- Aurora! - A voz de Evangeline, que agora me parecia extremamente irritante, me obrigou a abrir os olhos. - Aurora, acorde! - Ela me chamou novamente, batendo insistentemente na porta do meu quarto, me fazendo cobrir a cabeça com a grossa coberta e afundar meu rosto nos travesseiros.
Evangeline é minha irmã mais nova e, apesar da sua idade, ela costuma ser muito madura. Na maioria das vezes ela é madura demais. Tem somente quinze anos, porém às vezes parece que ela é a irmã mais velha, e eu a adolescente.
- Você vai se atrasar. - Ouvi um suspiro do lado de fora, provavelmente ela estaria passando as mãos nos cabelos agora, irritada com a minha demora. - Não vou te chamar mais. - O som de seus passos foi ficando cada vez mais distante, até que tudo ficou silencioso novamente, então eu me levantei.
Esse é o nosso ritual matinal, ela vem me acordar todos os dias, eu me recuso a levantar, ela vai embora e só então eu me levanto. Saí de baixo dos cobertores a contragosto, o clima estava bem frio, o que é mais um motivo para eu querer continuar na cama, mas infelizmente eu tenho uma vida fora do meu quarto.
E provavelmente já estava atrasada.
Droga.
Andei preguiçosamente até o banheiro e tirei meu pijama completamente infantil, estampado com vários unicórnios e arco-íris. Prendi meus cabelos e liguei o chuveiro, sentindo a água quente descer pela minha pele e me deixar mais relaxada, o que não era nada bom, afinal eu estava atrasada. Eu já deveria estar pronta a essa hora, mas metade do meu cérebro ainda dormia.
Saí do banheiro enrolada numa toalha azul e parei na frente do meu armário, abrindo-o e encarando todas as peças que ali haviam por alguns segundos. Dando um longo suspiro, peguei um moletom cor de rosa, afinal hoje era quarta-feira e "às quartas nós usamos rosa", uma camiseta branca e uma calça jeans justa. Me vesti o mais rápido que pude, o que não era muita coisa, e calcei meus tênis, me olhando no espelho e fazendo uma careta de desgosto.
Jogada.
Era assim que eu estava e, no momento, eu só queria minha cama. Peguei minha mochila e abri a porta do meu quarto, seguindo pelo corredor e descendo as escadas lentamente, bocejando algumas vezes. Passei pela sala, mas não parei, sabia que todos estariam na cozinha, de onde vinha o cheiro maravilhoso de café puro e pão caseiro. A mesa do café já estava posta e todos já haviam praticamente terminado. Evangeline me encarou com um pequeno riso, parando uma colher cheia de cereal a caminho da boca.
- Demorou esse tempo todo para sair assim? - Ela me perguntou, sarcástica.
Eva era muito parecida com nossa mãe, os olhos de ambas eram idênticos, azuis intensos e chamativos, um rosto com traços angelicais e lábios carnudos, cabelos loiros, ondulados e longos. Mamãe dizia que Eva era como uma cópia adolescente sua e tinha razão. O rosto dela era um pouco arredondado e os lábios naturalmente avermelhados, ela era tão delicada e fofa. Além de tudo isso, Eva é extremamente inteligente e tem uma língua muito afiada.
- Bom dia, querida. - Disse minha mãe, Victória, me dando um beijinho na bochecha e me entregando uma xícara de café puro, do jeito que eu gosto.
Minha mãe era uma mulher incrivelmente bonita e bem sucedida, não costumava estar em casa e, por isso, sempre que dava uma pausa em suas viagens, nós tomávamos café juntos e jantávamos juntos. Victória é uma renomada sexóloga, já palestrou por boa parte dos EUA, também já visitou vários outros países, como Inglaterra e França. Quando eu era pequena, sentia muita vergonha da profissão da minha mãe, mas, com o tempo, me acostumei e agora eu realmente gosto, já aprendi muitas coisas com ela.
- Bom dia, princesa. - Papai falou, assim que me sentei, deixando minha mochila no chão ao lado da cadeira.
Meu pai abaixou o jornal, sorrindo para mim e voltando a ler. Ele nunca foi um homem de muitas palavras, o senhor Becker expressava as coisas da forma dele, normalmente era bem quieto, talvez fosse culpa de sua profissão, ele escutava tanto as pessoas, que talvez isso tenha o deixado muito introvertido.
- Achei que ia casar, gracinha. - Olhei para o fogão e vi Clay com um pedaço de pão a caminho da boca e um sorriso despojado.
