Prólogo - A força do Destino
"A vida nem sempre é tão fácil quanto parece, cada ser humano carrega dentro de si inúmeros anseios, dúvidas, questões pessoais, alegrias e sofrimentos.
Somos universos diferentes e precisamos nos conectar uns com os outros de maneira eficiente.
Ser protagonista da nossa própria história, sem ao menos fazer ideia de como ela será é totalmente instigante, não acham?"
Anne Remy desceu as escadas de sua mansão situada na cidade de Paris, em um bairro próximo a Torre Eiffel, um dos locais mais caros da cidade. Os longos cabelos, estavam amarrados de maneira cuidadosa no alto da cabeça, com todos os fios devidamente alinhados.
O passeio da tarde seria uma ida ao shopping, compras com sua melhor amiga, pois à noite teriam uma festa.
Apesar de sempre ter sido consciente com relação ao dinheiro, Anne vive em um mundo que estava totalmente longe até mesmo da imaginação de grande parte da população mundial. Onde a realidade lhe permite viver e comprar o que desejar, sem se preocupar com o valor, com quanto vai gastar e se isso fará falta futuramente.
Apressada entrou no carro, sua amiga Nicole, já a esperava, ansiosa as duas seguiam dentro veículo, tagarelando sem parar, sobre o evento de logo mais.
[...]
- Anne, o que acha dessa roupa? - Nicole estava com um vestido vermelho deslumbrante em seu corpo, rodopiando na frente da amiga.
Anne ergueu os olhos, que estavam focados em seu celular e sorriu ao ver a amiga.
- Tá perfeito! Aliás você fica linda em qualquer roupa. - piscou e sorriu.
- Ai amiga, essa festa é a minha chance! Dessa vez tenho certeza que o Martin vai olhar pra mim da maneira que eu mereço! Esse vestido tá lindo no meu corpo.
Anne suspira alto. - Já disse que não acho certo você pensar assim, a pessoa tem que escolher estar ao seu lado independente da roupa que veste. - Odiava com todas a suas forças, quando Nicole agia assim, dando importância aos bens matérias, lógico que ela sabia que não estava em posição de falar com a amiga sobre isso, pois viviam realidades completamente diferentes, no entanto sempre tentava alertar a amiga, da importância de se enxergar como a mulher incrível que ela era.
Nicole era ingênua e Anne sabe perfeitamente bem disso, e temia que machucassem a amiga, tinha plena consciência, do quanto as pessoas da alta sociedade podiam ser cruéis com alguém de menor poder aquisitivo.
- Sabe, aquele dia na sua casa, quando vi o Martin pela primeira vez, tive a certeza que era ele, o grande amor da minha vida! - Continuou a falar, enquanto se olhava no espelho.
- Nicole, já tivemos essa conversa mais de uma vez, por favor deixa de ser boba! O Martin não é um cara legal, ele é um babaca egoísta que só pensa em status e outra é um mulherengo de primeira.
- Anne, eu sei que já falamos sobre isso, mas não dizem que o amor muda as pessoas? Então, quem sabe não mude ele.
- Não vejo como, Nicole! Eu sei que sonhar faz bem, mas tudo tem limite, não acha? Às vezes é necessário caminhar com os pés no chão e tirar a cabeça das nuvens!
Nicole dá para o que sua melhor amiga tinha acabado de falar e sorri novamente olhando a roupa em seu corpo.
- Ficou perfeito!
Anne apenas sorri e balança a cabeça positivamente, enquanto se perde em suas próprias memórias. Gostava muito da amiga, eram como irmãs e lembrar do dia em que essa amizade teve início era algo que a fazia bem, acalentava sua alma.
"Brincava solitária com sua boneca preferida no jardim principal da mansão em que vivia com seus pais. Apesar de ter alguns amigos na escola, nunca os chamava para ir até sua casa, portanto, suas brincadeiras eram sempre sozinhas. Seus pequenos olhos captaram a imagem de sua doce governanta, a senhora Piquet, entrar apressada na mansão, mas o que mais chamou sua atenção, foi o fato dela trazer junto de si uma garota da sua idade
Levantou-se imediatamente, tomada pela curiosidade infantil, principalmente por ver uma criança junto da mulher.
- Desculpe Sra. Remy, eu não tinha com quem deixá-la hoje e não poderia faltar ao trabalho. Prometo que ela não dará trabalho, ficará quietinha.
- Tudo bem, não tem problema. Leve ela para brincar com Anne, ela está no jardim. Vai adorar ter outra criança para brincar.
- Não quero causar incômodo.
- Qual incômodo causaria uma criança tão linda quanto sua filha?
