"Bem aí, sim, assim mesmo."
Quando ouvi a voz ofegante e aguda da mulher, fiquei paralisada na porta.
Ela estava na minha cama como se fosse a dona do lugar, seus cabelos escuros espalhados pelo travesseiro. No chão, um vestido vermelho que eu nunca tinha visto estava jogado ao lado de saltos que provavelmente custavam mais do que meu aluguel, e o batom dela manchava não só sua boca, mas também seu pescoço.
Kelvin estava em cima dela, passando as mãos pelos seus cabelos e beijando seu pescoço, enquanto os lençóis que eu havia lavado há três dias estavam emaranhados em volta das pernas deles.
Quando ele ergueu a cabeça, nossos olhos se encontraram.
No entanto, ele não parou, nem se afastou, e nem sequer pareceu surpreso. Apenas me encarou por um longo segundo antes de se sentar lentamente na beirada da cama.
"Freya." Ele me chamou num tom monótono, como se eu tivesse acabado de pegá-lo assistindo à televisão, e não transando com outra mulher na nossa cama.
A mulher me olhou, mas sem se cobrir ou pegar suas roupas. Apenas se apoiou num cotovelo e me observou com seus olhos castanhos preguiçosos.
"Você deveria ter ligado", disse Kelvin.
Fiquei tão atordoada que não consegui processar as palavras, nem entender o que ele acabara de dizer. Permaneci parada ali, com as chaves na mão e minha bolsa de trabalho no ombro.
"Ligar?", perguntei num tom baixo.
"Sim. Você costuma trabalhar até tarde nas quintas-feiras."
A mulher soltou uma risadinha, um som que me fez arrepiar.
"Está falando sério?" Minha voz era mais firme do que minhas mãos, que tremiam tanto que tive que enfiá-las nos bolsos.
Kelvin se levantou, pegou sua cueca do chão e a vestiu sem pressa ou vergonha alguma. "Olhe, Freya. Precisamos conversar."
"Você acha?"
Ele passou a mão pelos cabelos bagunçados, aqueles que eu costumava acariciar quando assistíamos a filmes no sofá, e que eu havia lavado no mês passado quando ele estava bêbado demais para se levantar. Agora, eu só queria arrancá-los da sua cabeça.
"Isso iria acontecer mais cedo ou mais tarde. Você e eu não estávamos dando certo."
O chão parecia instável sob meus pés. "Então você decidiu resolver isso trazendo outra pessoa para a nossa cama?"
"Vou me casar."
As palavras dele não faziam sentido, como se estivessem num idioma diferente. "O quê?"
"No próximo sábado. Vou me casar."
A mulher se endireitou, olhando para Kelvin com os olhos arregalados. "Você ainda não contou a ela?"
"Eu ia contar", ele respondeu rispidamente, sem desviar o olhar de mim.
Meu peito estava apertado, como se alguém estivesse sugando todo o ar dos meus pulmões. "Com quem?"
"Vanessa. Nossas famílias combinaram."
"Combinaram...", repeti a palavra lentamente, tentando entender essa situação. "As pessoas não combinam casamentos mais.""
"Minha família combina. Isso já estava planejado há algum tempo."
"Há quanto tempo?"
Ele deu de ombros. "Alguns meses."
Alguns meses... Ele sabia há meses que iria se casar, mas não disse nada e continuou a dormir ao meu lado, me pedir para pagar metade do aluguel porque estava sem dinheiro e fazer planos para o próximo semestre como se tivéssemos um futuro.
Algo se rompeu dentro de mim. Não quebrou, ainda não, mas foi o suficiente para permitir que a raiva começasse a surgir.
"Saiam."
Kelvin piscou. "O quê?"
"Saiam do meu apartamento. Vocês dois." Minha voz era baixa, mas incisiva.
Ele soltou uma risada, mas não era uma risada genuína, e sim o som que ele fazia quando achava que eu estava sendo ridícula. "Seu apartamento? Eu pago metade do aluguel, Freya."
"Não mais. Você tem dez minutos para se vestir e ir embora antes que eu chame a polícia."
"E o que vai dizer a eles? Não violei nenhuma lei."
"Então vou jogar todas as suas coisas pela janela. Você pode pegá-las na rua. A escolha é sua."
A mulher finalmente se moveu, saindo da cama para pegar suas roupas do chão. Ela não olhava para mim enquanto se vestia, suas mãos tremendo ligeiramente.
Ótimo.
Kelvin a observou por um segundo antes de se virar para mim. "Você está exagerando."
"E você acabou de me dizer que vai se casar com outra pessoa em seis dias, depois de eu ter te pego na cama com uma mulher. Saiam antes que eu faça algo que ambos vamos nos arrepender."
Ele me encarou, seu maxilar contraído e os olhos duros. Esse era o olhar que ele assumia quando não conseguia o que queria, quando seu time perdia um jogo, quando seus amigos cancelavam os planos - quando as coisas não saíam exatamente como ele queria.
Sem piscar, o encarei de volta.
Ele pegou sua calça jeans na cadeira perto da janela e a vestiu.
A mulher já estava vestida, parada na porta do quarto com os braços cruzados sobre o peito, como se estivesse com frio.
"Isso não vai ficar assim", disse Kelvin enquanto passava por mim em direção ao corredor.
