Ponto de vista de Perséfone.
Sempre que a brisa gelada de Lourmarin assobiava por entre os ciprestes, eu me via de novo na cozinha dos Velentzas, em Atenas.
Aos dezoito anos, eu era apenas a empregada, uma garota com mãos calejadas de trabalho, mas o coração transbordando por Apolo, o herdeiro com olhos de obsidiana e um sorriso capaz de incendiar toda a Grécia.
Lembro-me do cheiro de azeite e alecrim misturando-se com o perfume amadeirado dele, dos beijos roubados na despensa escura, das noites intensas no pomar e da forma como ele me olhava como se eu fosse a única estrela no céu.
Éramos amantes imprudentes, consumidos por uma paixão que ignorava hierarquias e o peso do sobrenome Velentzas. Aqueles meses foram o paraíso disfarçado de segredo, até o dia em que tudo se desfez.
A notícia da gravidez me pegou de surpresa. O pior de tudo foi descobrir que Apolo se casaria com uma italiana, linda e de boa família.
Conhecia o patriarca da família Velentzas e sabia que o filho de uma mera empregada seria uma afronta a ser removida.
Com medo, fugi pra salvar a vida que crescia em meu ventre.
Tinha me escondido por vários meses numa pequena aldeia por quase um ano até receber a notícia de que Apolo estava entre a vida e a morte.
Por isso, eu voltei. Queria vê-lo e mostrar ao nosso filho... mas esse foi o meu maior arrependimento.
Se eu pudesse voltar àquele momento exato em que a dor e a culpa me fizeram voltar para Atenas, eu teria ficado longe e lidado com a dor do luto, caso ele morresse; mas Apolo sobreviveu e, cinco anos depois, ele me culpava por depender de uma muleta e ter mobilidade reduzida.
Certa tarde, o silêncio foi interrompido apenas pelo som melancólico dos sinos. Estava ajudando o meu filho Ícaro com as lições da escola quando a governanta avisou.
- O senhor Apolo quer falar com você...
- Já vou! - Tentei remediar.
- Perséfone, deixe que cuido do Ícaro. É melhor você ir logo.
Ao entrar na sala, eu o vi. Apolo estava imóvel diante da janela, com os ombros largos numa camisa de linho cinza, levemente curvados.
- Senta! - disse ele, sem olhar.
Acomodei-me no sofá e pousei minhas mãos entrelaçadas sobre os meus joelhos.
Meus olhos estavam fixos na lareira apagada, como se a fumaça pudesse apagar as memórias.
- Está pensando em fugir de novo? - A voz dele soou áspera.
Num movimento claudicante, ele se virou.
Mantive o olhar estático, sem lhe dar a satisfação de me encarar.
- Não - sussurrei.
A verdade era que eu continuava tentando encontrar meios de escapar desde que pisei de volta naquele inferno.
Horas antes, fui buscar Ícaro na escola. Tinha entrado lá com o coração aos pulos enquanto me enchia de coragem para implorar ajuda a qualquer professora.
- Senhorita, volte para o carro! - O segurança me pegou pelo braço.
Fui levada de volta para o Peugeot, ajeitei Ícaro no colo e dei uma olhada rápida pela janela. Jean, o segurança fofoqueiro, falava ao telefone. Era óbvio que contava tudo a Apolo.
- Da próxima vez, você nunca mais vai ver Ícaro - Apolo retrucou bruscamente, tirando-me do meu flashback. - Entendeu?
Meus ombros enrijeceram, meu queixo inclinou-se quase imperceptivelmente. Eu me encolhi, preparando-me mentalmente para um golpe.
- Sim.
Apolo pegou a bengala. O contato da muleta com o chão produziu um ruído que fazia meu coração acelerar.
Fechei os olhos por um instante, engolindo seco. A imagem do aperto firme do guarda-costas em meu braço ainda pulsava na memória. Não havia mais escapatória.
- O jantar está servido, senhor! - Uma das funcionárias murmurou com a voz embargada, mal o olhando.
- Não estou com fome. - Ele respondeu grosseiramente.