A senhora Piquet agradeceu com um sorriso e saiu.
Anne, após ouvir a conversa correu para o jardim e ficou parada olhando as flores, esperando a governanta aparecer com a garota.
Naquela tarde, Anne teve um dia animado, brincou como uma criança feliz, conheceu brincadeiras novas e sorriu verdadeiramente.
Esse foi o primeiro dia das duas juntas ... Depois disso tornaram-se inseparáveis. Nicole sempre que podia acompanhava a mãe no serviço e então as duas conversavam por horas e horas. Mesmo estando em situações financeiras completamente diferentes, as duas sempre se deram bem e não deixava isso atrapalhar em nada a amizade."
**********
- Tudo certo, Nicole? - Anne perguntou após a amiga pagar o vestido.
- Sim! Essa roupa me custou os olhos da cara, mas tenho certeza que vai valer a pena.
- Sabe que não precisa disso, não precisa se preocupar com roupas caras e muito menos gastar além da conta para agradar ninguém. Eu já te disse inúmeras vezes, é linda e perfeita, do seu jeitinho.
- Eu sei Anne, mas eu realmente queria comprar com o meu dinheiro esse vestido, pra mim, pra me sentir linda nessa festa. Eu mereço, não acha?
- Claro que sim amiga. Vamos então, ainda temos que nos arrumar pra noite! - Anne levantou-se e as duas saíram juntas da loja, andando pelos corredores do grande shopping, rumo ao estacionamento.
Colocaram as compras no porta-malas e Anne dirigiu até sua casa. Ao chegar, as duas subiram direto para o quarto da garota e começaram a se arrumar para a festa que iriam logo mais.
Anne Remy, é uma jovem de 19 anos, cabelos negros como a noite e longos e os olhos azuis cristalinos, herdeira única do Grupo Remy, uma rede hoteleira com hotéis espalhados por vários países. Uma garota sofisticada, direta em todas as suas ações, muitas vezes até agressiva, com ideias inovadoras e inteligentes, estudante do terceiro ano de administração hoteleira na universidade Lenôtre.
Nicole sua melhor amiga, é filha da sua governanta, mora na mansão junto com sua mãe e seu pai, motorista da família. Uma jovem de 20 anos, cabelos curtos e loiros e olhos verdes, estuda enfermagem, inteligente e sonhadora, acredita que um dia o príncipe encantado vai aparecer e resgatar ela de tudo, a levando para um lugar mágico.
**********
- Cara, vai ser épica essa festa! Na primeira festa do ano, dizem que só os mais tops estarão lá - Antony falava animado.
- Se só vão os mais tops, como você foi convidado?? - Allan joga um papel em cima do amigo...
- Ah, cara! Eu posso não parecer, mas sou top também, alguém viu valor em mim e me deu um convite! - ele ri.
- Ah, mas fica pra próxima, não tô afim de ir nessa festa não, um monte de playboy metido a besta. Tô tranquilo.
- Deixa de ser empada foda Allan, a mina foi bem taxativa quando disse pra eu levar você...
'não esqueça de trazer aquele seu amigo da foto, minha amiga está louca pra conhecer ele' - Antony imitava a voz da menina.
Allan revira os olhos - Não tô afim de conhecer ninguém agora, tenho que focar nos meus estudos, estou no último ano da faculdade, e estou procurando um estágio, não vou ter tempo pra isso...
Allan é interrompido por Antony.
- Que isso cara, só tô te chamando pra uma festa, curtição, nada de mais, não tô levando você pra noivar com ninguém não... Você precisa relaxar...
Allan se joga na cama e olha o teto, nunca teve saco pra festas, muito menos, festinha de playboy. Aquele mundo não o atraía de jeito nenhum, odiava pessoas superficiais, acreditava no valor da família e das coisas que o dinheiro não poderia comprar. Mas o amigo tinha razão, ele não saia a muito tempo...
- Beleza!! Mas se eu não curtir a festa, vou embora!!
- Ok!! - Antony falou dando pulos de alegria pelo quarto.
Capítulo 2 - A festa
" Entre erros e acertos, seguimos a vida.
Sempre envolvidos com nosso egoísmo."
*********
Anne e Nicole descem do carro bem em frente ao local onde a festa iria acontecer.
- Tchau pai! - Nicole acena para o pai que sorri.
- Obrigada Sr. Piquet, até mais tarde.
- Juízo vocês duas e a hora que quiserem voltar me liguem.
As duas acenaram e começara a subir as escadas no grande jardim da mansão da família Leroy, na porta dois seguranças as cumprimentam, e elas passaram, já na entrada foram recepcionadas por Dominique Leroy, amigo de Anne e dono da festa.