"Vai sim."
Parando na porta da frente, ele se virou, seu rosto vermelho de raiva. "Virei amanhã buscar minhas coisas."
"Vou deixá-las no corredor."
"Freya, qual é..."
"Saia."
A mulher passou por mim e foi até a porta apressadamente. Kelvin me lançou um último olhar antes de segui-la para fora.
A porta se fechou com força, fazendo a moldura tremer.
Olhei para a bagunça.
Os lençóis estavam parcialmente no chão, e o perfume da mulher estava por toda parte, doce, forte e desagradável. O quarto inteiro cheirava a ela.
Indo até a cama, puxei os lençóis com força e os joguei no chão, depois peguei os travesseiros e os joguei também. Eu queria queimar tudo, limpar o apartamento inteiro até não restar nenhum vestígio dele.
No entanto, só fiquei parada no meio do quarto, com o peito ainda apertado e as mãos trêmulas.
Esperei para chorar, mas as lágrimas não vieram.
Em vez disso, me senti vazia, como se alguém tivesse entrado e retirado tudo o que importava, me deixando apenas com o ar e a raiva.
Meu celular vibrou no meu bolso, então o peguei e vi que era uma mensagem do meu chefe do restaurante.
"Pode cobrir o turno de Amy amanhã de manhã? Começa às 6h."
Respondi que sim. Eu sempre aceitava, pois precisava do dinheiro. Na verdade, sempre precisava.
Kelvin dizia que pagava metade do aluguel, mas isso só acontecia quando ele se lembrava. Eu acabava pagando o resto, além das compras do mercado e das contas de água, luz e internet, quando ele gastava seu salário com bebidas com os amigos.
Agora, eu teria que arcar com tudo sozinha.
Olhando em volta do apartamento, vi que era pequeno e apertado. A tinta estava descascando no canto da janela, o aquecedor só funcionava quando queria, e a porta do banheiro não fechava completamente, mas ele era meu. Eu havia trabalhado para comprar cada móvel, sobrevivendo com dois empregos e aulas em tempo integral.
Sobreviveria a isso também.
Meu celular vibrou novamente. Desta vez, era Clara.
"Noite de filme? Tenho vinho e aquele queijo que você gosta."
Eu queria ficar sozinha, sentada no apartamento vazio sem sentir nada até que o vazio desaparecesse, então quase disse que não, mas acabei respondendo que sim, pois ficar sozinha de repente parecia pior do que fingir que estava bem.
Clara morava a dois quarteirões de distância, num prédio mais bonito que o meu.
Após pegar minha jaqueta, tranquei a porta atrás de mim. O corredor cheirava a alguém cozinhando curry, fazendo meu estômago roncar. Eu não comia desde o pão amanhecido que peguei entre as aulas esta manhã.
Clara sempre tinha comida, então eu comeria em sua casa.
A caminhada levou menos de cinco minutos. Outubro na cidade trazia um vento que atravessava casacos finos e fazia tudo parecer mais intenso, então mantive a cabeça baixa e as mãos nos bolsos.
Não chorei, nem gritei, nem fiz nada, exceto andar e respirar, tentando não pensar que Kelvin iria se casar em seis dias com uma mulher cujo nome eu havia acabado de descobrir.
Clara abriu a porta antes que eu batesse. Após olhar para o meu rosto, me puxou para dentro sem dizer uma palavra. Seu apartamento era aconchegante, e ela o mantinha aquecido o tempo todo porque dizia que o frio a deixava ansiosa.
"O que aconteceu?", ela perguntou, me levando até o sofá e me empurrando para os almofadões.
"Kelvin."
"O que aquele idiota fez agora?" Ela foi para a cozinha.
"Ele vai se casar."
O som de um copo se quebrando ecoou da cozinha.
Clara apareceu na porta com os olhos arregalados. "Ele vai o quê?"
"Se casar. No próximo sábado. A família dele combinou. Ele me contou isso depois que o peguei com outra garota na nossa cama."
O rosto de Clara ficou pálido, depois vermelho e, por fim, pálido novamente. Voltando para a cozinha, retornou com duas taças de vinho e uma garrafa, abriu a garrafa e encheu as taças.
"Me conte tudo desde o início." Ela me entregou uma taça e se sentou ao meu lado.
Contei tudo a ela: a porta destrancada, a voz da mulher, eu entrando no quarto, o vestido vermelho no chão, a voz monótona de Kelvin, a maneira como ele me olhou como se eu estivesse interrompendo algo importante, e o anúncio do casamento.
Clara não me interrompeu, apenas bebeu seu vinho e ouviu tudo, seu maxilar se contraindo a cada palavra.
"Vou matar aquele desgraçado", ela disse quando terminei.
"Entre na fila."
Ela se serviu de outra taça, sua mão trêmula. "O que vai fazer?"
"Pagar o aluguel sozinha, eu acho. Trabalhar em mais turnos. Talvez pegar umas horas extras na biblioteca da universidade." Após tomar um longo gole, continuei: "Vou evitá-lo quando ele vier buscar suas coisas."
O vinho era barato e amargo.
"Você devia ir ao casamento."
Olhei para ela. "Por que eu faria isso?"
"Para mostrar a ele que você não está abalada e que está bem sem ele."
