Gênero Ranking
Baixar App HOT
Início > Romance > A faxineira do ceo bilionário
A faxineira do ceo bilionário

A faxineira do ceo bilionário

Autor:: Cass Razzini
Gênero: Romance
Lara Mendes, uma faxineira batalhadora e mãe solteira, tem sua vida entrelaçada com a do enigmático CEO bilionário, Leonardo Almeida. Enquanto Lara busca dignidade e estabilidade para seu filho Enzo, enfrentando as adversidades de um passado marcado por abandono e ameaças, Leonardo carrega as cicatrizes de um acidente que o deixou com uma perna mecânica e um coração endurecido pela traição. ME SIGA NAS REDES SOCIAIS @CASSESCREVE/ AUTORA CASS RAZZINI

Capítulo 1 A casa é minha

LARA

Eu estava ali, imersa na monotonia da louça acumulada, quando a porta da cozinha se abriu abruptamente, revelando a figura imponente de Suzane, minha madrasta. O tilintar de uma taça de vinho se quebrou no chão, ecoando como um prenúncio sombrio. A presença dela sempre trazia consigo ares de tempestade.

- Limpe. - A ordem foi jogada no ar, ríspida e desdenhosa, enquanto ela me encarava com seus olhos frios e cruéis.

Suspirei, mantendo meu foco na pia cheia de louça. Era um ritual diário, uma dança exaustiva com a rotina e com a figura autoritária que insistia em reinar na casa após a morte de meu pai. Havia um tempo em que este lugar era meu refúgio, mas Suzane transformou-o em um campo de batalha.

A água morna tocava minhas mãos ásperas, e eu sentia a tensão acumulada como uma carga pesada em meus ombros. Não precisava olhar para saber que ela observava cada movimento, cada expressão de cansaço em meu rosto. A culpa da separação com Hélio, meu ex-marido, pesava sobre mim, e Suzane aproveitava-se disso para reforçar seu domínio.

- Deve ser grato por ter um teto sobre a cabeça, mesmo que este teto seja meu. - Ela resmungou com um sorriso irônico, deixando a taça quebrada no balcão.

Minha resposta estava contida no silêncio, uma defesa contra as palavras afiadas que ela lançava como facas. As lembranças do meu pai, do tempo em que esta casa era um lar, permaneciam vívidas em minha mente, mas Suzane insistia em obscurecer essas memórias com seu egoísmo e sua hostilidade.

Enquanto me abaixava para recolher os cacos, senti o peso de uma vida que, de alguma forma, parecia desmoronar ao meu redor. Enzo, meu pequeno raio de luz, brincava no quintal, alheio às turbulências adultas. Eu queria mais para ele, queria um lar onde o amor e a compaixão reinassem, mas parecia uma utopia inatingível.

O toque áspero da esponja na louça parecia ecoar minha própria luta. Eu era uma diarista, uma mãe solteira, e Suzane se aproveitava disso, explorando as feridas abertas em meu coração. Mas eu sabia que, mesmo na monotonia das tarefas domésticas, eu era forte. E, apesar das nuvens negras, o sol da esperança ainda brilhava no horizonte distante.

Respirei fundo, erguendo-me com determinação. Suzane poderia tentar extinguir minha luz, mas eu persistiria. Enquanto lavava as últimas louças, sorri para o futuro incerto. Mesmo na sombra da madrasta, eu acreditava que o amor e a coragem me guiariam para longe desse pesadelo, rumo a um destino onde a verdadeira felicidade floresceria.

O som de pratos sendo secos ecoava na cozinha, indicando o término de mais uma rotina diária de limpeza. Os cacos da taça já haviam sido recolhidos, mas a tensão persistia no ar como uma fina camada de poeira invisível. Enzo, meu pequeno raio de sol, assistia a desenhos animados na Netflix, suas risadas inocentes preenchendo a sala com uma doce melodia.

Ao me aproximar, sorri para ele, agradecida por esse momento de leveza em meio ao caos. No entanto, a atmosfera mudou repentinamente quando Suzane, minha madrasta, entrou na sala e, sem cerimônia, tomou o controle remoto da TV.

