A cidade Shoildon estava fervilhando com uma notícia chocante atrás da outra quando março chegou.
A primeira notícia que se espalhou foi que Isaac Bennett, primogênito da família mais rica e influente da cidade, havia sofrido um grave acidente de carro, o que o deixou paralisado da cintura para baixo.
Logo em seguida, veio outro choque: a prestigiada família Bennett havia decidido se unir à recém-surgida família Willis.
A maior agitação foi causada pelo casal em si - o noivo, ninguém menos que o agora incapacitado Isaac, e a noiva, a filha mais velha da família Willis, uma jovem que foi criada longe do requinte da cidade, em um isolado vilarejo rural.
Verena Willis, o nome que estava na boca de todos, permanecia em Trisas, o vilarejo rural onde vivia, a quilômetros de distância do brilho da cidade.
O toque de uma mensagem quebrou o silêncio da modesta sala de estar onde ela estava.
Dando uma olhada na tela, ela viu que era uma mensagem da sua assistente.
"Evelyn, tenho um paciente com um caso extremamente raro. Ele está esperando por você há seis meses. Quando pode vir dar uma olhada?"
Verena pressionou o botão de desligar, fazendo a tela se apagar, seus dedos delicados permanecendo sobre o celular por um instante. Nos seus olhos claros, a tristeza brilhava.
Embora fosse conhecida no mundo inteiro como Evelyn Rowe, a médica milagrosa, a fama não significava nada para ela, já que não conseguiu salvar a pessoa que mais amava. No momento em que ela pegara o bisturi, sua avó falecera, incapaz de esperar mais.
De repente, as vozes abafadas dos seus pais surgiram atrás dela, e a discussão entre eles vazava pelas paredes finas da casa.
"Laura, você não tem noção do momento? Minha mãe mal foi enterrada e você já está falando em ir embora!"
"Alec, a empresa está atolada em pendências e a festa de dezoito anos de Kaia está chegando. Me diga, o que é mais importante: uma pilha de trabalho e uma grande comemoração em família, ou uma pessoa morta? Além disso, precisamos que Verena volte para a cidade para aprender boas maneiras. Se ela agir como uma caipira depois de entrar para a família Bennett, o nome Willis será motivo de riso para todos!"
"Pare de chamá-la de caipira. Ela é sua filha!"
"Se ela não fosse minha filha, acha que eu me daria ao trabalho de vir buscá-la?"
Ouvindo a discussão continuar, Verena abafou uma risadinha.
As duas pessoas que discutiam no outro cômodo não eram estranhos, mas seus próprios pais, Alec e Laura Willis.
Eles já foram funcionários comuns, subindo pouco a pouco até que o sucesso finalmente chegasse.
Naqueles primeiros anos de dificuldades, eles não tinham tempo para uma criança, então, quando ela tinha apenas um mês de idade, sua avó, Shawna Willis, a acolheu.
Mesmo com agendas agitadas, seus pais ainda conseguiam pensar nela de vez em quando, enviando uma mensagem ou um gesto de carinho quando podiam.
A mudança nas suas prioridades começou no momento em que seus negócios decolaram e eles lançaram sua própria empresa. Aos sete anos, Verena ganhou uma irmã mais nova, Kaia Willis, e a partir desse dia, o interesse dos seus pais por ela começou a diminuir. À medida que a fortuna dos Willis crescia, eles se inseriam perfeitamente nas fileiras da alta sociedade.
Laura ligava de vez em quando, mas suas conversas nunca eram sobre a educação ou saúde de Verena, mas sobre Kaia, a irmã mais nova que ela chamava de amuleto da sorte da família, como se sua única missão fosse se gabar da criança que supostamente lhes trouxe prosperidade.
Quando Kaia completou três anos, seus pais voltaram a Trisas para uma visita.
