Hannah Brooks
Se alguém me dissesse que o auge dos meus vinte e três anos seria resumido a disputar um cabo de guerra contra um ciclone por causa de um guarda-chuva de dez dólares - e perder -, eu teria rido. Mas aqui estava eu: ensopada até a alma, equilibrando três sacolas plásticas pesadas que cortavam a circulação dos meus dedos, enquanto tentava enfiar a chave na fechadura de casa.
A chave, claro, decidiu fazer greve.
Quando eu era criança, assistia aos filmes da Disney e genuinamente achava que seria a princesa salva por um príncipe em um cavalo branco.
Hoje? Não acredito em príncipes, e meu ranço por cavalos é vitalício, cortesia de um tombo homérico num passeio escolar aos quinze anos. A realidade é um balde de água fria. Ou, no meu caso atual, uma tempestade inteira.
A porta finalmente destrancou com um estalo seco. Entrei deixando um rastro de lama no tapete, parecendo uma versão piorada da Samara saindo do poço.
Na sala, o cenário de sempre. Meu pai estava fundido ao sofá, hipnotizado por um jogo de futebol qualquer, enquanto minha mãe tricotava na poltrona como se o mundo não estivesse desabando lá fora. Ela ergueu os olhos, me avaliando de cima a baixo com um sorriso perfeitamente ensaiado.
- Hannah, querida, finalmente - disse ela, sem mover um músculo para me ajudar com as sacolas que rasgavam nas minhas mãos. - Sua irmã estava perguntando por você. Algo sobre precisar de duzentos dólares emprestados.
- Que bom que ela tem expectativas - mutilei entre dentes, ignorando o comentário e seguindo direto para a cozinha
"Empréstimo", na linguagem da Amelie, significava doação compulsória sem direito a reembolso.
Deixei as compras na bancada e respirei fundo ao olhar para a pia.
Uma cordilheira de pratos, copos e panelas gordurosas me encarava de volta. Se eu não lavasse, aquela louça criaria ecossistema próprio e exigiria direitos trabalhistas. Mas hoje não. Eu tinha uma prova de macroeconomia na manhã seguinte que definiria se eu continuaria na faculdade ou se passaria o resto da vida fritando hambúrguer.
Guartei as compras no piloto automático, peguei uma maçã para enganar o estômago e comecei a subir os degraus, rezando para ser invisível. Não funcionou.
- Hannah, querida? - a voz da minha mãe ecoou da sala, cirúrgica. - Onde vai? Não vai preparar o jantar? E não esqueça da louça na pia.
Parei no meio da escada. Olhei para as minhas roupas coladas ao corpo, para o meu cabelo pingando no chão e me virei.
- A Amelie tem duas mãos funcionais, mãe. Ela pode muito bem fazer os dois. Preciso estudar para uma prova importante amanhã.
O tom da minha mãe mudou instantaneamente, ganhando aquela rigidez defensiva de sempre.
- Não fale assim da sua irmã. Você sabe que a nossa Mel é sensível. Ela tem alergias severas e não pode nem chegar perto de detergente. E quanto ao jantar, ela não sabe cozinhar.
- A Amelie não tem alergia, mãe. Ela tem preguiça crônica. São diagnósticos bem diferentes - respondi, sem um pingo de paciência. - E para o jantar, existe delivery.
Girei nos calcanhares antes que ela pudesse começar o melodrama, subi o resto dos degraus e bati a porta do quarto, trancando-a em seguida. Se eu não tomasse um banho fervendo nos próximos cinco minutos, a pneumonia deixaria de ser um risco e viraria uma certeza.
Viver sob o teto dos meus pais era um exercício diário de sobrevivência psicológica. A dinâmica da nossa casa não era apenas complicada; era o Groundhog Day do favoritismo. Desde que me entendo por gente, o roteiro era o mesmo: Amelie era a porcelana frágil que precisava ser guardada na cristaleira; eu era o trator que aguentava o tranco.
Se você está se perguntando por que uma mulher de vinte e três anos ainda se sujeita a isso, a resposta tem cinco letras: D-I-N-H-E-I-R-O. Ou a falta dele.
Meu salário de meio período na lanchonete do centro mal dá para cobrir a mensalidade da faculdade e os custos dos meus próprios livros, embora eu ainda tente ajudar com as contas de luz para não ouvir piadas.