- Isso não é apropriado para ele. - Minha voz soava firme, mas Suzane parecia ignorar completamente minha presença.

Ela mudou o programa para uma série inadequada para a idade de Enzo, desconsiderando minha preocupação materna. Olhei abismada para ela, os olhos de Suzane se encontraram com os meus em desafio.

- A casa é minha, eu que pago as contas aqui. Se não está contente, é melhor procurar outro lugar para morar.

A frieza de suas palavras cortou como facas afiadas, atingindo em cheio meu coração já dilacerado. Meu filho merecia um ambiente seguro e acolhedor, e Suzane estava roubando dele até mesmo esse direito básico.

Sem proferir uma palavra, peguei Enzo em meus braços e abandonei a sala, deixando para trás a aura tóxica que emanava de Suzane. Ao chegar ao meu antigo quarto, aquele que já foi meu refúgio antes do casamento com Hélio, as lembranças do passado ressurgiram com força.

Abraçando Enzo, me deixei cair na cama, as lágrimas começando a escorrer involuntariamente. Aquelas quatro paredes, que um dia foram testemunhas de momentos de felicidade ao lado de meu pai, agora se transformavam em um santuário de tristeza e desespero.

A situação parecia um beco sem saída. Não podia voltar para Hélio, pois as feridas do passado ainda eram muito recentes. Suzane havia fechado as portas para mim, transformando o que já foi um lar em um campo de batalha.

Enzo, sentindo minha angústia, acariciou meu rosto delicadamente com suas pequenas mãos. Seus olhos, ainda brilhantes de inocência, buscavam conforto na mãe que estava prestes a desmoronar.

- Vai ficar tudo bem, meu amor. - Minha voz, embargada pelas lágrimas, tentava transmitir uma segurança que eu mesma não sentia.

Abraçada a Enzo, enfrentei o desafio de encontrar uma solução para o que parecia um impasse intransponível. Naquela sala repleta de memórias e desilusões, eu precisava descobrir como reconstruir minha vida e proporcionar a Enzo um futuro mais estável e feliz.

O quarto, antes repleto de calor e aconchego, tornou-se um campo de batalha emocional. Minhas mãos tremiam enquanto acariciava os cachos dourados de Enzo, tentando absorver um pouco da coragem que irradiava dele. Mesmo na adversidade, ele continuava sendo a luz que guiava meu caminho obscuro.

As palavras de Suzane ecoavam em minha mente como um mantra cruel. Aquela mulher havia se tornado uma sombra sufocante, um obstáculo intransponível. A sensação de desamparo me envolvia como um manto, e eu me perguntava se algum dia encontraria um lugar para chamar de lar novamente.

Enzo olhou para mim com seus grandes olhos inocentes, buscando respostas que eu mesma não tinha. Ele era minha prioridade, e a ideia de não poder oferecer a ele um ambiente seguro me dilacerava. Eu havia enfrentado tantos desafios, mas esse parecia insuperável.

No silêncio do quarto, as lembranças de meu pai se misturavam à dor do presente. Eu desejava, mais do que tudo, que ele estivesse ali, uma presença tranquilizadora para guiar-me nesse turbilhão de emoções.

As palavras de Suzane continuavam a ressoar em minha mente: "A casa é minha, eu que pago as contas aqui". A ideia de deixar aquele lugar, que um dia foi preenchido com risadas e amor, me cortava como uma faca. No entanto, uma mãe faria qualquer coisa por seu filho, inclusive sacrificar o que um dia foi seu refúgio.

Decidida a manter a dignidade, levantei-me da cama com Enzo ainda nos braços. Olhei ao redor, absorvendo cada detalhe do quarto que outrora foi meu santuário. Era hora de tomar uma decisão, de enfrentar o desconhecido com a coragem que somente uma mãe poderia reunir.