Alec falou em levar Verena e Shawna para Shoildon, mas Verena percebeu a rigidez no sorriso de Laura. Depois, o que quer que Laura tivesse sussurrado para Alec foi o suficiente para fazê-lo desistir da ideia.
Pouco depois de voltar para Shoildon, Laura engravidou novamente e deu à luz um filho. A partir desse momento, toda a atenção deles se voltou para Kaia e o menino. O dinheiro chegava regularmente, mas eles ficaram afastados por quinze anos.
Se Shawna não tivesse falecido, Verena tinha certeza de que seus pais continuariam os ignorando completamente.
...
Somente após os ritos funerários Verena concordou em ir para Shoildon com eles.
Eles falavam com entusiasmo, como se estivessem ansiosos para tê-la por perto, mas ela sabia o que estava realmente em jogo. Afinal, era fácil descobrir as notícias em Shoildon com uma rápida pesquisa na internet.
Laura quebrou o silêncio quando se aproximaram da residência em Shoildon.
"Verena, não se esqueça: se alguém perguntar sobre sua formação, diga que se formou na Faculdade de Medicina de Acorith com mestrado e que está prestes a iniciar seu estágio..."
Na sua mente, Laura nunca imaginou Verena como nada mais do que uma médica de uma pequena clínica. Afinal, Trisas não passava de uma cidade montanhosa isolada aos seus olhos.
Como Verena nunca havia frequentado a faculdade - ou assim ela acreditava - Laura presumiu que só havia aprendido algumas habilidades simples com os médicos locais.
Os poucos comentários que ela ouviu de Shawna sobre Verena estar estudando medicina foram suficientes para ela chegar a essa conclusão.
O curso de medicina da Faculdade de Medicina de Acorith era o primeiro no ranking do país, e Laura não hesitou em usar o nome da instituição para fortalecer sua própria imagem. Se alguém descobrisse que sua filha mais velha trabalhava em algum vilarejo rural, seria humilhante.
Verena desdenhou da vaidade de Laura, sabendo que ela nunca se importou em compreendê-la de verdade.
Ironicamente, no mês passado, a Faculdade de Medicina de Acorith havia convidado Verena para dar uma palestra aos seus alunos.
Em toda a sua vida, Laura nunca perguntou sobre a formação de Verena. Certa vez, Verena perdeu dois dos exames devido a uma doença, o que resultou em notas baixas. Quando a mãe soube que suas notas estavam baixas, concluiu que sua filha não era apta para o ensino superior.
Mesmo quando Shawna tentou lhes dar a boa notícia da admissão de Verena numa universidade de primeira linha, os pais ignoraram, mencionando questões de trabalho antes de encerrar a ligação abruptamente.
Depois disso, Verena e Shawna pararam de tentar compartilhar algo significativo com eles.
Olhando nos olhos de Laura, Verena disse calmamente: "Nunca estudei na Faculdade de Medicina de Acorith."
A franqueza fez os lábios de Laura se contraírem. Para ela, a recusa de Verena em colaborar não era sinal de força, mas teimosia.
Claro que ela sabia que Verena nunca havia sido estudante lá, e esse era o objetivo de pedir para ela mentir. Para ela, em comparação com Kaia, talvez Verena fosse mais bonita, mas não tinha conquistas a mostrar e não passava de um embaraço.
Antes que Laura pudesse repreendê-la, a tosse aguda de Alec no banco da frente a forçou a engolir as palavras.
Deixando o assunto de lado, Laura mudou o foco com um tom mais suave, deixando clara a sua indulgência.
"De qualquer forma, sua irmã está acostumada a ser mimada. Tente não provocá-la, está bem? Ela se irrita facilmente e se recusa a comer quando está de mau humor."
Verena não pôde deixar de achar tudo isso um pouco ridículo. Com quase dezoito anos e ainda se comportando como uma criança mimada, Kaia era o retrato da menina mimada.
A conversa entre eles terminou quando o carro parou em frente a uma mansão luxuosa que exibia sua riqueza.