Minha mãe está desempregada há tanto tempo que acho que esqueceu o que é um currículo. Meu pai se desdobra como contador em um escritório médio. E Amelie? Bem, ela continua sendo "jovem demais para o estresse do mercado de trabalho".
Sair daqui agora era um suicídio financeiro. Minha única luz no fim do túnel era o casamento.
Ryan e eu estávamos juntos há pouco mais de dois anos. Ele apareceu na lanchonete em um dos meus piores dias, pediu um café puro e um sorriso, e acabou levando meu número. Seis meses atrás, durante um jantar na casa dos pais dele, ele me deu um anel simples, mas que representava a minha carta de alforria. Eu aceitei sem hesitar.
Eu o amava. Ele era a única parte da minha vida que não parecia uma obrigação exaustiva.
Saí do banho, vesti um moletom velho e desbotado e me joguei na cama. Meu celular, que tinha ficado carregando, vibrou na escrivaninha. Uma mensagem do Ryan.
"Pensando em você."
Logo abaixo, uma foto borrada de um novo esboço em que ele estava trabalhando.
Ryan era um artista de alma livre - o que, na prática, significa que ele é um aspirante a pintor e músico que atualmente paga o aluguel repondo caixas de cereal no Walmart na escala da madrugada.
Ele ainda não teve sua grande chance, e o nosso casamento esta sendo adiado há meses porque nenhum de nós consegue pagar as taxas do cartório, quem dirá uma festa.
Mas olhando para a foto dele com os dedos sujos de grafite e aquele sorriso torto que desarma qualquer mau humor meu, eu não me importo. Eu acredito no talento dele. E, honestamente, no meio do meu caos diário, saber que alguém esta do meu lado faz o guarda-chuva quebrado e a louça suja parecerem problemas absurdamente pequenos.
Cael Sterling
Me recosto na cadeira de couro com a paciência de quem está a um milímetro de cometer um homicídio. Meus olhos fixam na mulher à minha frente. Hailey Donovan. Cabelos dourados, curvas esculpidas para fazer qualquer homem perder o juízo e olhos verdes injetados de veneno. Ela sabe como me instigar, mas é ainda melhor em testar meus limites.
Para o público, ela é a perfeição. Rosto angelical na TV, postura milimétrica nas passarelas, simpatia ensaiada para os repórteres. O retrato da doçura.
Estão todos redondamente enganados.
Hailey é uma predadora nata. Sabe usar as regras do jogo, contorcendo cada cláusula para encaixá-la nos seus caprichos. Manipuladora, ardilosa e acostumada a ouvir "sim".
Menos de mim. Sou a única engrenagem no mundo dela que recusa comando. E essa falta de controle a corrói.
- Já estamos juntos há quase dois anos, Cael. A mídia especula quando você vai me pedir em casamento - diz ela, desfilando pelo meu escritório, tentando me convencer de que dois mais dois são cinco.
Apoio o peso na borda da mesa, rastreando seus passos.
- Diga-me, querida... desde quando dou a mínima para o que a mídia especula?
- Pense na minha carreira - ela rebate, parando abruptamente com os olhos faiscando. - Pense nas manchetes. Não entrei nesse relacionamento para ser seu brinquedo de luxo. Tínhamos um acordo.
- Um acordo comercial que beneficia ambos os lados - retruco, gélido. - E que não mencionava alianças. Minha prioridade é meu filho, Hailey. O Theo não vai ver outra mulher ocupando esse espaço na minha vida. E...
- Quem não está pronto é você - ela me interrompe, a voz afiada. - Desde o divórcio, você virou um covarde. Aquela mulher te esmagou e você não teve culhão para revidar. Entrei nessa história por interesse e continuo aqui pelo mesmo motivo. Mas se você não vai cumprir sua parte... isso não faz mais sentido.
Ela avança até o sofá, agarra a bolsa com fúria contida, me lança um olhar transbordando ódio e sai do escritório. A porta de carvalho se fecha com um estrondo.
Conto até cinco.
Arranco a gravata do pescoço; ela parece um torniquete tentando me sufocar. Jogo o tecido em qualquer canto e passo as mãos pelos cabelos, pressionando as têmporas para aplacar a enxaqueca.
Foram quatro horas trancado em uma reunião exaustiva, engolindo burocracia para liberar as obras do novo hospital da cidade.