Virou o rosto para a janela, onde tons dourados cruzavam o céu no fim da tarde, e caminhou em direção à porta com passos medidos.
No limiar, ele olhou sobre o ombro direito, mas não disse nada. Apenas retomou o caminho da saída, deixando-me sozinha.
"Ele não está com fome, mas me deixa aqui morrendo de medo. Ele goza com o meu pavor. Ele está se vingando."
- Perséfone, já preparei a refeição do Ícaro... - A governanta disse gentilmente.
- Obrigada... Vamos comer na cozinha. Eu não aguentava mais o silêncio opressor daquela sala de estar.
Mais tarde, cuidei de Ícaro até ele adormecer. Com delicadeza, puxei o cobertor estampado com o Homem-Aranha sobre seu corpo.
Comecei a vasculhar a mochila do meu filho, procurando o bilhete que eu havia deixado em seu caderno. Minha última e desesperada esperança era que a professora visse o pedido de socorro. Revirei as folhas, peguei os livros, vasculhei toda a mochila. Nada.
Se Apolo soubesse do bilhete, ele me colocaria para fora daquela casa sem sequer pestanejar. Deitei ao lado de Ícaro e, silenciosamente, fiz uma prece pra que Apolo não tivesse encontrado o meu pedido de ajuda.
A manhã seguinte chegou com o som invasivo de um riso feminino ecoando pelo corredor principal.
"Quem ousava rir daquela forma?" Sentando na cama, eu me perguntei
Saltei da cama e parei ao lado da porta do quarto de Ícaro. Senti um frio na barriga mesmo tendo coragem de espiar.
Sobressaltada, eu me afastei quando os toques fortes na porta ecoaram do outro lado do corredor.
- Quem é, mamãe?
Ícaro sentou-se na cama, coçando os olhinhos.
- Deve ser o seu pai!
Com cautela, abri a porta e lá estava Apolo, com aquele ar entediado e provocador que eu conhecia tão bem. Ele exibia a visitante como um troféu.
"Seria sua nova noiva troféu?"
Ao lado dele, a mulher de pele de porcelana e cabelos platinados sorriu. A saia envelope, que realçava sua curva esguia, ia até o joelho. O blazer feminino se ajustava ao seu abdômen reto.
Antes que eu pudesse sequer formular um pensamento, Apolo se antecipou, me roubando a voz e a dignidade:
- Essa é a babá do meu filho.
O impacto daquela frase foi tão violento que, por um momento, tudo ao redor pareceu perder a cor. Meu coração bateu com fúria, minhas mãos suaram.
"Babá? Sou a mãe dele!" Tive vontade de corrigir, mas não expressei em voz alta.
- Enchanté, je m'appelle Léa ! - A francesa se apresentou, com uma elegância que me fez sentir ainda mais como a camponesa grega que ele sempre soube que eu era.
- Perséfone não fala francês - Apolo disse com desdém.
- Ah... - a mulher murmurou com um sorrisinho falso. - Então você cuida do pequeno? Que adorável... Meu nome é Léa.
Eu apenas assenti, recusando-me a cair na armadilha cruel de Apolo.
- Professora Léa! - A voz sonolenta de Ícaro me tirou do meu torpor.
- Sou Perséfone.
Meus cílios tremeluziam ao olhar para Apolo quando me apresentei para a nova professora.
- A partir de hoje, a sua professora virá dar aulas pra você em casa, campeão. - O humor do homem, que habitualmente era rancoroso, suavizou quando se dirigiu ao filho. - Vá se arrumar! - Afagou os cabelos do Ícaro. - Vamos tomar café com sua professora antes da aula.
Assim que o corredor voltou a ficar em silêncio, agachei-me ao lado do meu filho. Voltei ao quarto e recolhi um dos bloquinhos.
- Está triste, mamãe? - Curioso, Ícaro perguntou.
- Não, meu anjo! - Forcei um riso que mais parecia um espasmo. - Vai lá escovar os dentes... já vou pegar a sua roupa.
Embora me esforçasse para manter a aparência diante dele, por dentro, eu estava aos cacos.