"Mas eu não estou bem."
"Então finja." Ela se inclinou para frente, seus olhos brilhantes e intensos. "Apareça deslumbrante com alguém que faça Kelvin se arrepender de todas as escolhas que já fez."
"Não tenho ninguém assim."
"Então encontre alguém."
"Em seis dias? Clara, seja realista."
Ela ficou em silêncio por um momento, olhando para sua taça de vinho como se estivesse pensando profundamente em algo. "E o professor Metcalfe?"
Engasguei-me com o vinho. "O quê?"
"Você disse que ele tem te observado nas aulas ultimamente. Talvez ele possa ajudar."
"Ele é meu professor. Isso é completamente insano."
"Será mesmo?" Clara colocou a taça sobre a mesa. "O pai de Kelvin está no conselho da universidade, certo? E se Metcalfe o conhecer? E se ele tiver seus próprios motivos para querer mexer com a família de Kelvin?"
"Por que ele teria?"
"Não sei, mas você disse que Metcalfe te observa. Ele te chamou três vezes na semana passada, mesmo você não tendo levantado a mão. Talvez ele esteja interessado."
Minha cabeça começava a doer. O vinho estava fazendo efeito rápido demais com o estômago vazio. "Preciso ir para casa."
"Fique aqui esta noite."
"Tenho que trabalhar às seis da manhã."
"Então me deixe te levar."
"Estou bem."
Mas eu não estava. Estava tão mal que nem conseguia mais enxergar isso e só não queria que Clara me visse desmoronar.
Saí do apartamento dela e caminhei de volta pelas ruas frias.
O vento estava mais forte agora, atravessando minha jaqueta e fazendo meus olhos lacrimejarem. O cheiro de curry havia desaparecido, substituído pelo cheiro de fumaça de carro e da chuva que ameaçava cair.
Quando cheguei ao meu prédio, vi algo que me fez parar.
Havia um envelope branco colado na porta.
Meu nome estava escrito na frente numa caligrafia nítida e precisa que eu não reconhecia. As letras eram perfeitamente formadas, como se alguém tivesse dedicado seu tempo para escrevê-las.
Com os dedos trêmulos, o retirei e abri.
Dentro, havia um único cartão, feito de um papel grosso e caro, com o logotipo da universidade em relevo dourado na parte superior.
Abaixo, havia uma mensagem manuscrita na mesma caligrafia organizada.
*Senhorita Reed, Por favor, me encontre no meu escritório amanhã às 14h. É um assunto importante.
Professor A. Metcalfe*
O cartão escorregou dos meus dedos.
Como ele sabia onde eu morava?
Olhei para cima e para baixo do corredor, que estava vazio e silencioso, mas algo fez os pelos dos meus braços se arrepiarem.
Apertando o cartão, subi as escadas correndo, tranquei a porta e me recostei nela.
Tive a sensação de que, de algum lugar do prédio, ou talvez de fora, alguém estava me observando.
Ela exalava mágoa.
Percebi isso no instante em que Freya Reed entrou na minha sala de aula. Era um cheiro amargo e pungente, que se escondia sob o aroma do sabonete barato que ela sempre usava e do café.
Era evidente que algo a havia abalado na noite passada.
Ótimo.
Coisas quebradas eram mais fáceis de reivindicar.
Recostando-me na cadeira, a observei se sentar no seu lugar habitual na terceira fileira.
Com a cabeça baixa, seus cabelos loiros caíam sobre seu rosto, o escondendo. Enquanto os outros alunos faziam barulho ao seu redor, ela permanecia quieta, suas mãos trêmulas sobre o colo.
Há três semanas, quando ela completou dezenove anos, seu cheiro finalmente se revelou, rompendo qualquer barreira que o mantinha oculto. A palavra "companheira" ecoou na minha mente com tanta força que quase me transformei ali mesmo, na minha mesa.
Na época, Kael rugiu, exigindo que eu tomasse o que era nosso, mas eu não podia. ainda não. Ela não fazia ideia do que ela era, nem de que eu era muito mais do que apenas seu professor.
Sendo assim, esperei, observei e planejei.
Foi então que notei Kelvin Brooks. Aquele lobisomem idiota e arrogante, filho do meu inimigo, estava namorando minha companheira.
Isso não podia continuar!
Na noite passada, a segui até sua casa e vi Kelvin com outra mulher. Ouvi a briga deles e depois os vi indo embora. À meia-noite, deixei meu bilhete na porta dela, sabendo que uma oportunidade como essa não poderia ser desperdiçada.
Agora, ela estava ali, completamente arrasada, e eu pretendia aproveitar cada segundo disso.
"Bom dia." Levantei-me e dei a volta na minha mesa para me apoiar na borda, passando os olhos pela sala antes de fixá-los nela. "Abram na página quarenta e sete."
Quando ela ergueu a cabeça, nossos olhos se encontraram e uma faísca surgiu entre nós. Por um segundo, sua respiração ficou presa na garganta, e ela desviou o olhar rapidamente, começando a folhear seu livro.
Kael ronronava dentro de mim. Eu sabia que ela também sentia essa atração - o vínculo tentava se formar, mesmo com a barreira entre nós.