-- Minha linda! Que bom que você veio e que trouxe sua amiga!
Anne sorri e abraça o amigo.
- Nós não poderíamos perder uma festa na sua casa, Dominique. Você é meu melhor amigo desde o ensino fundamental...
O rapaz sorri satisfeito e as leva para dentro da sua casa, atravessam a imensa sala e caminham para a área externa, onde a festa está rolando.
A namorada de Dominique aparece e abraça Anne.
- Você está linda como sempre! Mas pensei que não viria, Dominique me disse que vocês não tinham confirmado a presença.
- Obrigada, Amelie! É que eu esqueci de confirmar, desculpe. - Anne sorri.
- Sem problemas, Nicole querida, que bom que veio! Fico feliz de verdade, espero que se divirta bastante. - Amelie diz sorrindo.
Amelie e Dominique namoram desde a quinta série, Anne os considerava demais, eram bons amigos. O rapaz um garoto sensível e educado, excelente atleta, o destaque da faculdade Lenotre, onde estuda administração de empresas e herdeiro da maior rede de fast food da Europa.
Sua namorada Amelie, um encanto de pessoa, educada, compreensiva e sempre solicita com todos a sua volta, filha mais nova dos Simon, empresários do ramo de eventos, dona de um ouvido absoluto, estudava música e tocava vários instrumentos com maestria.
Anne e Nicole pegam uma bebida e vão para um canto conversar um pouco.
- Amiga, eu sei que vocês ricos são bem acostumados com esse mundo e todos olhando e cochichando, mas eu particularmente acho isso muito estranho.
- Quem disse que eu me acostumo com isso? Eu finjo não me importar, mas na verdade não entendo porque eles ficam encarando tanto, acho isso bizarro. Ainda mais em um ambiente em que todos possuem um status financeiro alto.
- Todos virgula, aqui a maioria é riço ou bem de vida, financeiramente falando, mas a real é que milionários como você ainda os intriga, e eles querem a sua amizade!
- Minha amizade uma ova, eles querem benefícios. Por isso é tão difícil fazer amizade sincera.
Nicole ri da resposta da amiga e concorda com a cabeça.
- Mudando de assunto, amiga, olha quem está vindo!
Anne olha para a frente e vê Bernard e Martin caminhando na direção delas.
- Ual!!! Como consegue ficar mais linda do que já é?? - Bernard fala segurando a mão de Anne e a levantando...
- Obrigada! - ela diz educadamente.
- Vêm, vamos dar uma volta, quero mostrar pra todo mundo, o quanto eu sou sortudo em ter a garota mais linda dessa festa ao meu lado.
- Pare de ser bobo, Bernard! Vou ficar aqui com a Nicole, se quiser senta aí.
Eles olham para o lado e veem Martin e Nicole conversando.
- Acho que ela já arrumou companhia. - Bernard falou rindo.
Anne odiava aquela situação, pois não confiava nada em Martin, mas ao olhar para a amiga e ver ela feliz, resolveu dar uma chance e deixar os dois sozinhos um pouco. Pegou na mão de Bernard e saíram.
Bernard era o namorado de Anne, se conheceram no primeiro ano da faculdade, apesar dos defeitos dele, era um cara legal. Loiro de olhos verdes, um rapaz explosivo e impulsivo na maioria das vezes, sua família era dona da maior fábrica de fogos de artifício do Paris.
- Vou ver como a Nicole está!
- Por que Anne, ela tá bem, tenho certeza, vamos ficar aqui! - Bernard segura a garota pela cintura e tenta beijá-la, mas Anne o barra colocando uma das suas mãos em seu rosto.
Bernard a solta e dá dois passos para trás, é naquele instante que Anne vê Martin se aproximando dos dois, com um sorriso cínico estampado no rosto.
- Cadê a Nicole?
- Quem? – pergunta com desdém, o que faz Anne ferver de raiva.
- Não se faça de idiota! A garota que você estava conversando!
- Ah, a filha do motorista e da empregada? Sei lá, ela saiu e acho que foi embora.
- O QUÊ!?? - Anne grita, o que faz com que todos ao redor olhem para os três.
- Ah, Anne, não enche. Ela veio com um papo estranho que queria ficar comigo... Fala sério né! Como se eu fosse ficar com uma menina igual ela!
Naquele instante Anne perde totalmente a paciência, sente seu rosto esquentar em razão a raiva que sentia da fala de Martin, sentia vontade de estapeá-lo ali mesmo, na frente de todos, olha para Bernard buscando apoio, mas a única coisa que vê é o rapaz rindo, se divertindo da situação.
