Beatrice
Faz três dias que não o vejo, chega a ser um alento bem vindo algum tipo distorcido de calmaria em meio a tempestade , presa no porão como um animal o cômodo pequeno com um armário e uma mesa, alguns panos que foram jogados para que dormisse sobre eles, se poderia agradecer a clemência dada era o fato de ter um banheiro e não precisar sentir o cheiro da própria urina. Sobrevivendo a mais um deja vu do que a vida tem sido nos últimos anos, um ciclo sem fim de dor e desgraças.
Nunca imaginei que a vida poderia ser tão ruim assim, quando fui apresentada a Stefano sabia que não era um bom homem, afinal, que homem da máfia seria bom... E por mais ingênua que fosse ou tentasse ser, ainda tinha uma pequena esperança de ter um bom casamento a vida de uma rainha ao lado do próximo Don, essa esperança foi extinta logo no início do nosso casamento há sete anos. Vi os sonhos sendo mortos por esse homem a cada dia e em cada decisão sua, na frente dos outros ninguém poderia sequer imaginar do que é capaz, a escuridão se esconde por trás dos rostos mais belos. O lugar escuro, úmido e sem janelas escondido dentro da nossa própria casa, construído apenas para que possa realizar todos os seus desejos de ter uma prisioneira, alguém para descontar a fúria, fazer implorar e quebrar das mais diversas formas.
Presa dentro dos próprios desejos, uma mente fervilhando de ideias loucas , com um corpo maltratado implorando um pouco de descanso e algum cuidado.
Sendo sempre o marido brilhante na frente dos outros, na frente dos pais, bufei sabendo que Don Sartori nunca puniria o único herdeiro por adestrar a esposa,existem pessoas . As dores espalhadas pelo corpo só evidenciam o quanto ele seria capaz de fazer os negócios escusos, suas humilhações diárias, tudo isso em troca de que?
Essa é a minha vida, ser a puta de luxo de Stefano Sartori, esposa seria um adjetivo muito inapropriado considerando as opções. Somos isso, úteros férteis, bucetas de ouro nascidas para casar-se com os herdeiros, vendidas para formar alianças.
Hoje a morte parece mais atraente do que continuar a viver assim...
A primeira surra veio depois de uma festa da família, Stefano disse que percebeu meus olhares para um dos capos.
hmfff.
Como se pudesse olhar para qualquer lugar acima da minha cabeça sem ser uma traição.
São anos sendo abusada por um homem que diz me amar, um homem que comprou nosso casamento exigindo a sua aquisição antes mesmo da maioridade, a fixação e a obsessão desse homem por mim são completamente doentias, na verdade, ele é um doente sem alma que todos os dias alimenta o meu ódio.
Aos dezesseis anos na lua de mel descobri que havia casado com o próprio diabo.
Coloquei a cabeça entre os joelhos tentando fugir das lembranças, as primeiras vezes foram as que machucaram, as que destruíram um coração inocente e roubaram minha alma.
Conforme o tempo passava e suas crueldades pioravam meu corpo foi se acostumando, aprendendo a lidar com a dor, obedecendo seus comandos como a cadela adestrada como ele gosta de chamar. Em nenhum momento nada é suficiente para aplacar a fúria e o ciúme inexplicável diante das suas próprias atitudes
Tentei fechar os olhos para fugir, tentando continuar no presente mesmo que doloroso. A única coisa que consegui foi sofrer com as lembranças
Dessa vez Stefano se superou, sete anos depois e ele ainda consegue achar uma maneira de fuder com o meu psicológico, mesmo aprendendo cada um dos seus truques para me desestabilizar. As marcas espalhadas pelo corpo mostram como fui incapaz de manter o teatro, escutei o som da porta se abrindo, esperando que ele aparecesse, soltei um grito mudo ao ver meu irmão mais velho.
Seus olhos escuros parecem ter sido tomados pelo ódio ao mesmo tempo que vê meu estado e se apieda. Os cabelos bagunçados e a barba sempre bem-feita completando o rosto familiar, percebi a culpa no seu olhar.