Verena saiu primeiro, observando a fachada imponente.
Da entrada, uma garota com uma camiseta fofa e uma saia curta veio correndo em direção a eles - Kaia, com todo o seu entusiasmo juvenil.
"Pai, mãe, vocês finalmente voltaram!" A voz de Kaia ecoou, alegre e ansiosa.
No entanto, essa alegria diminuiu quando seu olhar pousou em Verena. Seus olhos se detiveram, a examinando da cabeça aos pés.
Usando um moletom creme simples e calças amarelas claras com tênis brancos, o visual de Verena era comum à primeira vista. No entanto, seus traços delicados, pele impecável e aura calma e distante lhe davam uma beleza que não podia ser ignorada. Nada nela indicava anos passados em algum vilarejo remoto.
Kaia sabia exatamente quem estava olhando - sua irmã de sangue - mas as duas nunca haviam morado juntas.
A vida em Shoildon fez de Kaia a intocável princesinha da família Willis, a joia aos olhos dos seus pais. A chegada repentina da irmã lhe provocou um nó sutil e inquietante no peito.
"Ah, Kaia, sério. Como pode sair com tão pouca roupa? Não está com frio?"
Os olhos de Laura se desviaram para o tecido fino que Kaia usava e ela tirou rapidamente seu casaco, colocando-o sobre a filha.
Com uma risadinha, Kaia se recostou na mãe. "Haha, mãe, não está frio."
Era uma cena calorosa o suficiente para derreter o frio do ar, mas Verena nunca fez parte desses momentos.
Rindo juntas, Kaia e Laura entraram, deixando Verena parada onde estava, como se sua chegada já tivesse sido esquecida.
Enquanto caminhava, os olhos de Kaia encontraram Verena por um breve momento, lançando um olhar persistente e indecifrável por cima do ombro.
Ao ver sua filha mais nova, a expressão de Alec se suavizou e ele se virou para diminuir a distância.
"Verena, essa é sua irmã - Kaia. Ela se saiu muito bem. Tirou notas altas nos exames de admissão da faculdade e já garantiu sua vaga na Faculdade de Medicina de Acorith..."
Alec fez uma pausa e, de repente, pareceu ter se dar conta de algo. Ele se lembrou de uma conversa que teve há alguns anos com sua mãe, quando ela comentou que Verena não havia feito o vestibular.
Então, ele soltou um suspiro longo e cansado. "Sua situação estaria bem melhor se fosse mais parecida com Kaia."
Verena nem se deu ao trabalho de responder, achando o comentário absurdo e até engraçado. Eles conseguiam se lembrar de cada pequeno detalhe de Kaia, mas quando se tratava de algo tão importante como sua educação, ninguém se preocupou em perguntar.
Eles simplesmente presumiam que ela não era tão boa quanto Kaia...
A casa da família Willis era um lugar desconhecido para Verena. Era bizarro pensar que esse lugar deveria ser seu lar, sendo que ela estava entrando lá pela primeira vez.
Laura a guiou pelo corredor até um quarto, sua voz carregada de preocupação enquanto esboçava um sorriso tranquilizador. "Se houver algo aqui que não te agradar, é só me dizer, tá bem?"
Verena respondeu em um tom indiferente: "Obrigada, mãe."
"Querida, não precisa me agradecer. Afinal, sou sua mãe."
Como Laura ficou parada na porta ao invés de ir embora, Verena perguntou: "Quer perguntar mais alguma coisa?"
Laura e Alec passaram anos se esforçando para fazer parte da alta sociedade, aproveitando a oportunidade assim que surgisse. No entanto, eles ainda eram novatos, e muitos desses círculos os viam como forasteiros. Em comparação, a família Bennett era um império - rica, bem relacionada e profundamente enraizada no prestígio.