- Você é um imbecil Martin! Uma garota como ela não merece mesmo um escroto como você! - Anne está berrando com o garoto, que mantém um olhar de desprezo e indiferença.
- Calma, amorzinho! - Bernard encosta as mãos nas costas da namorada e passa a acariciar - Sua amiga não é igual nós, nem sei porque você anda com ela. Sei que tem boas intenções, mas...
- Cala a boca Bernard! Não ouse falar nada da minha amiga! Quer saber, já aturei muito, você é um completo idiota, assim como esse seu amigo.
- Ei calma gatinha! O que você quer dizer com isso? Quer terminar comigo?
- Quero! Não suporto isso em você, essa sua arrogância me tira do sério! Você sabe que odeio gente assim!
- Calma minha linda, não podemos resolver as coisas assim, a gente precisa conversar... - Bernard segura o braço de Ane.
- Me solta preciso procurar a minha amiga. - Ela puxa o braço e sai procurando sua amiga pela casa.
Todos na festa estavam de boca aberta, os dois eram o casal mais perfeito de toda universidade, lindos, ricos e apaixonados.
Allan havia acabado de chegar, ouviu parte da pequena confusão que ocorria, porém não conseguiu ver quem discutia e não entendeu direito o que de fato estava acontecendo, e o porquê daquele tumulto.
Antony olha para o amigo e balança a cabeça em negação.
- Vem! Vou apresentar as meninas pra você. Vamos ficar longe dessa confusão e curtir a festa! - empurrou o amigo para outro canto da casa.
se em uma das mesas e começaram a conversar.
- Legal que vieram - uma delas diz para Antony que apenas sorri.
Outra garota se aproxima dos quatro e puxa assunto com as meninas.
- Ei, vocês viram, a confusão que o Bernard e Anne armaram?
- Eu vi, estava pegando bebida quando começaram a discutir, mas também, porque a Anne sempre tem que defender aquela menina... Não entendo porque ela tem amizade com essa menina.
- É verdade! Não sei porque a Anne anda com a filha da empregada. Essa menina tem que se colocar no lugar dela...
As três meninas conversam e Allan sente seu estômago embrulhar. Revira os olhos e se levanta.
- Vou buscar algo pra beber. - Ele disse já se afastando. Odiava aquelas atitudes, ele não era de família rica como a maioria que estava naquela festa.
Na verdade, Allan não foi buscar nada para beber, ao invés disso saiu da casa, rumo ao jardim, pensando em respirar um pouco.
Ao alcançar a parte arejada, enxerga uma garota ao longe, desesperada falando algo no telefone, se aproxima lentamente dela.
- Nicole, cadê você? Atende o telefone, por favor!! Eu tô preocupada. Não posso ir embora, sem você, o que vou dizer pro seu pai? Me atende!!
Allan se aproxima dela e ao enxerga-la melhor, fica admirado, era a garota mais linda que ele já tinha visto na vida. Sente seu coração acelerar como nunca na vida.
"Essa deve ser a garota que foi humilhada na festa!" - pensou.
Anne se vira e encara o rapaz a sua frente, sorri amigavelmente pra ele.
- Tudo bem? Percebi que está um pouco nervosa, posso ajudar?
- Você é novo na faculdade? Nunca vi você por lá!
- Ah, não eu não estudo lá! Vim na festa com um amigo, ele estuda na Lenotre.
- Ah, claro, eu me lembraria se tivesse te visto por lá. - Ela estende a mão para o rapaz. - Prazer, sou Anne Remy.
- Eu sou Allan Beaufort, prazer.
- Estou procurando minha amiga, aconteceu umas coisas lá dentro e acabamos nos separando. Agora preciso achá-la.
- Se quiser ajudo a procurar.
- Não precisa, não quero atrapalhar sua noite, com meus problemas, pode curtir a festa, eu me
- Ah, não será incômodo. Com certeza prefiro te ajudar!!
Ela sorri e agradece.
- Ótimo, obrigada...
Capítulo 3 - Admiração
- Ela não deve ter ido muito longe! Está sem carro e sem dinheiro. Deve estar perto. Vou caminhar um pouco pra ver se a encontro... - Anne explicou para o rapaz que acabará de conhecer.
- Certo! Então vou com você! Tá muito escuro para andar sozinha por aí!
- Obrigada - Anne sorriu, pegou o telefone novamente e tentou ligar. Deixou mais uma vez um recado na caixa postal da amiga.