Ele é meu melhor amigo, todos os dias vem me buscar em casa para irmos para escola e sempre chega mais cedo para tomar café com minha família. Sinto como se o conhecesse desde sempre, porém, não é bem assim. Nos conhecemos quando eu tinha dez anos e ele nove. Clay foi se consultar com um psicólogo que, por acaso, era meu pai. Eu tinha que fazer um tipo de relatório de como era o trabalho de um dos meus pais para entregar na minha escola, e como o trabalho da minha mãe não é nada convencional, acabei no consultório do meu pai, sentada numa cadeirinha rosa, totalmente entediada enquanto as pessoas iam e vinham.
Eu estava na sala a mais de meia hora, sozinha, sentada na minha cadeirinha rosa com um caderninho apoiado nas pernas. Tinha que fazer um pequeno texto sobre o trabalho do meu pai, porém como não podia ver as consultas eu só ficava sentada vendo as pessoas entrarem e saírem do consultório, após longas conversas com ele.
Estava quase adormecendo quando a porta se abriu mais uma vez, e um garotinho entrou na sala acompanhado por uma mulher. Ele parecia um pouco abatido, seus olhos castanhos estavam tristes. Ele era cerca de três dedos mais alto que eu, tinha bochechas gordinhas e uma pele meio bronzeada. Seus cabelos eram meio arrepiados e ele trazia um ursinho de pelúcia muito fofo nas mãos.
O garoto se sentou na cadeira ao meu lado, mas ela era muito alta para ele, o fazendo ficar balançando as perninhas curtas o tempo todo. Eu o olhava às vezes, estava curiosa, queria conversar, por isso fui a primeira a falar. Cutuquei seu braço, que estava pendurado para fora da cadeira, e ele olhou para mim, então eu sorri.
"Sou Aurora, quer ver os adesivos do meu caderno?", falei por fim.
Ele não respondeu de imediato, ficou quieto por longos instantes, então comecei a pensar que ele não havia gostado de mim, e não pude evitar uma expressão triste, ele parecia ser tão legal. Mas, após longos minutos me encarando sem dizer nada enquanto eu mostrava para ele minha tabela de figurinhas fofas, quando eu já não sabia o que falar, ele sussurrou timidamente:
"Me chamo Clay".
Desde aquele dia não nos desgrudamos mais, Clay evoluiu muito após as consultas, principalmente depois que começamos a conversar. Sempre que ele tinha hora marcada, meu pai me levava para o consultório, para brincarmos um pouco antes das consultas. Quando eu fiz onze anos ele veio para minha festa de aniversário e brincou com algumas crianças, seus pais estavam abismados, meu pai também ficou bem surpreso, afinal ele tinha problemas para socializar com outras crianças. Ele nunca havia dado espaço para ninguém, nem para os próprios pais.
Clay e eu fomos ficando cada vez mais próximos, até que nos tornamos simplesmente inseparáveis. Ele passou a vir com muita frequência a minha casa e nós crescemos com a companhia um do outro. Ele ainda me lembra muito o garotinho de cabelos arrepiados, porém, agora bem mais alto e mais forte, com os cabelos menos arrepiados e um sorriso encantador. As garotas sempre tentavam algo com ele, mas Clay continua sendo muito fechado, normalmente as pessoas não o entendem bem. Inicialmente todos diziam que ele era gay, por isso recusava qualquer garota que cruzasse o seu caminho, depois começavam a espalhar que tínhamos um caso, mas no fim todos perceberam que ele só era extremamente tímido.
- Bom dia para você também, vadio. - falei, sorrindo, o vendo comer como se não houvesse amanhã. Ele só podia ter um buraco negro no lugar do estômago, nunca vi alguém comer tanto.
- Diferente de você, Aurora, seu amigo é pontual. - Provocou Eva, rindo enquanto terminava seu café. - Agora anda, não quero me atrasar por sua causa, de novo. - Ela revirou os olhos para mim, ajeitando a mochila sobre os ombros.
- Calada, Praga. - Falei para minha irmã, rindo em seguida e recebendo um olhar de reprovação da minha mãe. - É só um apelido carinhoso mamãe. - Justifiquei, observando dona Victoria unir as sobrancelhas e me encarar de forma desconfiada por alguns instantes.
Evangeline sempre ia conosco para a escola e, normalmente, ela se atrasava por isso. Eu nunca fui uma pessoa muito pontual. Ela odiava minha falta de talento e vontade de seguir os horários, mas como tinha uma "quedinha" por Clay desde que começou a se interessar por garotos, o que não tem muito tempo, para ela valia o esforço e o estresse.