Então, quando a família Bennett propôs uma aliança matrimonial, Laura não pensou duas vezes em aceitar, já imaginando os benefícios e todas as portas que isso abriria.
Contudo, o acidente de Isaac o deixara com uma deficiência irreversível, e Laura não conseguia imaginar entregar sua preciosa filha mais nova a ele. Por isso, decidira trazer sua filha mais velha de volta.
Por um breve momento, olhando para o semblante calmo e firme de Verena, Laura sentiu uma pontada de culpa. Embora a culpa fosse genuína, o distanciamento era maior, já que ela não esteve presente para cuidar de Verena e não havia um vínculo verdadeiro entre elas.
Mesmo assim, ela disse a si mesma que essa era uma oportunidade para Verena. Uma garota do interior, que tinha dificuldades na escola e trabalhava como médica numa cidade pequena como Trisas, só teria a ganhar ao se casar com alguém da família Bennett. Sendo deficiente ou não, Isaac representava riqueza, bem-estar e segurança.
"É melhor você descansar um pouco agora, Verena. Há alguém que quero que conheça hoje à noite, e eu te levarei."
Embora Laura não tivesse dito quem era, Verena não precisou perguntar, pois já sabia que seria Isaac. Ela já havia lido sobre o acidente dele na internet. Só de pensar no que aconteceria, teve vontade de rir e balançar a cabeça ao mesmo tempo, já que esperar algo diferente desses pais era tolice. Realmente, as crianças que cresciam se sentindo um estorvo aprendiam a sentir amargura e resignação.
"Está bem." Verena assentiu com a cabeça, mas sua concordância não tinha nada a ver com Laura, pois ela havia vindo para Shoildon com um único propósito em mente - Isaac. De repente, ela se perguntou como ele estaria agora.
Os lábios de Laura se curvaram em um leve sorriso ao ver que a filha não resistiu. "Ótimo. Descanse um pouco, então. Vou te deixar em paz."
Quando ela estava prestes a sair, se virou para Verena e acrescentou: "Quando você o encontrar esta noite, se alguém perguntar sobre sua formação acadêmica, diga que se formou na Faculdade de Medicina de Acorith e tem mestrado. Não se preocupe com eles descobrirem a verdade, pois cuidarei disso."
Assim que a porta se fechou, Verena se deitou na cama e ergueu a mão direita, notando um leve tremor nos seus dedos.
Seis dias haviam se passado desde que ela não conseguiu salvar Shawna na mesa de cirurgia. O bisturi havia escorregado, e sua mão direita não parava de tremer desde então. Para uma cirurgiã, esse tremor era o caminho mais certo para a ruína.
Sua mente estava repleta de pensamentos até que o sono a dominou, levando-a para um sonho inquietante.
Enquanto isso, em outro quarto, Kaia estava deitada no sofá, seu celular iluminado pelas mensagens de um grupo de bate-papo. no qual todos queriam saber se sua irmã era bonita.
As perguntas deixaram Kaia de mau humor. Dizer que Verena era bonita parecia um eufemismo, porque, mesmo com roupas simples, ela tinha uma beleza que chamava a atenção, e sua pele era macia e sem manchas, refinada demais para alguém do interior. Ao lado dela, Kaia se sentia como uma garota comum - doce e inofensiva, mas sem um charme verdadeiro.
Como as perguntas continuavam chegando, Kaia finalmente respondeu: "Ela não é feia."
Embora ela soubesse que essa resposta era uma mentira descarada, as palavras escaparam por instinto.
A essa altura, todos em Shoildon já haviam ouvido falar do casamento entre a família Bennett e a família Willis.
Os jovens ricos da cidade estavam curiosos para saber quem era a mulher com quem Isaac - que já foi um homem de futuro incomparável - iria se casar.
Ao ver a resposta indiferente de Kaia, o grupo ficou em silêncio. Não feia... era o tipo de frase que sugeria que a mulher era, no máximo, comum. Pobre Isaac...
