[Carol]
Mais um dia entediante de aula. Será possível que os dias demorem tanto a passar? Por que o ano não acaba logo para eu poder ser feliz sem escola?
Estava em um sonho tão gostoso quando senti a mesa tremer. Acordei assustada e dei de cara com a professora me olhando de braços cruzados. Olhei para a mesa e vi um livro. Ela jogou o livro na mesa? Sério? Nossa, quanta ignorância.
- Você não quer ir pra casa ficar mais à vontade? - perguntou me fuzilando com o olhar.
- Bem que eu queria né, mas tenho que ficar aqui. - Olhei para ela e estava com o rosto vermelho. Ops! Acho que alguém está na TPM...
- Pra secretaria agora!
Cara precisa mesmo gritar? Levantei e fui caminhando lentamente para a porta.
- Rápido que eu tenho aula pra dar!
Nossa quanta fúria. Comecei a andar mais rápido e quando passei pela porta, vi um garoto loiro sentado na carteira perto dela. Nunca vi ele, será que é aluno novo? Nossa, dormi tanto assim que nem vi eles o apresentando? Ai, ai preciso dormir mais cedo.
Desci as escadas segurando firme no corrimão. Só pra prevenir. Não tenho muita sorte. Quando consegui descer, segui devagar para a secretaria, mais uma vez. Acho que ela já até sabia que eu iria pra lá porque quando bati na porta, a diretora falou "pode entrar, Carol" Oi? Como assim? Ah, não importa. Entrei.
- Você não cansa de vir parar aqui não? - Ela me olhava sorrindo. Até pra dar bronca essa mulher sorria e isso me irritava.
- Na verdade, eu adoro te visitar! - respondi com um sorriso amarelo e ela riu. Então me deu uma série de broncas, sempre sorrindo. Depois me mandou voltar para sala, nem eu nem ela aguentamos mais nos encontrar.
Subi as escadas e parei na porta da sala, aquela mulher ia acabar comigo, ô professora chata! Não se pode nem tirar um cochilo? Poxa que saco! Bati na porta e o loirinho abriu. Sorri para ele, que sorriu e olhei para a professora.
- Entra logo!
Nossa que mulherzinha estressada. Fui andando até a minha carteira.
- Carol! Você não vai mais sentar aí atrás!
Ah, está de sacanagem né? Como vou dormir agora?
- Pode se sentar do lado do Erick.
- Quem?
Ela apontou para o loirinho que sentava perto da porta.
- Ah professora na primeira carteira?
Ela cruzou os braços. Que mulher chata! Bufei e fui até a minha carteira, peguei minhas coisas e segui até onde ela mandou. Ela me olhava de braços cruzados enquanto eu andava.
Sentei ao lado dele. Falei "oi" e levei uma bronca da professora. Faltam quantas eternidades pra ir embora mesmo? Que mulherzinha...
Ela saiu da sala para pegar alguma coisa que não me importa nem um pouco.
-Oi. - Ele respondeu quando a mulher saiu. Olhei para o lado e uau! Que olhos são esses?
- Você tira notas boas? - perguntei na cara de pau.
- Só nove ou dez.
- Ótimo! Meu boletim vai melhorar agora!
A aula passou. De vez em quando deixava minha cabeça cair e levava susto e logo escutava uma risadinha. Por isso que gosto de sentar no fundo da sala! O sinal bateu e eu quase saltei de alegria.
- Onde você mora? - perguntei ao loirinho que arrumava suas coisas. Ele me falou o nome do prédio que tinha acabado de se mudar. - Está de sacanagem? - perguntei surpresa e ele me olhou sem entender. - Eu moro lá! Qual andar?
- Quarto.
Mas que porr* é essa?
- Ah, eu também. Mas você é do número quatro ou número nove? - falei virando um pouco a cabeça. Perguntei isso porque tinham dois novos moradores no quarto andar e como eu não me importava com isso, nem procurei saber quem era.
- Quatro.
- Para! - Ele fez cara de confusão, deve estar assustado comigo. - Eu moro no três.
- Então já tenho companhia pra ir pra casa.
Fiquei quieta olhando para ele. Coitadinho, não sabe com quem está querendo andar... Peguei minhas coisas e fui andando ao seu lado, quando cheguei às escadas, parei e olhei lá para baixo.