- Sua irmã tem razão. - Clay falou, tomando seu último gole de suco e ajeitando sua mochila nos ombros, enquanto eu bebia sem pressa uma xícara de café. - Precisamos ir.
- Que foi beija-flor? - Perguntei, deixando a xícara de lado na mesa. - A Dayanne te mandou uma mensagem logo de manhã, foi? - Perguntei, rindo levemente e erguendo uma das sobrancelhas, Clay fez uma careta e eu aproveitei o momento para terminar meu café.
Dayanne era perdidamente apaixonada por Clay, porém ela era completamente indiscreta e deixava-o constrangido constantemente. Eles dois tinham um pequeno envolvimento no começo do ensino médio, Clay deu seu primeiro beijo com ela, mas Day infelizmente não entendeu quando ele disse que não queria um relacionamento, então o sufocava na maior parte do tempo.
- Acha mesmo que, se eu tivesse visto a Day, eu estaria com todo esse bom humor? - Ele perguntou.
- Ela realmente não te larga. - Falei, pegando meu celular e olhando para Eva, que estava um pouco emburrada.
- Já para meu carro, quero esse seu traseiro no banco do jeep agora mesmo. - Clay me puxou da cadeira pelos ombros e começou a me empurrar para fora.
A cena fez meus pais rirem, pude escutá-los enquanto era arrastada para fora. Ambos já estavam acostumados com nossa rotina matinal, que consistia naquele mesmo ritual todos os dias.
Eva se levantou também, murmurando um "até que enfim" meio mal-humorado e nos seguindo para fora.
- Tenham um bom dia crianças. - Minha mãe gritou da cozinha, enquanto Clay me empurrava para dentro do seu jeep verde musgo.
- Obrigado, mãe. - Gritamos os três em uníssono.
- Vamos chegar atrasados de novo. - Clay reclamou, ligando o carro.
Levantei a manga do moletom e olhei as horas no relógio de pulso.
- Não vamos não, ainda temos vinte minutos. - Falei, pondo o cinto de segurança.
Então Eva me encarou, erguendo as sobrancelhas.
- Correção, vocês têm dez minutos. Ainda tem que me deixar na escola. - Falou a loira, arrumando seus cabelos antes de pôr o cinto.
- Isso, com certeza, não é o suficiente. - Murmurou Clay, dando a partida e ligando o som do carro.
O caminho até a escola de Eva foi muito mais rápido que o normal, estávamos com pressa e Clay ultrapassou alguns sinais vermelhos no percurso. Quando a deixamos lá, saímos ainda mais apressados e não levou mais que dez minutos para que eu avistasse o estacionamento, lotado de alunos, ao longe.
- Pronta para mais um dia de estudos, ou melhor, de trabalho, conselheira? - Perguntou meu amigo, enquanto entrava no estacionamento.
Eu respirei fundo e ajeitei a mochila no ombro esquerdo, fechando os olhos por alguns instantes e só os abrindo quando o carro parou, estacionado na vaga de sempre.
- Tenho que estar, não é? Sabe que a sociedade escolar não funciona sem mim! - Respondi com um sorriso, saindo do carro.
Assim que saímos, um grupo de garotas sorridentes e animadas se aproximaram de nós dois, dando um bom dia animado, que não combinava muito com meu estado de espírito de hoje. Elas falavam alto demais, me perguntavam coisas que eu não conseguia entender e criavam uma grande confusão de vozes que fazia minha cabeça girar.
- Acalmem-se meninas! Acabei de acordar, falem uma de cada vez ou não vou conseguir ouvir ninguém. - O silêncio se fez, mas somente por alguns instantes, então logo o falatório se iniciou novamente.
É isso, meu dia finalmente começou.
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AURORA
As garotas falavam todas juntas, e eu não entendia nem dez por cento do que elas queriam realmente dizer. Clay me olhava e ria da minha desgraça, mas logo fez uma careta ao ser arrastado por um grupo de garotos. Os meninos me deram um bom dia num coro meio desorganizado e levaram meu amigo para longe. Voltei a prestar atenção nas garotas, olhando-as enquanto conversavam, falando algo sobre alunos novos, festas e sobre os acontecimentos do fim de semana.
Seguimos pelos corredores e, enquanto eu caminhava em direção ao meu armário, o grupo de meninas tagarelava sobre o baile e sobre como estavam ansiosas para o evento. Claro que aquele assunto renderia conversas para toda a manhã, por sorte logo o sinal tocaria e todas nós precisaríamos ir para nossas respectivas salas, o que era um grande alívio no momento.
