Durante sete anos, fui a esposa secreta de Heitor Montenegro, uma estrela em ascensão na política. Sacrifiquei minha própria carreira no jornalismo para ser sua "rocha", o fantasma nos bastidores de sua vida perfeita, sempre acreditando em sua promessa de que tudo aquilo era por nós.
Essa promessa se estilhaçou na noite em que ele trouxe sua amante, Bárbara, para nossa casa. Ela me olhou de cima a baixo, depois se jogou escada abaixo, soltando um grito teatral.
"Ela me empurrou!", ela gritou.
Heitor não hesitou. Ele me deu um tapa no rosto, seus olhos ardendo com uma fúria que eu nunca tinha visto.
"Sua vadia! O que você fez?!", ele rosnou, correndo para o lado dela.
Ele a aninhou em seus braços, seu rosto uma máscara de preocupação por ela e de puro ódio por mim. Ele acreditou nela instantaneamente, pronto para me pintar como um monstro violento e ciumento para proteger seu caso e sua carreira.
Naquele momento, vendo-o escolhê-la, vendo minha vida desmoronar sob seu olhar frio e indiferente, a mulher que o amou por vinte anos morreu.
Mas então eu estava de volta. Renascida naquele mesmo instante, com a memória de sua traição queimando em minha alma. E eu me lembrei da única coisa que ele havia esquecido: a câmera escondida na entrada, gravando seu crime perfeito.
Capítulo 1
Aurora POV:
Ele me disse que meus sonhos eram apenas fantasias bobas de garota, não planos reais para uma mulher destinada a estar ao seu lado.
Esse foi o primeiro sinal de alerta, talvez, mas eu era jovem demais e apaixonada demais para ver. Nossas famílias eram praticamente entrelaçadas. Heitor Montenegro. Até o nome dele soava importante, destinado a grandes coisas. Crescemos nos mesmos círculos de elite de Brasília, nossas infâncias um borrão de feriados compartilhados e segredos sussurrados sob mesas de mogno polido. Ele sempre foi o menino de ouro, encantando a todos com aquele sorriso fácil, mesmo quando estava fazendo algo totalmente errado.
Como na vez em que tínhamos dez anos. Entramos escondidos no escritório particular do Sr. Medeiros. Heitor me desafiou a tocar no globo antigo, aquele sobre o qual o pai dele sempre nos avisava. Eu toquei, claro. Sempre a obediente. Meus dedos traçaram os continentes desbotados, uma curiosidade inocente. Então Heitor agarrou minha mão, apertando-a, e apontou para o mapa antigo na parede. "Vê aquela mancha vermelha?", ele sussurrou. "É onde os bandidos moram. Você não pode confiar em ninguém de lá."
Eu não entendi. Não de verdade. Apenas senti um arrepio que não tinha nada a ver com a corrente de ar da janela.
Algumas semanas depois, minha professora de geografia, Dona Heloísa, mostrou um documentário sobre culturas globais. Um segmento apresentava um festival vibrante e colorido em um país marcado em vermelho no mapa do Sr. Medeiros. Fiquei fascinada. Eu soltei: "O Heitor disse que as pessoas de lá são más!"
A classe inteira ficou em silêncio. Dona Heloísa me olhou com uma expressão de dor. Mais tarde, ela me chamou de lado. Explicou como generalizações como aquela eram ofensivas, como não era verdade. Senti um nó de vergonha no estômago.
Quando meus pais descobriram, ficaram furiosos. Não comigo, mas com Heitor. Eles o repreenderam, mas ele apenas deu de ombros. "Foi só uma brincadeira, Sra. Rezende. A Aurora é sensível demais." Ele fez parecer que o problema era eu.
Ele ficou de castigo por uma semana. Eu me senti mal, mesmo ele estando errado. Ele nunca me pediu desculpas. Em vez disso, começou a me chamar de "Dedo-duro" e "Chorona" sempre que estávamos sozinhos. Ele beliscava meu braço com força quando ninguém estava olhando, o suficiente para deixar um hematoma, sorrindo seu doce sorriso para nossos pais momentos depois. Isso me ensinou desde cedo que seu rosto público e seu eu privado eram duas pessoas diferentes.
Uma vidente em uma feira de caridade uma vez disse às nossas famílias que Heitor e eu estávamos destinados à grandeza, mas nossos caminhos estariam para sempre entrelaçados, para o bem ou para o mal. Minha tia bateu palmas, já imaginando o casal poderoso da política. Meus pais apenas trocaram um olhar nervoso.