Bobby Bennett, irmão mais novo de Isaac, também estava lendo.
Um xingamento ríspido saiu dos seus lábios antes de ele se virar para sua mãe, Danica Bennett.
"Mãe, sei que as pernas do meu irmão não estão nas melhores condições... mas isso significa que você tem que arranjar alguém que não seja capaz de fazer nada? Kaia disse que a irmã dela não é atraente."
O comentário atingiu Danica com uma dor incômoda. Como qualquer mãe, ela queria que seu filho tivesse uma parceira à altura.
No entanto, a condição de Isaac ia muito além das suas pernas lesionadas. Certos aspectos da sua saúde como homem foram permanentemente prejudicados. Como matriarca da família Bennett, ela não podia deixar que os boatos sobre a família saíssem do controle. A opção mais segura era escolher uma noiva que não representasse ameaça: Verena Willis.
"Essa é minha decisão, e você não tem voz nisso", disse Danica, disfarçando suas emoções com um tom frio.
Diante dessas palavras, Bobby cerrou o maxilar com raiva.
Sem interesse em acalmar o filho, Danica se virou e começou a subir as escadas.
Uma mensagem de Laura havia acabado de chegar, pedindo que ela marcasse um encontro entre Verena e Isaac naquela noite.
Ao entrar no quarto mal iluminado de Isaac, ela foi até a janela e abriu as cortinas.
A luz do dia invadiu o chão, dissipando a escuridão.
Isaac estava deitado na cama, com os olhos sombrios, mas fixos, e o rosto tão definido como sempre.
Sabendo que ele estava acordado, Danica falou sem rodeios: "Você vai conhecer uma garota hoje à noite. E vai se casar com ela."
"Se esse é o plano, por que perder tempo com um encontro? É só registrar o casamento e pronto", respondeu Isaac, sua voz monótona.
Uma mistura de compaixão e indignação não dita se agitava no peito de Danica. Ninguém fora da família sabia que o acidente não havia tirado apenas a saúde de Isaac, mas também a vida de seu marido. Com seu filho nesse estado, ela não ousou anunciar a morte do marido, temendo que isso abalasse a estabilidade da empresa.
"Não me contrarie nisso. É só uma questão de educação conhecê-la primeiro."
Quando ela saiu do quarto, as sombras pareceram envolver Isaac novamente. A dor e o desgosto de si o dominavam. Em sua mente, a morte de seu pai era um fardo que ele sempre carregaria.
Quando o anoitecer chegou, Verena foi acordada por algumas batidas na porta - era Kaia.
Com um tom que oscilava entre a alegria forçada e a condescendência velada, Kaia disse: "Verena, você está prestes a se casar com alguém da família Bennett. Parabéns. Eles são a família mais proeminente de Shoildon."
Anos estudando no exterior aguçaram os instintos de Verena.
Bastou um olhar para saber que Kaia não gostava dela e para perceber sua falsidade evidente.
Em silêncio, Verena continuou dobrando sua colcha, esperando pacientemente para ouvir o restante do que Kaia tinha a dizer.
Diante do silêncio de Verena, Kaia provocou: "A família Bennett pode ter um nome de peso, mas Isaac já está deficiente. Dizem por aí que quando as pernas de um homem ficam paralisadas, sua capacidade sexual também costuma ser afetada. De verdade, não quero que você se case com ele."
A voz de Kaia tinha um tom de preocupação, porque, na verdade, ela não queria que Verena fizesse parte da família Bennett. Apesar dos problemas de saúde de Isaac, ele ainda era alguém que ela já havia gostado, e se Verena se casasse com ele, teria sem dúvida uma vida melhor que a sua.
Sabendo exatamente o que Kaia estava tentando fazer, Verena disse sem rodeios: "Se você não gosta de mim, tudo bem. Não precisa fingir que está preocupada, porque..."