Através das lágrimas que teimavam em se acumular nos cantos dos meus olhos, peguei o celular, buscando uma pequena centelha de esperança nos anúncios de emprego. O brilho de Enzo, que continuava seguro em meus braços, era a força que eu precisava para não ceder ao desespero.

Naveguei pelos anúncios com uma mistura de apreensão e determinação, até que meus olhos se fixaram em um que parecia ser a resposta para minhas preces: "Vaga para faxineira". Um raio de esperança aqueceu meu coração gelado.

- Enzo, meu amor, olha aqui! - Disse com um sorriso contagiante, beijando as bochechas rosadas do meu pequeno guerreiro. - Mamãe conseguiu, a vida vai melhorar!

Apliquei o toque do dedo no número de telefone disponível no anúncio, torcendo para que fosse a mudança que precisávamos. Após alguns toques, uma voz masculina atendeu do outro lado.

- Eduardo, mordomo do senhor Gayle, quem fala?

Minha voz vacilou por um momento, mas respirei fundo, decidida a enfrentar essa oportunidade.

- Me chamo Lara Mendes. Vi o anúncio para a vaga de faxineira. Gostaria de me candidatar.

Uma breve pausa se seguiu, durante a qual meu coração batia acelerado. Eduardo, o mordomo, finalmente respondeu.

- Perfeito, senhora Mendes. O senhor Gayle está procurando alguém o mais rápido possível. Podemos agendar uma entrevista?

Um sorriso de alívio se espalhou pelo meu rosto, e eu agradeci, emocionada.

- Sim, claro! Estou disponível a qualquer momento. Agradeço muito pela oportunidade.

Eduardo gentilmente marcou o dia e horário para a entrevista. Ao desligar o telefone, senti uma onda de gratidão e otimismo. Pela primeira vez em muito tempo, parecia que as peças do quebra-cabeça estavam se encaixando a nosso favor.

- Enzo, meu amor, estamos no caminho certo. Mamãe vai dar um jeito, e a vida vai melhorar, você vai ver.

Abraçando Enzo mais uma vez, encarei o futuro incerto com um brilho nos olhos e a promessa de que, mesmo diante das adversidades, encontraríamos nosso caminho para a felicidade.

Capítulo 2 A dor da perda da perna

LEONARDO

A noite pairava sobre a cidade quando retornei ao meu apartamento. Robson, meu leal mordomo, cumprimentou-me com um "boa noite" respeitoso, seu rosto expressando preocupação sutil.

- Boa noite, senhor. Tomou seus medicamentos para a dor?

Seus olhos, repletos de zelo, encontraram os meus. Eu, por um instante, franzindo o cenho em resposta.

- Está tudo bem,Robson. Preciso me acostumar com a dor.

Ele assentiu, embora a preocupação ainda se mantivesse em seu olhar. Uma lealdade que, mesmo envolta em formalidades, revelava uma inabalável dedicação. Um mordomo atento às necessidades, físicas e emocionais, de seu patrão.

Antes que pudesse desviar-me para o refúgio de meu escritório, Robson antecipou-se.

- Senhor, amanhã teremos entrevistas para a posição de diarista. Gostaria de estar presente?

Meu olhar, momentaneamente desviado para o relógio que pendia em meu pulso, encontrou-se novamente com o de Robson. Uma escolha rápida entre o tempo que fugia e as demandas da mansão.

- Não tenho tempo para isso, Robson. Cuide das entrevistas.

Caminhei em direção ao escritório, deixando para trás o zelo de meu mordomo. Naquele espaço, cercado por sombras dançantes, eu me via diante das obrigações infindáveis que minha posição demandava. Envolto na penumbra de minhas próprias reflexões, dei continuidade a uma noite que, como tantas outras, se perdia na vastidão de minha solidão.

Fechei a porta do escritório, isolando-me do mundo exterior. A penumbra revelava os contornos familiares, os móveis requintados e a imponente poltrona que me acolheria. Meu refúgio, onde a fachada de controle cedia à exaustão que a noite trazia consigo.