- Algum problema? - perguntou, provavelmente não entendo o porquê da retardada estar parada no meio do caminho sem se mexer.
- Não... - falei segurando com toda a minha força no corrimão.
Erick ficou me olhando com uma sobrancelha levantada. Cara, vira pra lá! Está me deixando constrangida!
Então fez uma coisa que eu não esperava, segurou minha mão livre. O olhei não entendendo e ele começou a descer as escadas segurando minha mão. Não vou mentir que fiquei mais tranquila, ao ponto de soltar a outra mão do corrimão.
- Medo de escadas? - perguntou quando já estávamos lá embaixo. Que alívio me dá saber disso.
- Na verdade, tenho um pouco de azar com elas. - falei mostrando a cicatriz debaixo da minha franja. Ele arregalou os olhos e que olhos...
- Você conhece alguém aqui?
Estávamos indo a pé e eu o assustando, tagarelando como sempre, mas ele não parecia se importar com meu falatório.
- Só o meu irmão e você - disse sorrindo.
- Quem é seu irmão?
- Edgar Alves.
- Sério?
- Sério. Você o conhece?
- Ele não sai da minha casa!
Ele me olhou assustado. Falei algo errado?
- O que ele faz lá?
- Ele é o melhor amigo do meu irmão.
Mudou o semblante do rosto. Chegamos ao prédio e entramos no elevador. Ai que glória chegar em casa! Quando parou no quarto andar, Fabrício e Edgar estavam do lado de fora do corredor. Pô esse cara não quer morar com a gente não? Eu hein!
- Você foi pra secretaria de novo? - Meu irmão perguntou irritadinho quando me aproximei da porta de casa.
- O que eu posso fazer se a diretora me ama?
Ele fechou a cara enquanto eu segurava uma risada.
****
No dia seguinte, acordei empolgada. Graças a Deus era sábado. Só de pensar em ficar longe daquela mulher me animava muito.
Eu adoro praia, sabe? Mas meu irmão é chato e fica querendo me prender em casa, desde que nossos pais morreram que ele enche o meu saco.
- Aonde você vai?
Ai que coisa mais chata! Sei que ainda tenho 17 anos e tudo mais, só que o Fabrício é muito chato, quer saber de tudo.
- Vou dar uma voltinha - respondi sem vontade.
Ele me encarou de braços cruzados.
- Eu só quero ir à praia um pouquinho, olha só o sol que está lá fora.
Fabrício fez uma cara de quem iria me impedir e odeio quando ele faz isso. E como sempre eu tenho que fugir. Sim fugir, quando ele deu mole, saí correndo para fora de casa, ele correu atrás de mim gritando como louco.
Sério, os vizinhos devem achar que somos uma família de retardados.
Corri bastante até não ver mais ele. Ah! Vencer é tudo de bom!
Segui meu caminho agora sem correr. Todo sábado era a mesma coisa e mesmo assim eu sempre conseguia fugir dele. A vitória é doce! Andava rindo sozinha pela minha fuga vitoriosa quando tropecei na calçada e caí deitada na rua. Por que isso sempre acontece comigo? Levantei xingando todos os nomes feios existentes na terra e quando olhei para o lado, um garoto loiro me olhava.
- Perdeu alguma coisa? - perguntei irritada, ele ria de mim. Garoto ridículo! Levantei do chão e puxei minha saia para baixo enquanto o desgraçado ainda ria. Tentei ignorá-lo, afinal de contas, brigar com ele só é bom na escola, porque aí eu levo suspensões.
Passei direto, mas não adiantou nada, veio me seguindo e falando gracinha. Ele consegue me tirar do sério! Fingi que ele nem existe, doida para quebrar a cara dele, mas me segurei, não vou estragar meu sábado, não vou!
Cheguei finalmente à praia e segui para perto da barraquinha do meu amigo Jairo, ele sempre olhava minhas coisas pra eu poder ir a água. Acho que é bom ser retardada às vezes, você conhece as pessoas que nunca viu na vida e ainda pede elas para vigiarem suas coisas.