- Aurora! - Ouvi uma voz bem conhecida me chamar. Me virei para poder olhá-la e, como sempre, ela estava completamente exagerada.
Quem usa um salto tão fino às oito da manhã?
A morena, personificação do padrão latino-americano, atravessou a curta distância que nos separava, ao passo que ela caminhava, seus saltos faziam um barulho irritante contra o chão. As outras meninas estavam em silêncio, era como se ela calasse a boca de todo e qualquer ser com sua presença, afinal ela era, sem sombra de dúvidas, a garota mais popular da escola. A maior parte dos alunos se dividiam em três grupos quando se tratava de Sharon, o grupo das pessoas que queriam ser seus amigos, das pessoas que a invejavam e daqueles que tentavam ficar fora do seu caminho. Eu fazia parte do terceiro grupo, Sharon sabia ser irritante quando queria e a melhor forma de evitar estresses era me mantendo longe dela.
- Bom dia, querida. - Disse Sharon, me cumprimentando com beijinhos estalados nas bochechas.
Sempre achava essa sua mania de proximidade estranha, mas não a culpava, ela era estrangeira e parecia que isso era bem comum no seu país, mesmo com pessoas com as quais não se tem muita intimidade.
Eu não a odiava, na verdade, eu mal a conhecia, mas sentia uma grande antipatia pela pessoa que Sharon havia se tornado. Ela era preconceituosa e egoísta, deixava claro para todos o que achava sobre a riqueza e a pobreza, se colocando sempre no centro de tudo por possuir uma fortuna. Mas eu não a culpava, Sharon era a cópia de sua mãe, e não somente na aparência. Os cabelos eram escuros, ondulados e longos, seus olhos castanhos eram encantadores e ela tinha traços muito bonitos e chamativos. Porém, sua beleza não era o suficiente para esconder sua personalidade elitista e soberba, isso me dava ânsia às vezes.
- Como está, meu bem? - Perguntou, me olhando visivelmente incomodada com minha aparência desleixada, dando um sorriso que mais parecia uma expressão de reprovação.
- Estou ótima. - Respondi, da forma mais natural que conseguia. - E você, como vai?
- Maravilhosa. - Sua voz melodiosa soou bastante animada. - Oh! Quase me esqueci. - Sharon abriu sua Prada cor-de-rosa e tirou de lá um envelope carmim, com renda branca e um grande "S" dourado como selo. - Sei que ainda falta muito tempo - ela continuou, me estendendo o envelope -, mas achei melhor distribuir de uma vez, a lista é grande e eu não quero me esquecer de ninguém. - Peguei o envelope e o olhei por alguns instantes. - Quero que esteja presente meu bem, os melhores estarão lá. - Sharon parecia estar prestes a dar pulinhos e gritinhos de animação, mas se conteve. - Por falar em melhores, depois quero conversar com você! Preciso de um par para minha própria festa. - Fez uma careta de desgosto. - Dillam está fazendo birra novamente. - Seu tom demonstrava irritação e ela suspirou de forma dramática.
Sharon e Dillam eram o típico casal de status. De longe percebia-se que o relacionamento deles era tóxico, para ambos, na verdade. Poucos sabiam, mas Sharon abdicava de muitas coisas para estar ao lado de seu capitão e manter sua posição social na hierarquia escolar do Saints Louis. Eu só não entendia o porquê disso tudo, afinal daqui a dois anos o colegial não vai passar de uma mera lembrança divertida ou traumática.
- Claro - Falei, forçando um sorriso - Resolveremos tudo antes da sua festa. -Tinha vontade de correr, minha primeira aula logo começaria e minhas conversas com Sharon nunca eram as mais saudáveis -Tenho que ir agora. - Falei para a garota, tentando não soar rude de mais ou muito apressada.
- Até mais querida. - Ela disse, beijando minhas bochechas novamente, se afastando e seguindo para um grupo de garotas que vinha logo atrás de mim.
- Merda! - resmunguei ao olhar no meu relógio e perceber que estava quase dez minutos atrasada.
Corri até meu armário jogando minhas coisas lá dentro e pegando o livro de matemática. Depois corri novamente para as escadas, subindo os degraus de dois em dois, quase caindo durante o caminho. Cheguei a minha sala cansada e ofegante, estava afobada e por isso abri a porta de uma vez e de forma nada discreta, pondo somente a cabeça para dentro e dando um sorriso para o professor.