E quando saio, acreditando na ilusão de que terei paz, dou de cara com Hailey instalada na minha cadeira, me esperando com uma ideia brilhante: um pedido de casamento em público.
Ela só pode estar brincando.
Enxergo o desastre antes de o gatilho ser puxado. Não vou caminhar para o matadouro. Já cometi esse erro uma vez, e bastou para me vacinar contra a estupidez. Casar de novo? Nem no meu pior pesadelo.
Minha primeira tentativa me ensinou que certas cicatrizes gangrenam. Serena Hanks. Fomos amigos de infância, confidentes. Me apaixonei por ela - meu maior erro e pior castigo. Namoramos por anos, nos casamos há seis. No começo, a ilusão funcionava. Serena era leve, vibrante. Achei que tinha um lar.
Tudo corria bem... até a gravidez.
No segundo em que o teste deu positivo, a máscara caiu. Eu sempre quis a paternidade, dizia isso com orgulho. E quando o Theo nasceu, minha vida finalmente fez sentido. Para Serena, o garoto foi uma sentença de prisão. Um fardo. O lembrete físico de tudo o que ela repudiava: rotina e obrigações.
Lembro daquela noite com a nitidez de um trauma recente. Entro em casa e a encontro sentada na sala, com duas malas prontas ao lado da porta. O olhar dela era opaco.
Ela me disse na cara que se sentia sufocada. Que a vida doméstica nunca foi seu sonho e que o papel de mãe não estava nos seus planos. Com a indiferença de quem descarta um café frio, avisou que estava indo embora.
Theo tinha seis meses. E eu, estático no meio da sala com o peito rasgado, me deparei com o pior pesadelo de um homem: segurar um recém-nascido sozinho, sem entender onde meu mundo ruiu.
Eu me humilhei. Sugeri terapia, prometi mudanças, implorei para ela não pulverizar a família que juramos proteger. Mas ela já tinha feito as malas na alma. Passou pela porta e me deixou de joelhos.
Três semanas depois, a verdade explodiu na minha cara. Descobri Serena nos braços de outro. Sempre existiu outro homem; ela só não teve o caráter de admitir.
O divórcio foi um banho de sangue. Serena forjou provas, costurou narrativas perversas e me pintou nos tribunais como um monstro controlador. Alega que eu a tratava como égua reprodutora, que só a queria para garantir um herdeiro para os Sterling. Me reduziu a uma caricatura em papel timbrado.
Eu teria perdido tudo - inclusive a guarda do meu filho - se não fosse por David Maddox. Meu advogado e melhor amigo destroçou cada mentira dela com a precisão de um cirurgião. Ele salvou minha reputação e garantiu a guarda unilateral do Theo.
Serena foi esmagada no veredito. Condenada a arcar com os custos processuais e os honorários do David - que custam uma fortuna. Perdeu qualquer direito de visita e, pouco tempo depois, desapareceu do mapa. Nunca mais ligou ou mandou sinal de vida. Nada.
Isso faz quase quatro anos. Desde então, a regra é clara: ninguém entra na minha vida de forma definitiva. Não há cota de confiança disponível. Nem mesmo para Hailey. O que temos não é romance, é um contrato de conveniência mútua com benefícios físicos. Um arranjo prático, e ponto final.
Theo não tem memórias da mãe. Era jovem demais para registrar o abandono e, honestamente, é o maior livramento da vida dele. Nunca vou permitir que ele passe por aquilo outra vez. Nunca vou deixar outra mulher entrar na rotina dele para depois descartá-lo como se fosse um erro de percurso.
Meu filho é meu único norte. Sempre foi. Sempre será.
E ninguém - absolutamente ninguém - cruza essa linha.
Hannah Brooks
Sete e cinquenta da manhã de uma terça-feira. O sol lá fora está radiante, mas a cozinha dos meus pais parece um tribunal soviético. E, para variar, eu sou a ré.
- Família ajuda família, Hannah. Você não pode simplesmente lavar as mãos e fingir que não é contigo - minha mãe dispara, usando aquela voz chorosa de quem ensaiou o drama no espelho.
- Eu não estou lavando as mãos - respondo, mantendo o tom de voz dois tons abaixo do dela para não perder a razão. - Só não vou financiar o hospício.
- Mas, filha, a sua irmã precisa...
- Não, mãe. Ela quer. São verbos bem diferentes.