Anos depois, depois que nossos pais morreram em um trágico acidente, nos deixando órfãos, mas ricos, a pressão aumentou. Nós nos agarramos um ao outro. Ele era minha rocha, ou assim eu pensava. Tínhamos vinte anos, consumidos pelo luto, quando os advogados e conselheiros de nossas famílias pressionaram por nosso casamento. Uma aliança estratégica, eles chamaram. Uma forma de consolidar poder e confortar um ao outro. Eu concordei. Cegamente.
"Temos que manter em segredo, Aurora", ele disse, passando a mão pelo meu cabelo. "Minha carreira, sabe. A percepção do público."
Eu assenti. Sempre. Por sete anos, nosso casamento foi um fantasma.
Então veio Bárbara Bittencourt. Sua "assessora júnior". Olhos grandes, inocente, sempre por perto. Eu vi o jeito que ela olhava para ele, o jeito que ele se exibia sob a atenção dela. Os sussurros começaram, claro. Sua "assistente" passando noites no escritório dele.
"É só trabalho, Aurora", ele dizia, descartando minhas preocupações com um aceno displicente. "Você está sendo paranoica."
Eu tentei uma vez, anos atrás, me impor. Estávamos em um evento de arrecadação de fundos para a campanha, e um repórter me perguntou sobre meu estado civil. Eu estava cansada da farsa. "Sou felizmente casada", eu disse, olhando diretamente para Heitor do outro lado da sala.
O sorriso dele congelou. Mais tarde, no carro, sua voz estava perigosamente baixa. "Que porra foi aquela, Aurora? Você quer arruinar tudo?" Ele gritou comigo, me acusando de ser egoísta, de sabotar o futuro dele. Eu chorei, claro. E pedi desculpas. Eu sempre pedia.
Mas então, naquela noite, tudo mudou. Eu vi tudo. A armação. A traição. Seu olhar frio e indiferente enquanto minha vida desmoronava. Eu morri. E então eu estava de volta. Bem aqui.
Esta noite. A festa de gala. A vitória de sua última campanha. O ar vibrava com seu sucesso. Ele estava radiante, apertando mãos, o político perfeito. Eu estava parada perto da fonte de champanhe, observando-o. Desta vez, eu não choraria. Eu não pediria desculpas.
"Aurora, querida", uma esposa de senador murmurou, tocando meu braço. "Ainda solteira, meu bem? Um partidão como você, estou surpresa."
Eu sorri, um sorriso genuíno e frio. "Ah, não, Dona Heloísa. Não mais." Minha voz estava calma, firme. "Na verdade, estou em um relacionamento muito sério. Vamos ficar noivos em breve."
A esposa do senador ofegou, seus olhos se arregalando. "Minha querida! Que maravilha! Quem é o felizardo?"
Eu mantive meu olhar fixo em Heitor, que estava de costas para mim. "Ele é... reservado. Mas ele me faz muito, muito feliz."
O suspiro de encanto dela se espalhou pelo pequeno grupo. Vi a cabeça de Heitor se virar bruscamente, seus ombros enrijecendo antes mesmo de ele se virar. Ele me viu, viu a multidão ao meu redor, os rostos surpresos e encantados. A notícia estava se espalhando.
Bárbara Bittencourt, agarrada ao braço dele, me olhou com olhos venenosos. Sua fachada inocente não me enganava mais. "Ah, Aurora", ela chilreou, sua voz um toque doce demais. "Não me diga que você está inventando outro namorado imaginário para deixar o Heitor com ciúmes. Você sabe como isso sempre acaba."
Meu sorriso não vacilou. "Bárbara, querida. Você deve estar me confundindo com você mesma." Tomei um gole de champanhe. "Acredito que essa seja a sua especialidade, não é? Relacionamentos imaginários para impulsionar suas... perspectivas de carreira."
O rosto bonito dela se contorceu, um flash de puro ódio em seus olhos antes que ela rapidamente o mascarasse. Ela apertou mais o braço de Heitor. Ele estava me encarando, seu sorriso encantador sumido, substituído por uma carranca sombria e furiosa. Sua mandíbula estava tão cerrada que eu podia ver os músculos saltarem. Era isso. A primeira peça do dominó.