- Beatrice! – Sussurrou - Aquele filho da puta vai morrer! Por que não disse nada?
- O que poderia dizer irmão? Stefano é meu marido, filho do Don Sartori. Não é como se ele fosse punido por usar a sua puta.
- Cazzo! Você é a esposa dele porra! – exasperou abaixando a voz logo em seguida e olhando para a porta.
Mesmo que as regras da família fossem claras sobre respeito, fidelidade e não machucar as esposas Stefano não era qualquer um, por baixo da pele dele havia um verdadeiro demônio. O que uma simples mulher poderia alegar para que todo um conselho feito por homens não veja o meu estado como uma simples educação?
Não duvido que outras mulheres na organização passem por coisas iguais ou piores, o resultado de um comando que só valoriza a própria casa, o Don parece não perceber que alimenta os próprios lobos, deturpando todos os nossos valores da Sicília.
Sem ter como argumentar, abaixei o lábio inferior para que visse a minha marca como propriedade de Stefano Sartori, seus olhos se arregalaram.
- Eu vou matá-lo – Giacomo parecia pronto para correr, segurei seu braço com toda a força que resta depois de dias sem comer.
- Como você me achou? –Temi que meu marido voltasse e o encontrasse ali.
- Aparentemente, não sei o que fez nem irei perguntar, mas parece ter conseguido a lealdade de um dos soldados do seu marido.
- Frank? – Perguntei.
- Sim, ele foi até meu apartamento dizer que você estava sumida há cinco dias só que na verdade Stefano estava te mantendo presa.
- Eu descobri estar grávida, ele me espancou e me usou até que perdesse mais um bebê. – Solucei e os braços do meu irmão apoiaram meu corpo fraco
- Você não pode matar ele, seria uma guerra Giácomo, faz três dias que ele saiu deve voltar a qualquer momento...
A fúria emergindo em ondas com o relato, a verdade é humilhante e a culpa é toda minha por não ser uma boa esposa.
- Foda-se vou fazer esse filho de uma puta pagar, não vou conseguir me perdoar por não ter te libertado disso antes.
Todo esse tempo mantive a farsa do casamento perfeito, de esposa perfeita uma boneca, tentei perdoar meu irmão mais velho, afinal, ele só cumpriu com seu papel dentro da organização.
Desde a morte do nosso pai, ele se tornou tudo para mim cuidando de todos nós e fazendo de tudo para nos manter unidos.
Soltei os braços do meu irmão, andando pelo quarto pensando num modo em que possamos sair todos vivos, as ideias fervilhando na mente nervosa cheia de sussurros horrendos e um desejo enorme de vingança.
- Hunter! – Exclamei - Fale com Hunter, ele conhece vários fornecedores de drogas, pegue alguma que possa derrubar Stefano e uma que se pareça com um boa noite cinderela.
As ligações do meu marido com certos contatos seriam apenas um brinde, as ideias ganhando vida e os pensamentos macabros tomando conta do corpo, de poder ter uma vingança dele e dos culpados pelos pesadelos horrendos. Cada um deles que destruiu uma parte da garota sonhadora, cada um que provocou um aborto tirando a oportunidade de a vida existir.
O modo grotesco como perturbou e matou cada parte boa dentro da minha alma, suas formas de tentar convencer sobre o quanto seu amor é forte e logo depois suas mãos se fecharem ao redor do meu pescoço. A culpa deve ser toda minha, por desejar um dia sem uma surra ou sonhar com um toque de amor, fiquei presa aos sonhos ingênuos esperando que Stefano se torne outra pessoa, abdicando de todas autoestima para viver em função dele, esperando por ele ansiando para que depois da dor viesse o toque quente e carinhoso.
Olhei para meu irmão sabendo que tudo estava prestes a mudar.
Livraria o mundo de Stefano e de brinde o colocaria no poder da família.