Cumprimentei Jairo e já fui tirando a roupa. Estava com o biquíni por baixo. Entreguei a ele já querendo ir para a água e ignorar o ser estressante atrás de mim.
Comecei a andar em direção a água e ele segurou meu braço. Que filho da mãe! Não sabe segurar sem machucar não?
- Está me machucando, seu idiota! - falei com ele que me encarava sério. Olhei no fundo dos olhos azuis dele. - Dá pra soltar?
Não sei qual é o problema desse cara comigo, mas ele me odeia.
- Não gosto que fiquem me ignorando!
Tive que rir! Se não gostasse, não ficasse me seguindo.
- Wallace, querido, - comecei com ironia. - Se você não gosta, não me siga, porque você vai ser sempre um nada pra mim!
Ele fez uma cara de raiva que, cá entre nós, me deu até uma pitadinha de medo.
- Ei solta ela! - Ouvi uma voz rouca atrás de mim.
Me virei e vi aqueles olhos penetrantes do Erick, depois olhei o Wallace de novo e ele riu. Esse cara está querendo morrer, só pode!
- Arrumou um namoradinho defensor, é? - perguntou me olhando sarcástico.
- Ainda vejo sua mão no braço dela - disse Erick, parecia um pouco nervoso.
Wallace soltou meu braço. Logo coloquei a mão onde estava a mão dele, doeu, tá? Ele riu de novo e foi embora.
- Er... Obrigada - falei virando para trás, sem graça.
- Vamos à água?
Ele sorria como se nada tivesse acontecido. Será que eu não sou a única louca por aqui? Dei um sorrisinho sem graça e fui em direção a água ao seu lado. Olhei para trás e vi seu irmão conversando com alguns meninos na areia.
- Você não é daqueles caras que ficam cheios de frufru pra entrar na água não né? - perguntei a ele que me respondeu entrando direto e dando um mergulho.
- Vai ficar aí? - perguntou rindo enquanto o olhava da beira da água. Entrei dando um mergulho também.
- Liberdade! Que coisa maravilhosa! - falei enquanto nadava de costas. Erick riu, só pode me achar louca.
Quando começou a escurecer, saí da água. Sim fiquei o dia todo lá dentro, estava com as mãos todas enrugadas. Erick se aproximou de mim.
- Vai sozinha pra casa?
Uau alguém sem ser meu irmão preocupado comigo. Ou será só pra ele não ir sozinho? Já que o Edgar tinha sumido dali. A opção dois é mais provável.
- Vou - respondi enquanto me secava.
- Posso ir com você? - Me olhou sorrindo. O que está acontecendo aqui?
- Pode. Se você não tiver medo de que algo aconteça com você.
Ele me olhou confuso e tive que rir da cara dele.
- Eu tenho uma sorte daquelas.
Assim que eu falei isso, começou a chover. Olhei para ele, que sorriu enquanto olhava para o céu.
- Viu?
Seguimos debaixo de chuva para casa. Ainda bem que eu estava de biquíni porque minha blusa estava transparente.
[Erick]
Acabei de me mudar para a cidade e no dia seguinte tinha que ir à escola. Devo confessar que não gosto muito de escola nova, não sei que pessoas vou encontrar, se são legais, mas tenho que estudar, então... A professora me apresentou e disse para sentar perto da porta, obedeci.
Ela seguiu para o fim da turma com um livro na mão, me estiquei um pouco e vi uma garota de cabelos castanhos dormindo com a cabeça apoiada no braço, que estava esticado. A professora chegou perto dela e jogou o livro na mesa com toda força, fazendo a garota dar um pulo. E quando respondeu a professora, jurei que ela fosse agarrar o pescoço da menina, mas apenas a mandou para a secretaria. Quando passou por mim me olhou de um jeito estranho e foi embora.
Um tempo depois alguém bateu na porta e como eu estava perto, abri. Que bom, virei porteiro agora. Quando abri a porta, ela sorriu sem graça pra mim. Sorri de volta, era muito bonita e pelo jeito bem divertida
Me surpreendi quando ela me disse que era minha vizinha. E fiquei feliz que ia ter alguém para me acompanhar até em casa.
No dia seguinte o Edgar me ligou e me chamou para ir à praia. Bom, o dia está ótimo, eu não conheço ninguém, que mau teria nisso?