Aurora POV:
A sala zumbia com sussurros, uma corrente frenética de fofocas estimulada por minhas palavras. O rosto de Bárbara era uma máscara de compostura forçada, mas seus olhos, fendas estreitas, prometiam guerra. Heitor, ao lado dela, parecia que queria me estrangular ali mesmo. Ótimo. Deixe-o sentir.
De repente, uma voz calma cortou a tensão crescente. "Aurora? Me desculpe, acabei de sair do meu turno. Pronta para ir?"
Todos se viraram. Meus olhos seguiram os deles, pousando em Gabriel Mendes. Ele estava na beira da multidão, um farol de elegância discreta. Ele não usava um terno sob medida como os outros homens; vestia uma camisa polo escura e calças sociais, o tipo de casual elegante que gritava "CEO de tecnologia que não responde a ninguém". Seu cabelo escuro estava levemente despenteado, como se ele tivesse acabado de passar os dedos por ele, e um par de óculos de aro fino realçava seus olhos inteligentes. Ele segurava uma pasta de notebook elegante e minimalista.
Ele encontrou meu olhar e ofereceu um sorriso caloroso e genuíno. Não o sorriso praticado e político que eu estava tão acostumada a ver. Este era diferente. Calmante.
"Gabriel!", ouvi-me dizer, o nome como uma tábua de salvação. Caminhei em sua direção, uma sensação de alívio me invadindo. "Na hora certa."
Ele pegou minha mão, seu toque firme e reconfortante. "Não perderia por nada neste mundo", ele murmurou, seu olhar varrendo os curiosos.
A esposa do senador, Dona Heloísa, ofegou novamente. "Gabriel Mendes! Meu Deus, Aurora, você guarda tantos segredos! Eu não sabia que vocês dois estavam... envolvidos." Seu tom mudou de especulativo para genuinamente impressionado. Gabriel Mendes era uma estrela em ascensão no mundo da tecnologia, uma mente brilhante por trás de algoritmos que moldavam a segurança nacional. Não apenas um namorado "reservado"; ele era o Gabriel Mendes.
"É um desenvolvimento recente", eu disse suavemente, deixando meus dedos se entrelaçarem com os de Gabriel. Sua mão era quente, me dando segurança.
"Bem, ele certamente é um partidão, querida", sussurrou outra socialite, alto o suficiente para ser ouvido. "Muito mais... substancial do que alguns desses tipos de Brasília."
Lancei um olhar para Heitor. Seu rosto era uma nuvem de tempestade. Bárbara estava praticamente vibrando de fúria ao lado dele. A percepção do público já estava mudando. Heitor odiava quando a opinião pública se voltava contra ele. Era exatamente isso que eu queria.
"Se nos dão licença", eu disse, dirigindo-me à sala, minha voz clara e confiante. "Gabriel e eu temos um compromisso muito cedo amanhã."
Ao me virar para sair, senti o olhar de Heitor queimando em minhas costas. Era um peso físico, pesado e possessivo. Ele não podia me deixar ir, não assim. Não publicamente. Eu o conhecia bem demais.
"Aurora!" Sua voz, afiada e imponente, ecoou pelo salão de festas.
Parei, a mão de Gabriel ainda na minha. Virei-me lentamente, encontrando seu olhar furioso. Minha expressão era cuidadosamente neutra. "Sim, Heitor?"
Seu rosto estava contorcido com uma raiva mal contida. "Você está esquecendo algo", ele disse entredentes, seus olhos dardejando para Gabriel, depois de volta para mim. "Somos esperados no jantar particular do Senador Queiroz."
Bárbara, sempre a oportunista, interveio, sua voz doentiamente doce. "Sim, Aurora, é uma oportunidade importante de networking para nós. Você sabe o quanto Heitor valoriza esses eventos." Ela enfatizou "nós", como se cimentasse seu lugar.
Olhei para Heitor, depois para Bárbara, um lampejo de nojo em meu coração. Nós. Era o que ele sempre dizia. Nunca eu. Nunca nós como em Heitor e eu.
"Agradeço o convite, Bárbara", eu disse, minha voz pingando falsa sinceridade. "Mas como eu disse, Gabriel e eu temos compromissos anteriores." Olhei para Gabriel, que deu um aperto suave em minha mão, uma afirmação silenciosa.
"Talvez em outra ocasião", acrescentei, meus olhos encontrando os de Heitor. Uma mensagem silenciosa passou entre nós: Não haverá outra ocasião.
Então me virei, puxando Gabriel gentilmente, e me afastei. Não olhei para trás. Não precisava. Podia sentir a fúria de Heitor como uma força física, mas ela não tinha mais poder sobre mim. Era um fogo morrendo.