Caminhei em direção à poltrona e, ao afundar nela, minha mão instintivamente encontrou o joelho mecânico. Uma conexão de metal que se fundia com a carne, uma junção infernal que era tanto uma extensão de mim quanto uma recordação incessante de tudo que se perdera.

- Inferno...

As palavras escaparam de meus lábios, murmuradas para o silêncio cúmplice do escritório. Minha mão percorreu a superfície fria da prótese, um gesto que denotava tanto frustração quanto um anseio contido. Desejava arrancar aquela extensão mecânica, liberar-me da constante lembrança de minha própria fragilidade.

Mas sabia que, sem a prótese, era incapaz. Incapaz de andar, de mover-me, de ser o homem que fora antes do fatídico acidente. Eu a concebera meticulosamente, cada engrenagem, cada fio, projetados para replicar os movimentos naturais de uma perna humana. Até mesmo o sistema implantado em meu cérebro, uma proeza de minha própria engenharia, permitia-me sentir e controlar a prótese como se fosse uma parte intrínseca de meu corpo.

No entanto, meu organismo, teimoso em sua natureza, continuava a rejeitar a máquina que eu, em um esforço desesperado, inserira em minha anatomia. Tantas noites passei estudando, aprimorando minhas habilidades de engenharia, tentando superar as barreiras que meu próprio corpo erguia contra mim. Cada avanço, um pequeno triunfo; cada recuo, uma lembrança dolorosa de minha própria vulnerabilidade.

Aquele toque na prótese era um contato com o passado que insistia em permanecer presente. Uma batalha incessante entre o desejo de libertar-me da máquina e a consciência aguda de que, sem ela, a liberdade era apenas uma ilusão.

Suspirei, uma exalação carregada de frustração e resignação. Meus olhos, fixos na penumbra do escritório, refletiam o cansaço que permeava minha alma. Precisava estudar mais, aprimorar minhas habilidades, superar as limitações auto impostas pela carne e pelo metal.

No entanto, a exaustão pesava sobre meus ombros como um fardo insustentável. Cada avanço no campo da ciência cobrava seu preço, e eu, o inventor, o criador, estava exausto. A poltrona tornou-se meu trono de desabafo silencioso, onde a solidão se misturava com o eco de minhas próprias dúvidas. O conforto ilusório da noite, onde as estrelas, testemunhas silenciosas, eram as únicas a compartilhar minha vigília solitária.

Levantei da poltrona, sentindo o peso da prótese mecânica acentuar-se com cada passo mancado. Cada passagem pelo escritório era um eco das minhas próprias limitações, um lembrete constante de um passado que insistia em não me abandonar.

Caminhei em direção à mesa do escritório, o cenário da minha busca incessante por soluções. Ali, entre papéis e projetos inacabados, repousava a caixa de analgésicos. Sem hesitar, peguei-a e despejei três comprimidos na palma da mão, engolindo-os de uma vez.

O whisky, aliado improvável contra a dor, estava a postos no balcão. Servi-me com uma destreza forjada pela prática constante desse ritual. O líquido âmbar dançou no copo, um convite ao esquecimento temporário que só o álcool podia proporcionar.

Inalei profundamente, preparando-me para a combustão alcoólica que queimaria meu estômago. O primeiro gole foi como um soco controlado, o calor do líquido mesclando-se à ardência dos comprimidos. Uma sinfonia de sensações que, por um breve instante, desviava minha atenção da dor física.

- Maldito seja o dia em que decidi pular de paraquedas.

A frase escapou de meus lábios em um sussurro, mas ressoou no silêncio do escritório como uma sentença. A decisão temerária, o salto que me custara a perna e, mais do que isso, a paz de espírito. Cada fragmento de dor, cada lembrança agonizante, era uma penitência autoinfligida.

Apertei o copo com força, como se pudesse esmagar as memórias que afloravam com a dor constante. O último gole do whisky desceu pela garganta, levando consigo a queimação do álcool e a amargura de arrependimentos que se acumulavam como cicatrizes invisíveis.