Estava dando uma volta pela praia e me deparei com uma cena estranha, um garoto loiro segurando o braço da Carol. Parecia estar apertando. Me aproximei e escutei-a dizer que estava machucando. Isso me tira do sério! Odeio esses carinhas que acham que tudo tem que ser na ignorância com as meninas.
Pedi para ele a soltar e o cara era tão idiota que ficou rindo. Se ele a segurasse mais um pouco, acho que eu quebrava a cara dele ali mesmo... Mas ele soltou e foi embora.
Depois de ser deixado para trás pelo meu irmão, perguntei se poderia ir com ela, que me deu uma resposta engraçada, mas realmente começou a chover.
- De onde você tira essa sorte? - perguntei brincando com ela.
- Acho que nasci com ela - respondeu rindo. - Não é bom você andar muito comigo, isso pode ser contagioso! - disse ainda rindo e me fez rir também.
Seguimos para casa. Chovia muito e eu estava encharcado. Ela também. Estava com a blusa transparente. Não que eu estivesse reparando muito sabe... E os cabelos dela, colados no seu rosto e corpo, ela tinha os cabelos longos, quase nos cotovelos. Enquanto eu andava pensando na vida e observando-a disfarçadamente, ela estava calada. Nunca pensei que fosse vê-la calada, mas ela estava.
Um grande clarão se deu no céu, seguido de um mega barulho de trovoada. Quando dei por mim, ela estava pendurada no meu pescoço. Estava rezando? Tive que segurar o riso.
- Desculpa... - falou se afastando de mim com o rosto vermelho.
- Sem problemas - respondi segurando para não rir. Gostei desse jeito doido dela de ser.
Finalmente chegamos ao prédio e para o meu dia de sorte, minha mãe tinha saído e eu estava sem chave.
- Realmente isso passa... - falei quando tentei abrir a porta de casa e estava trancada. Ela riu de mim.
- Se você quiser, pode tomar um banho aqui em casa, te empresto uma roupa do meu irmão. Enquanto sua mãe não chega.
- Er... E seus pais?
Percebi que ela desviou o olhar.
- Não estão mais com a gente. Se é que me entende...
Acho que eu poderia ter ficado quieto.
Ela abriu a porta do apartamento e parecia não ter ninguém lá.
- E seu irmão?
- Sei lá, tomara que demore bastante!
Nossa quanto amor! Entramos e ela foi para algum lugar e voltou com uma toalha, uma blusa e uma bermuda do irmão dela.
- Eu sei que ele é cafona, mas é o que eu posso te oferecer.
Peguei as coisas da mão dela rindo.
- Você não vai primeiro?
- Eu tenho um banheiro no meu quarto. Pode ficar à vontade, tá? Daqui a pouco eu volto.
Ela foi para o quarto dela e eu para o banheiro.
Terminei de tomar banho e voltei para a sala. Era um lugar pequeno, mas aconchegante. Carol apareceu na porta do quarto, veio na minha direção, pegou minhas roupas molhadas e levou pra algum lugar.
- Você está com fome? - Ai meu Deus de onde ela surgiu? Que susto. Ela riu com o pulo que eu dei.
- Estou - falei olhando para ela, que virou as costas e foi pra cozinha. Fui atrás. - Você não vai colocar fogo na casa, não é?
- Na verdade, eu já fiz isso umas... Quatro vezes.
Ela me olhava e eu nem sabia o que responder.
- É brincadeira, seu bobo! - disse rindo da minha cara. Que alívio. Mas não quer dizer que não possa acontecer, né?
Ela preparou um lanche. A ajudei só pra garantir. Comemos e estava muito bom. Então escutei um barulho na porta, era o irmão dela. Será que ele vai achar ruim de me ver aqui com ela?
[Carol]
Que droga, odeio trovões! Ele deve ter me achado uma idiota... Mas como eu sempre pago mico, tanto faz. Fomos para casa e para a sorte dele, não tinha ninguém em casa e ele ficou do lado de fora, isso foi engraçado. Chamei-o para tomar banho lá em casa, o que eu poderia fazer? Deixar ele do lado de fora, molhado esperando a mãe? Sacanagem.