- Droga ela não atende mesmo! Aquele idiota do Martin... - A garota estava com muita raiva e apertava fortemente os punhos.
- Desculpe perguntar, mas o que houve lá dentro? Quando cheguei percebi que haviam pessoas discutindo, mas não consegui ouvir nada – Allan perguntou tentando entender quem e porque estavam procurando.
- Minha amiga, se apaixonou por um imbecil, que não merece nenhum pouquinho. Ela é sonhadora e não enxerga maldade nas pessoas, cansei de alertá-la, mas em vão e hoje na festa sai por uns minutos do lado dela e tenho certeza que aquele imbecil a humilhou...
- Entendi... Também odeio aqueles playboys metidos e arrogantes.
Ela sorri meigamente - Mas nem todos são iguais, como em qualquer classe social sempre há pessoas boas e más.
- Pode ser, talvez tenha razão, mas a maioria é...
- Ei você também está ouvindo? - Anne perguntou mudando de assunto após ouvir algo como um choro baixinho e distante.
- Estou, parece alguém chorando - Allan atentou seus ouvidos, procurando encontrar a direção em que o som - Parece que está vindo daquela direção. Ele aponta os dedos, esticando seu braço para o lado esquerdo, onde há uma pequena praça, com alguns brinquedos infantis.
Anne corre na direção apontada sem ao menos pensar, o deixando sozinho.
" Caramba que garota impulsiva, nem me esperou" - Allan pensou e tratou de correr atrás dela.
Anne enxerga a silhueta de alguém agachado segurando as próprias pernas, próximo a um escorredor infantil, fixa seus olhos e consegue reconhecer os cabelos loiros de sua amiga, entao corre ao seu encontro e a abraça.
Allan está logo atrás dela, assiste a cena de longe, preferindo não atrapalhá-las, senta em um balanço um pouco distante e espera até que as duas conversem.
- O que aconteceu? Por que não atendeu minhas ligações? Eu estava preocupada! - a morena perguntou, enquanto ajeitava os cabelos da amiga atras da orelha, podendo assim ter uma visão melhor de seu rosto molhado pelas lágrimas.
- Desculpa Anne, não foi minha intenção te preocupar. - Nicole limpa as lágrimas que insistiam em descer por sua face com as mãos e tenta sorrir.
- O que aquele imbecil do Martin fez pra você? Por que não me procurou antes de sair assim?
- Nada, amiga, pode ficar sossegada. Eu apenas não queria atrapalhar sua festa, eu nem deveria ter ido, esse mundo nunca foi meu, nao sei porque insisto nisso - Responde triste.
- Nicole, não diga besteiras, jamais me atrapalharia! Eu só vim nessa festa por você! Por favor me fale a verdade, eu te conheço, sei que aconteceu algo mais lá dentro! Foi o imbecil do Martin, não foi?
A loira suspirou profundamente e então despeja toda a verdade para a amiga.
- Sim! Ele apenas me disse que não pertencemos ao mesmo mundo e que nunca namoraria uma garota ridícula como eu, jamais sairia com a filha da empregada, e completou dizendo que não adiantava eu me vestir com roupas de grifes que eu nunca seria do nível dele. - As palavras de Nicole saem com rancor em meio a lágrimas.
- Aquele maldito!! Eu vou acabar com a raça dele! Quem ele pensa que é pra falar assim com você, ele se acha superior porque o pai dele tem dinheiro, ele não passa de um egoísta, mimado...Nunca chegará aos seus pés Nicole, pode ter certeza que você é infinitamente superior a ele! – Anne estava com raiva, sentia novamente seu rosto queimar, falava rápido e ofegante.
Allan observa a cena em silêncio, as duas realmente pareciam ser bem unidas, talvez fossem amigas e não estavam acostumadas com aquele mundo, sorri ao ouvir as palavras ditas pela bela garota que ele estava acompanhando. Além de linda, educada, era gentil e amorosa, ela era diferente, parecia realmente se importar com os sentimentos da amiga e não gostava de ver ninguém a humilhando, nos dias atuais isso é realmente algo louvável, as pessoas se tornaram egoístas e mesquinhas, sempre querendo ser mais e se aparecer mais, mas Anne era diferente, ele percebeu isso, assim que seus olhos pousaram nela. Levantou-se e caminhou até elas.
- Oi, desculpa atrapalhar as duas, mas aqui está um pouco escuro e pode ser perigoso, o que acham de sairmos daqui e dar uma volta... Me lembro de ter visto um bar bem legal, enquanto ia para a festa com meu amigo, fica a duas quadras daqui, notei quando estava indo pra festa. Lá a gente pode conversar um pouco.