"Será que essa professora encontrou o bilhete e mostrou ao Apolo? É por isso que ela está aqui? Para me vigiar?" Pensei, enquanto organizava os bloquinhos numa caixa.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto quando olhei a luz acesa que vinha do banheiro, onde meu filho fazia sua assepsia matinal.
Não sabia se veria Ícaro outra vez depois daquele café da manhã com Apolo e Léa.
Ponto de vista de Perséfone.
Durante o café da manhã. Eu tentava alimentá-lo, mas Ícaro franziu a testa, apertados os lábios em recusa quando eu tentei lhe dar um pouco de iogurte grego.
- Coma mais um pouco - murmurei, passando o polegar em seu queixo.
Ele afastou minha mão com um muxoxo mal-humorado. Ícaro queria ir pra escola e brincar com os amiguinhos, mas ficou chateado quando soube que passaria a ter aulas em casa.
A professora Léa e o Apolo não estavam sentados à mesa conosco. Provavelmente, eles deviam estar bem íntimos no escritório.
A governanta surgiu à porta com passos leves e silenciosos, trazendo mais um recado:
- Perséfone... - falou, mantendo a postura ereta e as mãos unidas na frente do avental. - O senhor Apolo está perguntando pelo filho.
- Ícaro ainda não acabou de tomar o café. Mas está pronto - acariciei os cabelos dele, depois me levantei com cuidado. - Vamos! - falei, guiando-o pela mão.
A governanta saiu e desapareceu no corredor. Suspirei antes de me abaixar, ficando na altura do meu pequeno.
"Um dia, vou tirar você daqui e te levar para longe de todo este horror." Prometi em meus pensamentos.
- Vamos ver a professora Léa? - sugeri, tentando animá-lo com um sorriso.
Segurando sua mão pequena e quente, conduzi Ícaro até a sala de estudos. Era um cômodo amplo, com janelas abertas que deixavam entrar a luz da manhã francesa. Sobre a grande mesa de carvalho, repousavam livros infantis, lápis de cor e um globo antigo que girava lentamente com a brisa.
Ícaro fitou a professora com olhos aflitos e balançou a cabeça negativamente.
- Quero ir para a escola - A voz embargada do meu filho mal disfarçava o choro iminente.
Ícaro correu na direção contrária, buscando uma saída, mas parou abruptamente quando dois seguranças surgiram no final do corredor, bloqueando o caminho. Não havia para onde fugir.
Ao chegar perto dele, eu me abaixei, abraçando-o com força.
Meu filho era apenas uma criança que sentia falta da rotina, dos coleguinhas, dos sorrisos que não precisavam ser contidos e monitorados dentro daquela casa. Mas a escolha havia sido retirada de nós, não havia mais liberdade.
- Hoje a aula será aqui, querido.
Mas Ícaro já estava aos prantos. Suas mãos pequenas agarraram a minha cintura com força, enquanto a boca se escancarava em um choro alto e inconformado. A cada soluço, o corpinho estremecia, e eu o abracei mais forte, sentindo sua dor como se fosse a minha.
"É por sua causa que eu estou aqui, meu anjo. Por sua causa, eu aceito ser chamada de babá."
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Ponto de vista de Apolo.
Sentado atrás da minha mesa do escritório, eu prestava atenção no monitor do laptop que transmitia a cena de Ícaro agarrado à babá, chorando. Fechei o notebook e respirei fundo quando comecei a sentir aquela maldita dor na perna, quando empurrei a cadeira para trás. O rangido das rodinhas foi abafado pelo toque da ponta no mármore.
Eu me levantei com esforço. A perna boa recebia meu peso, enquanto eu colocava todo o meu peso na outra.
Mancando, eu atravessei o escritório. Do corredor, ouvia o choro do meu filho.
Quando me aproximei, ele parou de chorar e começou a soluçar.
Não disse nada de imediato. Endireitei a postura, apoiando o punho sobre o cabo entalhado da bengala de madeira escura. Meus dedos apertavam a peça com uma força que canalizava a dor.
- O que está acontecendo aqui? - perguntei.