Saímos para o ar fresco da noite. O manobrista trouxe o carro de Gabriel, um veículo elétrico elegante e discreto. Enquanto me acomodava no banco do passageiro, senti os últimos resquícios do olhar de Heitor. Foi só quando Gabriel se afastou do meio-fio, deixando a festa de gala brilhante para trás, que o peso realmente se dissipou.
"Obrigada, Gabriel", eu disse, soltando uma longa e lenta respiração que não percebi que estava segurando.
Ele olhou para mim, seu perfil iluminado pelas luzes da cidade. "Não precisa agradecer, Aurora. Foi um prazer." Sua voz era calma, reconfortante.
Não o pressionei por detalhes, e ele não ofereceu nenhum. Simplesmente dirigimos, o silêncio confortável um contraste gritante com o caos que eu acabara de deixar.
"Para onde?", ele perguntou, seus olhos na estrada.
"Minha casa, por favor", respondi, dando-lhe o endereço.
"Certo." Ele fez uma pausa, então sua mão foi para o bolso. "Antes de te deixar, posso pegar seu número?"
Virei-me para ele, surpresa. "Meu número?"
Ele ofereceu um pequeno sorriso. "Só para o caso de eu precisar te 'resgatar' de novo. Ou, sabe, para futuros compromissos matinais." Seus olhos brilhavam com um toque de humor.
Uma risada genuína borbulhou de mim, a primeira em anos, parecia. "Ok, Gabriel", eu disse, pegando meu celular. "É o mínimo que posso fazer pelo meu herói."
Trocamos números. Seus dedos roçaram os meus e, por um momento fugaz, senti uma faísca. Uma faísca boa. Uma faísca de esperança.
Quando paramos em frente à minha casa, aquela que Heitor e eu tecnicamente compartilhávamos, uma sensação de pavor me invadiu. Esta casa, antes um símbolo de nosso futuro compartilhado, agora parecia uma jaula. Ele raramente estava aqui, sempre em seu escritório de campanha ou com Bárbara, mas sua presença ainda assombrava as paredes. Estava cheia de nossas memórias, minhas esperanças.
Destranquei a porta, o silêncio lá dentro ainda mais pesado do que lá fora. Assim que entrei, meu celular vibrou na minha mão. Uma ligação. Minha chefe. Meu coração afundou. Lá vamos nós.
Aurora POV:
"Aurora! Você viu o Twitter?" Minha chefe, Sara, nem se deu ao trabalho de cumprimentar. Sua voz estava tensa com uma fúria controlada, um tom que eu sabia que significava problemas. "Olha isso. Agora."
Meus dedos desajeitados tocaram a tela, o ícone do pássaro azul me encarando. Abri o aplicativo, e lá estava, estampado no meu feed como um balde de água gelada. Uma manchete, gritando em letras garrafais e implacáveis.
"MONTENEGRO CONFIRMA ROMANCE COM ASSESSORA BITTENCOURT: UMA HISTÓRIA DE AMOR SINCERA!"
Minha respiração falhou. Rolei para baixo, meus olhos ardendo. Uma foto. Heitor, com o braço possessivamente em volta de Bárbara, exibindo aquele sorriso de político diretamente para a câmera. Bárbara olhava para ele, com os olhos arregalados e adoradores, a bochecha pressionada contra o ombro dele. Pareciam o casal perfeito.
Abaixo, o tweet de Heitor. Simples. Cruel.
"Animado para finalmente compartilhar minha felicidade com o mundo. @BarbaraBittencourt, você traz tanta alegria para minha vida. #OficialmenteJuntos #MeuFuturo"
A resposta de Bárbara foi instantânea, melosa.
"Meu coração é seu, sempre, @HeitorMontenegro. Tão abençoada por compartilhar essa jornada com você."
Uma dor aguda e lancinante atravessou meu peito. Não a dor familiar da traição, mas algo novo. Uma dor de membro fantasma por um futuro que eu um dia desejei desesperadamente. Ele havia dado a ela a afirmação pública que eu ansiei por sete anos. A declaração aberta. O uso casual de "meu futuro".
"Aurora? Você está vendo isso?" A voz de Sara cortou a névoa.
"Estou vendo", sussurrei, minha voz rouca.