Tomei meu banho sossegada. Ainda bem que o Fabrício não estava em casa.
Logo que a gente terminou de comer, meu irmão chegou. Vai encher a paciência...
Ele entrou em casa e olhou para mim, depois para o Erick e de novo pra mim. É agora...
- Eu juro que tranco a porta com você dentro amanhã! - disse irritado. Cara não está vendo que temos visitas? Não baixe o nível, por favor.
- Não posso ir à praia?
Notei que o Erick me olhava.
- Vai que você encontra aquele garoto retardado?
- Eu encontrei.
Me fuzilou com os olhos.
- Mas não aconteceu nada! O Erick me ajudou.
Olhou para o Erick agora.
- O que ele fez com ela? - perguntou para o Erick.
- O loirinho?
Concordei com a cabeça, quando ele me olhou perguntando.
- Ele só estava segurando ela pelo braço e eu falei pra ele soltar.
- Só isso?
- O que mais poderia ter acontecido?
Ele não sabe de nada mesmo, estava com cara de confusão.
- A Carol briga com esse garoto como um moleque!
Erick me olhou surpreso e eu olhei para o chão.
- Como assim? - perguntou confuso.
- Eles saem na porrada! - Pude ver que ele riu. Fabrício não gostou muito. - Você não sai amanhã!
- Ah Fabrício, que saco! - Ele me olhou furioso e eu cruzei os braços. - Se eu sair com ele... - Apontei para o Erick. - Você deixa?
Fabrício ficou pensativo enquanto olhava para o Erick.
- Talvez... Vou pensar no seu caso.
Sorri largamente e ele tentou segurar um sorriso, em vão. Há! Campeã mais uma vez!
Ele foi tomar banho, pois também estava molhado.
- Er... Vou ver se minha mãe chegou.
- Tudo bem.
Coitadinho, acho que nunca mais vai querer me ver.
- Depois eu devolvo as roupas do seu irmão.
- Tá bom.
Ele me odeia.
***
No dia seguinte acordei com o sol na minha cara. Droga esqueci de fechar a porcaria da cortina. Levantei para fechá-la e vi o Erick na sacada da casa dele, que era ao lado da minha diga-se de passagem.
Abri a porta e fui para o lado de fora. Ele me olhou e sorriu. Será que não me odeia? Quando dei um passo para frente, caí sentada no chão.
- Fabrício! - gritei irritada.
- Que foi? - Apareceu rápido na sacada.
- Isso é cerveja? - falei enquanto cheirava minha mão. Que nojo! Ele riu de mim. Eu realmente devo ser uma grande piada. - Sai de perto de mim! - gritei com ele, que saiu rindo alto. Oii? Os vizinhos estão te ouvindo, retardado!
Levantei xingando mais uma vez. Erick estava apoiando os cotovelos na cerca da sacada enquanto segurava seu rosto com as mãos, ai que mico!
- Você está bem?
Sei que você ri por dentro!
- Estou... - Olhei para o chão e vi... Uma calcinha? - Ta de brincadeira né? - gritei para o vento e o Erick me olhou sem entender. Peguei a porcaria com a ponta dos dedos enquanto fazia cara de nojo. Erick riu. - Fabrício! - gritei furiosa. - Eu não vou ficar em casa hoje!
Ele apareceu na sacada e me olhou e depois a minha mão e tomou aquilo de mim.
- Foi sem querer!
- Sem querer o cassete, seu nojento!
Que nojo, que nojo, que nojo!
- Para de gritar! O prédio todo está te ouvindo!
Ah! Agora ele se importa se os vizinhos escutam!
- Dane-se o prédio!
Ele veio pra cima de mim e me afastei.
- Não coloca essa mão podre em mim!
- Carol vai pra rua vai, pode sair! - Virou as costas e voltou para dentro.
Isso foi sério? Enquanto eu quase saltei de alegria, escorreguei de novo, só que dessa vez segurei na cerca e olhei para o Erick, que ria bastante.
- Não está assustado? - perguntei tirando uma mecha de cabelo do rosto com medo da resposta.
- Por que estaria? - respondeu ainda rindo.
- Bom, você mora ao lado de dois retardados.