Olho para a Amelie, que está encostada na geladeira com cara de poucos amigos. Ela não trabalha, não estuda e a maior realização da vida dela até hoje é fingir que é influenciadora digital para pouco mais de cem seguidores no Instagram.
Agora, a nova pauta da mesa de café da manhã é que eu deveria trancar a minha faculdade - a mesma que eu pago trabalhando meio período - para dar o dinheiro das mensalidades de entrada em um carro para ela.
Solto uma risada curta, sem a menor vontade de rir.
- Cadê as câmeras? Onde é que o apresentador do programa de pegadinhas vai entrar para me dizer que isso é piada?
- Você não entendeu que eu preciso de um carro? - Amelie aumenta o tom de voz, cruzando os braços. - Todas as minhas amigas já dirigem. Algumas têm até apartamento. Não é justo eu ainda morar com os nossos pais!
Arqueio uma sobrancelha. A capacidade dela de se fazer de vítima devia ser estudada pela ciência.
- E desde quando o seu padrão de vida virou um problema meu?
- Você é minha irmã mais velha! Devia me apoiar por querer ser independente! - Ela bufa, batendo o pé como uma criança de cinco anos que não ganhou o doce no supermercado.
- Eu apoiaria a sua independência com o maior prazer do mundo... se ela não saísse do meu bolso. Não vou queimar o meu futuro para virar o seu banco particular, Amelie. Esquece.
Minha mãe bota a mão no peito, ultrajada com a minha falta de "espírito familiar".
- Querida, ninguém está pedindo para você desistir do seu futuro. Estamos sugerindo que você atrase um pouco. Um ano, talvez dois. Só para dar um empurrãozinho na sua irmã.
- Ou ela pode fazer o que qualquer pessoa de vinte anos faz: criar vergonha na cara e arrumar um emprego.
Pego minha mochila na cadeira e jogo nos ombros antes que o teto da casa desabe de vez.
- Preciso ir. Tenho uma aula agora. Uma aula que eu pago, aliás.
Saio batendo a porta da frente antes de ouvir o próximo argumento magnífico.
Caminho pela calçada em direção ao ponto de ônibus, respirando o ar puro da manhã para limpar o estômago. O show de horror de minutos atrás não é novidade; é o roteiro padrão daquela casa. A única diferença é que eu cansei de baixar a cabeça. Aquela chantagem emocional barata que funcionava quando a gente era criança perdeu a validade.
A verdade é que a Amelie nunca teve uma responsabilidade na vida. A maior delas foi cuidar de um cacto que ganhou de aniversário - e que conseguiu matar afogado em duas semanas. Ela foi criada achando que o mundo tem uma dívida histórica com ela, e meus pais são os fiadores desse delírio.
O ônibus dobra a esquina bem na hora. Subo, passo a roleta e me espremo em um dos bancos do fundo. Coloco os fones de ouvido no volume máximo. Pelo menos nas próximas duas horas, o resto do mundo está no mudo.
Cael Sterling
- Eu só preciso que você o busque na escola e o leve direto para casa, Mia. - Minha voz sai controlada demais, no limite exato antes de eu arremessar o celular contra o vidro da janela. - O Xavier levou o carro para a revisão. Só isso. Não quero meu filho enfiado em lanchonete comendo lixo industrializado.
Do outro lado da linha, o silêncio dura dois segundos. O tempo exato para eu prever o contra-ataque.
- E desde quando eu sigo o teu cronograma, Cael? - ela retruca, destilando deboche. - Eu sou a tia, tenho direitos. Se eu decidi que o Theo vai comigo naquela lanchonete nova perto do colégio, ele vai. Aceita que dói menos.
Fecho os olhos, pressionando o polegar contra a têmpora para conter a enxaqueca. Discutir com a Mia é o equivalente a negociar com uma adolescente mimada - com a diferença de que ela tem um limite bancário sem teto e zero medo das consequências.
- Eu sou o pai dele, Mia. - Reduzo o tom, deixando a ameaça implícita. - E estou dizendo que você não vai...
- E eu sou a tia - ela corta, sem o menor respeito pela minha autoridade. - Vamos comer hambúrguer. Beijo, tchau.
A linha fica muda.
Olho para a tela apagada do celular, estático. Passo a mão pelo rosto, empurrando o cabelo para trás enquanto tento resgatar o que me sobra de sanidade.