- Ícaro queria ir à escola hoje - disse Perséfone.
Desviei os olhos para o rosto do meu filho, que estava escondido na lateral da mãe. O Ícaro não era mais um bebê. Ele precisa de disciplina, não de mimos.
- Ícaro, vá para a sala - ordenei.
Senti a dor na perna se intensificar, mas endireitei os ombros. A posição de autoridade era inegociável.
Os olhos da professora buscaram os meus antes de dizer:
- Ele só está confuso. Foi tudo muito repentino.
- Confuso? - repeti, e a palavra saiu com a acidez de um limão grego. - Ícaro não está doente e nem mesmo com febre. E você não está aqui para justificar os caprichos dele, professora Léa.
Perséfone segurou a mão pequena de Ícaro e recuou um passo. O garoto se agarrou a ela com mais força.
- Ícaro - chamei, com o tom mais brando, mas ainda duro. - Olhe para mim.
Ele ergueu o rosto molhado e os olhos marejados.
- Hoje você vai estudar aqui. A professora Léa já está esperando. Agora, vá para a sala.
Mesmo soluçando, Ícaro entrou com passos inseguros até a sala de estudos. Ele parou na porta e se virou.
Fiquei em silêncio, observando-o desaparecer. Só então me voltei novamente para Perséfone.
- Não admito esse tipo de espetáculo nesta casa - disparei, frio.
Ela era o problema. Vivia mimando o garoto e fazia tudo o que ele pedia.
- Crianças choram - Perséfone teve a audácia de me desafiar.
Mancando com dificuldade, parei a poucos centímetros e olhei para ela, examinando-a como um erro em minha organização meticulosa.
- Você é só uma funcionária nesta casa - articulei. - Ponha-se no seu lugar e pare de mimar o Ícaro.
A professora Léa surgiu na porta novamente e sorriu antes de propor:
- A babá do Ícaro pode ficar aqui durante a aula se o senhor permitir.
Espremi os olhos enquanto estudava Perséfone, sentindo o calor nos olhos dela, que queimavam de revolta. Desviei o rosto para Léa e, a contragosto, concordei com um leve movimento de cabeça. Mais uma desordem tolerada.
Virei-me com o mesmo movimento claudicante de sempre. O som da bengala tocando o chão preencheu novamente o corredor.
Ponto de vista de Perséfone.
Contendo o choro, o meu filho continuou sentado em sua cadeira.
O rostinho estava vermelho, os olhos marejados e com aquele soluço que me consternava.
A professora Léa ajeitou os óculos sobre o nariz e o observou. Suas roupas, discretas e impecáveis, pareciam gritar sua adequação ao universo opulento e frio de Apolo.
- Hoje faremos algo diferente, Ícaro - disse ela, pousando um livro ilustrado diante dele. - Você escolhe a história.
Ele olhou para a capa e, em seguida, para o fundo da sala, onde eu estava. Nossos olhos se encontraram por um instante. O meu filho buscava refúgio em mim, mas eu só podia observá-lo de longe.
- Eu estou aqui! - Balbuciei, esperando que a professora não me ouvisse.
- Quer esperar mais um pouco? - perguntou Léa, sentando-se ao lado dele.
Ele assentiu, calado.
"Meu menino. Sempre tão contido. Sempre se contendo pelo medo dos adultos."
Poucos minutos depois, o som conhecido da bengala ecoou pelo corredor.
"Ah não, lá vem ele", olhando para a porta, pensei. Aquele homem era a personificação de Hades e causava medo não só a mim, mas aos funcionários que trabalhavam naquela casa.
Apolo surgiu na porta. Erguido sobre a própria autoridade, com o rosto impenetrável, o corpo ainda mais rígido do que de costume.
- Professora Léa - chamou, com aquela voz que nunca se alterava, nem para o bem, nem para o mal.
Ela se levantou depressa. Os passos dela eram suaves, quase reverentes. Aproximou-se demais.
- Ele ainda está muito abalado - disse Léa, num tom doce. - E me perdoe se me excedi, monsieur Apolo, mas... por que esse apego tão intenso de Ícaro pela babá? Ele parece buscar nela algo que... - Ela parou.