- O que quer fazer Beatrice? – A voz baixa e grave expressando a curiosidade
- Primeiro a morte dele me pertence – Meu irmão mais velho balançou a cabeça desacreditado - Você acabou de dizer que não se perdoaria, essa é a sua oportunidade irmão. – Sem nenhum escrúpulo aproveitei da sua dor pela minha ruína.
Por mais que tenha tentado nunca conseguir perdoar verdadeiramente Giácomo por ter me entregado tão jovem a esse demônio, se ele me tirasse a oportunidade de matar Stefano essa dor nunca iria passar.
Nossos olhares entraram em um embate silencioso, seus olhos viajaram pelas mordidas em meus braços e todas as marcas visíveis pelo pequeno pijama sujo. Aproveitei sua inspeção minuciosa para soltar a bomba.
- Vamos matá-lo e forjar a minha morte para a família, deixaremos os rastros para que acreditem que foram os sicilianos, Don Sartori vai caçar os culpados cego de ódio – Vi seu silêncio como um incentivo para continuar - Os Sartori vão sumir do mapa Giácomo, e você, o mais velho da família Costello, vai tomar a cadeira.
Meu único motivo para lutar por uma vida vai ser colocar as minhas mãos em cada um deles e tê-los implorando por uma morte rápida, quando tudo que vão conseguir é o pequeno monstro ensinado, amestrado e educado pelo próprio Diabo.
Beatrice Costello Sartori
Qual o intuito de começar tudo isso, se não, aliviar a mente de todos os grilhões que prendiam os loucos pensamentos? Poder encontrar o perdão de Giacomo, perdoar a mim mesma por algum dia ter acreditado que poderia ser realmente feliz.
Um verdadeiro jogo de xadrez formado dentro da mente pronto para agir a cada escolha e em cada curva possível, sem medidas nem volta para o buraco apenas a represa se arrebentando deixando toda a podridão tomar conta, uma da qual jamais poderia ter apagado mesmo que tenha tentado.
Um jogo perigoso, visto que o xadrez humano gera mortes. E é incrível o quanto isso traz um gosto doce a minha boca fazendo com que leve a ponta da língua aos lábios para molhar desejando ter mais dessa sensação
Escutar a música repetidas vezes em um loop enlouquecedor só me deixa mais acordada enquanto a mente tenta se perder no significado das palavras. Talvez essa seja a diferença, aceitei o monstro que habita em mim como uma segunda camada, como o ar que respiro. Ele existia ou nasceu?
Quem vai saber os desenhos projetados pelo diabo, quem vai saber em qual queda irá ceder.
A cada dor de cada mordida fazendo a dor se alastrar por todo o corpo, em cada surra inibindo os meus movimentos atordoando os pensamentos que foram se formando por dentro, tomando um espaço que acreditei algum dia que era bom. Ou ao menos tentei imaginar ser bom.
O espaço adestrado desde o nascimento a ser condescendente, paciente, amorosa e obediente agora é só um espaço oco e escuro, os desejos de suicídio que tive foram sendo tomados pelo desejo insano de consumir cada grito e cada gemido da sua dor.
Com fogo, sangue e a loucura intrínseca aos solitários de alma, minha mente é dominada por todas as ideias fluindo em um esquema perfeito, as peças de xadrez se movimentando cada vez ao levantar o taco para bater no bastardo outra vez e outra vez. Vendo a fúria brilhar em seus olhos, larguei o bastão no chão aproximando os nossos rostos o suficiente acariciando a barba crescida pela viagem, pego-me imaginando quantas ele atormentou sem ter a mim para saciar a sua sede.
Os olhos azuis brilham em resposta sua língua saiu para fora molhando os lábios pecaminosamente avermelhados, foi nesse ponto que me permitir adoecer? Ou já estava caída antes dele? Apoio a mão na sua bochecha.
–Eu te amo Stefano. – Digo, sentindo o retumbar no peito.
