Prólogo – Velenza
A noite caía sobre Velenza como uma maldição antiga, daquelas que parecem se infiltrar nas paredes e nos ossos. O céu, negro e sem estrelas, cobria a cidade como um manto de luto. Nem mesmo a lua ousava iluminar o que estava prestes a acontecer. O vento, frio e silencioso, passava rente às grades de ferro da mansão Bellini, trazendo consigo o presságio de que nada naquela noite terminaria puro.
Dentro da casa, o ar tinha cheiro de flores mortas. Um aroma doce, mas enjoativo, que se misturava ao perfume antigo das cortinas pesadas e ao verniz envelhecido do salão principal. Sobre a mesa de jacarandá, um pacto frio e cruel aguardava apenas tinta, papel... e o sacrifício de Scarllet Bellini. Dezessete anos. Oferenda. Prometida. Vendida. Silenciosamente entregue como moeda de troca na aliança entre duas famílias.
No andar de cima, Antonella, com apenas quatorze anos, se encolhia junto à escrivaninha, escrevendo no diário com pressa. O tinteiro tremia ao toque de sua mão, não pelo frio, mas pela raiva. Ela não é uma noiva. É uma prisioneira de luxo, rabiscou com letras fortes, quase rasgando o papel.
Para Antonella, a irmã mais velha era como um cordeiro conduzido ao abate: linda, obediente e submissa demais para lutar. Scarllet aceitava o destino como se fosse inevitável, como se não tivesse escolha.
Antonella, não.
No fundo, ela sonhava com um amor selvagem, escolhas arrancadas à força se fosse preciso, nem que custasse gritos e lágrimas. Com mãos que a segurassem por desejo, não por obrigação.
A maçaneta girou sem aviso. Elena Bellini entrou no quarto como uma deusa de inverno, o vestido de seda azul-marinho caindo com perfeição sobre seu corpo esguio. O perfume de jasmim se espalhou no ar, frio e elegante, assim como seus olhos. Sua voz saiu doce, mas carregada de medo.
– Figlia mia, desça. Não nos faça esperar num momento tão... importante.
Antonella fechou o diário com força, guardando-o no fundo da gaveta. Respirou fundo, tentando conter a fúria, e seguiu a mãe pelos corredores iluminados apenas por candelabros.
O salão estava repleto de uma tensão quase palpável. Irina Ferreti reinava sentada no centro do sofá, as pernas cruzadas com a graça de quem sabia ser observada. O vestido verde, justo e brilhante, abraçava suas curvas como pele de serpente. Seus olhos, duas lâminas frias, varriam cada detalhe do ambiente.
Ao redor dela, homens discutiam o destino de Scarllet como quem negocia a venda de uma propriedade. Dom Giussepe Ferreti, com o rosto marcado pelo tempo, falava pouco, mas cada palavra soava como sentença final. Pablo Bellini, o pai das meninas, mantinha as mãos inquietas sobre os joelhos, o olhar perdido. Não tinha voz naquilo, apenas presença.
No divã, Scarllet parecia uma boneca frágil. Vestido rosa, ombros tensos, olhar vago como se tentasse se ausentar dali em pensamento. Seus dedos retorciam o tecido do colo, denunciando a ansiedade.
O nome Giovani Ferreti ecoava entre as conversas como um fantasma distante, uma sombra que pairava sobre todos, mesmo sem estar ali.
Antonella desceu os degraus lentamente. Não se disfarçou. Era muito jovem, mas já entendia o suficiente para saber que aquele não era um jantar, mas um ritual de entrega. Vestia um macacão azul, os pés descalços tocando o mármore frio, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Não se arrumara. Não se curvaria.
– Buona sera a tutti. – Sua voz, apesar da juventude, carregava firmeza. Ela não baixou os olhos.
Irina a fitou com um desdém calculado. Dom Giussepe sorriu, mas não era um sorriso de afeto.
– Vieni qui, piccola... a tuo zio.
Antonella caminhou até ele. O beijo na bochecha foi breve, mas suficiente para lhe provocar um arrepio gelado. O olhar do don percorreu seu rosto e desceu, fixando-se sem pudor nos pequenos seios que denunciavam o frio através do tecido. Irina percebeu, e a tensão nos lábios dela se transformou em um quase sorriso. Antonella recuou um passo, o estômago revirando.
– Vou ajudar mia madre – disse, e saiu antes que mais olhos pousassem sobre ela. No fundo, sabia que o tempo de ser apenas espectadora estava prestes a acabar.
Longe dali, em Florença, Giovani Ferreti acendia um cigarro na sacada de um hotel. A fumaça subia lenta no ar gelado, mas ele não pensava em nada além de negócios. Não sabia do acordo. Não lembrava da menina que, um dia, o amara em silêncio. Não imaginava que seu nome já estava gravado no destino de uma mulher...
E que, quando descobrisse, talvez fosse ele a escolhê-la.
Antonella Bellini
Dois anos depois
O som dos saltos de Scarllet ecoou pelo corredor.