Ele riu mais. Tinha um sorriso tão bonito!
- Como ele me liberou, vou tomar banho e sair rápido antes que mude de ideia! - falei apressada.
- Aonde vamos?
Eu ouvi direito? Ele quer sair comigo? Eu devo estar tendo um daqueles sonhos de novo, onde o cara bonitão se interessa por mim, só pode.
- Ooii - disse acenando com a mão para chamar minha atenção.
- Não sei. Eu vou tomar um banho e te chamo ai - falei desconfiada. Ele só pode estar preparando algum tipo de armadilha pra me fazer pagar outro mico...
Tomei meu banho rápido, para garantir que o Fabrício não mudasse de ideia, coloquei uma saia justa branca e uma camiseta lilás, um arco no cabelo para domar a juba e saí rápido de casa. Toquei a campainha do Erick impaciente. Ele abriu a porta e me olhou de cima para baixo. Que foi cara? Está tão ruim assim? Para de me olhar!
- Vamos? - falei com pressa e ele sorriu. Segurei sua mão e o puxei pelo corredor. Finalmente entramos no elevador, ah, agora não tem mais jeito.
- Até que enfim!
Ele me olhou sorrindo. Por que não para de me olhar? Estou ficando encabulada.
- Por que está com tanta pressa assim? - perguntou quando puxei seu braço para gente sair rápido do prédio.
- É pra se o Fabrício mudar de ideia, não dar tempo de alcançar a gente!
Ele riu.
- Aonde nós vamos?
- Ia te perguntar isso agora.
Que ótimo dois loucos que saem sem destino, mas pelo menos não estou trancafiada dentro de casa e ainda tenho a companhia do Erick.
[Carol]
Andamos pela rua sem destino, até eu ter a ideia de ir ao parque. Ele concordou e seguimos para lá. Quando chegamos, tinha um degrau da rua para a parte da grama do parque, consegui tropeçar ali e machucar o pé.
- Ai! - resmunguei enquanto tirei o sapato. Meu dedo estava sangrando!
Que droga! Porque essas porcarias entram na minha frente? Tudo me faz tropeçar, até mesmo o vento... Agora estou sentada na calçada com o dedão do pé cheio de sangue. Ah! Não sei como ele aguenta, quando a pele cresce de novo eu consigo machucar outra vez. Meu corpo tem todo o trabalho de construir tudo ali e eu estrago na primeira oportunidade.
Estava reclamando e xingando tudo ao meu redor quando olhei para o lado e vi o Erick pegando alguma coisa com o cara do cachorro-quente. Ele voltou para onde eu estava.
- Toma, limpa isso. - Me entregou um guardanapo. Peguei da mão dele e coloquei no dedo.
- Vai ter sorte assim na casa do cassete! - falei irritada e ele riu. - Acho melhor você sair de casa de armadura daqui pra frente.
Continuamos andando quando parou de sair sangue. Paramos na grama, debaixo de uma árvore e nos sentamos. Conversamos bastante, ele era um menino legal, apesar de andar comigo.
Preciso dizer que na volta para casa eu caí de novo? Ai que mico! Na hora de subir as escadas do prédio, tropecei e caí de quatro ali. Eu não sei porque o azar me procura... E o Erick é tão fofo que não riu de mim como o Fabrício faz, me ajudou a levantar e perguntou várias vezes se não tinha me machucado. Falei que não, mas com certeza ele ficou perguntando devido ao roxo que ficou no meu joelho. Eu nem percebi isso, mas também, já estou acostumada.
****
Passou um tempo depois que o conheci. Eu e o Erick, viramos grandes amigos apesar de às vezes eu quase matá-lo com meu azar, mas ele não parecia se importar com isso. Na verdade, ria bastante.
Desde que o Erick chegou, o Wallace nunca mais implicou comigo, bom, só uma vez quando o Erick faltou à aula e ele me irritou por causa disso e a gente só trocou uns socos e eu ganhei uma suspensão de dois dias, mas isso não é nada, né?
Estava em mais um dia entediante de aula quase dormindo como sempre, esperando a hora do recreio e ela finalmente chegou! Ah! Como é doce o barulho do sinal da escola, mesmo sendo do recreio.