Será que o senhor Franklin apreciaria meu sorriso e não me daria uma longa bronca, aliada a algumas horas de detenção por atraso? Eu esperava muito que sim.
- Posso entrar? - Pergunto, recebendo um olhar severo do professor.
O Sr.: Franklin deveria ter lá seus trinta e seis anos, mas, sem dúvida alguma, era incrivelmente bonito. Parecia aqueles garanhões que aparecem bastante nos filmes de Hollywood. Andava sempre vestido de forma elegante, os ternos pretos normalmente escondiam, mas não completamente, seus músculos bem definidos. Uma pose séria e um olhar sereno, ao menos na maior parte das vezes. Tinha uma pele levemente bronzeada, que revelava a atividade que ele praticava nos fins de semana, o surf. Sr. Franklin sempre foi alguém muito simpático com todos, nunca se envolvia demais, mas estaria mentindo se dissesse que nunca ajudei nenhuma garota a flertar com ele. A mentira seria ainda maior se eu dissesse que alguma delas arrancou mais do que um olhar de escárnio do professor bonitão.
Ele fez uma cara feia, se levantando de sua mesa e parando em frente a porta, que estava escancarada. Após alguns instantes torturantes, o professor abriu espaço para que eu passasse, me fazendo soltar a respiração e dar um suspiro de alívio. Enquanto eu caminhava para minha mesa, sentia os olhares da turma sobre mim. Isso sempre acontece quando qualquer um chega atrasado, e posso afirmar que não é nada confortável ter 32 pares de olhos me encarando de forma questionadora. Caminhei rapidamente para meu assento, que ficava sempre no lado esquerdo, com uma visão privilegiada da janela, de onde podia ver o campo onde o time de futebol e as Cheer treinavam. Assim que me acomodei o professor seguiu em direção a lousa, começando a escrever a correção dos exercícios da aula anterior, me fazendo soltar um longo suspiro.
O dia vai ser bem longo.
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AURORA
Parecia que o tempo se arrastava, cinco minutos pareciam uma hora, uma hora pareciam dois dias. Após uma aula de biologia maçante, finalmente eu estava livre. Não perdi tempo, arrumei meus livros dentro da bolsa e sai da sala apressada, não queria conversar, nem brincar com ninguém, tudo o que eu queria era minha casa e minha cama.
- Apressada, nanica? - Perguntou Clay, surgindo do nada ao meu lado no corredor, usando um dos apelidos "carinhosos" que havia me dado.
- Preciso da minha cama. - Resmunguei, continuando a caminhar e saindo do prédio escolar ao lado do meu amigo.
Seguimos sem pausas para o estacionamento e logo eu estava me jogando dentro do Jeep, me acomodando no banco do carona e esticando as pernas, apoiando os pés no painel. Aquilo irritava Clay na maior parte das vezes, mas eu nunca deixava essa mania de lado. Principalmente por que, por eu ser pequena, minhas pernas se encaixavam perfeitamente ali, tornando a posição muito confortável.
- Vamos logo, sua irmã deve estar à beira de um ataque cardíaco. - Falou Clay, ligando o carro, pisando no acelerador e saindo do estacionamento, deixando nossa escola para trás. - Vamos enfrentar a fera.
Não demorou mais do que alguns minutos para que chegássemos a Claremonth High School, ou CHS, como eu gostava de chamar. Encontramos uma Evangeline extremamente irritada e emburrada de pé no meio fio, Clay parou o carro ao lado dela, destravando as portas. Eva entrou no carro ainda emburrada, cruzando os braços e nos fulminando com o olhar.
- Desculpa, Eva. - Clay falou com voz manhosa, fazendo minha irmã revirar os olhos, mas eu sabia que ela já estava com o coração amolecido.
Clay olhou para mim e deu um risinho de canto discreto, ligando o carro novamente e acelerando, seguindo o trajeto para minha casa, onde provavelmente jantaríamos juntos, de novo.
Qualquer um poderia enxergar a queda que Evangeline tinha por Clay, queda esta que hoje em dia mais parecia um abismo, e perdurava desde seus treze anos de idade. Hoje, com quinze anos, Eva ainda não tinha coragem de declarar seus sentimentos. Eu não a culpava por isso, Clay tinha dezessete anos e era meu melhor amigo, praticamente a viu crescer e eu não sabia bem se havia reciprocidade.
O caminho até minha casa foi completamente silencioso.
