semana antes de insistir para que sua mãe a levasse para sua antiga casa.

- Pietro não mora aqui! - revelou Otávia - Seu ex-marido vendeu a casa e assinou os papéis do divórcio pouco antes de ser transferido para a sede da empresa em Los Angeles.

As coisas ficaram mais complicadas. Vivian ainda estava abatida e bem mais magra. Seu corpo emaciado mal lembrava o da mulher saudável.

- Ele se casou de novo! - falou suavemente.

- Por favor, não diga mais nada.

- A culpa foi sua! - Otávia cuspiu as palavras. - Você deixou o seu marido para trás. Se tivesse ficado e lutado, poderia estar bem, cuidando da sua família.

- Que família?

Pela primeira vez, Vivian respondeu sua mãe a altura.

- Na última noite que eu passei naquela casa, ele me agrediu e me estuprou. Quase perdi a minha filha! Foi por isso que fugi daquele desgraçado.

Virando-se de costas, Otávia escondeu os olhos marejados. Se recusou a acreditar nas palavras de Vivian.

- Vou tomar um banho!

- A verdade dói, não é mamãe? - berrou.

Encarava as costas da mulher de estatura baixa que renunciou a cuidar da neta depois que perdeu o marido. Com apoio da muleta, Vivian parou na janela aberta que revelava o céu estrelado.

Do quarto andar do prédio, observou os carros que passavam pela avenida. Sentiu uma vontade enorme de acabar com a sua dor. Mas se Sofia precisasse dela? Pietro rejeitou a criança desde a gestação, então por que levou a menina? Fechando os olhos, ela começou a pensar em meios de encontrar a sua filha perdida.

...

Um ano depois, Viviane ia para a fisioterapia e as consultas com o neuro, sem a companhia da mãe.

Certo dia, ela aproveitou para ir até o prédio da Weslch Corporation, mas a recepcionista negou-lhe o acesso. Ela até tentou driblar o segurança, mas foi pega antes de chegar no andar da administração.

Dois anos após acordar do coma, ela tinha perdido as esperanças. Passava os dias reclusa em seu quarto, estava deprimida. Um dia, ela abriu os olhos e fitou o teto. Naquela mesma data, sua filha estava completando quatro anos. Vivian ficou pensando sobre o Pietro faria para o aniversário da filha. De repente, ele a levaria para a Disney ou faria uma festa com direito bolo com chantilly e balões de unicórnio.

Vivian cobriu a cabeça e suspirou. Estava enganando a si mesma. Pietro sempre odiou comemorar aniversários. Raramente, ele comemorava as datas festivas com ela, imagine com a filha indesejada.

- Levanta, Vivian! - Otávia acendeu a luz. - Saía dessa cama, agora!

- Sabe que dia hoje?

- Pare de se martirizar com isso, logo você terá outros filhos.

Viviane descobriu a cabeça ao ouvir aquele absurdo.

- A senhora pensou nisso quando o meu irmão morreu?

Otávia engoliu em seco. Aquele assunto ainda era doloroso. O irmão de Vivian teve uma overdose em uma festa enquanto comemorava o resultado do vestibular.

- Desculpa, mamãe!

Vivian saiu da cama e tentou abraçá-la, mas Otávia recuou.

- Eu fui muito paciente com você, mas isso já passou dos limites, - reclamou Otávia. - Tome um banho e vá atrás de um emprego. Você precisa sair da minha casa.

Viviane passou a mão em seu rosto. Não devia ter tocado naquele assunto. Falar sobre a perda do irmão, era como tocar numa ferida não cicatriza.

...

Duas semanas se passaram, Viviane foi até a antiga escola onde conversou com a diretora, que se sensibilizou com o seu caso, mas disse que não havia vagas.

Ela passou a manhã procurando emprego e entregando currículos nas escolas privadas da cidade. Ao passar pelo prédio da Welsch Corportation, ela estacionou o carro, mas a frente e andou até o local onde o ex-marido trabalhava.

Tombou com o mesmo homem que viu no restaurante há mais de quatro anos. Apesar de sua feição inescrutável, ele era formoso. Viviane tinha a vaga lembrança daquele homem com cabelos castanhos e um queixo marcado.

- I'm sorry! - disse a voz rouca. - Desculpe-me, - Desta vez, ele pediu em português.

- Você não olha para onde anda? - Ela perguntou grosseiramente. - Saía da minha frente, estou com pressa.

Os executivos paravam para ver a mulher exaltada que ainda caminhava com auxílio de uma muleta. Ela mancou pelo piso cerâmico branco até a recepção.

- Quero falar com o senhor Welsh?

- Lamento, ele só atende com hora marcada.

- Meu ex-marido faz parte do conselho. Pietro Müller!