Ao perceber o brilho de surpresa nos olhos de Kaia, Verena parou no meio da frase, então continuou como se nada tivesse acontecido: "O sentimento é recíproco. Também não gosto de você."
Essa verdade tão direta deixou Kaia sem palavras por um instante. Ela não imaginava que Verena iria desmascarar sua falsa preocupação tão abertamente.
Foi só depois que Verena saiu do quarto que Kaia recuperou a voz. Batendo o pé com raiva, ela disparou: "Quem você pensa que é? Tão arrogante! Você não passa de uma caipira de um lugar atrasado."
Ao ouvir o insulto, Verena se virou, ficando do lado de fora enquanto encarava Kaia. "Seus pais são desse mesmo lugar atrasado. Devo informá-los que você acha que todos de lá são caipiras?"
Essas palavras deixaram Kaia paralisada. O olhar penetrante e inflexível de Verena a fez sentir como se todos os seus pensamentos ocultos tivessem sido descobertos.
Com isso, sua antipatia por Verena se intensificou, mas desta vez, ela não retrucou e apenas saiu furiosa.
Pouco depois que Kaia desceu as escadas, Laura apareceu diante de Verena.
Nesse momento, uma sombra obscureceu a expressão de Laura, fazendo Verena adivinhar o motivo. Kaia devia ter corrido até ela, dizendo que havia sido maltratada pela irmã mais velha.
"O que você disse para Kaia?", perguntou Laura num tom ríspido e acusador, como se já tivesse tomado o partido de Kaia. Era óbvio que ela não havia considerado que poderia haver outra versão da história.
Esse julgamento precipitado era algo que Verena não conseguia tolerar.
Com um sorriso leve e zombeteiro, ela perguntou: "E o que ela te disse?"
"Sou eu que estou te perguntando!", retrucou Laura, irritada com a pergunta de Verena e convencida de que ter crescido no interior havia tirado a educação da sua filha mais velha.
"Ela me chamou de caipira, então a lembrei que, se isso fosse verdade, você e o pai também seriam caipiras, já que vocês dois cresceram no mesmo lugar."
"Que absurdo! Kaia jamais diria algo tão desrespeitoso assim." A fúria de Laura se intensificou. "Já não basta você ter irritado sua irmã, agora está inventando mentiras? Você é muito corajosa, Verena."
Tudo isso era um absurdo para Verena. Laura a pressionava por uma resposta, mas se recusava a acreditar nela? Será que Laura só queria ouvir o que queria ouvir?
Verena não era do tipo que recuava e sabia como provocar as pessoas ainda mais. A recusa de Laura em acreditar nela a fez dizer: "Se você já decidiu que estou mentindo, então que seja. Você acredita em Kaia, não importa o que aconteça. Mas você nunca receberá um pedido de desculpas meu. Se sou um problema tão grande, vou voltar para o campo e deixar Kaia se casar com Isaac."
Ela sabia exatamente o que Laura queria e usou isso para calar sua boca.
"Sua!", Laura ficou bastante irritada, mas se conteve, se lembrando do motivo real pelo qual havia levado Verena para Shoildon.
Ela não conseguia entender como suas filhas haviam se tornado tão diferentes. Enquanto Kaia era talentosa e meiga, Verena era teimosa e desonesta - talvez os anos de separação a fizessem se sentir uma estranha.
"Arrume suas coisas. Você vai comigo para o encontro. E troque de roupa. Vou pedir para um dos empregados trazer uma roupa para você."
A decisão de Verena de vir para Shoildon não tinha nada a ver com seus pais injustos e preconceituosos. No momento em que viu aquela notícia, ela reconheceu Isaac.
Ela não se preocupou em se arrumar para vê-lo, então quando desceu as escadas, estava usando a mesma roupa de antes.
Laura, que esperava no pé da escada, estava visivelmente descontente. "Por que não trocou de roupa?"
"Não estou com vontade", disse Verena num tom calmo.