O copo, agora vazio, retornou ao balcão com um som oco. O escritório, palco das minhas batalhas internas, testemunhou mais uma cena na trama interminável da minha busca por alívio. E ali permaneci, entre projetos inacabados e analgésicos, um homem que carregava o peso não apenas da prótese mecânica, mas também das escolhas que moldaram sua existência.

A mente me traía ao relembrar o capítulo mais sombrio da minha história. Aquele período em que a vida parecia ter congelado, uma pausa dolorosa marcada por uma perda dupla que se desdobrava a cada lembrança.

Estava deitado na maca do hospital, os olhos semicerrados tentando se adaptar à luz. Algo não estava certo. A sensação de vazio, a ausência de algo que sempre estivera presente, fez meu coração acelerar antes mesmo de compreender a gravidade da situação.

Uma enfermeira, cujos olhos revelavam compaixão e pesar, correu para meu lado. Sua voz era um murmúrio suave que tentava me acalmar, mas as palavras se dissolviam antes de alcançar meu entendimento turvo.

Logo, um médico entrou em cena, e suas palavras caíram sobre mim como pedras pesadas.

Seis meses. Seis meses em coma, inconsciente da batalha que meu corpo travava pela sobrevivência. Seis meses em que a mulher que eu amava estava ausente, abandonando-me nas sombras da inconsciência.

A revelação foi uma ferida ainda fresca, uma traição descoberta quando minha existência ainda estava entrelaçada entre a realidade e o torpor do sono profundo. A dor física parecia insignificante diante da ferida emocional recém-aberta.

Minha mãe, guardiã silenciosa durante aqueles dias sombrios, compartilhou a verdade que ela própria hesitava em pronunciar. Minha noiva partira, deixando-me à deriva quando eu mais precisava dela. A justificativa era uma amálgama de palavras que formavam uma sentença insuportável: ela não conseguia suportar a carga, a responsabilidade de estar ao lado de um homem transformado, fisicamente e emocionalmente.

A dor da perda da perna, que antes eu considerava o auge do sofrimento, foi subitamente ofuscada pela faca afiada da traição. A fidelidade prometida em votos de amor se desfez como uma ilusão cruel, evaporando-se como a névoa matinal que desaparece com a chegada impiedosa do sol.

Aprendi da maneira mais dura que as cicatrizes emocionais podem ser tão profundas quanto as físicas, e a ausência de uma perna tornou-se secundária diante do vazio deixado por um coração quebrado. Enquanto eu lutava para me reerguer, a mulher que eu considerava minha parceira de vida escolheu a retirada, deixando-me, de forma inusitada, em dois estados de perda.

Capítulo 3 O aperto no peito persistia

LARA

O sol raiava timidamente pela janela do quarto, revelando os primeiros raios de luz da manhã. Meus olhos se fixavam no rosto tranquilo do meu pequeno Enzo, que descansava serenamente. Seis horas da manhã marcavam o relógio, e o silêncio na casa indicava que a madrasta já havia partido, para onde quer que fosse. Respirei fundo e, com um carinho suave, afaguei os cabelos macios do meu filho.

- Vou voltar logo, meu amor. Mamãe vai dar um jeito na nossa vida - murmurei para ele, depositando um beijo suave em sua testa. Suas bochechas coradas eram a prova do sono tranquilo, e meu coração apertou de gratidão por ter aquele anjo ao meu lado.

Caminhei pelo quarto, a luz da manhã revelando cada detalhe familiar. O relógio na parede marcava o tempo que parecia ter parado quando meus pais se foram. Olhei para o pingente do colar que pendia delicadamente em meu pescoço. Um presente do meu pai no meu décimo quinto aniversário, era um elo tangível com a presença da minha mãe, uma lembrança constante do amor que eles compartilhavam.

Segurei o pingente com firmeza, fechei os olhos e fiz uma pequena oração silenciosa. Pedi forças para enfrentar os desafios que estavam por vir, ansiando por orientação e coragem. Era hora de assumir o controle da nossa vida, de resistir aos tormentos que a chegada da madrasta trouxera à casa que um dia fora cheia de amor.