Forcei-me a desviar o olhar e pedi para outro aluno ler. A aula se arrastava por cinquenta minutos fingindo me importar com a literatura gótica enquanto meu lobo queria esvaziar a sala e prendê-la na mesa.
Por fim, o relógio marcou nove e cinquenta. "Por hoje é só. Os trabalhos devem ser entregues na sexta-feira."
Enquanto os alunos começavam a guardar suas coisas, Freya colocou seu material na bolsa e se levantou rapidamente.
"Senhorita Reed, fique." Minha voz cortou o barulho da sala.
Ela congelou, enquanto todos os outros alunos passavam por ela. Alguns olhavam para trás com curiosidade, mas ninguém disse nada.
Quando o último aluno saiu, fui até a porta, a fechei e a tranquei.
O clique ecoou na sala silenciosa.
Freya estava parada ao lado da sua mesa, segurando a bolsa com força. "Recebi seu bilhete."
"Eu sei."
"Como sabia onde eu morava?"
"Isso importa?", devolvi a pergunta, me aproximando apenas alguns passos, o suficiente para deixá-la nervosa.
Ela deu um passo para trás. "O que você quer?"
Direta ao ponto.
Gostei disso - sem joguinhos.
"Soube de Kelvin."
Seu rosto empalideceu, mas logo foi tomado por um rubor de raiva. "Como?"
"As pessoas falam." Parei a alguns metros de distância, perto o suficiente para sentir seu cheiro - medo, raiva e algo mais doce por baixo. "O casamento dele é no sábado."
"E daí?"
"Você deveria ir."
Ela me olhou como se eu tivesse perdido a cabeça. "Quer que eu vá ver meu ex se casar? Está falando sério?"
"Quero que vá comigo."
Um silêncio pesado pairou no ar.
Ela piscou. "O quê?"
"Como minha acompanhante. Vamos juntos. Você estará incrível e ele perceberá o que perdeu. Todos sairão ganhando."
"Isso é loucura."
"Será mesmo?", perguntei, inclinando a cabeça e observando seu rosto. "Ou é exatamente o que você quer? Entrar lá e fazê-lo se arrepender de tudo?"
Seu maxilar se contraiu, e pude ver a batalha travada em seus olhos, com o orgulho lutando contra a necessidade de vingança.
"Você é meu professor. Há regras", ela disse por fim.
"Não estaríamos quebrando nenhuma regra. Só indo a um evento público juntos. Nada inapropriado." Fiz uma pausa, deixando a palavra pairar entre nós.
Inapropriado... como se estivéssemos pensando nas inúmeras maneiras de quebrar essas regras.
Sua bochechas ficaram coradas. "Isso não faz sentido. Por que você iria querer ir?"
"Deixe isso comigo."
"Não. Preciso saber o que você ganha."
Garota esperta e desconfiada, mas eu podia lidar com isso. "Vou irritar pessoas de quem não gosto e você vai se vingar. Simples."
"Nada é simples."
"Então considere isso um favor."
"Não pedi favor nenhum."
"Mas você precisa de um." Dei mais um passo, e percebi que ela não recuou desta vez, apenas me observava com seus olhos castanhos arregalados. "Kelvin não te merece. A família dele não tem o direito de te fazer se sentir inferior. Então, vamos lá mostrar a eles que você não é alguém que eles podem descartar."
"Fingindo que namoro meu professor?"
"Fazendo com que eles pensem duas vezes antes de te subestimar."
Ela mordeu o lábio, um hábito nervoso que fazia Kael querer mordê-lo por ela. "Não tenho nada para vestir. Trabalho a semana toda e não posso pagar..."
"Eu cuido de tudo. Roupas, carro... tudo. Você só precisa comparecer."
"Por que faria isso?"
Porque você é minha...
As palavras quase escaparam, mas as engoli. "Isso importa?"
"Sim."
Por um momento, ficamos ali, nos encarando. A sala parecia menor e mais quente. Eu podia ouvir seu coração batendo, acelerado, mas sem pânico.
Ela estava ponderando a proposta.
"Uma noite", sussurrei. "Apenas no casamento. Depois, voltaremos ao normal e você não precisará me ver fora da sala de aula novamente."
"E se eu disser não?"
"Então você diz não. Não vou te forçar." Mantive meu olhar fixo no dela, deixando claro que estava falando sério. "Mas nós dois sabemos que você quer isso."
Ela prendeu a respiração. Por um instante, sua guarda baixou, e pude ver a raiva que se escondia por baixo de tudo, a dor e o desejo de fazer Kelvin sentir o mesmo que ele a fez sentir.
"Essa é uma péssima ideia", ela murmurou.
"Provavelmente."
"Eu deveria dizer não."
"Você deveria."
"Mas não vou."
Uma onda de vitória me invadiu e Kael rugiu em aprovação.
"Excelente escolha", elogiei, mantendo minha voz calma, embora tudo em mim quisesse agarrá-la nesse momento. "Te busco às quatro no sábado."
"Às quatro? O casamento é só às sete."
"Precisamos acertar alguns detalhes antes. Coisas que você precisa saber antes de chegarmos lá."
Seus olhos se estreitaram. "Que coisas?"
"Nomes, rostos, pessoas para evitar... explicarei tudo no sábado." Passei por ela em direção à porta e a destranquei. "Agora vá. Você tem que ir trabalhar logo."