Eu e o Erick fomos os últimos a sair da sala. Estávamos indo para o recreio e quando chegamos à escada, caí. Rapaz qual o problema da escada comigo? Mentira, o problema sou eu mesmo. Tropecei no meu pé e saí rolando as escadas. Lembro de ver tudo rodando e sentir uma dor terrível na cabeça. Depois ver o Erick me mostrando sete dedos. Como ele fazia isso? Me mostrou apenas uma mão! Fiquei assustada, é sério...
Quando voltei a mim, ele me ajudou a levantar e sentar no banco.
- Você está bem mesmo? - Tinha um olhar preocupado. Espera... Ele está segurando minha mão?
- Estou bem... - Mentira estava com uma dor de cabeça penetrante.
- Tem certeza?
Acho que eu não sei mentir muito bem. Concordei com a cabeça e senti os lábios dele nos meus. Sim, ele me beijou. Mas que porr* é essa? Quando ele fez isso, senti um frio na barriga, uma sensação estranha...
Quando nos separamos, eu não sabia o que fazer e saí correndo dali. Eu sei, podem dizer que eu fui infantil, mas ele me assustou, não imaginava que fosse fazer isso comigo. Logo comigo? Ele deve estar louco.
Saí correndo para o lado de fora e fiquei no meu buraco preferido pensando e me castiguei por sair correndo. Como eu sou idiota!
Meu buraco é bem aconchegante, sabe? É um lugar no fim do colégio onde ninguém vai. Chamo de buraco porque era quase uma toca de coelho grande. Sempre ficava lá dentro me escondendo da escola. Não quis voltar para a sala quando o sinal tocou. Estava com vergonha, não porque ele me beijou, mas sim porque eu corri. Como sou imbecil!
Acho que vou morar aqui, sabe? Não tenho cara para sair. Como vou fazer? Posso me esconder agora, mas ele mora ao lado da minha casa! É impossível se esconder.
Perdida em meus pensamentos, ouvi passos. Quem descobriu meu esconderijo?
- Ah você está aí.
Olhei pra cima e o vi. Droga por que foi achar meu esconderijo?
- Some daqui, perturbação! - falei para o Wallace que me olhava com as mãos na cintura.
- Sai daí logo garota!
Coitadinho está achando que manda em mim?
- Vou sair quando eu quiser!
Ele sorri. Que garoto irritante! Espera... Ele está... Descendo aqui? Está brincando comigo, né?
Não era brincadeira, ele desceu. Como se atreve a entrar no meu buraco?
- Não vê que está apertado aqui? - perguntei irritada. Ele estava sentado de frente pra mim. Logo levantou e sentou ao meu lado. Qual o problema desse cara?
- Melhorou?
- Vai embora.
O olhei de lado e ele não parava de me olhar. O que essa peste quer?
Ele respondeu a minha pergunta quando se atreveu a colocar as mãos no meu rosto e me beijar. Mas que droga está acontecendo hoje? Diferente de com o Erick eu reagi. Esquentei minha mão na cara dele, deve ter doido bastante, porque minha mão ficou bem vermelha.
Saí do buraco soltando fogo pelas orelhas e desci rápido, quando cheguei perto do portão da escola, Erick estava parado nele com minha mochila na mão. Que ótimo! Se você sabe o que é ironia né? Agora já está feito e vou lá, até porque aquele idiota está vindo atrás de mim bem irritado e eu estou com tanta dor de cabeça que uma briga agora, eu perderia na certa.
Quando cheguei um pouco mais perto do portão, Erick me olhou, mas eu comecei a ver tudo embaçado...
[Erick]
Nossa, até eu estava querendo dormir nesse dia, a aula estava bem chata. Quando o sinal tocou, Carla fez um sinal de glória com os braços, ela é terrível. Saímos da sala para ir ao pátio e ela caiu da escada, não sei como conseguiu isso, mas conseguiu. Desci correndo quando a vi caída no fim da escada desmaiada, mexi em seu rosto e a vi abrindo os olhos. Perguntei quantos dedos tinham na minha mão mostrando os cinco e ela respondeu sete. Não estava bem e estava na cara.
Quando vi que estava mais lúcida, a ajudei a levantar e sentamos no banco. Eu via que tinha alguma coisa errada, mas ela não me contava o que era.