- Só um momento!

A mulher esguia teclou rapidamente e verificou as informações na tela do computador pouco antes de tirar o telefone do gancho.

- Bom dia, o senhor Müller está? - A recepcionista franziu o cenho. - Muito obrigada e desculpe o incômodo.

A funcionária que usava um terninho preto olhou para a mulher ansiosa.

- Doutor Müller foi transferido para fora do país.

- Pode me dar o telefone dele?

- Lamento, mas isso está fora da minha alçada, - falou e se virou para atender outra pessoa.

Sem saber o que fazer, Vivian esfregou as mãos nos olhos. Ela escutou a mulher que se aproximou do balcão e murmurou algo sobre mandar as candidatas para o cargo de babá até o escritório dela.

- O senhor Welsh quer que eu encontre uma babá até o fim da tarde de hoje.

- Oi! - Vivian insistiu.

- Já disse que não posso ajudá-la, - replicou a recepcionista.

- Sou uma das candidatas a vaga de babá...

A gerente do departamento pessoal a olhou com desdém.

- Me acompanhe!

No andar da administração, Vivian aguardava. As garotas jovens e com a constituição delicadas chegavam e sentavam ao seu lado. Havia quatro moças loiras e uma com o cabelo castanho.

- Ela não será contratada! - Uma das candidatas cochichou e ergueu o queixo mostrando a muleta de Vivian. - Uma criança corre muito e apronta, precisa ter saúde e disposição.

Mesmo com toda a carga negativa, a mãe desesperada não se deu por vencida. Estava determinada a se submeter a esse emprego para encontrar sua filha.

- Vivian Bernardi - a gerente a chamou.

Deixando a muleta, ela se esforçou para chegar até a porta sob os olhares condenatórios.

- Não encontrei o seu currículo, - mencionou a mulher do outro lado da mesa.

- Foi meu ex-marido que me indicou para a vaga, - mentiu descaradamente.

- Ele é? - Elevou as sobrancelhas espessas.

- Pietro Müller.

- Ah, Sim! - A mulher robusta franziu o cenho e organizou as folhas na mesa. - Você já trabalhou com crianças?

- Eu sou pedagoga, - Vivian esboçou um sorriso ao lembrar do trabalho. - Amo as crianças, trabalhei por mais dez anos lecionando numa escola.

- Isso é bom! - disse a gerente, animada. - Do you speak english?

- Yes, I do! - confirmou rapidamente.

- Great! - Correspondeu ao sorriso de Vivian.

- Seu currículo é maravilhoso, mas gostaria de saber como daria conta de uma criança correndo pelo parque?

Meio sem graça, Vivian olhou para uma de suas pernas e suspirou profundamente. Sua limitação poderia ser um empecilho para a tão almejada vaga de babá do CEO.

- Compreendo. - Levantou. - Muito obrigada!

Ao sair da sala, Vivian nem mesmo teve coragem de pegar sua muleta. A próxima candidata foi chamada enquanto ela esperava pelo elevador. Estava tão desanimada, que entrou no e parou ao lado do mesmo homem com quem esbarrou no saguão do hotel.

- Onde você está indo? - Gabriel indagou.

Os olhos verdes mediram o homem comprido de cima a abaixo.

- Não te interessa!

A porta do elevador privativo abriu no espaço com cores brancas, decoradas com quadros e espelhos que deixavam o ambiente mais sofisticado. Naquele instante, as bochechas de Vivian ardiam, sua pele enrubesceu ao ver o homem que sentava atrás da enorme mesa.

- Me desculpe, - ela continuou parada, tentando lidar com a vergonha. - Como faz para sair daqui?

- Com isso! - Gabriel exibiu o cartão de acesso que jogou na mesa. - O que faz na minha empresa?

- Eu vim para a entrevista de babá, mas... - depois desse fiasco, ela parou de falar.

Não era só o fato de estar na sala da presidência, estava sem graça por lembrar da forma que tratou Gabriel pouco antes da entrevista.

- Qual seu nome? - A expressão impassível a esquadrinhou.

- Viviane Bernardi, - respondeu em voz baixa.

Gabriel rabiscou numa folha. Naquele momento, ela viu que sua chance estava perdida.

- Poderia abrir por gentileza, senhor Welsh?

Ela deu um passo para o lado quando ele respirou pesadamente e foi até a porta branca.

- Saia da minha sala! - Ele ordenou enquanto acenava para o elevador.

Resignada, ela mancou até entrar na caixa de metal.

No espelho do elevador privativo, ela notou a blusa branca amarrotada e os cabelos sem corte. Os fios opacos e com frizz estavam presos num coque mal feito. Nem mesmo o bom currículo a ajudaria a preencher essa vaga.

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