"Diga. Diga o que pensa, vadia".
Apolo ergueu uma sobrancelha como se estivesse escutando os meus pensamentos.
- As crianças se apegam a quem cuida delas - ele respondeu. - Perséfone cuida dele desde que nasceu.
É isso o que eu sou? Uma babá, não uma mãe.
- Ela o acolhe como se fosse a mãe do seu filho - insistiu Léa. - E o senhor parece permitir. O que é curioso vindo do senhor.
O canto da boca dele se ergueu.
"Ah, Léa... você não faz ideia do que provoca quando toca o orgulho dele."
- O seu horário terminou, professora - disse Apolo, seco.
- Mas eu nem consegui dar a aula.
- Volte amanhã, no mesmo horário, madame Roux. - Praticamente ordenou e se virou, mancando.
Léa o acompanhou com os olhos semicerrados. Eu juro que vi fascínio.
"Você acha que entende, professora Léa, mas não conhece o abismo de onde ele veio."
Quando ele desapareceu no corredor, ela sorriu. Virou-se para Ícaro, tentando recompor a doçura.
- Você está liberado, Ícaro. Amanhã, vou contar uma história sobre dragões...
Ícaro assentiu, com o queixo apoiado nas mãos.
- Vamos. - Estendi a mão para ele.
Ele levantou-se sem protestar. Quando chegamos à porta, senti um toque em meu ombro. Virei-me para Léa.
- Amanhã, a sua presença não será permitida durante a aula. - A professora enfatizou.
"Vadia!" Quis responder. As palavras queimavam na língua. Mas as câmeras estavam ali, penduradas como olhos que jamais piscavam.
Contida, eu dizia para mim mesma, "'Não dê a ele motivo. Fica quieta."
- Vamos, mamãe! - Ícaro me chamou, de longe.
Léa arqueou as sobrancelhas, surpresa.
"É isso aí, sou a mãe e não a babá do meu filho"
Saí da sala com as mãos cerradas e o coração latejando. O som dos passos de Ícaro era leve e saltitante. Fui atrás dele, guardando a raiva no fundo da garganta, junto de tudo o que me proíbo de sentir.
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Ao cair da tarde, eu quis ficar um pouco no jardim, já que a casa inteira parecia respirar ódio. Minhas mãos estavam entrelaçadas no colo, os olhos perdidos entre as flores lilases e o meu filho que brincava com o carrinho no meio das pedras.
Anos atrás, Apolo se recuperou, mas com ajuda do pai, ele me impediu de ir embora com Ícaro. Numa manhã de verão em Atenas, o meu filho foi tirado de mim e levado por uma decisão judicial quando Apolo exigiu a guarda total de Ícaro.
Era óbvio que ele usou a influência de Eros Velentzas para tomar a única coisa mais preciosa que eu já tive na vida. A mim, ele concedeu apenas um trabalho de ser a babá do meu filho e dormir na ala dos empregados. Não houve um dia que não amaldiçoasse Eros por ter mandado Apolo pra aquela casa na França.
E O rosto se contraiu por um instante, e uma lágrima escorreu. Sentia o gosto salgado da dor ao tocar o queixo. Após secar o meu rosto com as costas das mãos, tomei um gole do meu chá preto, que já estava completamente frio.
Foi então que ouvi o som ritmado dos passos e o toque seco da bengala. Nem precisava olhar pra saber que era Apolo.
- Está no seu horário de folga? - perguntou, a voz grave e rude.
Não me virei.
- Sim, senhor.
Ele caminhou até ficar ao meu lado, com o olhar voltado para o mesmo jardim onde o sol tocava o rosto dele de lado, acentuando o seu rosto com queixo proeminente mandíbula quadrada.
- O que disse para a professora do Ícaro? - Ele perguntou, sem me encarar.
Virei o rosto só o suficiente para vê-lo de relance. A barba sombreava-lhe o maxilar. Os olhos profundos ainda estavam fixos no jardim onde o nosso filho brincava.