Anne sorri e se levanta.
- Ele tem razão! Não temos porque ficarmos aqui lamentando, temos que aproveitar um pouco a noite, não acha? Vamos Nicole, vamos nos divertir. - estende as mãos para a amiga que segura e levanta.
- Quem é ele Anne, cadê o Bernard? - Sua amiga pergunta confusa, pois Anne não era uma pessoa que fazia amizade assim tão fácil.
- Esse é Allan, e essa é Nicole! – Anne os apresenta com um sorriso lindo no rosto. - O Bernard é tão babaca quanto o Martin. Vamos esquecer eles.
Nicole sorri e concorda com a cabeça, admirava demais a amiga sem dúvidas ela era a melhor pessoa que conhecia. Tão forte, parece que nada a abalava, humilde jamais menosprezava as pessoas.
Obrigada! Eu tinha certeza que você iria me encontrar!
- Claro, eu jamais desistiria, mas por favor não faça mais isso, é perigoso e eu fiquei preocupada!
Nicole assenti e sorri fraco para a amiga.
Caminharam algumas quadras e finalmente chegaram no bar que Allan havia mencionado, entraram, escolheram uma mesa mais afastada e pediram algo para beber.
- E então Allan, conte mais sobre você! - Anne perguntou animada, enquanto bebia um pouco de sua cerveja.
-Ah, não tenho muito pra contar. Sou um cara normal, levo uma vida normal - ri - estou no último ano da faculdade de Direito, estudo na Universidade de Tours, tenho 23 anos e acho que é só...
- Hum, a Tours, ótima faculdade, principalmente pra quem quer se formar nessa área que está estudando. Mas e aí, porque foi parar numa festa dos estudantes da Lenôtre?
- Eu tenho um amigo que estuda lá. Estuda biologia marinha. Eu não sou muito de festas, mas resolvi aceitar o convite dele dessa vez!
- Que bom que aceitou! Assim nos conhecemos! - Anne falou de forma descontraída para o rapaz que corou levemente com as palavras dela.
Allan era um jovem lindo e educado, olhos e cabelos negros, várias garotas davam em cima dele, mas ele era sério, teve alguns namoricos, mas nunca tinha gostado de ninguém.
Ele sorri timidamente o que o deixa ainda mais atraente.
- E vocês?
- Nós? Somos amigas desde a infância! Eu estudo administração e ela enfermagem. Acho que somos normais também! - Anne e Nicole riem, fazendo Allan rir junto
conversaram por um bom tempo, Anne percebe que Nicole já está bem e decide ir embora.
- O papo está maravilhoso, mas já está na hora de irmos. Vou ligar para o seu pai vir nos buscar.
Nicole assentiu concordando com a decisão da amiga.
- Aceita uma carona, Allan? - Anne pergunta.
- Não precisa, não quero incomodar! Moro bem longe daqui!
- Não é incômodo! Por favor, deixa eu te levar pra agradecer por sua ajuda!
Ele sorri - Está bem!
Anne liga para o Sr. Piquet e passa o endereço, esperam cerca de dez minutos até o homem chegar.
- Por que saíram da festa?
- Eu não estava me sentindo muito bem, então pedi pra Nicole e o Allan me acompanharem até fora da festa, ficamos caminhando e chegamos aqui.
Allan sorriu ao ver a jovem ajudando a amiga que já estava bem nervosa.
Nicole sentou na frente, ao lado de seu pai e Allan foi atrás com Anne.
- Que bom que agora está bem!! Vamos deixar ele primeiro, certo? - o Sr. Piquet perguntou animado.
- Sim! - Allan passou o endereço.
Realmente a casa do rapaz era longe, mas Anne não se importou, poderia conversar um pouco mais com ele, tinha gostado bastante da companhia do moreno, ele era educado e atencioso, diferente dos garotos que ela conhecia.
Anne estava também gostando da companhia dela, era divertida, além de ser linda, tinha o sorriso mais incrível que ele tinha visto.
O carro estaciona em frente a um condomínio, era um lugar simples e afastado, Anne nunca tinha ido até aquele lado da cidade. Ela olhava o rapaz com um sorriso fascinante nos lábios.
- Anota meu telefone! A gente pode marcar algo qualquer dia desses. - Falou descontraída.
Allan sorriu e anotou o número dela e passou o dele também. Se despediram.
Allan entrou pela portaria e caminhou até a sua casa, ao abrir a porta viu seu irmão mais novo deitado no sofá.
- E aí... Onde você foi?
- Irmãozinho, nem te conto. Fui em uma festa da Lenôtre e conheci uma garota maravilhosa.