Peguei a bolsa, verificando se tinha tudo o que precisava para começar esse novo capítulo. O olhar decidido refletido no espelho contrastava com a incerteza que se escondia por trás dos meus olhos. Mas eu estava determinada.

- Vamos lá, Lara - sussurrei para mim mesma, dando um último olhar para Enzo antes de sair. A porta se fechou suavemente, marcando o início de uma jornada que eu estava disposta a enfrentar, armada com a memória dos meus pais e o amor que ainda pulsava em meu coração.

O aperto no peito persistia enquanto eu caminhava pelo corredor vazio da casa, fechando a porta suavemente atrás de mim. A cada passo em direção à liberdade, a responsabilidade pesava mais. Contudo, a entrevista com o senhor Gayle era a esperança que eu precisava para reverter nossa situação.

Ao sair, o ar fresco da manhã envolveu-me, uma mistura de alívio e ansiedade. A rua silenciosa aguardava o novo capítulo que eu estava prestes a começar. Dirigi-me à parada de ônibus, pensativa, sentindo o calor do sol emergindo aos poucos.

Enquanto aguardava, meu pensamento vagava para o senhor Gayle. Eu mal conseguia acreditar que ele morava em Daytona, um lugar conhecido por seus turistas e praias encantadoras. A pesquisa sobre ele revelara pouco além de sua impressionante carreira em engenharia médica com tecnologia avançada. Uma figura misteriosa e respeitada, um homem de poucas palavras.

O ônibus chegou, interrompendo meus devaneios. Entrei e escolhi um assento perto da janela. Enquanto o veículo avançava pelas ruas movimentadas, meu olhar se perdia nas paisagens de Daytona. Perguntei-me se o senhor Gayle preferia esse refúgio tranquilo em meio à agitação da cidade, ou se, talvez, escolhera Daytona para escapar do frenesi das grandes metrópoles enquanto administrava sua empresa inovadora.

O ônibus parou, e eu desci com determinação, ainda que meu tornozelo protestasse contra cada passo. Um leve xingamento escapou de meus lábios, e apertei o punho com força, como se pudesse conter a dor. Mancando, alcancei a portaria do prédio e informei minha chegada ao porteiro, um homem amigável com um olhar solidário. Ele pediu para aguardar e logo retornou.

- Ele está te aguardando, é no apartamento de cobertura - ele disse, sinalizando para que eu entrasse.

Respirei fundo, agradecendo e desejando um bom dia ao porteiro. Subi os degraus com dificuldade, o tornozelo pulsando com cada passo. Cheguei ao hall e dirigi-me ao elevador, a ansiedade aumentando à medida que o ponteiro avançava.

Nervosa, apertei o botão para a cobertura. A porta do elevador se fechou, e respirei fundo, lembrando do rosto sereno do meu filho de três anos dormindo. Murmurei para mim mesma que tudo daria certo, que Enzo e eu precisávamos daquele emprego. A perspectiva de um futuro mais estável me impulsionava.

O elevador parou no andar desejado, e a porta se abriu revelando o mordomo, Robson, aguardando por mim. Ele se apresentou com uma voz polida.

- Bom dia, senhora. Sou Robson, o mordomo. O senhor Gayle pediu que eu conduzisse a entrevista em seu lugar.

Um suspiro de alívio escapou dos meus lábios. A ideia de encarar diretamente o senhor Gayle, com toda sua seriedade, parecia menos intimidadora naquele momento.

- Bom dia, Robson. Sou Lara. Agradeço pela oportunidade. - Respondi, tentando esconder a tensão em minha voz.

Segui o mordomo pelo elegante corredor até a sala onde a entrevista aconteceria. Minha mente, porém, estava dividida entre o desejo de impressionar e a imagem reconfortante de Enzo dormindo em casa. Independentemente do que acontecesse, eu estava disposta a lutar por nós dois.

Baixar livro

COPYRIGHT(©) 2022