Eu amo a minha irmã. Amo aquela praga insuportável e teimosa. Mas responsabilidade, definitivamente, não é o forte da Mia.
No escritório, ela é uma máquina.
Brilhante, cirúrgica, destrói a concorrência sem piscar. Mas no segundo em que passa da porta giratória para o mundo real, a vida pessoal dela vira um desastre iminente. Trinta anos, solteira convicta, zero planos de sossegar. Mia é a encarnação da "tia legal" - não só para o Theo, mas para a Savannah e o Ethan, filhos do meu irmão mais velho, Sebastian.
Ela é a tia legal porque sabota todas as regras que os pais impõem.
O ápice dessa inconsequência aconteceu a meses atrás.. Numa sexta-feira, sem dar um único aviso, Mia passou na escola, pegou a Savannah e o Ethan e simplesmente evaporou. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação, celular desligado.
A Savannah tem onze anos. O Ethan, treze.
O Sebastian e a Ayla entraram em completo desespero. Passamos dois dias no inferno, sem pista nenhuma. Já estávamos com a polícia de prontidão quando a criatura resurgiu na noite de domingo, sorrindo como se tivesse levado os sobrinhos para dar uma volta no quarteirão.
A Savannah voltou com o cabelo pintado de azul-turquesa.
O Ethan, com um piercing no nariz.
A briga em família quase quebrou o teto da casa. Gritos, ameaças de processo, promessas de cortar o contato. E a Mia? Ficou ali, servindo de escudo para os dois, discursando sobre "liberdade de expressão" e "fases do amadurecimento". É um argumento lindo, até você ser o pai que passou quarenta e oito horas achando que os filhos tinham sido sequestrados.
No fim, ninguém fez nada. Se proibirmos a Mia de ver os moleques, ela faz algo três vezes pior só pelo desafio.
Com o Theo ela ainda não cruzou essa linha, provavelmente porque ele é pequeno demais para os delírios de rebeldia estética dela. Mas ela já cruzou o país com o meu filho sem a minha autoridade.
Eu estava do outro lado do mundo fechando um contrato de milhões quando descobri que meu filho de três anos estava em um voo doméstico com uma maluca. Quase infartei.
Ela é um perigo público.
E o pior de tudo? O resto da família ainda compra o teatro dela e finge que está tudo bem.
"☆☆☆☆☆☆"
Mia Sterling
Estaciono o carro em frente à escola do Theo com o sorriso de quem acabou de vencer uma guerra invisível. Vai ter hambúrguer, sim, e com o combo completo de batata frita. Quer o Cael queira, quer não.
Desligo o motor, jogo os óculos escuros para o topo da cabeça e saio para o asfalto quente. Por um segundo, cogito se não estou mesmo criando um pequeno monstro anárquico, mas espanto o pensamento. A vida já é séria demais; o garoto merece um pouco de gordura trans e subversão assistida.
Caminho até a entrada cumprimentando metade dos funcionários pelo nome. Como sou eu quem busca o Theo em noventa por cento das vezes, se um dia eu faltar, a secretaria provavelmente liga para a polícia achando que o apocalipse começou.
Entro no corredor principal, engolindo aquele eco clássico de gritaria infantil. Na sala do Theo, o caos da saída está no auge: peças de Lego voando, risadinhas e mochilas de rodinha colidindo. Meu sobrinho está sentado no tapete, concentrado como se estivesse fechando uma fusão de empresas.
Troco duas palavras com a professora - mantendo o teatro de "adulta responsável" que nós duas sabemos que é pura conveniência - e ela elogia o desenvolvimento dele. Inflo o peito com um orgulho que não é meu por direito, mas que eu confisco de qualquer forma.
Me aproximo do tapete e os olhos verdes do Theo me acham.
O rosto dele vira uma antena parabólica de felicidade. Ele levanta num pulo desengonçado e se joga contra as minhas pernas, quase me derrubando.
- Tia Mia! Tia Mia! Olha o que a gente fez!
O garoto me desarma. Sempre. Deixo que ele me puxe até a pilha de Lego que desafia todas as leis da física e da gravidade.
- Uau, rapazes. Isso aqui é engenharia de ponta - comento, impressionada. - Trabalho em equipe?
Os três meninos abrem sorrisos idênticos.