- Ele está vindo! - gritou, quase tropeçando nas próprias pernas.
Levantei os olhos do livro. A empolgação dela era quase infantil, vibrando nos cabelos loiros e nos olhos azul-oceano. O celular tremia em suas mãos.
- Quem? - perguntei, mesmo já imaginando a resposta.
- O Geovani! - anunciou, entrando na sala como se fosse dar uma notícia capaz de mudar o mundo.
Era sempre assim. Todo semestre ele "voltava". E nunca voltava.
Deitada no tapete, tentei voltar à leitura de Como Convencer Alguém em Noventa Segundos. Minha mãe apareceu, secando as mãos no pano de prato.
- Vai sim, minha filha - disse para Scarllet, mas me lançou um olhar firme, quase exigindo que eu compartilhasse da euforia.
- Espero que dessa vez dê certo - respondi, sem tirar os olhos das páginas.
Scarllet correu para o quarto, provavelmente para organizar cada detalhe da recepção. O silêncio que ficou foi quebrado pela voz da minha mãe:
- Você não acredita mais que ele venha, não é?
Três anos de noivado. Nem no enterro do próprio pai ele apareceu.
- É difícil - respondi. Promessas sempre soam bonitas até que o tempo as prove vazias.
Voltei ao livro, mas os pensamentos escaparam. Desde a morte do Don, a cidade afundava no caos: territórios disputados, extorsões, violência aberta. Sem liderança, a honra virou pó e o medo ocupou cada rua. Pequenas facções surgiam nas sombras, aguardando o momento de reivindicar poder.
Talvez Geovani fosse esse momento. Se tivesse o cérebro e a frieza do pai - ainda uma incógnita - poderia reverter o jogo.
De volta à casa, a tensão era insuportável. Scarllet corria de um lado para o outro, à espera da futura sogra. Para manter minha sanidade, saí.
Caminhei até encontrar um café escondido entre prédios antigos. O aroma de grãos torrados me envolveu assim que entrei. Pedi um expresso, sentei-me sozinha e abri o livro de novo.
Por um instante, esqueci Geovani, esqueci a máfia. Esqueci até Scarllet.
Anos antes
A escuridão era densa e sufocante, como se o tempo tivesse esquecido aquele lugar. Pelas frestas minúsculas das paredes, entrava uma luz tímida, quase pedindo desculpas por invadir o silêncio. O ar úmido carregava décadas de dor. Ali, o esquecimento tinha endereço. E era feito de ferro.
Grades enferrujadas dividiam o espaço em jaulas estreitas. Correntes arrastavam-se pelo chão de concreto frio, relíquias de um passado que se recusava a morrer. Em uma delas, pendurado pelos tornozelos, estava ele. Nu. O corpo marcado por roxos e cortes, o sangue seco descendo pelo peito. Cada oscilação arrancava um gemido; cada toque do ferro na carne reabria a tortura.
Giovani Ferreti. Filho único do temido Don Giussepe. Herdeiro legítimo da Cosa Nostra di Velenza. Um título que pesava mais que qualquer corrente.
As lembranças vinham quebradas: risos distantes, rostos que um dia aqueceram o peito. Mas trinta e seis dias de horror apagavam tudo. A pior parte não eram os espancamentos nem os mergulhos forçados nos tanques de água, mas o abandono - as horas sozinho no escuro, esperando o próximo golpe.
Ele tinha apenas onze anos. Para o pai, isso não era desculpa. Desde cedo deveria ser moldado para ser impiedoso. Mas Giussepe nunca o viu como sucessor. Nem como filho. No início, Giovani acreditou que fosse descaso; depois, entendeu: era rejeição.
Oito sequestros depois, o Don só via fraqueza. Para ser Don, era preciso resistir. Sobreviver. E Giovani sobreviveu. Fugiu pela mata, com o corpo esfolado e o medo grudado na pele. Não pensava - corria. Fugir era viver.
Quando chegou em casa, esperava braços abertos. Encontrou silêncio. E depois, o tapa. Seco. Frio. Violento.
- Covarde! - rugiu o pai. As palavras doeram mais que o ferro. Mais que os mergulhos.
A vergonha, para Giussepe, era imperdoável. A sentença foi rápida: exílio. Sem choro, sem despedida. Mandado para o exterior, longe da terra, longe do nome, expurgado como um erro.
- Ele só volta quando eu estiver morto - disse o Don. E nem isso garantiria perdão.
Mas longe de Velenza, a história seguiu. Em Seattle, Giovani foi acolhido por parentes que lhe deram o que jamais tivera: orientação, liberdade, espaço. Sob a tutela do tio, cresceu em silêncio e fúria. Antes dos vinte, assumiu o império Zelensky e o transformou em um colosso. Tornou-se astuto, frio, letal - mas com o coração intacto.
Não carregava mais o peso de ser "o filho exilado de Giussepe". Sorria com desprezo quando o chamavam assim. Giovani Ferreti não pertencia ao passado. Ele era o futuro.