As palavras saindo com tanta facilidade que nem ao menos sei quando passei a amar o meu algoz, sinto os olhos queimando pelas lágrimas tomando cada traço do fôlego.
–Beatrice –A voz grave mexe com algo dentro de mim. – Me solte, prometo fingir que isso não aconteceu.
Suspiro, subindo na pequena mesa com algumas coisas ordenadas ao seu lado, traçando os bíceps estendidos com as pontas da unha, arrancando um gemido entre nós dois chegando aos seus punhos, e parando ao tocar a aliança em seu dedo anelar.
–Que tipo de amor é esse Stefano? – Pergunto, abaixando o corpo tirando as mãos dele para pegar a bola vermelha presa entre as tiras de couro na mesa.
Ele deita a cabeça para trás enquanto me ajoelho sobre a madeira, sentindo o peito se contorcendo de uma maneira tão dolorosa, repassando toques, carícias e olhares. Será que esse amor foi apenas uma ilusão, minha?
–É o único amor real. – Paro os movimentos buscando absorver cada uma das suas palavras. – O amor nos deixa loucos e todas as monstruosidades que fazemos por amor, não nos torna monstros apenas feitos de carne.
Suspiro com força sentindo a dor carregada pela enorme gota que escapou pelo canto dos meus olhos, fugindo ao escorrer pela bochecha.
– Deixe -me sentir uma última vez. – Ele morde os lábios
A sua visão tão inocentemente indefeso, exposto em toda a sua glória como uma escultura talhada no mais precioso mármore, é essa cena que rouba mais uma lágrima minha, seguro em seu braço esquerdo colocando o rosto próximo o suficiente do seu, sentindo o calor e o aroma do seu hálito de charuto, a língua traçando todo caminho feito pela lágrima sorvendo como se fosse a mais pura bebida. Afasto-me apenas o suficiente para ficarmos com os olhares conectados.
– Sinto que enlouqueci. – Admito, mesmo que por dentro ainda não saiba distinguir se é bom ou ruim.
–Você sempre foi louca meu amor e perfeita para mim. – Sinto a verdade em suas palavras, ficando balançada, tentada a desmanchar os laços que o prendem. – Não. – Volto a olhar para ele. – Não o faça, só um de nós pode sair vivo daqui depois disso.
Engulo em seco pois essa é a verdade mais dolorosa, uma faca que corta a minha alma e por algum motivo distorcido adoro essa dor.
- Está abrindo mão por mim? – Murmuro incrédula.
Seu sorriso se abre enorme fazendo os dentes brancos brilharam com tanta beleza, meu pedaço do sol que queima as minhas asas.
– Nos encontraremos no inferno querida. – Vejo como o olhar se transforma no mesmo momento. – Não esqueça que putas têm um lugar reservado para servir lá também.
Abro um sorriso de satisfação, é a verdade, é o que sou, uma puta e agora uma vadia má prestes a causar uma carnificina, voltei para os meus movimentos colocando a bola vermelha em sua boca, escutando os lamúrios quando as palavras começaram a acertar as cicatrizes abertas dentro da alma, suas acusações por ser uma má esposa, por ser uma puta de uma família ruim.
A indignidade de carregar um herdeiro Sartori.
Desço da mesa encarando o mar que carrega todas as minhas dores, os dissabores e o meu coração, sim, se é que tive algum um dia está indo embora com esse homem. E até mesmo ele sabe disso, ao parar de tentar falar para forçar o melhor sorriso mesmo com a boca aberta. Seu olhar carrega a satisfação de saber que está tatuado em mim.
Danço por um momento entoando a música fazendo a voz baixa repercutir nas paredes da minha cela, a sensação de prazer cresce, pois dessa vez ele será apenas, meu. Somente meu, para toda a eternidade. Sem olhar para mais ninguém, pois o último olhar será meu. Caminho pelo lugar chegando à mesa e escolhendo com cuidado a prova da monstruosidade que meu amor é capaz de fazer por ele.