- Pera aí, festa da Lenôtre??Cara lá só tem filho da Elite de Paris. O que você foi fazer numa festa dessa, você não curte playboy!
- Não mesmo - respondeu encolhendo os ombros - eles são uns saco, mas deixa eu contar, Richard, assim que eu cheguei tava rolando uma discussão, eu não entendi direito, mas depois eu descobri que um playba humilhou uma garota... Então eu saí da festa para tomar um ar e conheci a Anne, que era amiga da garota que foi humilhada.
Richard olha para o irmão sem entender nada do que ele estava falando.
- Quem é essa Anne? Você ficou com ela?
Não, Richard. Eu a ajudei, foi só isso!
- Aff, você é bem lerdo mesmo. Ela é bonita pelo menos?
- Bonita é apelido, ela é maravilhosa! - Allan diz sorrindo.
- Espera, como é o nome dela mesmo?? – Richard perguntou, mexendo em seu celular.
- Anne.
- Anne Remy?
- Sim, acho que sim, por quê?
- É essa?? - o mais novo mostra no celular uma foto dela.
- É... Você a conhece? - Allan pergunta surpreso.
- Irmão do céu!! A família dessa mina tem muita grana, ela é herdeira da rede hoteleira Remy. Olha aí as fotos dela na rede social, em vários países.
Allan pega o celular do irmão e começa a olhar, a garota parece modelo, tem fotos em vários lugares sofisticados e em diferentes países.
- Tem certeza que você a conheceu? - Richard pergunta ainda não acreditando.
- Claro que tenho, porque eu mentiria? - Allan sente seu celular vibrar, pega e visualiza uma mensagem de Anne.
- Olha aqui, ela me mandou mensagem! - mostra o celular para o irmão que olha sem acreditar.
Anne
"Obrigada por me ajudar! Bom descanso!"
- Cara você zerou a vida!! – Richard diz rindo.
Allan fica sem graça, não fazia ideia de quem era, pegou seu celular e foi para o quarto.
Tomou um banho e deitou na cama, olhou a mensagem novamente e respondeu.
"Não fiz nada demais, obrigada pela noite. Foi bem legal!"
Fechou os olhos e tentou dormir, sentiu seu celular vibrar e curioso olhou a nova mensagem que subia.
Não pode deixar de sentir uma frustração ao constatar que a mensagem não era dela e sim de Antony.
Antony
"Cara o que aconteceu com você?"
Deixou o celular de lado, não respondeu, amanhã conversaria com o amigo... Fechou os olhos e dormiu.
**********
Anne chegou em casa e subiu para o quarto, tomou um banho e se jogou na cama, leu a mensagem que o rapaz mandou e sorriu.
"Sabe o que eu mais gostei nele? Parece que ele não sabe quem eu sou, me tratou bem, mas não ficou forçando a barra."
No dia seguinte acordou com uma gritaria que se ouvia do seu quarto. Reconheceu a voz de Bernard e da Sra. Piquet, desceu com pressa até eles.
- O que tá acontecendo aqui? - Anne perguntou brava.
- Ela não quer deixar eu falar com você! - Bernard falou sem paciência.
- Vai embora Bernard, não tô afim de conversar! - Apontava a porta da casa.
- Anne, a gente precisa conversar!
- Não agora! Pode embora! - Diz séria.
Bernard sai da casa batendo os pés bravos e Anne sobe novamente.
O domingo depois desse episódio passou tranquilo, ficou na piscina com Nicole e a noite foi jantar com Dominique e Amelie.
Na segunda não se falava em outra coisa na faculdade a não ser sobre a discussão dela e de Bernard. Ela realmente estava de saco cheio daquilo, então decidiu sair mais cedo da faculdade, entrou no carro e mandou uma mensagem para o rapaz que tinha conhecido na festa. Passaram o final de semana conversando e se conhecendo, estava sendo legal, aquele primeiro momento.
Anne Oi, tudo bem? O que está fazendo?
Allan ao ver a mensagem da garota sente seu coração pular mais rápido e responde.
Allan
Tô na aula, mais tarde tenho uma entrevista de estágio e você?
Um sorriso bobo surgiu em seus lábios.
Anne
Acabei de sair da aula, estava sem paciência, então sai mais cedo! Boa sorte na sua entrevista, para qual empresa é o estágio?
Allan Na Aburame associados.
Anne Estou torcendo por você.
Ele sorri ao ler a mensagem dela. Ela era fofa mesmo...