"Como sabe disso?"
"Você cheira a graxa e café. Não é difícil adivinhar." Abri a porta e a segurei aberta, esperando que ela passasse.
Ela passou por mim lentamente, cautelosa, como se temesse que eu fosse agarrá-la.
Não fiz isso, apenas a observei caminhar em direção à saída.
"Senhorita Reed."
Ela parou e olhou para trás.
"Use seu cabelo solto no sábado." Meus olhos percorreram seu corpo lentamente, sem pressa alguma. "Fica bem em você."
Instantaneamente, seu rosto corou. Virando-se, saiu sem dizer mais nada.
Fiquei parado na porta, a observando desaparecer pelo corredor, A maneira como ela se movia, a curva de seus quadris naqueles jeans apertados, a forma como seu cabelo balançava a cada passo...
Ela era minha.
Quando a porta se fechou, me virei para a sala de aula vazia.
Kael começou a rosnar dentro da minha cabeça, exigente e faminto.
*Ela aceitou. Ela é nossa agora.*
"Ainda não, não até que a barreira se rompesse, não até que ela descobrisse o que realmente era."
*Ela saberá em breve. O cheiro dela está mudando, ficando mais forte. A barreira está se rompendo.*
"Eu sabia disso. Podia sentir. Há três semanas, o aroma dela era fraco e sutil, mas agora estava ficando mais claro a cada dia, mais doce e intoxicante."
*Deveríamos tê-la mantido na sala, trancado a porta e a obrigado a entender que ela pertence a nós.*
"Isso só a deixaria apavorada e faria com que ela fugisse e arruinando tudo."
*Ela não fugiria. Ela é mais forte do que imagina.*
"Talvez, mas eu não poderia arriscar isso."
Fui até a janela, olhei para o campus abaixo e a avistei caminhando pelo pátio em direção ao estacionamento. Mesmo de longe, eu conseguia identificá-la e acompanhar seus movimentos em meio à multidão de alunos.
"Olhe para ela, para a maneira como ela se move, e como ela tenta se encolher."
Ela não ficaria encolhida por muito tempo. Quando sua loba acordasse, ela seria poderosa, perigosa e perfeita.
Quando ela estivesse sob nós, seus olhos castanhos olhando para cima, sua boca aberta, dizendo nosso nome...
Agarrei o parapeito da janela com tanta força que a madeira se rachou, enquanto imaginava reivindicá-la, marcar aquele pescoço bonito e garantir que todos os homens soubessem que ela era nossa.
Sábado. Faltavam apenas cinco dias. Cinco dias e eu a teria perto o suficiente para começar a derrubar suas barreiras, perto o suficiente para que o vínculo entre nós exercesse pressão sobre essa barreira, até que a barreira finalmente se rompesse.
Cinco dias eram muito tempo, tempo o suficiente.
Ela tentaria lutar contra isso, contra nós. Afinal, ainda não entendia do que se tratava.
Mas eu a ensinaria, mostraria a ela e a faria entender que lutar contra o destino era inútil.
E se ela fugisse?
Ela não conseguiria ir muito longe.
Continuei a observando enquanto ela entrava no seu carro, um veículo velho e batido que parecia que poderia parar a qualquer momento.
Ela ficou sentada ali por um bom tempo, com as mãos no volante, apenas sentada ali, perdida em pensamentos.
Ela estava pensando em nós, provavelmente se arrependendo da sua escolha ou se perguntando o que acabara de aceitar.
Garota esperta...
Ela não fazia ideia do que havia aceitado.
Não, ela não fazia, e não podia fazer.
Ela não tinha a menor noção de que o homem com quem acabara de fazer um acordo era um lobisomem que estava à beira de perder a cabeça há três semanas, que passava todas as noites lutando contra a vontade de invadir seu apartamento e marcá-la enquanto ela dormia, que queria despedaçar Kelvin Brooks com as próprias mãos por ter ousado tocar no que era meu.
Meu.
Não, nosso.
Por fim, seu carro deu partida e saiu do estacionamento.
Fiquei o seguindo com os olhos até que ele desaparecesse na esquina.
O sábado não chegava logo.
Precisávamos nos alimentar, pois a fome estava piorando.
Depois que... Depois que eu tivesse certeza de que o apartamento dela estava seguro, depois que eu desse uma olhada na matilha, depois que eu garantisse que o pessoal de Asher não estava por perto.
Eu sempre iria protegê-la, sempre a vigiaria.
Ela odiaria isso se soubesse, mas com o tempo, entenderia.
Quando sua loba acordasse, ela também sentiria a necessidade de proteger, de reivindicar, de marcar.
De foder.
Fechei os olhos e respirei fundo.
O aroma dela ainda pairava na sala, persistente, deixando Kael louco.
Cinco dias... Apenas cinco dias e poderíamos tê-la, tocá-la, saboreá-la.
Cinco dias pareciam uma eternidade.
Peguei meu casaco e fui em direção à porta. Eu tinha trabalho a fazer, planos a traçar e um casamento para me preparar.
Por trás de tudo isso, havia uma simples verdade que me consumia:
Freya Reed não fazia ideia do que estava por vir, e eu mal podia esperar para mostrar a ela.
Às quatro da tarde, um Bentley preto estacionou em frente ao meu prédio.