- Eu vou construir prédios que nem meu pai quando crescer! - o David avisa, estufando o peito.
- Ele vai ter orgulho, meu amor - respondo, apertando a bochecha dele.
- E eu vou ser um super-herói que nem o papai! - o Henry, meu afilhado, decreta com a certeza absoluta de quem já escolheu o destino.
- Não tenho a menor dúvida. Mas agora, a conversa está ótima e nós precisamos voar.
Theo faz exatamente o mesmo bico dramático que o Cael usa quando perde um prazo na empresa - a genética Sterling não falha -, mas obedece. Ele se despede com abraços rápidos, promete terminar a fortaleza amanhã, e nós saímos.
Eu sei que essas crianças me idolatram. Sou a melhor madrinha e a melhor tia do mercado, mesmo sendo, historicamente, a pior influência da família.
No estacionamento, o Theo me lança aquele olhar de canto, calculista.
- A gente vai na lanchonete do Batman? - ele tenta soar casual, mas falha miseravelmente.
- Com certeza. Porque eu quero e porque eu posso.
O sorriso que ele me dá é daqueles que pagam qualquer fatura de cartão de crédito. Eu amo esse moleque com força. Ajudo o Cael a segurar o tranco desde os seis meses dele.
Já limpei muito vômito na madrugada, cantei músicas idiotas para baixar febre e segurei o mundo quando o mundo dele cabia no meu colo. Ele me escolheu como porto seguro, e eu assinei o contrato sem ler as letras miúdas.
Amo meus sobrinhos como se fossem meus. Talvez porque, no fundo, eu sempre soube que a contagem pararia neles.
Tecnicamente, a adoção existe, eu sei. Não sou tapada. Só não está nos planos. Mas a verdade nua e crua, aquela que guardo trancada a sete chaves, é que a fábrica fechou. Há cinco anos, meu útero foi parar no lixo de um hospital em Berlim por causa de uma complicação que quase me levou junto.
Minha família não faz a menor ideia. Eu morava fora, fingindo que minha vida era um filme europeu cult, enquanto meu corpo desmoronava nos bastidores. Passei por tudo sozinha: a cirurgia, a recuperação e as noites encarando o teto, tentando entender como processar o luto de um sonho que morreu sem fazer barulho.
Detesto alugar os outros com os meus dramas. Meus irmãos já me tratam como se eu fosse feita de cristal só por ser a caçula; se descobrem isso, me trancam numa redoma de vidro. Eles protegem exagerando, eu sobrevivo fingindo que sou invencível.
Caminhamos de mãos dadas até a lanchonete temática colada na escola. O lugar é um surto psicodélico de super-heróis, animes e decorações exageradas, cheirando a óleo de fritura, açúcar queimado e milk-shake industrializado. Um paraíso.
Assim que passamos pela porta, Theo solta a minha mão.
- Tia, posso ir lá dar oi para a Naná? - ele já está inclinado, pronto para a arrancada.
- Vai lá, velocista. Mas sem atropelar oos clientes.
Fico de longe olhando ele correr até uma das garçonnetes e travar as pernas dela com um abraço. Ela toma um susto, o corpo tensiona por reflexo, mas relaxa no segundo em que vê que é ele.
O nom dela é Hannah. "Naná" é o apelido de bastismo do Theo.
Ela é nova, bonita, mas carrega aquela cara de cansaço crônico de quem bate cartão na vida real e acorda cedo demais para pagar boleto. Mesmo assim, o sorriso dela para o Theo é legítimo
Nossa rotina aqui começou há uns seis meses, logo depois que o Theo mudou de escola. Teve uma tarde específica que sacramentou o esquema. O Cael tinha prometido buscá-lo, mas teve uma crise na Sterling e sumiu. O Theo murchou de um jeito que quebrou meu coração. Ficou mudo, encarando o copo de suco como se o mundo tivesse acabado.
Foi aí que a Hannah apareceu. Ela trouxe o hambúrguer, mas trouxe também um bloco desenho, três giz de cera quebrados e uma miniatura de brinde que tirou do próprio bolso. Sentou ali, falou meia dúzia de abobrinhas e fez careta até arrancar uma risada dele.
Uma amizade esquisita: um menino carente de promessas paternas e uma garota exausta do mundo, mas que ainda tinha um resto de luz para doar. De um jeito torto, aquele dia salvou um pedaço de nós três.