Uma brincadeira infame em que a cada movimento arranca um sorriso em meio ao caos do sangue espalhado pelo ambiente pequeno que costumava ser a minha cela.
Meu ouvido direito pedia descanso do som incessante e mesmo com a dor deixei levar pela música penetrando, quando se perde a cabeça você se sente livre ou vivo?!
Não era o momento de conter a dor, não quando meu demônio precisa cantar, quando minha mente precisa sentir o sangue esquentando. Observei seus olhos tremendo, sua respiração fora de compasso e o suor na testa instigando o pior em mim, algo que nunca imaginei que seria possível como um sonho distante se realizando, agora. Escolhi o machado de lâmina cega.
Levantei o machado deixando a lâmina ficar presa no osso do o tornozelo, fazendo um movimento de balançar como se estivesse cortando lenha, para retira-lo não de um pedaço de madeira mas do osso, repetindo o movimento e vendo a forma em que seus olhos reviraram olhando para baixo vi que deixei apenas um toco no lugar, seus grunhidos se reverberando pelo local com isolamento misturando-se com a música. Soltei o machado na mesa escutando um breve suspiro de alívio, embora seu olhar agora carregue um desafio, o que ele não imagina é que o inferno é aqui, foi ele que me ensinou isso ao ensinar-me que entre as paredes desse porão aquele com o poder é o juíz e o carrasco. Peguei um pano caminhando até o seu pequeno armário, achei o ácido que precisava e voltei pressionando o pano com ácido no que restara do tornozelo. Seu corpo se retorcendo com a dor, ajoelhada ergui o olhar encontrando o dele, a dor repercutiu pelo meu lábio pela joelhada partindo a pele, lambi sentindo o gosto do líquido viscoso e sorrindo com o prazer.
Eu sou o seu carrasco, seu dono, seu inferno o único capaz de ter o seu amor, pois somos sujos, somos feitos da mesma podridão.
Minha mente perturbada e atordoada trouxe de volta as palavras infelizes, a memória é uma vadia repugnante.
Usei a mesma bola vermelha que era obrigada a usar, o que fez a visão me trazer um prazer tão distorcido. Sem um pé e ainda sendo a visão mais bela, dizem que o Diabo é lindo, estão todos certo, ele é tão lindo que ao ve-lo assim, indefeso sinto que tomo seu trono.
É isso que sou agora? Uma versão dele?
Um algoz como Stefano tem sido em todos esses anos.
Levantei observando a obra como um todo, a escultura que ficará perpetuada nas minhas lembranças, teria sido mais difícil sem a ajuda do meu irmão para prendê-lo nessa haste de açougue, convencer ele foi complicado, mas valeu a pena o gosto de retribuir todo o seu amor é só meu.
–Esse é o nosso amor. –Digo sorrindo, ficando em pé, escolhendo a nova arma na mesa. – Deixe-me te mostrar.
E essa vai ser minha memória mais prazerosa.
Beatrice Costello Sartori
E nesse ritual em estripar cada pedaço do corpo expulsei cada lembrança dolorosa, cada machucado nem mesmo se tudo der errado esse pequeno momento sempre vai ser a minha vitória.
Peguei o galão de gasolina jogando dentro do tambor, subi em um banquinho e desatei as mãos presas adicionando ao pequeno churrasco, sua cabeça ao fundo sem olhos vindo na minha direção arrancou uma risada. Me afastei o suficiente para apoiar o corpo cansado na porta pegando sua carteira de cigarros e o isqueiro.
Assim que joguei o isqueiro aceso em direção a gasolina, traguei meu primeiro e único cigarro.
Sentindo todas as mentiras sendo queimadas pelo fogo junto ao homem que um dia foi meu marido, os olhos azuis intensos prometendo e jurando um amor inexistente a cada surra, obrigando a minha mente por um único momento pensar ser culpada das suas maldades.
Eu estou perdendo a minha sanidade?
Me perdendo da realidade?
O cigarro acabou, e as chamas continuam consumindo todo o combustível, o cheiro da carne queimada deve ter se fixado na minha pele.