Clay estava com os olhos na estrada, ele odiava ser incomodado enquanto dirigia, tinha muito medo de perder a atenção e acabar provocando um acidente. Eva estava com seus fones de ouvido, cantarolando uma música qualquer e eu estava num estado meio adormecido. Quando finalmente o estacionou na frente da minha casa, tomei coragem para me levantar do banco, pegando minha bolsa e saindo do carro. Arrastei-me para dentro, largando minha mochila na sala mesmo e, após olhar para os lados e chamar por minha mãe algumas vezes, constatei que a casa estava vazia. Caminhei até a cozinha e encontrei a mesa posta, as comidas categoricamente embaladas e dispostas no centro, como só dona Victória faria. Encontrei um pequeno bilhete colado no plástico filme que embalava uma bela travessa de macarrão.
"Precisei sair urgentemente, tenho uma palestra de última hora para esta tarde e provavelmente chegarei só depois das nove. Comam direito e não façam besteira.
Mamãe."
Não sentia fome alguma, as segundas eram sempre péssimas para mim e eu sempre acabava cansada demais. Por isso, somente subi as escadas, segui para meu quarto, abrindo a porta e tirando minha camiseta, minha calça e pegando minha toalha, precisava de um bom banho antes de dormir um pouco.
Não demorou muito e eu logo estava na cama, havia fechado todas as cortinas, o quarto estava frio e escurinho, o clima perfeito para hibernar um pouco. Alguns instantes antes de adormecer de vez, senti um peso ao meu lado na cama, abri só um pouquinho os olhos e vi Clay deitado ao meu lado, já com os olhos fechados. Os cabelos dele estavam meio úmidos e ele vestia somente uma bermuda cheia de desenhos de doces. Depois disso eu apaguei.
Quando acordei já era noite, olhei para o relógio que estava sobre o criado ao lado da minha cama e vi que já passava das sete. As pernas de Clay estavam em cima de mim e ele babava, abraçado a um travesseiro, ressonando bem baixo. Levantei com cuidado, bocejando e esticando o corpo. Caminhei silenciosamente para fora do quarto, descendo as escadas e parando perto da porta dos fundos, vendo uma cena que com certeza merecia ser apreciada e que me fez sorrir.
Meus pais dançavam juntos, bem próximos, olhando nos olhos um do outro e com largos sorrisos nos lábios. Ambos se moviam com delicadeza e leveza, seus olhares transmitiam o mesmo amor que sempre vi em seus rostos. Eles sempre pareciam um casal de adolescentes apaixonados, só que com quarenta anos de diferença e bem mais bonitos.
Mamãe e papai eram a prova viva de que o amor atravessava o tempo e as barreiras, se ambas as partes estivessem dispostas a lutar por isso. Eles não eram iguais, tinham pensamentos divergentes e manias que irritavam um ao outro constantemente, mas sempre estavam dispostos a melhorar e aprender, tanto por si mesmos, quanto pelo seu casamento e pelo amor que cultivavam todos os dias.
Dona Victoria tinha 16 anos quando conheceu o senhor Paul. Segundo ela, não foi amor à primeira vista e sim algo que foi construído, pedra por pedra, se tornando um belo castelo, que vez ou outra precisava de reparos. Meu pai insistia em dizer que a amou desde o primeiro dia em que a viu. Ele sempre reclama sobre como foi difícil atrair sua atenção, mas também faz questão de repetir várias e várias vezes que todas as tentativas valeram a pena. Olhei novamente para o jardim, eles estavam no meio de um beijo, cheio de amor e carinho, mas também intenso e muito feroz. Fiz uma careta por alguns instantes e me afastei, fechando as cortinas e saindo dali na ponta dos pés.
Vê-los tão apaixonados só me fez pensar em como eram maravilhosos, não só como pais, mas como pessoas. Lembro-me da primeira vez que disse que queria que meus pais me ensinassem a ajudar as pessoas como eles faziam, eu tinha somente oito anos. Meu pai caiu no choro e minha mãe abriu um grande sorriso, desde então ambos me ensinam a tentar compreender até as pessoas mais complicadas. Quando fiz quatorze anos comecei a visitar mais o trabalho da minha mãe, já que antes eu era muito nova para "aprender sobre as obscenidades que a senhora Victoria chamava de profissão" como ela mesma dizia. Olhando para mim hoje percebo que sou a mistura perfeita de Victoria e Paul, aprendi a compreender as pessoas com meus pais e me orgulho muito disso.
O amor deles me inspira todos os dias.
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