De uns tempos pra cá, não sei o que está acontecendo comigo, esse jeito doidinho e atrapalhado dela, me chamou bastante atenção. Gosto muito de ficar com ela, nos tornamos grandes amigos. Às vezes ela me assustava com algumas coisas, mas nada terrivelmente assustador. Só um pouquinho... Mas não sei, nunca senti tanta vontade de ficar com uma pessoa como sinto de ficar com ela.
Me vi tão perto que a beijei... Sei que foi repentino, mas fazer o quê? Ultimamente ela tem mexido comigo de uma maneira que nem eu entendo. Ver ela tão próxima e frágil me tirou de mim. Mas ela correu. Será que a assustei? Procurei por toda a escola e não a achei. Será que foi embora e deixou as coisas na sala? Do jeito que era louca, poderia dizer que sim. Droga! Não poderia ter feito isso!
Se não quiser mais falar comigo depois disso?
Ela não apareceu para a aula, perguntei ao moço do portão e ele não a viu saindo, então está na escola e não saio daqui sem ela! Quando bateu o sinal para ir embora. Peguei minhas coisas e as dela e fui para o portão.
Um tempo depois a vi se aproximando, parecia perturbada. Nossa foi tão ruim assim meu beijo? Fiquei olhando ela chegar, estava vindo rápido e logo começou a andar devagar. Não entendi nada, ela veio andando, colocou um pé na frente do outro e caiu no chão. Na hora achei que fosse normal porque ela cai mesmo, mas quando vi que caiu e ficou, corri pra ela virando-a de barriga pra cima e estava desmaiada! Fiquei desesperado e vi o Wallace correndo para dentro da escola. E logo a diretora veio correndo com ele. Começou a juntar aquele monte de curiosos em volta e a diretora me pediu para pegá-la e colocar no carro dela para levá-la ao hospital.
Estava no banco de trás do carro com Carol nos braços, apavorado e a diretora nos levando ao hospital. Chegando lá eu a peguei e a gente entrou com ela. Os médicos a colocaram em uma maca e a levaram para dentro. Fiquei na sala de espera e a diretora foi resolver os assuntos com o hospital. Afinal de contas, Carol passou mal dentro da escola então é responsabilidade dela. Um tempo depois a diretora se juntou a mim. Que espera agoniante...
- Aconteceu alguma coisa com ela, Erick? - perguntou a diretora me vendo batucar a cadeira de nervoso.
- Bem... Ela caiu da escada.
Ela arregalou.
- Por que você não me avisou?
Eu sou um monstro, eu sei...
- É porque ela estava bem.
- Ela deve ter batido a cabeça!
Ótimo! Me sinto bem melhor agora, obrigado.
- Mas ela não reclamou de nada.
Ficamos em silêncio na sala. Até que um médico veio em nossa direção e disse que ia ter que fazer uns exames em Carol, porque ela disse que estava com muita dor de cabeça e que tinha caído da escada. A diretora me olhou, me fuzilando.
- Preciso da autorização dos familiares dela.
- Vou avisar agora mesmo. - disse a diretora pegando o celular. Ela tem o número do Fabrício no celular?
Minutos depois, o Fabrício chegou.
- O que foi agora? - ele estava bem nervoso. O médico disse que teria que fazer um uma ressonância magnética em Carol porque ela tinha batido a cabeça. Fabrício concordou e o médico entrou.
Ficamos esperando. Um tempo depois ele voltou. Dessa vez com a Carol. Eu estava sentado no banco roendo as unhas de nervoso e quando o vi voltando com a Carol, levantei rápido olhando ela com preocupação, estava pálida.
- O que ela tem? - Fabrício perguntou. Mexia as mãos freneticamente.
- Constatamos um pequeno coágulo na cabeça dela, mas não se preocupem, como é pequeno, com remédios ele se dissolve. - Entregou um papel a Fabrício - Os remédios que ela vai ter que tomar. - Ele explicou tudo que ela teria que fazer e o dia que teria que voltar lá. E fomos embora.
Ela e o Fabrício foram para casa e eu para a minha. Não vou falar nada sobre o beijo hoje, ela precisa descansar.