Mas queria estar ali e em nenhum outro lugar do mundo, ver aquele que por um único momento foi o ar que respirava, o dominador do meu demônio se transformar em cinzas é como gozar sem transar. E por mais que ninguém pudesse ocupar o seu lugar, ainda na morte ele é minha dor mais profunda, minha cicatriz mais aberta e mais exposta ao sol.
O sonho de uma vida feliz e de construir um amor puro junto a uma família grande, é o meu sonho de comercial de margarina que acabou de virar fumaça.
Esperei que em algum momento o arrependimento atingisse, que a dor me deixasse entorpecida, que o ar faltasse. Ainda assim, por alguma piada do destino senti os pulmões puxando o ar de maneira confortável pela primeira vez, senti o prazer enchendo as veias.
Revirei os olhos para a bagunça, esse foi o único momento de desconforto que senti.
Me beba, me alimente e me deixe te mostrar a luz.
Meu demônio parecia finalmente livre de seus grilhões e por alguma loucura, isso é reconfortante.
Peguei o álcool na prateleira ao lado e caminhei em direção ao machado sujo na mesa, com uma flanela nova, comecei a limpar o sangue, sentindo o cheiro da ferrugem e observando o brilho do machado aparecer.
Continuei o mesmo processo em cada faca, cada gilete, cada agulha e em cada alicate, todas as últimas vinte e quatro horas que passei aqui valeram. Cada grito de dor presente dentro da memória é guardado especialmente num lugar em que o passado não possa ser esquecido.
E agora cada pedaço de mim cobrou um preço para se manter, respirei o mais profundo que consegui apoiando na parede, peguei o celular na prateleira desligando o som e abrindo a porta. A escuridão abraçou como uma velha amiga, subindo cada degrau esperei sentir qualquer remorso e tudo o que senti foi um imenso nada.
Caminhando pela casa escura, tateando pelas paredes algum apoio para as pernas cansadas consegui chegar ao quarto, e como em uma prece silenciosa conectei o celular ao sistema de som, joguei o aparelho na cama sem me importar com a quantidade de ligações ou mensagens perdidas.
Suspirei, me perdendo da realidade sentindo o gosto do sangue encher a boca depois de cortar os lábios mordendo.
Poderia ter perdido a sanidade e mesmo assim, não importava.
O sangue dele sendo derramado e escorrendo pelos cantos, o fogo em seus olhos azuis sendo consumido, e as cinzas que subiram no lugar abafado.
É esse sussurro na minha mente que traz o primeiro sorriso aos meus lábios, depois do caos, e essa pequena sensação pela qual nunca mais irei deixar ir embora. Mesmo a custo de sangue inocente. Encarando o espelho dentro do banheiro percebi que o som já havia se desligado por talvez o celular ter finalmente descarregado, no reflexo alguém diferente do que estava acostumada a ver, com a cabeça lívida entrei dentro do box deixando a água escorrer pelo corpo limpando a sujeira agarrada a minha pele, pois a que se agarrou na minha alma não pode ser limpa.
Senti ser o suficiente e sai do box enrolando o corpo em uma toalha, caminhei para fora do banheiro segurando a sacola em que coloquei todas as provas que pudessem indicar o meu crime e sujando a casa toda de sangue, deixei a sacola do lado da porta de entrada para não esquecer de tirar o lixo mesmo sem saber se é dia de coleta ou qual dia é.
Caminhei até a bancada da cozinha em que costumava deixar o carregador e o conectei na tomada sentindo um pequeno choque na mão e uma bolinha vermelha aparecer instantaneamente na ponta do meu dedo causado pelo choque.
A dor não incomoda mais, talvez ela tenha sido a única companheira verdadeira em todos esses anos. Me movi um pouco para a esquerda abrindo a porta da geladeira e pegando o suco de laranja, o leite e dois ovos. Preparei a frigideira e quebrei os ovos, pegando uma chaleira para passar um café coado e a colocando no fogo, peguei um copo e enchi de suco, observando os ovos estalando dentro da frigideira enquanto o estalo dos ossos se quebrando enchia minha mente e meus ouvidos.