- Mas que droga Allan, pode parar de graça, nem se iluda com ela... Apesar de ser legal e educada, ela não tem nada a ver com você - Falou pra si mesmo, tentando tirar os pensamentos de um relacionamento com ela na cabeça.
**********
A entrevista de estágio foi um sucesso e ele conseguiu a vaga, voltou pra casa feliz e contou animado a notícia para seus pais e irmãos, que vibraram junto com ele.
A família de Allan era simples, não eram os mais ricos e nem os mais pobres, seu pai era policial e sua mãe tinha um pequeno negócio de marmitas, Richard seu irmão, estudava para seguir os passos do pai, queria ser policial.
Sentiu vontade de contar pra Anne, mas se achou um tolo por pensar nisso, por que ela ficaria feliz em saber? com certeza ela só tinha sido educada com ele.
Anne olhava seu celular de forma entediada, já tinha terminado o projeto que entregaria amanhã, não tinha nada pra fazer, pensou em Allan e sorriu.
"Como será que foi a entrevista dele?" - pegou o celular e mandou mensagem perguntando.
Anne
Oi! E aí, tudo bem?
O rapaz sorri animado com a mensagem, por mais que sua mente quisesse não dar tanta atenção para a garota, seu coração e emoção agiam completamente diferente quando ela mandava mensagem.
Allan
Passei na entrevista, vou estagiar na Aburame!
Anne
Meus parabéns! Temos que comemorar!
Ela enviou a mensagem, sem ao menos se dar conta do que tinha escrito - Temos que comemorar - mas que merda, ela não poderia ter sido mais oferecida que isso - praguejou em sua mente, sentindo vergonha do que tinha feito.
Ele ao ler a mensagem arregalou os olhos o que ela queria dizer com esse "Temos que comemorar?" Será que ela queria algo mais com ele, ou eram apenas como amigos? Inevitavelmente ele criou a própria Fanfic em sua cabeça, mas tratou de espantar os pensamentos.
"Até parece que uma garota como ela, se interesse por alguém como eu!"
Anne
Posso passar te dar os parabéns pessoalmente?
Ela tentou consertar o que tinha escrito, mas a verdade é que realmente ela queria comemorar com ele, mas será que tinham intimidade o suficiente para isso?
O coração do rapaz acelera e ele fica sem reação por instantes.
Allan Claro!
Anne sorri e corre para pegar a chave do carro. Dirigiu por meia hora até parar em frente ao condomínio!
Não entendia também porque estava fazendo aquilo, ela mal conhecia aquele cara, mas tinha ficado feliz por ele e queria comemorar e dar os parabéns pessoalmente.
Anne estava ansiosa, nunca uma garota tinha deixado ele tão nervoso quanto agora.
Assim que Anne estaciona, fica parada pensando.
"Que droga, o que eu vim fazer aqui, eu nem conheço esse cara direito! Anne Remy, você precisa parar de ser tão impulsiva"
Mesmo hesitante pega o celular e envia uma mensagem.
Anne Estou aqui na frente!
Allan recebe a mensagem e vai ao seu encontro, ela está dentro do carro, bate no vidro chamando sua atenção. Anne abre a porta e desce do carro para cumprimentar ele.
- Oi! Desculpa! Fui impulsiva vindo até aqui!
-Não precisa se desculpar, eu gostei, obrigada por vir.
Anne sorri sem graça. "Obrigada por vir" - ele só está sendo educado.
- Parabéns! Você vai longe, eu pesquisei sobre o Aburame é uma empresa bem grande de advocacia, vai ser ótimo para seu aprendizado.
- Sim - ele sorri.
Os dois passam alguns minutos conversando enquanto caminham pelas ruas do bairro. A conversa entre eles fluía de maneira natural e divertida.
- O papo está ótimo, mas acho que já está tarde. Desculpa, preciso ir...
- Tudo bem, podemos nos ver outro dia, certo?
- Claro! Eu iria adorar.
Ela entra no carro e acena para ele.
Estava se sentindo estranha e como uma adolescente, não sabia ao certo o que estava sentindo com relação à Anne, mas era algo bom.
Allan também se sentia estranho e apesar de gostar da companhia da garota, decidiu não criar expectativas... o mundo que cada um vivia era absurdamente diferente.
"Vou tirar ela da cabeça, não dá pra se iludir com uma garota como ela, o que eu posso oferecer pra ela? Somos de mundos completamente diferentes, não tem a menor chance de isso dar certo!"
Mesmo Anne não aparentando ser uma pessoa que se importe com dinheiro, Allan sabia que ela tinha uma posição social completamente diferente, estava acostumada com um estilo de vida diferente e então resolveu se afastar, antes de se apegar e sofrer.