Da janela, fiquei o observando.
O carro, que parecia custar mais do que tudo o que eu tinha, talvez até mais do que o prédio inteiro, brilhava sob o sol da tarde como se fosse algo de outro mundo.
Meu celular vibrou.
"Estou aqui."
Apenas duas palavras de Adrian, sem qualquer saudação ou gentileza.
Mas por que eu esperaria algo assim dele?
Peguei minha bolsa e desci as escadas, sentindo minhas mãos tremerem novamente. Elas estavam tremendo a semana inteira, desde que concordei com esse plano insano.
A semana inteira foi estranha, e meus sentidos estavam mais aguçados.
Eu conseguia ouvir conversas do outro lado da lanchonete que não deveria conseguir ouvir. Os cheiros também estavam mais fortes, e minhas emoções oscilavam entre a raiva e algo que eu não conseguia identificar.
E ainda havia os sonhos... sonhos de correr por florestas, caçar, com dentes, garras e a luz da lua.
Culpei o estresse por tudo isso.
Quando saí, Adrian estava encostado no carro, usando uma calça preta e uma camisa cinza-escura com as mangas dobradas até os cotovelos e os dois primeiros botões desabotoados, sem gravata. Ele parecia ter acabado de sair de uma revista, pelo amor de Deus!
Seus olhos me acompanharam enquanto eu me aproximava, com o mesmo olhar intenso que tinha na sala de aula, como se ele pudesse ver através das minhas roupas, da minha pele, e até mesmo o que eu estava tentando esconder.
"Pronta?", ele perguntou, com uma voz baixa e suave.
"Por acaso tenho alguma escolha?"
"Sempre se tem uma escolha", ele respondeu, abrindo a porta do passageiro. "Mas você já fez a sua."
Entrei no carro.
O interior era todo de couro preto e madeira escura, e tinha um cheiro luxuoso, como dinheiro e algo mais que fazia minha pele se arrepiar.
Adrian entrou pelo lado do motorista, dando partida no motor. Em pouco tempo, nos afastamos do meu prédio e seguimos para a cidade.
"Para onde estamos indo?", perguntei após alguns minutos de silêncio.
"Para minha casa. Você precisa se arrumar."
"Mas eu poderia ter me arrumado em casa."
"Não, você não poderia. Confie em mim." Ele me lançou um olhar de soslaio.
Apesar de não confiar nele nem em nada disso, mas eu já estava no carro, então que escolha tinha agora?
Passamos pelo bairro mais sofisticado da cidade, onde os prédios tinham porteiros e os restaurantes não tinham os preços nos cardápios.
Adrian entrou numa garagem subterrânea sob um prédio que parecia tocar as nuvens, estacionou numa vaga marcada como Privativo e saiu.
Eu o segui até um elevador que exigia um cartão para funcionar. Subimos em silêncio, enquanto os números no painel subiam sem parar. Vinte andares, trinta, quarenta...
O elevador se abriu diretamente em um apartamento.
Não, não era um apartamento, era uma cobertura.
As janelas do chão ao teto revelavam uma vista de toda a cidade abaixo de nós. O lugar era enorme e aberto, com móveis modernos em preto e cinza. Nas paredes, havia obras de arte que provavelmente custavam mais do que minha mensalidade da faculdade.
Tudo estava tão impecável, como se ninguém morasse ali.
"Este lugar é seu?", perguntei, saindo do elevador lentamente.
"Um deles", ele respondeu, passando por mim em direção a um corredor. "Vamos, não temos muito tempo."
Segui ele pelo corredor até chegar em um quarto, que era maior do que meu apartamento inteiro. A cama era enorme, com lençóis pretos. Havia mais janelas e uma porta que provavelmente levava a um banheiro do tamanho da minha cozinha.
Sobre a cama, havia um vestido.
Parada na porta, fiquei o observando. O tecido parecia seda, em um tom verde-esmeralda profundo que mudava de tom conforme a luz. O vestido era simplesmente deslumbrante, o tipo de beleza que me deixava com um nó na garganta, já que eu sabia que nunca poderia ter algo assim.
"Isso é para mim?" Minha voz saiu baixa.
"Claro que sim." Adrian foi até o armário, pegou uma caixa e a colocou na cama ao lado do vestido.
Dentro da caixa, havia um par de sapatos de salto preto com solas vermelhas.
Em seguida, ele pegou outra caixa, menor, e a abriu para revelar as joias: um colar e brincos, brilhando.
"Não posso usar isso." Balancei a cabeça. "Isso é demais. Provavelmente custa..."
"Não me importo com o preço", ele interrompeu, se virando para me encarar. "Você vai a esse casamento parecendo que pode comprar e vender todos que estiverem lá. Entendido?"
"Mas eu não posso..."
"Freya", ele me chamou em um tom autoritário. "Vista o vestido."
Enquanto nos encarávamos, meu coração batia forte no peito. Tudo isso parecia errado, como se eu estivesse fazendo um acordo que não entendia, mas eu também queria ver a cara de Kelvin quando eu entrasse usando algo tão caro - queria que ele se afogasse no seu arrependimento.
"Tudo bem, mas preciso de privacidade." Aproximei-me da cama.