"Sua..." Laura só pôde lançar um olhar furioso, sua paciência se esgotando.
Foi então que ela percebeu que Verena não era tão submissa ou fácil de controlar quanto imaginava.
Mesmo assim, sua prioridade no momento era garantir o casamento com Isaac.
"Tudo bem, então. Se não vai trocar de roupa, vamos..."
...
No grupo de conversa dos jovens ricos, Bobby continuava fazendo perguntas a Kaia.
"Kaia, que tipo de trabalho sua irmã faz?"
Embora estivessem no mesmo grupo, Kaia geralmente não tinha muito o que falar com Bobby, por isso, ficou pensativa no momento em que o viu puxar assunto com ela.
Não querendo que Bobby se sentisse ignorado, ela respondeu rapidamente: "Minha mãe me disse que ela trabalha como médica numa cidade pequena."
As sobrancelhas de Bobby se franziram ligeiramente. Uma médica? Se isso fosse verdade, pelo menos ela poderia cuidar do seu irmão. Pensando nisso, ele aceitou a contragosto a ideia de Verena ser pouco atraente.
Kaia sabia que sua mãe havia planejado espalhar a informação de que Verena era uma mestra formada na Faculdade de Medicina de Acorith.
Como ela havia dedicado anos de esforço para entrar na Faculdade de Medicina de Acorith e conquistar a admiração das pessoas, a ideia de Verena receber esse reconhecimento sem ter trabalhado para isso a irritava.
Com um toque de malícia em mente, Kaia assumiu um ar de casualidade e acrescentou: "Mas ela nunca frequentou a universidade. Provavelmente só aprendeu um pouco com os médicos locais."
"O quê? Ela nunca foi para a universidade?" A surpresa de Bobby era evidente.
Agora, o título de "médica" lhe parecia suspeito.
A irritação tomou conta de Bobby. Afinal, Isaac havia se formado em uma das universidades mais prestigiadas do mundo. Já era ruim o suficiente se casar com alguém de aparência comum, mas uma pessoa sem educação...
Incapaz de continuar guardando isso para si, Bobby enviou uma mensagem para Isaac. "Por favor, não se case com Verena Willis. Ela não é boa o suficiente para você. A irmã dela disse que ela nunca foi para a faculdade. Deixando a aparência de lado, ela não tem muita educação."
Isaac estava sentado numa sala privativa do Restaurante Spice, já esperando.
O ambiente lá era elegante e tranquilo.
No entanto, nem Isaac nem Danica estavam com vontade de apreciar a vista da janela.
Para Danica, esse encontro era puramente um acordo comercial.
Já para Isaac, não passava de um lembrete das suas próprias deficiências.
Quando seu celular tocou, Isaac olhou para a mensagem de Bobby. Seus traços marcantes permaneciam impassíveis.
Danica também viu a mensagem de Bobby.
Fechando os olhos por um breve momento, ela disse: "Isaac, por favor, não fique com raiva de mim. Não tenho outra opção."
Na mente de Danica, a única maneira de acabar com os rumores prejudiciais sobre o filho era ele se casar e adotar uma criança discretamente, a fazendo passar por sua.
Os lábios de Isaac se curvaram num sorriso leve e amargo. Para ele, que se considerava o motivo pelo qual sua mãe havia perdido o marido, o ressentimento era um luxo que ele não podia reivindicar.
Então, Isaac enviou uma resposta para Bobby: "Cuidado com o tom."
Ao ler a mensagem, Bobby ficou furioso. Num momento como esse, Isaac ainda estava lhe dizendo para ser educado? Será que ele sequer entendia o verdadeiro problema?
Nesse momento, Verena e Laura chegaram ao Restaurante Spice.
Verena era alta e usava sapatos baixos, enquanto Laura, cambaleando nos seus saltos altos, tinha que se apressar para acompanhar o ritmo da filha.