"Aquele canalha, manipulador e nojento!" Sara explodiu. "Ele usa seu suposto 'namorado imaginário' como desculpa! Ele tuíta sobre 'salvar a reputação de Bárbara' de rumores causados pelo seu suposto relacionamento falso! Você acredita na audácia?"
Eu acreditava. Eu conhecia Heitor. Essa era a jogada dele. Controlar a narrativa. Me pintar como a ex ciumenta e desequilibrada.
"Ele está tentando fazer você parecer uma perseguidora maluca, uma mentirosa, depois de tudo que você fez por ele", Sara continuou, sua voz subindo de tom. "A esposa legítima, vendo sua carreira afundar porque o marido não se deu ao trabalho de reconhecê-la! É um ultraje!"
"Sara." Eu a interrompi, minha voz calma, quase sem emoção. A dor estava lá, uma pulsação surda, mas foi ofuscada por uma resolução fria e feroz. "Preciso que você faça algo por mim."
"Qualquer coisa, querida. Apenas me diga quem você quer que eu eviscere publicamente primeiro."
"Quero ser transferida para a editoria internacional. A de Genebra. Aquela que eu quase aceitei dez anos atrás."
Um silêncio atordoado. "Genebra? Aurora, por quê? Sua carreira aqui está decolando. Você é uma das nossas principais jornalistas políticas."
"Porque preciso de uma mudança de ares", eu disse, as palavras cuidadosamente escolhidas. "Preciso sair desta... zona de guerra. E preciso fazer o tipo de jornalismo que sempre quis fazer."
"Mas... isso é, na melhor das hipóteses, um movimento lateral agora, querida. Depois de todo esse... escândalo, pode até parecer que você está fugindo."
"Deixe que pensem o que quiserem", afirmei, minha voz firme. "Não estou fugindo. Estou escolhendo um campo de batalha diferente."
"Você tem certeza disso?" Sara perguntou, um toque de inquietação em seu tom.
"Nunca tive tanta certeza."
Fechei os olhos, uma onda de memórias me invadindo. Genebra. Dez anos atrás. Uma oferta para me juntar a uma prestigiosa equipe de investigação internacional. Era o meu sonho. Mas então Heitor, com seus olhos sinceros e toque gentil, me implorou para ficar.
"Aurora, por favor. Não vá. Eu preciso de você aqui. Minha carreira está apenas decolando. Você é minha maior apoiadora. Minha rocha. Vamos construir algo incrível, juntos. Você não pode fazer isso por nós? Por mim?"
Ele fez parecer um sacrifício pelo nosso futuro compartilhado. E eu, sempre a parceira obediente, disse sim. Abri mão de Genebra, da chance de perseguir histórias por continentes, da emoção de descobrir verdades globais. Em vez disso, fiquei em Brasília, tornando-me uma jornalista política, sempre cuidadosa para não ofuscá-lo, sempre pronta para defendê-lo, para girar a narrativa quando sua ambição juvenil se aproximava demais do escândalo.
Quando os pais dele morreram, e os meus logo depois, éramos apenas crianças, na verdade. Tínhamos um ao outro. Ele era meu abrigo, eu era sua âncora. Lembro-me de quando ele entrou na AMAN, um recruta bruto. Eu o observei treinar, seu corpo ficando magro e duro. Uma vez, durante um exercício particularmente extenuante, ele sofreu uma queda, torcendo o tornozelo. Eu estava lá, correndo para o seu lado, ignorando os médicos.
"Idiota", eu murmurei, lágrimas embaçando minha visão enquanto eu gentilmente segurava seu pé. "Por que você se esforça tanto?"
Ele apenas sorriu, um sorriso juvenil e encantador que ainda derretia meu coração. "Por você, Aurora. Sempre por você."
Passei semanas cuidando dele, alimentando-o, lendo para ele. Eu acreditei nele. Eu acreditei em nós.
A oferta da editoria internacional era apenas um sonho então. Ele nunca quis ser político. Ele queria ser um cientista pesquisador, enterrado em laboratórios, descobrindo coisas novas. Mas depois de seus pais, o legado da família, a pressão... ele mudou de caminho, encontrou uma nova ambição. Ele alegou que era por mim, para que pudesse proporcionar uma vida estável. Eu acreditei nisso também.
Balancei a cabeça, limpando as teias de aranha do passado. Chega.
Meu telefone tocou de novo, me assustando. Heitor. O identificador de chamadas mostrava seu nome, um lembrete gritante do homem que eu estava deixando para trás. Hesitei, depois atendi.