Os lábios de Adrian se curvaram em algo que não era bem um sorriso. "Estarei no banheiro. Me chame quando precisar de ajuda com o zíper."
Antes que eu pudesse contestar, ele desapareceu pela porta.
Fiquei sozinha no quarto enorme, olhando para o vestido. Minhas mãos tremiam mais ainda. Tirei minha calça jeans e camiseta e as deixei numa pilha no chão. Quando peguei o vestido, o tecido parecia água, frio e suave ao toque.
Quando o vesti e o puxei para cima, percebi que me serviu perfeitamente, até demais.
Como ele sabia meu tamanho? Como ele sabia de tudo isso?
O zíper ficava nas costas. Estendi a mão para trás e consegui puxá-lo até a metade, mas ele emperrou. Tentei novamente, mas não adiantou.
"Adrian?", chamei.
No instante seguinte, a porta do banheiro se abriu, como se ele estivesse esperando por isso.
Quando ele veio até mim, senti minha respiração falhar. Havia algo diferente na maneira como ele se movia, predatória e deliberada.
Ele parou atrás de mim e senti seu calor contra minhas costas.
"Fique parada", ele pediu, com a voz próxima ao meu ouvido.
Seus dedos tocaram minha coluna enquanto ele segurava o zíper e o puxava lentamente, centímetro por centímetro, seus nós dos dedos roçando minha pele.
Nesse momento, eu já havia parado de respirar.
Quando o zíper chegou ao topo, ele não se afastou.
"Pronto." Seu hálito estava quente contra meu pescoço. "Perfeito."
Eu não conseguia me mover, nem pensar. Suas mãos ainda estavam na minha cintura, firmes e possessivas, como se ele tivesse todo o direito de me tocar.
"Adrian", chamei, tentei soar firme, mas minha voz saiu trêmula.
"Se vire."
Eu deveria ter me afastado, mas meu corpo obedeceu antes que meu cérebro pudesse reagir e me virei para encará-lo.
Seus olhos estavam diferentes, mais escuros, com o azul quase desaparecido, engolido pelo preto.
"Linda", ele disse baixinho, como se estivesse falando consigo mesmo.
"O vestido é lindo", corrigi, minha voz quase em um sussurro.
"Não. É você." Sua mão se ergueu e afastou o cabelo do meu rosto, seus dedos se demorando na minha bochecha.
Algo estava errado. Afinal, ele era meu professor, e isso estava passando dos limites. Mesmo assim, não me afastei, nem pedi para ele parar, apenas fiquei ali, paralisada, enquanto seu polegar percorria meu queixo.
"Acho que deveríamos terminar de nos arrumar", consegui dizer por fim.
Ele abaixou a mão e se afastou, a escuridão nos seus olhos se dissipando um pouco. "Sente-se. Vou arrumar seu cabelo."
"Você vai arrumar meu cabelo?"
"Você prefere discutir sobre tudo ou fazer Kelvin se arrepender de ter nascido?"
Sem dizer mais nada, me sentei.
Adrian se colocou atrás de mim novamente. Quando seus dedos deslizaram pelos meus cabelos, senti um arrepio percorrer minha espinha.
Ele era gentil, surpreendentemente gentil, juntando as mechas e as torcendo, depois as prendendo.
Pude nos ver no espelho do outro lado do quarto - ele atrás de mim, suas mãos nos meus cabelos e um olhar concentrado no seu rosto.
"Onde aprendeu a fazer isso?", perguntei.
"Tenho irmãs."
"Você tem irmãs?"
"Tinha, mas há muito tempo." Algo passou pelo seu rosto, mas sumiu antes que eu pudesse identificar. "Pronto. Terminei."
Ele havia prendido meu cabelo num penteado elegante, com cachos soltos presos e algumas mechas emoldurando meu rosto.
Parecia profissional, como se eu tivesse passado horas num salão de beleza.
"Como você..."
"Agora as joias." Ele pegou o colar da caixa, um pingente simples numa corrente delicada, se colocou à minha frente e se inclinou, seu rosto a poucos centímetros do meu. "Levante o cabelo."
Então, juntei as mechas soltas e as segurei.
Ele colocou o colar no meu pescoço, seus dedos roçando minha garganta enquanto fechava o fecho.
Agora, eu podia sentir seu cheiro, algo limpo e sombrio que fez minha cabeça girar.
"Respire, Freya", ele pediu, sua boca próxima ao meu ouvido novamente.
"Estou respirando."
"Não, você está prendendo a respiração." Suas mãos deslizaram do meu pescoço para os ombros. "Relaxe."
Como eu poderia relaxar com ele me tocando assim? Cada toque dos seus dedos fazia minha pele pegar fogo.
Dando um passo para trás, ele estendeu a mão. "Os brincos."
Com as mãos trêmulas, coloquei os brincos, quase deixando um deles cair.
Adrian me observava o tempo todo com seu olhar intenso e sombrio. Quando terminei, ele inclinou a cabeça. "Se levante. Quero ver."
Ao me levantar, o vestido abraçava cada curva do meu corpo, os saltos fizeram minhas pernas parecerem mais longas, e as joias captavam a luz. Eu parecia outra pessoa, alguém que pertencia a coberturas e carros caros.