A chaleira apitou e o cheiro dos ovos começou a queimar, fechei o fogo e coloquei os ovos em um prato raso, passei o café com a maior calma e precisão como a arte que é. Pegando minha maior xícara enchi de café e cobri com leite até respingar fora ao levantá-la do balcão, tomei um gole sentindo o estômago agradecer o alimento que tinha sido roubado de si. Olhei para o copo ainda cheio de suco, jogando o conteúdo pela cozinha se misturando com os pingos de sangue de cada machucado aberto.
O som de um carro do lado de fora não me surpreendeu, e quando uma das poucas pessoas com a chave da minha casa entrou, o silêncio pesou e o ar que entrava pela porta esfriou a casa.
Seus olhos revistaram a casa procurando algo que nunca mais estaria lá, o entendimento pareceu atingir seus pensamentos, observando meu pequeno café da manhã. Sua proximidade em passos lentos não surpreendia, mas o seu silêncio pela primeira vez na vida incomodava.
Os olhos tão escuros quanto os meus, o cabelo alinhado e a barba bem cortada marcando a pele clara, pela primeira vez na vida entendi a escuridão nos olhos do meu irmão.
Talvez os piores monstros não sejam aqueles que criamos, talvez os piores monstros sejam apenas nós mesmos.
Puxando a baqueta se sentando na minha frente num silêncio ensurdecedor, respirei fundo e voltei a xícara de café, não me incomodei com a porta da entrada aberta os passos daqueles entravam foram enchendo o pequeno cômodo entre um sofá e a cozinha.
Levantei a cabeça e observei quieta, sentindo uma calmaria incrível dentro de mim.
Cada olhar carregado com uma interrogação que não poderia responder até a fome ter acabado, e o pior de tudo, é que essa fome não cessava a vontade de rebobinar cada momento como um filme sentindo cada sensação fechando os olhos, ao abrir me vi refletida nos olhos escuros, dei um pequeno sorriso de canto sentindo o desejo do monstro em se vangloriar.
Frente a frente com meu irmão sem nenhuma desilusão quanto ao destino do homem que foi meu marido, ele entendeu todas as entrelinhas do olhar, palavras eram desnecessárias e o suspiro ao segurar minha mão foi a sua forma de perguntar 'você está bem?' o aumento do meu sorriso se juntando ao seu igual ao meu, não poderia dar outra resposta.
Meus irmãos estavam ali por mim, o primeiro a falar sempre era Hunter
- Precisa de ajuda com a limpeza? – Seu olhar é cuidadoso, preocupado.
Os olhos verdes analisando cada parte minha exposta fazendo a raiva preencher o rosto esculpido de maxilar quadrado e boca cheia.
A decisão que tomei vai repercutir sobre todos nós de alguma maneira e esse é o seu jeito de dar seu apoio.
- Apenas a sacola de lixo ao lado da porta.
Ele se virou e caminhou até a porta pegando a sacola saindo fora da casa, todos nós observamos em silêncio a movimentação de ida e volta. Até estar parado novamente ao lado da bancada como se esperasse uma ordem ou um pedido.
- Certo, qual o plano? – Jack se virou de lado sentado no sofá agora com o corpo virado na nossa direção perguntando o que se passava pela cabeça de todos.
Os cabelos escuros em contraste com os nossos loiros, o rosto bem-feito, de lábios cheios e dentes perfeitos, o nariz um pouquinho torto e a expressão sarcástica de sempre estampada.
- Precisamos de uma história – Hunter respondeu sem desviar seus olhos dos meus.
- Forjamos a morte delas – Giácomo disse e pela primeira vez olhei para todos ali percebendo a falta de Bianca.
- Por que ela fez isso? – Sussurrei sem realmente querer a confirmação dos pensamentos.