"Perfeito." Ele deu uma volta em mim lentamente, seus olhos percorrendo cada centímetro do meu corpo. "Absolutamente perfeito."
"Pare de me olhar assim."
"Assim como?"
"Como se você quisesse...", comecei, mas me interrompi.
"Como se eu quisesse o quê?" Ele parou na minha frente, perto demais. "Diga."
"Nada. Acho que deveríamos ir. O casamento vai começar em breve."
"Temos tempo." Sua mão se ergueu e traçou o decote do vestido, seus dedos roçando minha clavícula. "Você sabe o que esse vestido faz comigo?"
Mais uma vez, fiquei sem ar novamente. "Adrian..."
"Ele me faz querer tirá-lo de você." Sua voz era baixa e rouca. "Me faz querer ver o que está por baixo. Me faz querer colocar minhas mãos em você até que você se esqueça de que Kelvin um dia existiu."
Senti um calor me invadir, atingindo meu rosto, peito e abaixo. "Você não pode dizer coisas assim."
"Por que não? É a verdade." Seu polegar percorreu minha garganta. "Seu coração está acelerado. Posso sentir seu pulso aqui."
Pressionando suavemente meu pescoço, ele continuou: "Você também sente isso. Essa coisa que há entre nós."
"Não há nada entre nós. Você é meu professor. Isso é só um acordo, apenas uma noite."
"Continue se convencendo disso, mas nós dois sabemos que você está mentindo." Ele abaixou a mão e se afastou, seus olhos completamente negros agora.
Eu precisava de espaço, de ar, e que ele parasse de me olhar como se estivesse prestes a me devorar. "Preciso de um minuto."
"Tire o tempo que precisar. Estarei na sala de estar." Então, ele se virou e saiu.
Fiquei sozinha no quarto, tentando me lembrar de como respirar. Meu reflexo me encarava no espelho. O vestido, o cabelo, as joias...
Eu parecia alguém que pertencia a um casamento de bilionário, mas no fundo, eu ainda era eu, Freya Reed, que trabalhava em dois empregos e mal conseguia pagar o aluguel, a garota que foi traída pelo namorado.
No entanto, quando Adrian me olhava, eu não me sentia assim, mas como algo diferente, algo perigoso e poderoso.
Quando fui para a sala de estar, Adrian estava parado perto das janelas, olhando para a cidade. Agora, ele usava um paletó preto e perfeitamente ajustado, parecendo todas as fantasias que eu já tive e algumas que eu nem sabia que tinha.
"Pronta?" Ele se virou para mim.
"O mais pronta possível."
"Então vamos mostrar a Kelvin o que ele perdeu." Ele estendeu o braço.
Quando o segurei, senti seus músculos rígidos sob o tecido do paletó, sólidos e reais.
Pegamos o elevador em silêncio e voltamos para o Bentley. Adrian dirigiu pela cidade enquanto o sol começava a se pôr.
O local do casamento ficava fora da cidade, uma propriedade enorme com jardins exuberantes e muito dinheiro.
"Nervosa?", ele perguntou, me lançando um olhar.
"Estou apavorada."
"Ótimo. Use isso." Sua mão se moveu da alavanca de câmbio para minha coxa, onde ficou apoiada, quente, pesada e possessiva. "Não se esqueça de que você é minha esta noite. Aja como tal."
"Sua?"
"Minha acompanhante, minha responsabilidade. Fique perto de mim e não se afaste. Há pessoas neste casamento que não são suas amigas."
"O que isso significa?"
"Significa que a família de Kelvin é perigosa de uma forma que você ainda não entende. Então fique perto." Ele apertou minha coxa. "Entendido?"
"Sim."
Quando chegamos ao local, os manobristas correram para pegar o carro.
Adrian saiu e deu a volta até o meu lado, abrindo a porta e estendendo a mão.
Peguei sua mão e saí para o ar da noite, o vestido brilhando sob a luz fraca. As pessoas já estavam olhando e cochichando.
Adrian me puxou para perto de si, passando o braço em volta da minha cintura de forma possessiva e autoritária.
"É hora do show", ele murmurou no meu ouvido.
Então, caminhamos em direção à entrada. Cada passo que eu dava parecia estar me levando para uma armadilha que eu não entendia, mas a mão de Adrian estava firme na minha cintura, me ancorando.
As portas se abriram, e a música chegou aos meus ouvidos, seguida por risadas e vozes.
Foi então que o vi.
Kelvin estava perto da entrada conversando com alguém. Quando ele olhou para cima e nos viu, seu rosto ficou pálido, depois vermelho.
Adrian apertou minha cintura e se inclinou, com a boca roçando meu ouvido.
"Acene para ele, querida. Deixe-o saber exatamente o que ele perdeu."
Querida... Essa palavra fez um calor me invadir. Tudo isso era falso, apenas uma encenação, mas a forma como Adrian disse isso me fez querer que fosse real.
Levantei a mão e acenei levemente para Kelvin, com um sorriso que não chegava aos olhos.
Kelvin parecia ter levado um soco no estômago.
Adrian soltou uma risadinha baixa, o som vibrando contra meu corpo. "Boa garota. Agora vamos fazê-lo sofrer."
Quando entramos juntos, percebi algo assustador: eu não fazia ideia do que estava me metendo, mas uma parte sombria de mim queria descobrir.